Domingo, 27 de Abril de 2008
P.Y.S.B.E. – Uma epopeia algo diferente.
A “Pescarias y Secaderos de Bacalao de España” – P.Y.S.B.E., foi uma empresa de domicílio social que surgiu em 1926 em Pasajes, Guipuzcoa no País Basco. Foi uma sociedade constituída para uma concepção capitalista e industrializada do mundo da pesca, a qual até ali ainda se baseava nos modos tradicionais e pouco produtivos, sendo a propulsão a vapor ainda rara. Naquela altura, o bacalhau consumia-se em grandes quantidades por toda a Espanha, tratando-se de um peixe que distribuído seco, chegava a todos os recantos da Península Ibérica.
A P.Y.S.B.E. funda a sua sede social em Pasajes e lá instala a sua primeira fábrica, nas primeiras instalações de construção naval de pesca do país, ocupando uma extensão de 22.000 m2. Decididamente, impeliu o poderio da pesca no porto de Pasajes e transformou-o no primeiro porto dedicado à indústria bacalhoeira em Espanha, bem como o principal, a nível Europeu, em descargas deste produto.
A sociedade rapidamente fez contratos de construção de importantes navios arrastão-fábrica. Em 1927 mandou os seus 2 primeiros barcos para as águas da Terra Nova, o “Euskal Erria” e o “Alfonso XIII”, de 1.250 toneladas cada, desenhados e construídos na Societé Provençale de Construction Navale de la Listat of Dijon, em França. A estes 2 juntaram-se em 1928 o “Galerna” (foto 1) e o “Vendaval”, construídos por Hall-Russel & Cie de Aberdeen na Escócia. Iniciando-se assim a dinastia da P.Y.S.B.E., os seus navios teriam daqui para a frente sempre nomes de ventos. Em 1929 surgiram os arrastões “Mistral” e o “Tramontana”, lançados na Dock Falmouth em Inglaterra.
Estes barcos eram destinados à pesca por arrasto e todos contavam com propulsão a vapor, bem como a protecção de casco duplo em aço. Além disso, podiam armazenar 900 toneladas de bacalhau limpo e salgado com facilidade. Usavam a arte do arrasto ou pesca com redes e a grande potência das suas máquinas bem como as suas dimensões facilitavam uma grande autonomia para ir até aos leitos de pesca remotos da Terra Nova, Islândia, Noruega ou Gronelândia, onde se faziam as campanhas de pesca. Com os seus 65 metros de comprimento, eram os maiores navios da sua categoria e levavam tripulações de 50 a 60 homens.
Durante a Guerra Civil Espanhola em 1936 as actividades de pesca paralizaram. Antes da queda de Pasajes às mãos de Franco, nesse mesmo ano e durante o ataque franquista, toda a frota teve de fugir e somente as embarcações que estavam em construção ou reparação foram deixadas no porto. A maioria foi para Inglaterra ou França, onde continuaram as suas actividades depois de estableceram companhias mistas; o resto dos barcos de pesca abandonou Pasajes com refugiados a bordo com destino aos portos Republicanos localizados na Biscaia, Santander e Astúrias.
Em terra, os trabalhadores das fábricas recebiam os barcos e descarregavam o bacalhau, empilhando-o em secadouros. À chegada dos navios, o trabalho era muito intenso e o número de pessoas, homens e mulheres que trabalhavam na fábrica aumentou.
Também em 1936, a companhia obtém a concessão de 15.000 m2 no porto de Ferrol na Galiza para uma 2ª fábrica de processamento de bacalhau, no entanto, só no fim da Guerra Civil e da II Guerra Mundial pôde realizar-se, devido à suspensão total das pescas na Terra Nova em 1941-42 e parcial em 1943-44. É então em 1945 que é inaugurada a 2ª fábrica da P.Y.S.B.E. em Ferrol na Galiza, com 12.000 m2 na área do porto da cidade, numa altura em que a frota produzia 15.000 toneladas anuais de pescado. Possuía maquinaria e instalações bastante modernas, com compressores a amoníaco e outros aparelhos que asseguravam a obtenção do fria artificial essencial à indústria. Na foto 3 (Arquivo Untzi Museoa) pode ver-se sal a ser carregado a bordo nas instalações em Ferrol.
