Sábado, 5 de Abril de 2008
O prémio do bacalhau e a Nova Inglaterra.
A importância da pesca para as primeiras comunidades coloniais na Nova Inglaterra não pode de todo ser substimada, nem pode a importância do bacalhau para a indústria. A Casa de Massachusetts votou em 1784, por proposta de John Rowe, mercador e representante de Boston, para que se colocasse uma figura em madeira de um bacalhau dentro da Casa, simbolizando a importância da Pesca do Bacalhau para o progresso daquela comunidade. O mesmo bacalhau em madeira ainda hoje está virado para o balcão do orador.
Um grande mercado para o bacalhau tinha há muito sido establecido na Europa, quando os colonos se começavam a instalar na Nova Inglaterra. Há quem diga que pescadores descobriram a América um par de séculos antes de Colombo. Durante a Revolução, os Ingleses afundaram e confiscaram barcos de pesca Americanos e a frota foi devastada pelos finais dos 1780s. A Inglaterra tinha o maior poder militar da altura e o típico pequeno barco de pesca desarmado não era óbviamente desafio para um navio de guerra de 74 peças. Enquanto que em terra, os Ingleses confrontavam-se com a históricamente familiar vontade de afirmação colonial, num cenário de David e Golias, no mar a sua mão era a mais forte.
O bacalhau, John Rowe e a Guerra Revolucionária Americana eram factores interligados num modo que levaria ao envolvimento do primeiro governo Federal nas pescas. Rowe era um homem de negócios e proprietário de um cais em Boston. Quando a Revolução acabou, um dos primeiros actos do novo governo Federal a 4 de Julho de 1789 foi establecer prémios à exportação de peixe seco e conservado de modo a encorajar a pesca, a construção naval e o comércio. A gratificação, em dinheiro de 1789, pagava 5 cêntimos por quintal de peixe seco ou barril de cavala de conserva.
Em 1792 um prémio Federal entre $1 e 2$50 dólares por tonelada de bacalhau, dependendo do calibre, era oferecido aos pescadores em faina pelo menos 4 meses por ano. Sob esta lei, o peixe podia ser vendido internamente ou no estrangeiro. Este dinheiro ia para pequenos barcos de pesca costeira e para os que iam pescar nos Bancos tão distantes quanto o Labrador.
Um barco comum na altura era o “Chebacco”, nome derivado da paróquia de Chebacco em Ipswich, Massachusetts, onde muitos foram construídos. Ipswich passou a ser vila de Essex em 1819, onde o estaleiro de Story construíu escunas de pesca para Gloucester até ao fim dos dias de barcos à vela. É nesse local que hoje Harold Burnham ainda constrói escunas e barcos de Chebacco de forma tradicional junto à praia, na mesma praia onde os seus antepassados construíam barcos similares em 1650.
O Chebacco aparelhado em escuna foi eventualmente construído desde Cape Ann até Maritimes no Canadá. Comportava uma proa cheia, as amuradas elevavam-se e uniam-se na popa bicuda avante da posição do leme. Isto originava tanto um conveniente suporte para a retranca e uma boa plataforma para a tripulação. Tornou-se conhecida como “popa rosa” ou “barco rosado” (“Pinky” em Inglês). Não eram rápidos mas eram bastante manobráveis. Tinham um porão para o peixe mas não casaria de convés. O prémio ao bacalhau beneficiou a maioria dos pescadores em pequenos barcos como o de Chebacco.
O suporte dado pelo prémio aos pequenos pescadores independentes era um argumento legitimo na defesa do prémio, particularmente pelos que se opunham à consolidação industrial. Após a guerra com Inglaterra em 1812, os E.U.A. desistiram do acesso às pescas costeiras no Canadá, mantendo apenas as fora da costa. Isto levou à necessidade de embarcações mais robustas e maiores para o trabalho longe da costa, nos Bancos. O barco de Chebacco evoluiu para uma escuna de 12 a 18 metros de popa quadrada, de tombadilho mais elevado. Antes de 1840, a tripulação de 4 ou 5 dormia debaixo do tombadilho e o castelo da proa era usado para armazenagem. Este barco era denominado por “heel tapper” (foto 3) possivelmente por causa do convés subido e amuradas baixadas, o que lhe dava um aspecto de sapato da altura.
