Domingo, 4 de Agosto de 2013
Regata de Rabelos no Douro, 2013.
 

«No passado dia 24 de Junho, coincidindo com as festas sanjoaninas que animam o Porto e Vila Nova de Gaia, repetiu-se nas águas do Douro a tradicional regata de barcos rabelos, que já vai na sua trigésima edição e que, hoje como sempre, é organizada pela Confraria do Vinho do Porto.

 

Também como vai sendo hábito, uma vez mais assistiu ao evento Robin Reid que foi não só fundador desta Confraria, já lá vão trinta e alguns anos, como também, há 33 anos, foi quem se lembrou de criar esta regata ao ver os barcos rabelos a apodrecer encalhados pelas margens do rio que outrora galhardamente sulcavam, por entender que esta situação não poderia continuar a verificar-se, e por entender que era um verdadeiro crime deixar morrer esta herança. Teve, porém, de enfrentar algumas dificuldades, vendo-se obrigado a chamar tanoeiros pois quase ninguém sabia já como construir ou reparar os barcos rabelos; barcos que, como refere Maurício Abreu, hoje só poderemos ver nos cais de Gaia, com grandes velas pintadas com as cores das caves vinícolas e que apenas uma vez por ano, pelo São João, disputam uma regata entre a foz do rio e a ponte de D. Luís. Serão, enfim, pouco mais do que um cartaz turístico e uma saudade, depois de terem sido os reis deste rio cortado por barragens.

 

Mas antes de se falar dos rabelos é forçoso falar do rio que constitui a principal razão da sua existência e que, queiramos ou não, hoje já não é o mesmo. Outrora pleno de vitalidade e de fereza, hoje mais parece um leão de circo domesticado pelas sucessivas barragens que o transformaram numa sucessão de lagos suíços, deixando as suas águas de serem revoltas, tendo os seus rápidos desaparecido e as penedias deixado de serem ameaçadoras para a navegação. Deste modo, quem apenas conhece o rio de hoje, não poderá compreender as razões que levaram o barco rabelo a ser aquilo que foi: uma embarcação robusta, apta a navegar num rio de águas bravas e com poucos fundos, pejado de rápidos em que as águas referviam de encontro aos penedos que tentavam barrar-lhes o curso.

 

A navegação neste Douro bravio bem pode dizer-se ser heróica e de risco sempre à espreita em cada rápido ou em cada penedo que mal aflorava à superfície ou que, quando mais saliente e impeditivo do livre curso das águas, formava temíveis remoinhos que era forçoso vencer. Era, portanto, precisa muita perícia, muita bravura, olhos de lince sempre fitos no espumejar das águas a sondar eventuais perigos, num silêncio que só a voz de comando do arrais, em equilíbrio sobre a apègada e manejando a espadela, quebrava para ordenar as manobras. Era por tais motivos que a navegação se fazia só de dia, pois só assim se podiam evitar as armadilhas do rio, tanto mais que a bordo, quando muito, apenas se dispunha da ténue luz de um lampião.

 

E que bem retratou o Douro de ontem e de hoje Miguel Torga: ....O Doiro magro e viril, que ainda não há muito desci de barco rabelo e de credo na boca, a saltar de sorvedouro em sorvedouro, ei-lo agora entoirido, manso, paralítico, passeado numa lancha a vapor, sem sobressaltos de qualquer ordem. Os homens são assim. Passam a vida a destruir levianamente os cachões onde experimentavam a valentia e os veleiros em que os venciam, e espanejam-se depois como patos marrecos nas águas podres da desilusão.

 

Esta navegação em que a valentia e o conhecimento das ratoeiras do rio ditavam as regras viria a definhar com o aparecimento do caminho-de-ferro, primeiro, e depois com a melhoria das estradas, sofrendo o golpe de misericórdia com a construção da primeira barragem do Douro, no Carrapatelo, iniciada em 1965 e terminada em 1972. A partir daqui, deixaram os rabelos de descer o rio carregados de pipas que despejavam nos cais de Gaia, antes de empreenderem a viagem de regresso, Douro acima. São, portanto, embarcações que quase só existem no imaginário dos mais idosos, e que, para além dos barcos estacionados nos cais de Gaia, apenas os postais ou fotografias antigos no-los mostram na sua antiga nobreza, na sua elegância rude; ou alguns painéis de azulejo de umas poucas estações do caminho-de-ferro, em especial da linha do Douro, retratados por Artistas como Jorge Colaço, Alves de Sá ou J. Oliveira, e produzidos por fábricas como a Fábrica de Louças de Sacavém, Viúva Lamego ou Aleluia e que, felizmente, têm sido e continuam a ser objecto de obras de restauro por parte da REFER, para que a memória não se perca.

