Domingo, 13 de Abril de 2008
“Wawona”, bacalhoeiro do Pacífico.
Lançado à água nos estaleiros de Hans Ditley Bendixsen (nascido na Dinamarca) em Fairhaven, Califórnia, a 12 de Setembro de 1897, a escuna à vela “Wawona”, com as medidas de 50 metros de comprimento, 11 de boca, 3,5 de calado e 468 toneladas brutas, era a maior escuna de três mastros construída na costa Oeste da América do Norte, com madeiras vindas de florestas virgens.

“Wawona” é o nome da Coruja Sarapintada do Norte para os Índios do Yosemite, que simbolizava o guardião da floresta. Paradoxalmente, o navio foi construído de raíz para transportar madeira cortada nas grandes florestas primitivas do Norte da Califórnia e noroeste do Pacífico, numa altura em que este tipo de comércio era bastante activo, transportando madeira entre portos de várias dimensões da costa Oeste para a Dolber & Carson Lumber Company, trabalho por vezes bastante arriscado quando recolhia toros em pedaços de costa rochosa e apertada. O “Wawona”, tal como outras escunas costeiras, tinha a reputação de efectuar rápidas viagens costa abaixo com carga e voltar com a mesma rapidez, navegando sem lastro devido ao seu pesado casco duplo. Toros de madeira inteiros podiam ser carregados no seu porão através de comportas no casco.

Em 1914, o “Wawona” embarcou numa nova carreira como escuna de pesca no Mar de Bering (foto 1). Era sua proprietária a Robinson Fisheries, de Anacortes, Washington e todas as Primaveras durante 30 anos, o navio era carregado com sal para preservar o peixe, carvão para cozinhar e aquecimento, uma provisão para 6 meses e água potável para uma tripulação de 38 homens. Rumava então Oes-noroeste umas 2.000 milhas, através da Passagem de Unimak até ao Mar de Bering. Ali ancorava e todas as manhãs os seus pescadores saíam em duas dúzias de dóris para pescar bacalhau com linhas de mão. Desde a alvorada ao anoitecer, os pescadores traziam ao navio-mãe o dóri cheio de bacalhau, por vezes chegando aos 10.000 por dia. De seguida os bacalhaus eram contados, limpos e salgados no porão. O trabalho era duro e perigoso e houveram anos em que se perderam pescadores. No entanto o “Wawona” mantinha-se na sua faina até ao fim do Verão, altura em que tempos mais difíceis começavam a surgir.

Durante a sua carreira de pesca, o “Wawona” várias vezes apanhou mais peixe do que qualquer outra embarcação durante uma estação. Numa apanha total de 6,83 milhões de bacalhaus durante o seu tempo total de faina, de longe ultrapassou a carreira de pesca de qualquer outra escuna no Pacífico.

Por altura da II Guerra Mundial, o navio foi comissionado como barca militar de nome BCL-710, sendo desmastreado. A reboque, levava provisões militares para o Alaska e regressava à Sonda de Puget em Washington com madeira de cedro amarelo para a indústria aeronáutica, onde a Boeing a usava para manufacturar asas de aviões. Em 1946 voltaria aos seus donos, sendo-lhe instalada de novo a mastreação original e voltaria aos Bancos e leitos de pesca ao bacalhau durante duas estações. Em 1947, retirando-se para uma vida sedentária em Seattle, surgiram planos para o tornar num navio de cruzeiro ou num navio de transporte de gado para a União Soviética, nenhum dos quais viria a concretizar-se.

Foi adquirido por um grupo de privados para a Northwest Seaport em 1964 para museu flutuante e em 1985 o Serviço Nacional de Parques trabalhando em conjunto com o Northwest Seaport e o Fundo Nacional para a Preservação Histórica, estudaram e registaram todas as suas linhas e medidas em doca seca (foto 2). Esta era a primeira vez que um navio era registado desta forma desde os 1930s. Esteve aberto ao público como museu flutuante até 2005 e milhares andaram pelo seu convés, altura em que foi encerrado para se definir um novo futuro para o navio.

Em Setembro de 2007 surgiu um comunicado onde se lê que «Num acordo entre o Northwest Seaport, o dono do “Wawona” e a Cidade de Seattle, um memorial da histórica escuna será permanentemente establecido próximo à entrada do Parque do Lago Union. O memorial manterá o tamanho e principais dimensões do “Wawona”, incorporando partes significativas da embarcação na sua estrutura. Toda a estrutura em aberto do memorial mostrará como o “Wawona” e seus navios gémeos eram construídos e os desafios únicos que a construção naval tinha de ultrapassar. Esta interpretação em terra do navio bem como a exposição de elementos chave no novo Mohai Museum assegurará a manutenção do marco que sempre foi bem como a continuidade da atracção do público». (foto 3)

Enquanto que os trabalhos de preservação e restauro da embarcação abrandaram o seu desgaste, um estudo profissional em 2005 encontrou inúmeras partes, algumas estruturais em mau estado. Peritos na matéria aconselharam a que fosse movido para terra. Será pois transportado para instalações nas proximidades da doca onde se encontra e aí será desmantelado em acordo com o plano. As partes relativas ao memorial serão restauradas e reinstaladas dentro de três anos no novo parque. O custo antecipado da obra é de $2.000.000 e iniciaram-se já campanhas para atrair fundos.

Dos quase 200 navios construídos pelo estaleiro de Bendixsen, dois sobrevivem. Centenas de outros grandes veleiros mercantes foram construídos noutros estaleiros da costa Oeste, no entanto todos desapareceram. Somente o “Wawona” e o gémeo “C.A Thayer” em São Francisco restam.

Construído nos finais da grande “Era da Vela”, o “Wawona” permanece como um monumento vivo aos hábeis artesãos que o construíram, às indústrias que o suportaram e aos afortunados tripulantes que nele velejaram.

Para os interessados em modelismo naval, é possível adquirir através de simples download e sem custos, os planos detalhados do “Wawona” através dos arquivos da Biblioteca do Congresso Americana. Inclúi também uma excelente colecção de fotos a preto e branco.

 

Planos completos do “Wawona” segundo os estudos de 1985 e 1897.

Colecção de 62 fotos a preto e branco em doca seca.

Colecção de fotos a cores.

Livro sobre o “Wawona” (em Inglês).


publicado por cachinare às 15:17
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