Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007
As cassetes.
Foi há 3 semanas atrás que finalmente chegou a hora de visitar de novo Portugal e as cassetes mais o gravador foram comigo tal como planeado, para sacar tudo o que pudesse ao meu pai sobre as suas 8 campanhas ao bacalhau. Comigo foi também um álbum fotográfico com inúmeras fotos de lugres e navios, uma espécie de antologia da Pesca do Bacalhau. Confesso que a maior parte das fotos e muitos dos comentários para preparar este álbum de 202 páginas foram obtidos no blog "noseomar", ao qual novamente tenho de pedir desculpas pela ousadia, mas a verdade é só uma: este é o mais completo sítio na internet sobre a Faina Maior e o meu pai merecia ver isto, ter isto em casa, pois internet não é coisa dos seus horizontes.
Foi a primeira coisa que fui buscar ao saco, logo no dia da chegada, no fim do jantar. Pús-lhe o calhamaço à frente, disfarçado em papel de embrulho de Natal, pois não tinha outro à mão em Cracóvia e foi até ao dia da partida a preparar tanta foto. De gravador já a rodar ao meu lado, esperei em silêncio sorridente que desembrulhasse aquilo e na cozinha mãe e irmão (e esposa, que já sabia do que se tratava) opinavam sobre o que seria.
Mal viu a capa com um grande bacalhau e a foto do Novos Mares a sair de St. John´s, mudou-se ao meu pai a expressão que tinha na cara, pois nunca esperaria aquilo. Maior ainda foi o espanto quando na 2ª página viu a ficha do Grémio dos Armadores relativa ao meu avô, seu pai, impressa a cores em A4. De imediato a minha mãe comentou com imensa surpresa que ninguém na famíla possuía tal documento e de imediato começaram a folhear o album pausadamente. Estando tudo em sequência desde os navios mais antigos até aos de meados de 70, já no princípio me perguntavam se tinha fotos do Novos Mares, mas eu mantive o silêncio, pois tais estavam mais para o fim. Folha a folha lá iam saindo comentários de memórias sobre lugres e navios dos quais se lembrava de ainda ver a pescar e para meu regozijo, tudo a gravar. Assim foi durante hora e meia, pois pescador de terra também tem de se levantar cedo e o trabalho das redes obriga a descanso disciplinado.
Muita coisa foi dita e contada pela primeira vez desde que conheço o meu pai, coisas que nunca imaginei e pelas quais passou naqueles 8 anos de bacalhau para livrar a tropa. Uma 2ª cassete foi gravada uns dias depois, essa sim já com perguntas ordenadas, desde o dia em que se saía de casa com o saco às costas e se apanhava o autocarro para Lisboa onde o navio já esperava os pescadores para a campanha, até ao fim de tudo seis meses mais tarde, na verdade até Agosto de 1974, data do regresso de St. John´s a Portugal mais cedo, nesse ano da Revolução.
O meu tempo de estadia em Portugal foi escasso, mas tive a sorte e oportunidade de entrevistar ainda um compadre do meu pai, também das Caxinas e amigo seu desde pelo menos 1972. Para ser breve, as 8 campanhas do meu pai comparadas com as 9 dele, foram um “mar-chão”, pois na verdade o meu pai nunca teve problemas de maior no Novos Mares nem nunca soube o que foi naufragar. O seu amigo pelo contrário, viu a morte à frente por 4 vezes nos 5 navios em que andou. No Coimbra, naufragou, no São Jacinto, naufragou , no Luiza Ribau, acidente com dóri e noutro ano naufragou, fez a campanha de 1974 com o meu pai no Novos Mares e uma última no Conceição Vilarinho. Gravei com ele hora e meia da sua experiência e houve momentos em que percebi nalgumas expressões de verdadeiro terror porquê que o mar marca tanto um homem...
Depois deste trabalho, tenho pregadas na memória as fotos dos pedaços do Novos Mares (que se podem ver no blog "noseomar") que andam espalhados por Ílhavo e percebo que 4 anos sem interrupção da vida do meu pai foram passados dentro daquelas tábuas, contando que naqueles 8 anos, cada campanha eram 6 meses.
Brevemente começarei a passar todo o áudio à forma escrita e a partir daí decidirei o que fazer a este material. Gostava um dia de ver editado um livro com as memórias dos pescadores bacalhoeiros das Caxinas, mas estando eu tão longe deste “Lugar” não vai ser fácil elaborar tal obra. As Caxinas merecem tal documento, pois como o meu pai contou, quando por volta de Abril, Maio começavam as campanhas... “a Caxina ficava vazia de homens, só se viam mulheres e canalha pelas ruas”. Além disso, quantas terras de Portugal têm ruas e travessas com o nome “Mares da Gronelândia”? Não sei, mas pelo menos as Caxinas têm-nas.
 
Antes de terminar, inclúo esta nota referente a uma história publicada recentemente no blog "maolmar" sobre o naufrágio do São Jorge por um homem que fazia parte da tripulação. A narrativa é muito bem escrita e acaba também por estar ligada ao meu pai, pois o Novos Mares e o São Jorge eram os dois últimos navios a deixar St. John´s rumo a Portugal em 1974 e aquando do incêndio no São Jorge, foi o Novos Mares quem valeu àqueles homens. Tal como vários outros lugres e navios, também o Novos Mares para mim e outros se tornou mítico, pois foi o único navio de pesca à linha que “sobreviveu” e pelas fotos... morreu.


publicado por cachinare às 11:42
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