 

Foram, portanto, as características do rio Douro e da carga que os barcos rabelos transportavam, que ditaram a sua configuração e a sua forma de construção. Esta embarcação típica, própria para rios de montanha, é de fundo chato. Não apresenta, portanto, quilha. O seu tamanho varia entre os 19 e os 23 metros, com 4.50 metros de boca e a sua construção é de tábuas sobrepostas, tábua trincada, provavelmente de influência nórdica. É uma embarcação de porte inconfundível, altivo de linhas na sua singela grandiosidade que não deixaria indiferente ninguém que assistisse à sua passagem de vela quadrada de linho enfunada pelo vento.

O tamanho do rabelo não é uniforme, havendo barcos de vinte tonéis, de trinta ou até de cinquenta, podendo estes transportar no seu bojo umas quarenta ou cinquenta pipas. E uma vez que não existiam propriamente moldes, havia no entanto regras muito precisas, pelo que o casco resultava de uma modulação em que o espaçamento das cavernas corresponderia a meia pipa e, já que a distribuição da carga também obedecia a regras, ficava a primeira camada assente directamente nas ditas cavernas. Como o volume da carga era grande, forçoso se tornava que o arrais pudesse olhar o rio por cima dela, o que motivou a existência da apègada, aquela estrutura a ré em cima da qual governa o barco e que, por sua vez, dita a dimensão da espadela, aquela espécie de remo que lhe serve de leme.

 

São estes, portanto, os barcos que enchem de colorido e animação as águas do Douro, nesta regata que faz parte do programa das festas sanjoaninas destas duas cidades ribeirinhas. Esta regata, cuja primeira edição ocorreu no dia de São João de 1983 com apenas quatro embarcações, é um evento que quase todos os anos se repete, com mais ou menos peripécias, com mais ou menos demoras dependendo dos humores dos ventos e da perícia das tripulações para vencerem os cerca de cinco quilómetros do percurso entre a foz e a ponte de D. Luís. Tem vindo progressivamente a consolidar-se ao longo dos tempos e a contar cada vez com mais embarcações, sendo já dezasseis as que agora concorreram representando outras tantas firmas produtoras e exportadoras de Vinho do Porto que, animadas pelo sucesso da iniciativa, têm vindo a mandar construir novos rabelos. Cada vez com maior dificuldade, diga-se de passagem, uma vez que os antigos construtores também têm vindo a desaparecer e as novas embarcações vão sendo, cada vez mais, construídas em estaleiros mais urbanos como o existente na Ribeira de Gaia, frente à antiga Alfândega do Porto, que procuram, na medida do possível, manter as suas características tradicionais.

 

Pouco tempo antes de ser dado o sinal de largada, os rabelos são levados a reboque, rio abaixo, por embarcações a motor que os posicionam no ponto de partida, junto ao Cabedelo, na foz do Douro. Às dezasseis horas foi disparado o tiro de salva para início da competição e, após a largada, as tripulações procuraram posicionar-se de forma a melhor aproveitarem a brisa que enfuna as velas; e em cada rabelo, obrigatoriamente, deverá estar presente um elemento da Confraria trajado a rigor. E os barcos rabelos lá seguem, rio acima, ora isolados ora em grupo, acompanhados por um sem-número de embarcações de lazer de todos os tipos, formas e calados, a motor ou à vela e por uma embarcação que transporta os elementos da Confraria e convidados.

Pelas sombras das margens, porque o calor aperta, aglomeram-se centenas de grupos de curiosos, entre os quais se contam inúmeros estrangeiros que, de máquina fotográfica ou de filmar em punho, registam imagens deste acontecimento único, pleno de animação e de colorido que, este ano, viu a embarcação QUINTA DOS CANAIS, da Cockburn, cortar a linha de chegada cerca de cinco minutos antes da segunda classificada.

 

Pena foi, porém, que a comunicação social olímpicamente ignorasse este evento que, apenas uma vez no ano, anima as águas do Douro, com tripulantes que são apenas funcionários das firmas de Vinho do Porto e cujo único treino é a regata anual! Primou pela não divulgação atempada da regata, promovendo-a por cá e lá fora; e quando o fez, fê-lo de uma forma envergonhada, como envergonhada foi a referência que lhe fez, no dia seguinte, em pequenas locais escondidas numa qualquer página interior, quando mereceria, pelo menos, umas linhas de chamada em primeira página!

Não é, seguramente, desta maneira que se promove um magnífico e único cartaz turístico!»

 

texto - Arq. Paiva Leal

filme - Luis Meireles

fonte - Revista de Marinha online



publicado por cachinare às 10:41
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1 comentário:
De Anónimo a 5 de Agosto de 2013 às 16:07
Por falarmos em "Douro, retratado por Miguel Torga",
este monstro sagrado das letras portuguesas, desde há cerca de 15 dias, que está patente na Bibliotéca Municipal de Vila do Conde, numa magnífica Exposição de cerca de 30 paineis e outros tantos, ou mais, livros referentes às sua melhores obras.
Imperdível fazer uma atenta visita.
No que respeita à imponente regata dos barcos rabelos, a que tive oportunidade de assistir, fiz algumas fotografias, que poderei facultar.

Al bino Gomes

ps: (entretanto a ilustração deste artigo sai negro.)


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