Nesses anos, a política autárquica do Franquismo pretendia fazer da pesca uma das bases da alimentação nacional, algo difícil devido à falta de frota e de pesqueiros. A Ditadura establece em 1942 medidas para a distribuição de peixe a preço fixo para que se pudesse comprar em todo o país.
Em 1945, os 7 navios da P.Y.S.B.E. reiniciam a exploração dos Bancos aproveitando a paragem bélica que permitiu a recuperação biológica do peixe e nesse ano a captura ascendeu às 17.588 toneladas, 52% desembarcadas em Pasajes e 48% em Ferrol. O monopólio da P.Y.S.B.E. seria rompido com o aparecimento da P.E.B.S.A. (Pesquerías Españolas del Bacalao, S.A.) na Coruña em 1933 mas que iniciou a sua actividade só em 1948. Surgiria também em Vigo a C.O.P.I.B.A. (Compañía de Pesca e Indústrias del Bacalao) em 1942, com apoio directo da Ditadura.
Em 1952 a companhia possuía 13 navios dos quais 8 a motor e 5 a vapor e mais 4 em construção, rondando a pesca as 20.000 toneladas anuais em pesqueiros da Terra Nova, Gronelândia e Nova Escócia e até 1955 as capturas aumentaram sempre. Foi nesse ano que teve início uma viragem nos destinos da empresa, devido ao surgir de maior competição e de frotas internacionais que intensificaram a sua quota de pesca. Uma nova lei em 1961 para renovação e protecção da frota de pesca permite a aquisição de novos barcos e favorece a renovação dos aparelhos de pesca. No entanto a P.Y.S.B.E. mantem-se à margem, não aproveitando essas medidas e as novas técnicas de congelação. De qualquer modo, o principal inimigo da empresa era a diminuição constante nas capturas, devido à pesca escessiva dos Bancos, aumentando ano a ano o custo da manutenção da frota. O pessoal era numeroso, não tanto no mar, mas sim em terra em trabalhos administrativos. A empresa reenicia então uma tímida vontade de reversão da crise diversificando e modernizando a frota mas as políticas de comércio eram cada vez mais nefastas. Em 1973 o Conselho de Administração demite-se em bloco e no ano seguinte seria o fim da companhia.
Fontes diversas.
 
Como comentário, a pesca ao bacalhau no seu todo no que diz respeito a Espanha, é na minha opinião bastante diferente da de Portugal. Enquanto que até 1974 Portugal pescava na sua maioria de forma tradicional com linhas de trol e dóris e ainda lugres à vela até finais dos anos 60, da parte de Espanha pelo menos no séc. XX, nunca encontrei referências a veleiros ou pesca à linha. Como descrito acima, desde os anos 20 que utilizavam navios-fábrica de arrasto ou redes, com os aspectos nocivos aos stocks que isso trouxe (não só da parte de Espanha, mas de várias nações). A informação sobre a pesca ao bacalhau em Espanha é na verdade pouca e resume-se principalmente à história da P.Y.S.B.E.. Fico com a ideia de ser uma história “industrial e mecânica”, igualmente dura para os pescadores, que por certo terá produzido grandes lucros e terá marcado gerações a ela ligadas, mas não lhe sinto a unicidade da Epopeia Portuguesa. Embora não inclúa navios à vela, os "Bous", como são chamados, são navios bastante interessantes e bonitos à sua maneira. Lembram-me o "São Ruy" de 1939, construído em ferro nos estaleiros da CUF em Portugal.
O papel dos Bascos na pesca ao bacalhau até ao séc. XVIII terá sido o mais importante da Europa durante 3 séculos e disso tratarei noutro artigo, mas o séc. XX é o mais documentado e a aura da Frota Branca evidencia-se da frota do país vizinho em vários aspectos. Obras editadas em Portugal são bastantes, mas de Espanha conheço apenas duas.


publicado por cachinare às 18:00
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