Ao contrário das políticas actuais em que se favorece a grande pesca industrial, o prémio original do bacalhau suportava e encorajava o pequeno pescador independente, em particular no Maine. A pesca no Maine desenvolveu-se nos 1830s e 40s e o prémio era importante para muitos com pequenos barcos e capital limitado. Em 1792, Massachusetts e Maine (ainda parte de Massachusetts na altura) tinham mais pescadores que o resto do país. A maior percentagem de dividendos pagos em prémios ia para pescadores do Maine. Dizia-se que “um Yankee gostava de pescar pelo seu próprio anzol” e estes homens tinham pouca vontade de embarcar num sistema de salários, disciplina e longas viagens por exemplo em navios mercantes.
O prémio do bacalhau era continuamente debatido no Congresso. Houve alterações em 1819 e de novo em 1839. Oponentes acusavam os pescadores de sairem menos para pescar do que para receber dividendos. A cada discussão no Congresso, surgiam justificações para os prémios, no entanto o que originou foi menos prémios e mais regulamentação. Para muitos no recente Governo, subsídios ao negócio eram precisamente parte daquilo contra o qual se lutou durante a Revolução. Defensores do prémio reclamavam que serviam para assegurar uma indústria vital nacional. A luta pelo prémio do bacalhau acabaria por ser uma das faúlhas que dariam início à Guerra Civil. O Sul nunca havia concordado com o prémio, uma vez que não pescavam bacalhau e ainda não eram pagos para cultivar ou não cultivar algodão. A expansão para Oeste resultou na criação de quintas de gado que se opunham aos gastos no prémio do bacalhau. A Nova Inglaterra possuía uma economia marítima num país que começava a virar costas ao mar. Em 1792, 31% do Senado e 25% da Casa eram da Nova Inglaterra. Essa representação caíu para 19% e 12% até 1858, quando surgiu a maior reprovação ao prémio.
Nessa altura, o Senador do Maine e vice-presidente de Lincoln, Hannibal Hamlin, recuperou a defesa do prémio dizendo que as pescas eram o “infantário da Marinha”. Pescadores que sabiam navegar em navios à vela foram colocados em navios de guerra à vela. A guerra de 1812 foi um caso onde este argumento era verdadeiro, mas por altura da Guerra Civil, o argumento de Hamlin não tinha grande fundamento. A Marinha era nessa altura composta por navios a vapor de ferro, onde meter o carvão e operar posições de canhões eram as artes pedidas às tripulações.
O argumento de Hamlin dá a pista do que sucedera às pescas desde 1792 e ao papel do prémio dentro disso: evolução. A pesca, tal como tudo em geral, evoluiu em resultado do contexto em que se inseria. Quando maior, embarcações mais caras iam mais longe da costa e o capital investido alterava a dinâmica até ao topo. 5/8 do prémio iam para a tripulação e 3/8 para o dono. O navio só podia pescar bacalhau e este tinha de ser salgado, isto numa altura em que o mercado por peixe fresco pagava melhor e o Capitão e ¾ da tripulação tinham de ser Americanos. Além disso, a embarcação tinha de ser vistoriada antes e após cada campanha e um diário de bordo tinha de ser feito. A papelada começaria a tornar-se um problema face à evolução do mercado e ao modelo no qual o prémio havia tido início e se baseava.
Os pescadores do Maine conseguiram convencer os seus congressistas a votar contra a revogação da lei até 1861. Mas os grandes capitalistas das pescas de Boston, Gloucester e Portland opunham-se ao prémio e, após a Guerra Civil, mesmo sem Sulistas na reconstrução do Congresso a oporem-se, o prémio foi anulado, em 1866.
Texto de Mike Crowe - Fisherman´s Voice, Julho de 2005
Foto nr. 2 - modelo do Chebacco "Lion". Mais fotos em shipmodel


publicado por cachinare às 12:32
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