Quinta-feira, 4 de Abril de 2013
“História do Batel ´Vae com Deus´e da sua Companha”.

«Foi durante uma pesquisa na Biblioteca Arquivo da Cidade da Horta, no Faial, que fiquei assombrado com a “História do Batel ´Vae com Deus´ e da sua Companha”, do escritor Raúl Brandão.

Fernando Pessoa afirma: “Não há acasos; há encontros.”, frase carregada de simbolismo e adaptável a este significativo “encontro”.
A propósito destes contos, Raúl Brandão refere que os mesmos foram escritos “para os leitores do Brasil-Portugal, numa série de pequenos quadros formando cada um um contozinho, mas ligados por um fio de drama – a rude vida dos pescadores e a sua morte”.
Nesta época o escritor debatia-se com alguma inquietação sobre a temática do mar, e, aquilo a que chamou contozinhos, viria a ser mais tarde o material e ideia de apoio para a concretização do seu famoso livro “Os Pescadores”, o qual iria projectá-lo para sempre!
Raúl Brandão nasceu na Foz do Douro em 1867 e morreu em Lisboa em 1930. Nas suas memórias deixou bem expressa a sua ligação afectiva e de raíz com o mar: “Meu avô materno partiu um dia no seu lugre; minha avó Margarida esperou-o desde os vinte anos até à morte, desde os cabelos loiros que lhe chegavam até aos pés, até aos cabelos brancos com que foi para o túmulo”.
Ao ler o preâmbulo escrito por Raúl Brandão inserido na revista Brasil-Portugal, ocorreu-me que o destino a dar a estes contos, poderia servir uma eventual publicação no “MARÉ”, jornal mensal do qual sou colaborador e que é um periódico quase exclusivamente feito por pescadores do Núcleo de Amigos dos Pescadores de Matosinhos (NAPESMAT).
Após a consulta a vários amigos conhecedores da obra brandoniana, verificou-se estarmos perante um conjunto de contos pouco conhecidos actualmente e aparentemente não publicados em livro, apenas em colectânea bibliográfica.
Por isso, respeitando o apelativo texto de introdução escrito por Raúl Brandão, “(...) que estes documentos possam servir a alguém mais tarde para fazer a obra formidável que o assunto merece, é a minha única pretensão.” fácil foi admitir que o destino a dar a este “encontro” com os seus contozinhos seria o de publicá-los em livro e com essa intenção atingir um universo de leitores o mais alargado possível.
Assim nasceu o encantamento e interesse da jovem editora, Edium Editores, a quem se deve o esforço deste objectivo.
Desta iniciativa, destaco a decisão da editora em publicar este trabalho no seu estado original em dualidade com a actual ordem ortográfica, servindo assim os olhares desejosos do passado e conferindo à edição presente o sabor do “encontro” esperado há mais de um século.
Por último, um agradecimento aos homens do NAPESMAT, em especial ao Delfim Nora que trabalhou o significado dos termos mareiros utilizados por Raúl Brandão.
Este agradecimento estende-se num abraço de reconhecimento ao Engº. Rocha dos Santos que pôs à nossa disposição as imagens da sua preciosa colecção de postais e ao Joaquim Pinto da Silva, estudioso da obra brandoniana, que acedeu ao convite para prefaciar este livro.»
 
nota editorial de A. Cunha e Silva – Matosinhos, 2006.
 
Deixo umas palavras de agradecimento a todos os que trabalharam para publicar estes 10 pequenos contos 100 anos depois. Li-o ávido por imagens do passado das gentes donde venho, imagens que já pouco ou nada existiam quando nasci e que me ganham movimento e quase cheiro ao alcatrão dos barcos, na imaginação, com as ricas descrições ao estilo brandoniano.
Um dos contos é sobre os Poveiros, no Inverno, “os únicos que passam toda a vida na água seja Verão seja Inverno”. Passam agora (por alturas de 1900) fome negra porque o mar já não dá nada, varrido pelos vapores de pesca que o “Sr. Governo” permitia andarem a matar criação de peixe e de gentes da costa, filharada aos berros com fome e mulheres que os empurram, aos homens, entre lágrimas para o mar bravio, para a morte. Escreve Brandão que “os Poveiros são arribados Deus sabe de que terra, numa prancha de madeira, num tempo afastado e ignoto”. Não se misturam com outras gentes e “as coisas mais simples dizem-nas aos berros” como gente que nasce e morre com o barulho do mar nos ouvidos. Não conhecem outro. Profundamente religioso, “mete os seus santos dentro do mar para acalmar as águas”, águas que “sepultaram homens dum século, e doutro, e doutro...”.
Todos os 9 contos restantes possuem a mesma força expressiva e por vezes difícil de entender (quase aceitar) a quem não é do mar. Dão às vezes para rir e outras para chorar, seja com a vida e Morte do Arrais ou com o Vareiro que só bebe água no mar e vinho em terra. Tive a sorte e a fortuna de nascer d´entre este meio, da gente do mar. Sei do que Brandão escreve, da maneira de ser desta gente e admiro-o, entre outros, por ter registado a “grande simplicidade” do Mar e de quem o galga(va).
 
Foto: “Leixões - Partindo para a pesca” - incluída na obra.
 
Links para possível aquisição da obra:
 
Em Portugal – Edium Editores.
No estrangeiro - Livraria Portuguesa em Bruxelas - "Orfeu".


publicado por cachinare às 13:14
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