Domingo, 6 de Janeiro de 2013
Há Mar e mar… .

 

«A importância estratégica do mar esteve em destaque na edição de hoje do Especial Informação. Os especialistas concordam que Portugal tem de voltar a aproveitar este recurso tão vasto de que dispõe. 

“Ninguém acreditava, há anos, que Portugal, depois de ter fixado as suas fronteiras terrestres, pudesse, um dia, alargar ainda mais esses limites, podendo ficar com a quinta, ou sexta maior plataforma continental do planeta e, provavelmente, a de maior expressão na Europa porque a do Reino Unido e de França tem destaque devido aos territórios ultramarinos” afirma o Comandante Armando Dias Correia no Especial Informação dedicado ao Mar, transmitido na Renascença este domingo entre as 12h e as 13h.
O autor do livro “O Mar no Século XXI” sublinha que se o processo de candidatura português for aprovado, lá para 2015 ou 2016, sem necessidade de alterações, o solo português, solo soberano nacional, irá duplicar, será 40x maior do que o actual território terrestre, o que representa cerca de 85% do território emerso do conjunto dos 27 países da União Europeia.
“Estamos a pagar – e muito cara - a factura de ter voltado as costas ao Mar durante décadas. Podia dar uma dúzia de exemplos, mas dou só dois: a importação de pescado que continuamos a fazer com um crescimento exponencial. É equivalente – e comparo por ser “moeda corrente” - a dois submarinos por ano, da última geração, não dos antigos. Acho que deveria colocar todos a pensar: temos tanta água, temos tanto Mar e não conseguimos ter recursos, temos de importar 1,5 mil milhões de euros em pescado por ano. Outro aspecto é que quando queremos construir ou reparar uma embarcação vamos para Espanha. Isto não faz sentido” denuncia o Prof. Carlos Sousa Reis, biólogo e da direcção do Fórum Permanente dos Assuntos do Mar.
“Uma coisa é escrever-se uma estratégia marítima num papel, outra é colocá-la em prática. Os elementos objectivos para ela ser posta em prática não foram até hoje equacionados. Dois exemplos: a existência da fragmentação de competências no que respeita ao mar que continua a existir de uma maneira estrondosa. Isso cria problemas burocráticos em muitos sectores, dificuldades de desenvolvimento e crie desânimo para quem aí funciona. O segundo aspecto tem a ver com diferentes critérios de análise” acrescenta o Prof. Sousa Reis, um dos mais reputados especialistas portugueses na área dos recursos marinhos.
Já o Almirante Victor Lopo Cajarabille, ex-Vice Chefe do Estado Maior da Armada acentua a necessidade de se discutir questões de fundo, antes de definir objectivos para o Mar português.
“Não é só definir prioridades. É preciso saber quais são as condições especiais que Portugal tem e depois saber se há meios para as aplicar: atrair capital, disponibilizar financiamento. Trata-se de avaliar uma série de questões prévias até definir as prioridades. Do meu ponto de vista uma das possíveis prioridades – há estudos, mas não suficientemente profundos - passa pelo transporte marítimo de curta distância, o ‘short sea shipping’. Não só a questão do transporte como a das plataformas flutuantes. Há uma série de opções que exigem uma indústria naval activa e inovadora. O que gostaria de ver era os Estaleiros de Viana e outros estaleiros a construírem navios e apoiarem toda uma série de infra-estruturas ligadas ao Mar, porque nós já tivemos essa capacidade” sustenta o Almirante Cajarabille.

Indústria Naval
“Há coisas que o Estado não tem vocação para fazer, não pode fazer e não sabe fazer. Ter o Estado a gerir um estaleiro naval é de um país atrasado no sentido de leitura da moderna actividade económica. O absurdo é tão grande que os Estaleiros Navais de Viana, pertencem ao Estado, são geridos pelo Ministério da Defesa, algo ainda mais inacreditável, e não conseguem relacionarem-se consigo próprios. Um dos últimos - e mais dramáticos - problemas vividos nos Estaleiros de Viana foi o do navio Atlântida que era para o governo regional dos Açores, parte do Estado português, e o episódio inacreditável da construção dos novos navios de patrulha oceânica do país. Não tenho reservas a que o próximo proprietário seja russo. Nós queremos é gente que trabalhe. Lá vai o tempo em que nos preocupávamos de quem era o capital. No meu clube, o Beira-Mar, 80% do capital é de um iraniano” afirma José Ribau Esteves, presidente da CM de Ílhavo que lidera a Associação Oceano XXI, entidade gestora do Cluster do Mar.
No caso dos Estaleiros de Viana do Castelo o ex-Vice Chefe do Estado Maior da Armada mostra preocupação com os atrasos da estrutura em trabalhos para a marinha portuguesa. “O programa que a Marinha tinha de renovar os navios de fiscalização da costa está de tal maneira atrasado que não sei o que vai acontecer. Os navios que actualmente operam são muito antigos, muito onerosos na manutenção. Este programa faz uma falta terrível ao país. Não sei o que vai acontecer daqui a meia-dúzia de anos” afirma o Almirante Lopo Cajarabille.

