Domingo, 2 de Junho de 2013
O Carôcho (Bote Anguleiro).

«O único tipo de barco usado pelos pescadores do Rio Minho é o denominado “carôcho”, salvo próximo da barra, e sobretudo na margem espanhola, onde também se emprega na pesca a embar­cação chamada “masseira”, ou “gamela”.

A designação “carôcho” provém do aspecto do barco, mais expressivo quando impulsionado por dois ou quatro remos com­pridos e de pá encurvada, um tanto semelhantes às longas patas dos coleópteros vulgarmente conhecidos pelo nome de carochas. O cavername. e abordagem deste barco é de madeira de carvalho. Veste-se o cavername com tábuas de pinho ou, mais raras vezes, de castanho. As do primeiro par, junto à quilha, chamam-se agulhas, e as do par a seguir sobre-agulhas. Agulhas e sôbre-agulhas são sempre de pinho, mesmo quando as tábuas restantes são de castanho, pelo motivo de ser mais durável a madeira de pinho em obras abaixo da linha de água. As tábuas restantes formam a primeira, segunda e terceira fiadas, a contar das sôbre-agulhas até à borda. Os pregos são de ferro zincado.
A palamenta do carôcho compõem-se de vara, corrente, ferro (na falta deste a poitaça - uma pedra entalada entre dois paus, em cruz), um ou dois pares de remos (usualmente um só par) e o vertedouro – objecto em forma de cuia, feito de uma placa rectangular de cortiça, encurvada e reforçada por duas tabuinhas laterais, semi-ovaladas, que servem para manter no formato à placa de cortiça e para vedar os lados do utensílio. A “vara” serve para, na falta de “ferro”, fundear o barco em qualquer ponto do meio do rio. Serve também de recurso no caso da perda de um remo; para ajudar o impulso dos remos e as manobras de atracação e desatracação; para impelir o barco em canais cuja estreiteza não permita o emprego dos remos. Sempre que pode, o pescador usa-a para bater a água ­principalmente na pesca da solha, a fim de a levantar do fundo do rio e afugentá-la na direcção da rede - o que é proibido. Navegando contra a corrente, os pescadores procuram seguir rente à margem, onde a correnteza é menor, onde há mais abrigo do vento, se este é contrário, e onde a pouca profundidade toma mais eficaz o emprego da vara. O tripulante que a manobra coloca-se no paneiro-da-pôpa.
Com o vertedouro esgota-se a água que no barco entra pela borda, pelas frinchas da vestidura, da chuva ou a que a rede escorre, quando recolhida após um lanço.
As dimensões usuais do carôcho regulam por: comprimento - 7 metros; boca - l,30mt; pontal - 0,30mt. Eis as suas partes essenciais, além da quilha, cavernas e outras já mencionadas:
 
a - Paneiro-de-prôa - estrado triangular, inclinado para vante;
b - Paneiro-de-pôpa - estrado horizontal, no qual se coloca a rede;
c - Caniço-de-pés - estrado sobre o qual o remador coloca os pés;
d - Enxama - pequeno torno de madeira, no qual se enfia o olhal do remo;
e - Alça - peça de madeira, pregada na borda, sobre a qual poisa o remo;
f - Verte-água (vertágua) - lugar onde se colhe a água, fazendo oscilar o barco a bombordo e a estibordo;
g - Buraco do mastro, aberto no paneiro-de-prôa;
h - Tosta - assento do remador;
i - Cuanha - assento do timoneiro.
 
O remo divide-se em três partes:
 
