Nas duas fotos a preto e branco iniciais aqui apresentadas, é possível ver as comuns catraias do “tipo poveiro” serenamente ancoradas na foz do Lima em Viana do Castelo, por inicios do séc. XX. São duas das muitas fotos que vou guardando na busca incessante por imagens onde os “tipos poveiros” surgem. Mas há muito que me perguntava que embarcações seriam as que estavam ao seu lado, pois não lhes encontrava referência em qualquer outro ponto de Portugal. Não me pareciam ser barcos portugueses de todo.
Estas embarcações, denominadas Dundee (do escocês “dandy”) eram barcos de trabalho à vela utilizados em finais do séc. XIX e princípios do XX no Canal da Mancha e Mar do Norte para a pesca ao arenque, e de Groix a Camaret, na Bretanha, França, para a pesca ao atum e à lagosta. Podendo atingir os 25 metros de comprimento, a sua quilha profunda permitia um excelente comportamento a navegar.
Foi em finais do séc. XIX que alguns armadores dos portos de Camaret, Audierne e Douarnenez resolveram abandonar a pesca da sardinha passando a armar os seus dundees para a apanha da lagosta. O seu leito de pesca era a Calçada de Sein e seu prolongamento e a técnica utilizada eram as gaiolas. Na recolha das mesmas, as lagostas eram preservadas vivas num viveiro ao centro do casco, com orifícios para permitir a constante renovação da água e sua oxigenação.
Mas rapidamente estes crustáceos desapareceram da zona e os armadores partem então à aventura de encontrar novas áreas de pesca. Numa primeira fase exploram com sucesso o Planalto de Rochebonne, ao largo da Ilha de Ré. De seguida rumam a Sul, às costas espanholas a portuguesas e mais tarde já em 1911 às marroquinas. Em 1914, o porto de Camaret armava 170 lagosteiros de 20 toneladas com15 a16 metros.
Foi através da ajuda do amigo Augusto Chavarria que vim a descobrir a razão de ser de estarem estes barcos no Lima, pois o seu pai fora tripulante neste tipo de embarcações e a arte a que se propunham: a apanha da lagosta na costa portuguesa. Eis o seu relato:
«O meu pai dedicou alguns anos à pesca da lagosta, na costa portuguesa, ou melhor, como ele dizia, na costa vicentina, entre o cabo de Sines, e cabo de S. Vicente em barcos específicos para aquela pesca, pois como ele me contava, o ganho estava em navegar com o marisco vivo até à descarga, quer em Viana do Castelo, quer em Espanha, julgo queem La Guardiade onde eram os patrões.
A lagosta era pescada com redes denominadas “rascas” (método habitual em Portugal) de emalhar e cada embarcação tinha umas pequenas chatas (botes), duas ou três, que faziam o alar das redes, e eram transportadas no convés do lagosteiro.
Meu pai, fez alguns anos depois a pesca do bacalhau, mas tinha barco movido a remos com vela, e pescava na costa de Viana, faneca, robalo, goraz, congro e toda uma variedade, pois naqueles anos era permitido pescar tudo. Tinha também redes de emalhar sardinha. O barco, nos meses que passava nos Grandes Bancos, era guardado numas lagoas existentes junto à ponte metálica, e por ali ficava até ao regresso.»
Um belo artigo apresentado no blogue Pelos Confins do Mundo é também ele bastante esclarecedor do uso e trabalho destas embarcações nas nossas costas:
«Este tipo de barcos foi usado em Viana do Castelo para a pesca da lagosta nos mares de Sines, conhecidos por barcos lagosteiros, tinham um porão com determinadas aberturas com o propósito de a água circular no mesmo de modo a manter as lagostas vivas por muito tempo, eram barcos movidos à vela com uma tripulação à volta de 8 pescadores.
Segundo relato de um antigo pescador, quiçá o mais idoso ainda vivo na zona ribeirinha de Viana, nos anos 40/50 ainda haviam 4 barcos deste tipo com os nomes de: S. José VI, S. Daniel, Maria Leonor e Trancoso (este por sinal reconhecível na 1ª foto) que pertenciam a uma sociedade de uma pessoa de Viana e outra de Espanha.
Estavam fora muitos meses a fim de pescarem a dita lagosta com umas redes conhecidas por "rascos" e quando regressavam transbordavam as lagostas para o barco maior que era o S. José VI, este por sua vez transportava as lagostas de todos para Espanha, talvez pelo facto de um dos sócios ser espanhol e concerteza por lá haver mais vantagens na venda do produto.»
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A Frota Bacalhoeira Portuguesa.
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