Futuro
“Nunca é tarde para se iniciar com grande vigor o aproveitamento dos nossos recursos do Mar até porque, em muitos aspectos, só agora a tecnologia o permite. Até há poucos anos temos aproveitado o Mar essencialmente como via de comunicação e como cenário de exploração de recursos vivos. Nesta altura é que começa a haver tecnologia para explorar recursos do Mar profundo. Já se obtinha petróleo, mas começa a surgir um conjunto de oportunidades ligado à exploração de minérios, de recursos hidrotermais e de outras fontes de energia” aponta o Comandante Armando Dias Correia, também professor na licenciatura em gestão de actividades marítimas e portuárias no ISCIA, em Aveiro.
José Ribau Esteves defende apostas alargadas nos planos público e privado. “Temos de fazer muito trabalho como o da Associação Oceano XXI, na gestão do Cluster do Mar, apostando nas estratégias de eficiência colectiva. Como? Pondo a trabalhar na mesma mesa, a desenvolver projectos em equipa, os poderes públicos de base local e regional, as empresas e associações empresariais e as universidades e os centros de investigação. É capital para tirar melhor proveito dos sectores tradicionais. Temos os portos a operar bem, temos a pesca a ganhar dinheiro, temos projectos de aquacultura a andar bem, a criar emprego. Há coisas positivas, mas é preciso cuidar da competitividade deste sector e buscar novos sectores. Aí, é preciso que se faça a interacção dos poderes públicos e dos agentes económicos” defende o político que já passou pela direcção da Associação Europeia de cidades com marinas e portos de recreio.
No desenho da relação futura de Portugal com o Mar até o surf poderá ter traços de contornos bem expressivos. “Temos de aproveitar as potencialidades do nosso Mar. Se temos bons locais para fazer surf temos de os aproveitar. Dispomos de uma posição geográfica privilegiada. Temos posições muito boas para o desenvolvimento de recursos vivos. Temos um clima propício ao turismo e aos desportos náuticos. Agora também projectos-piloto no domínio das energias alternativas que podem ter os seus resultados. Temos de aproveitar todas estas potencialidades e o surf será uma delas” conclui o Almirante Victor Lopo Cajarabille.»

 

via RÁDIO RENASCENÇA online.

foto de André Dias Lopes.

 

Mais uma vez os especialistas se reúnem, discutem e terminam a reunião com inúmeras “soluções”. Ao ler, mais uma vez, um texto deste tipo, continuo com a certeza que Portugal e o Mar praticamente está a Zero e que só mesmo com um Ministério, exclusivamente a trabalhar para todas as vertentes do nosso gigantesco Mar, Portugal voltará dentro de algumas décadas a ser a grande Nação marítima que sempre foi desde a sua fundação. A solução mesmo, é cantar o fado.


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publicado por cachinare às 19:14
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1 comentário:
De mare-nostrum a 8 de Janeiro de 2013 às 00:00
António,
A recolha destes elementos chegados via rádio Renascença é essencial para a compreensão da completa desmaritimização do país, infelizmente em todos os níveis de actividade. A marinha não tem navios suficientes, a pesca está sem barcos e os pescadores, ou uma boa parte deles, trabalha fora do país. Os navios de comércio estão parados, arrestados por falta de dinheiro ou pela irregularidade da documentação obrigatória. Os maiores estaleiros estão sem uma estratégia definida e a construção de barcos em madeira não faz formação há alguns anos, porque as encomendas são cada vez mais raras.
Tudo isto converge em dois pontos; a falta de rumo e a falta de horizonte, pela dificuldade politica de apreciar as necessidades da nação, alguns metros adiante do nariz de cada politico que nos governa, bem como daqueles que poderiam investir no mar e não o fazem, desmotivados pelo ritmo desumano dos impostos a pagar e cada vez mais pelo preço dos combustíveis.
Pegando no conceito fado, já devia ter acabado há muito a imbecil ideia de divulgar o país como sendo o tal dos oceanos! Afinal o que nos resta é um pouco de mar, que por muito que se lamente não nos serve para grande coisa. Resta-nos portante a história, os navios e as gentes, cujos nomes gloriosos são a espaços lembrados nacional e mundialmente.
Contudo, também esta particularidade poderá vir a ter os dias contados, porque a memória é curta e quem ainda tem alguma, não estará eternamente entre nós para sabiamente a poder continuar a ensinar.
Um abraço,
Reinaldo


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