Domingo, 5 de Maio de 2013
“Kalmar Nyckel”.

É curioso como a História, talvez por ser demasiado vasta ou por quaisquer interesses ocultos, normalmente se centra nalguns nomes, eventos ou situações, deixando a maioria dos factos e muita gente na sombra, por ventura de modo a serem conhecidos pela “menor minoria” possível. A exemplo, peguei recentemente num pesado livro intitulado “História do Canadá” (editado e publicado há poucos anos no Canadá!) e procurei logo pelo índice referências a Portugal ou ao bacalhau, o que deu em muito pouco. Comecei então a ler e a sequência dos primeiros contactos de Europeus naquelas terras era a seguinte: cerca do ano 1000, Vikings da Islândia e Gronelândia fundam uma pequena colónia na hoje Terra Nova; 1497, John Cabot reclama terras naquela parte do mundo para o Rei de Inglaterra; 1534, Jacques Cartier reclama para a França terras na mesma região. Foi aqui que algo me pareceu estranho, pois na mesma página estava uma grande imagem do Planisfério de Cantino de 1502, o mais antigo conhecido que mostra territórios descobertos ou sob domínio Português em todo o mundo conhecido da altura. Nesse mapa, claramente na superior direita (hoje América do Norte) existem terras com a descrição (a vermelho!) “Terra del Rey de Portuguall”. De imediato me perguntei porquê que o papel dos Corte-Real naquelas terras está “omitido” no texto sendo um contacenso apresentarem o mapa de Cantino com as terras do Labrador e Terra Nova lá “chapadas”.

Navios e as suas histórias não fogem à regra e à sombra da História. Apesar de não costumar escrever sobre estes navios, decidi apresentar a “pequena” história do “Kalmar Nyckel”, outro ilustre ocultado talvez em favor do conhecido “Mayflower” que em 1620 desembarcava em Plymouth, Massachusetts os conhecidos Peregrinos de Inglaterra.
O “Kalmar Nyckel” era uma pinaça (navio construído totalmente em madeira de pinho) lançada à água em 1625 na Holanda e adquirido em 1628 pela Marinha Real da Suécia. Quando a Suécia decidiu lançar uma expedição para establecer uma colónia de comércio no Novo Mundo, o “Kalmar Nyckel” foi o navio escolhido, acompanhado pelo de menor dimensão “Fogel Grip”. Capitaneado por Jan Hindriksen van der Water, largou vela de Gotemburgo em Dezembro de 1637 mas de imediato se deparou com um forte temporal no Mar do Norte e desviou para a Holanda para reparações. Voltaria a partir no dia de Ano Novo de 1638, chegando e fundando a nova colónia, denominada Nova Suécia (hoje Wilmington, Delaware – E.U.A.) em Março desse ano. Foram 24 as pessoas desembarcadas nessa primeira viagem, de origem sueca, finlandesa, alemã e holandesa. O “Kalmar Nyckel” faria 4 viagens sucessivas da Suécia, algo nunca registado por outro navio colonial da época. Depois disso serviria na Marinha Real da Suécia, na Guerra Sueco-Dinamarquesa e como navio mercante. Naufragaria em finais do séc. XVII.
Em 1986, um grupo de cidadãos de Wilmington estableceu a Fundação Kalmar Nyckel, cujo financiamento primário vinha do Estado do Delaware, bem como do voluntariado de corporações e indivíduos para os estudos, construção e lançamento de uma réplica. O navio seria construído num estaleiro em Wilmington muito próximo ao local de desembarque dos colonos de 1638 e lançado à água em 1998. Mede cerca de 23 metros e comporta 300 toneladas. É mantido por pessoal de voluntariado, sob ordens de um capitão remunerado e mais dois oficiais também remunerados. No seu 11º ano de existência, a fundação é mantida por voluntários responsáveis pelo navio, pelo programa educativo e pelas viagens de porto em porto, autêntico catalisador de desenvolvimento económico e social e plataforma para eventos diplomáticos, de recreio, governamentais e comemorativos.
 
Voltando a comparar este navio ao “Santa Maria Manuela” nas funções que desempenha, não posso deixar mais uma vez de referir que um país marítimo como Portugal tem todo o potencial para não só recuperar navios icónicos da sua história recente, mas também reconstruír réplicas totalmente funcionais aliadas a grupos económicos que as usariam também em seu proveito, o que já é o caso do “Santa Maria Manuela”. Recriar um navio histórico é o primeiro passo para uma imagem de marca imediata. Marketing e saber marítimo desenvolvem o resto.
Foto 1 - wunderground
Foto 2 - sings in the timber
 
Site oficial do "Kalmar Nyckel".
 

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publicado por cachinare às 14:12
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