j - Pá;
k - Cano, onde o remador aplica as mãos;
l- Olheira, constituída por uma pequena tábua, umas vezes pre­gada perpendicularmente ao cano, outras vezes formando diedro com ele. Na olheira abre-se o buraco por onde se enfia a enxama, (tolete, como se diz em Viana-do-Castelo, Ancora, etc.) – é o olhal (m).
Do lado oposto à olheira há uma forte ripa, de sobreiro ou de car­valho, mais larga que a grossura do cano - é a trama (n).Serve para impedir o desgaste do remo pelo atrito na alça. A alça protege a borda do barco, assim como a trama protege o cano do remo.
O comprimento usual do remo é de 21 palmos (de 4 e 60 a 4 metros e 70 centímetros). A pá é encurvada no sentido da popa; uma das faces, a côncava, é plana e a outra em ângulo, formando crista de reforço, pelo que a secção transversal da pá é um triângulo isósceles. A madeira empre­gada na construção do remo é a de castanho. Cada barco tem, geralmente, um só par de remos.
Na ida e no regresso da pesca, senta-se um dos tripulantes no paneiro-de-prôa, enfiando o remo numa das enxamas de vante; o com­panheiro toma assento na tosta, enfiando o outro remo numa das enxa­mas da tosta. Durante a largada e o colhimento da rede, o remador sen­ta-se no paneiro-de-prôa e acciona os dois remos, enfiando um em cada borda, nas duas enxamas de vante, enquanto o companheiro, de pé, no paneiro-de-pôpa, trabalha com a rede.
Quando o barco é movido por um só tripulante, para qualquer manobra que não seja para lançamento ou colhimento de rede, o remador senta-se na tosta e acciona os dois remos nas respectivas enxamas. No caso de haver dois remadores, accionando dois remos cada um, o que não é habitual, senta-se um deles no paneiro-de-prôa, e o outro na tosta, accionando cada um dois remos, enfiados nas respectivas enxamas. O caso geral, quando há quatro tripulantes e se quer aproveitar o esforço de todos, é lançar um só remo por cada borda, pegando dois tripulantes em cada remo, dois tripulantes sentados no paneiro-de-prôa e os outros dois na tosta. Em Cerveira e a montante desta vila os barcos das margens portuguesa e espa­nhola tem só três enxamas: duas para o remador que toma lugar no paneiro-de-prôa e uma só para o que vai sentado na tosta.
Por via de regra os pescadores procedem da maneira seguinte: avançam com o barco para o ponto do rio que lhes convém, indo o da rede sentado na tosta, com um dos remos, e o dos remos com outro, sentado no paneiro-de-prôa. Chegados ao sítio de largar, o da rede passa o remo ao companheiro, que perma­nece no paneiro-de-prôa, e começa este a remar com os dois remos, enquanto o outro larga a rede. Estando a rede completamente largada, o barco segue com ela à deriva. No momento de colher, o dos remos volta a popa do barco obliquamente à rede e começa a remar ao con­trário, isto é, manobrando os remos lentamente e atacando a água com a face posterior da pá do remo, de maneira que a popa do barco se vai pondo à feição da rede, enquanto esta é colhida. Concluída a manobra do colhimento, se os pescadores não quiserem distanciar-se mais do ponto donde partiram, tornam a ganhá-lo; e não só por repartirem o esforço como para maior rapidez de movimento, o da rede torna a sentar-se na tosta, tomando um dos remos, da mão do companheiro.
O que trabalha com a rede traz sempre largas calças de oleado, pelo menos, por ter de lidar com a rede encharcada. A água que a rede escorre obriga, no fim de alguns lanças, a esgotá-la com o vertedouro.
A medida do cano é quase exactamente a da largura do barco, de modo que, se um só remador acciona os dois remos, os canos cruzam-se na sua frente, segurando o remador no remo esquerdo com a mão direita e no da direita com a mão esquerda. Pairando o barco, o remador inclina-se para trás; os canos passam­-lhe por cima do peito; sem desenfiar das enxamas, os remos ficam, natu­ralmente, a parte côncava voltada para dentro; pousados sobre as bordas do barco e ao correr delas. Outras vezes, o remador entala os topos dos canos sob o ressalto interior da borda: assim ficam os remos, abertos e enfiados nas enxamas, prontos a funcionar ao primeiro impulso que o remador lhes dê para a frente.
Na pesca, a vela é raras vezes utilizada. A vela do carôcho é triangular e de arvoramento extremamente simples. O timoneiro senta-se na cuanha e aí manobra a escota e a cana do leme, quando não faz espar­rela com a vara ou com um dos remos, porque o carôcho anda quase sempre sem leme. O peixe apanhado guarda-se debaixo do paneiro-de-pôpa e do caniço-de-pés.
No carôcho há ainda um pequeno objecto complementar que é a segurança do barco e seus pertences - o cadeado. A corrente do barco prende uma das extremidades ao ferro, de três unhas; a outra passa por uma argola fixa na proa, e por outra fixa, também na proa, à amurada de estibordo, vindo finalmente a argola terminal desta extremidade da corrente unir-se a uma quarta argola colocada num dos elos, em altura conveniente; e aí são ambas seguras pelo gancho de um forte cadeado. Ora, antes de se prender pelo cadeado estas duas argolas, faz-se passar a corrente pelo olhal de cada remo. Diz-se, então, que o barco “se encontra fechado” - ninguém pode retirá-lo da amarração, nem furtar os remos, ou utilizar-se deles, sem obter a chave do cadeado. Esta chave anda ligada, por meio de um pequeno bocado de corda delgada, a uma rodela de cortiça; para que não se afunde se cair ao rio.
De Seixas para juzante, os barcos são amarrados a ferros ou a poitaças fixas. Em Lanhelas, Gondarém, Cerveira e daqui para cima são amarrados “ao pau” - grossa estaca de pinho cravada à beira da margem, em lugar que a hora ofereça fundo bastante, - fazendo passar por ele uma volta da corrente. A estaca (pau) é sempre suficientemente alta, para não deixar escapar pelo topo a corrente nos mais altos preia­-mares ou quando o rio leva um pouco de cheia. É preciso vigiar também o fácil deslize da corrente no pau, visto que se esta prende na baixa-mar, o barco é obrigado a mergulhar durante a enchente, e se prende na enchente, a princípio fica dependurado pela proa, até que, submergindo a popa, vai para o fundo.
Os carôchos são construídos em diversas aldeias da ribeira do Minho. Nenhuma pintura os recomenda, ao envés do que sucede com as embarcações lindamente ornamentadas da Póvoa de Varzim, de Aveiro, do Tejo e outros pontos do País. Depois de calafetado, leva um banho de óleo, preferindo os pesca­dores, quando o podem obter, o de fígados de bacalhau. Dão-lhes em se­guida, uma boa camada de breu, interior e exteriormente. O breu – mistura de petróleo com pixe ou alcatrão, é derretido em latas ou panelas e aplicado em quente com uma volumosa boneca de trapos ou de redes velhas, amarrada na ponta de uma vara – é o “escopeiro” (haste com um pedaço de pele de carneiro numa das pontas: serve para alcatroar os costados dos navios – definição náutica oficial).
Negro por fora e por dentro, exceptuando os assentos e os paneiros, nada mais se evidencia, sobre o preto retinta do alcatrão, além do número de matrícula, entre as letras C (Capitania de Caminha) e Z (categoria a que o barco pertence - de pesca), tudo a nítido branco, conforme a fiscaliza­ção manda e constantemente o recomenda aos pescadores menos sérios que forcejam por trazer tal letreiro o mais sujo possível. É inútil pro­curar nele as curiosas marcas que os pescadores de outros sítios pintam ou gravam nos seus barcos.
Conquanto o carôcho pareça oferecer fracas condições de esta­bilidade, aguenta de modo razoável a agitação das águas do rio, lutando vitoriosamente com a ondulação curta e violenta levantada sobretudo por aqueles aguaceiros rápidos e torrenciais, vindos da banda do mar, acompanhados de forte ventania, a que os pescadores chamam "barreiras”. Desliza com rapidez e deixa-se manobrar com facilidade, quer a remos quer à vela. Já o temos visto transportar mais de catorze pessoas; todavia a estabilidade periga mesmo quando leve só 10 ou 12 pessoas, incluindo os remadores. Referimo-nos ao carôcho de dimensões usuais, porque os há de maiores, para transporte de passageiros entre as duas margens e até para a pesca, também.
O seu diminuto calado, o espaçoso da parte da ré e a pequena al­tura da borda dessa mesma parte, são qualidades aconselhadas exclusivamente sabe-se lá por quantos séculos de experiência, em relação às espécies ictiológicas que frequentam o rio e às artes empregadas para as capturar.
Áparte dos serviços da pesca, este barco presta outros, como o de transporte das ervas que se cortam nas ínsuas e das alfaias agrícolas, estrumes e produtos, entre a margem portuguesa e as ínsuas agricultadas ­Ilha dos Amores, Boega e Morraceira (de Lanhelas) - serviços estes em que são tripulados quase sempre por mulheres. Dele se utiliza também o contrabandista. E a nenhuma acomodação o sujeita que não seja untar-lhe as enxamas com cebo, para que o atrito da olheira dos remos não produza o chiar característico e nada oportuno para o descanso dos ouvidos fiscais.»
 
