Sábado, 29 de Setembro de 2007
Mar.
Caro amigo Blue Moon I,
Agradeço o elogio sobre os Fangueiros serem “tesos para o mar”. Não é por eu ser um deles, mas concordo que é gente que cresceu no salgado da vida como diz.
Eu sou filho e neto de Fangueiros e pela parte da mãe de Marques, portanto sempre foram gentes do mar. Da parte do pai são todos das Caxinas e da mãe da Póvoa de Varzim. Eu fui “forçado” a estudar, para não seguir “essa vida de cão” como sempre disse minha mãe e lá o conseguiu. Sempre fui empregado de escritório, hoje emigrado na Polónia, mas a falta do mar corrói-me pois cresci e vivi abraçado a ele durante 27 anos e custa muito estar longe dele... Acredite que não fui feito para estar na jaula dum escritório.
O meu avô, M. Agonia Fangueiro fez 15 campanhas ao bacalhau de 1946 a 1960, 6 no lugre Rio Lima e 9 no Santa Maria Manuela. Suspeito que esteve envolvido no naufrágio em 51 do Rio Lima, mas terei de falar com o meu pai sobre isso, pois o meu avô faleceu há uns meses. Pela parte do meu pai, fez 8 ou 9 campanhas no N-M Novos Mares e também suspeito que em 1974, na sua última campanha ele terá feito pois parte da última viagem dum navio de pesca à linha com dóris na nossa História.
Digo que suspeito sobre estas coisas porque na verdade nunca conversei muito com o meu pai sobre os tempos do bacalhau. Desde que deixei Portugal há 5 anos, as saudades fazem com que um homem “acorde” para aspectos da vida que anteriormente eram apenas óbvios e por tal mantinham-se por explorar. Lembro-me muito bem duma arca enorme que tínhamos em casa (hoje já não existe) e de ver lá dentro botas enormes nas quais às vezes me punha dentro quando era puto, roupas de oleado amarelas, meias grossas com buracos que também gostava de calçar, montes de estralhos... todo o material do bacalhau do meu pai. Quando eu tinha uns 10-15 anos penso que foi tudo para o lixo, pois era necessário espaço em casa para outras coisas. Hoje dói-me pensar nisto, que se foi tudo. Mas ainda hoje o meu pai quando muito raramente tem de ir ao mar (trabalha nas redes em terra desde há bastantes anos), leva consigo um ou dois estralhos, para matar a saudade daqueles tempos e muitas vezes eu fui com ele ao sábado à tarde para o cais Sul, na marina da Póvoa, pescar umas marachombas e uns lulões nas pedras com pulga e bicha. Que saudades de encher a garrafa de cerveja Cristal cheia de pulgas para depois ir às ranhosas. Nunca apanhei nenhum lulão e pensava que o meu pai devia ser mágico, pois ao meu lado apanhava sempre ele os lulões. Hoje percebo que ele sabia das manhas do mar, sabia e sabe falar com ele e eu nem “verde” era. Odiava o facto da tarde passar tão depressa e termos de ir para casa ao anoitecer e já pensava na próxima vez que voltariamos.
Estarei em Portugal finalmente muito em breve por um par de semanas e terei comigo gravador, papel e caneta prontos para puxar tudo o que possa do meu pai sobre as suas histórias de mar. O resultado disso surgirá neste blog no futuro.
Antes de terminar, caso nunca tenha passado por ele, aconselho que entre neste link do blog ZIGURATE. Durante uma pausa no trabalho, passei os olhos calmamente pelas 8 partes desta história sobre mar e homens e tive momentos em que me deu um nó na garganta e me arderam as vistas, pois estar longe do mar é como estar morto para muitos homens. Cada vez mais me convenço que sou um desses homens...


publicado por cachinare às 14:04
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1 comentário:
De dolphin a 23 de Outubro de 2007 às 19:10
Caro A. Fangueiro:
Em 1974 o NOVOS MARES foi o único sobrevivente dessa heróica epopeia que foi a pesca à linha do bacalhau nos mares da Terra Nova e Gronelândia.
O seu pai foi concerteza um desses sobreviventes que como comentou no meu blog assistiu ao meu salvamento do navio SÃO JORGE.


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