por Abel Viana in “Notas históricas, arqueológicas e etnográficas do Alto Minho.” - Viana do Castelo 1930. in COREMA.ORG.
Foto tríptico - Encontro no Ferrol, Galiza 2007
 
Quando se fala do conhecido Barco Poveiro, é corrente deduzir-se de imediato a sua origem no Norte da Europa, embora tal não seja de tão fácil resposta devido a certas características de construção. A sua origem é bem mais complexa. O que é certo é que culturas do Norte da Europa se fixaram em força no noroeste da Península Ibérica do séc. V até cerca do séc. XII e o carôcho aqui descrito é uma imagem provavelmente pouco alterada desse tempo. O carôcho, juntamente com outros barcos como o Rabelo do Douro são efectivamente de origem nórdica como evidencia o seu modo de construção em casco trincado (pranchas sobrepostas). Em estudos, descobriu-se uma embarcação extremamente semelhante ao carôcho no Norte da Finlândia, usada ainda hoje nos lagos e por todo o Norte da Europa e Báltico se encontram aproximações.
Hoje em dia, com a pesca tradicional a desaparecer, tem surgido o interesse em manter estes barcos activos e pelo menos um costuma participar nos encontros da Galiza e por vezes Portugal (foto tríptica). É um património comum às duas margens do rio Minho, de um tempo em que não existiam dois países. O carôcho “Anguleiro”, nome pelo qual era conhecido no passado, é uma réplica recente construída na Galiza e também assídua presença nos encontros tradicionais.


publicado por cachinare às 00:00
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1 comentário:
De Anónimo a 5 de Julho de 2013 às 18:49
Tal como diz o ditado popular, que «a gente aprende até morrer, e morre sem saber», permito-me abordar o seguinte:
No texto de Abel Viana, datado de 1930, e acima transcrito, fala-se em POITAÇA, termo que tal como tantos outros, obviamente, desconhecia.
Consultado o Dicionário de Marinha, do Com. Marques Esparteiro, para além do português e do espanhol, pergunto:
será este um termo próprio de Caminha?
ou será que é um termo da Galiza?
Antecipadamente grato,
Albino Gomes


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