Sexta-feira, 27 de Junho de 2008
“Emma C. Berry”, a chalupa de Noank.
A chalupa “Emma C. Berry” foi construída em 1866 em Noank, Connecticut nos E.U.A. por James A. Latham no estaleiro de R.&J. Palmer, um estaleiro bastante conhecido na altura que começou pela construção de chalupas e escunas. Cerca de 800 embarcações foram construídas em Noank entre 1784 e 1919, sendo Noank apenas uma pequena vila a 6 milhas de Mystic Seaport.
Esta embarcação de 12 metros de comprimento é a última do seu tipo que sobrevive nos E.U.A., único exemplo do que outrora foi uma forma de pesca bastante comum com estes barcos, desenhados para manterem o peixe vivo até chegar ao mercado, num “poço” interno que permitia a entrada da água nessa parte do casco através de diversos furos. Este tipo de barco era construído na área de Noank mas era usado desde o Maine até Key West na Florida. Em 1866, o New London Daily Star escrevia assim: “Os nossos pescadores estão a virar a sua atenção tanto para o aspecto das suas embarcações como para a sua utilidade. Os barcos que foram construídos aqui em Noank nos últimos cinco ou seis anos parecem mais pequenos iates ou barcos de recreio do que chalupas de pesca e hoje em dia este porto de pesca orgulha-se de ter algumas belas embarcações de se olhar.”
Antes do gelo se ter tornado um meio práctico para preservar o peixe a bordo dos navios em 1840, as alternativas para fazer chegar peixe “fresco” ao mercado eram poucas. O modo mais eficiente era construír um compartimento inundado de água a bordo dentro do qual o peixe se manteria vivo após sair do mar. Estes compartimentos eram chamados “poços” e historiadores referem-se a estes barcos como “chalupa de poço” ou “chalupa aguada”. A referência mais antiga a este tipo de embarcações é a de uma chalupa de dupla extremidade que se encontra no Museu de Arqueologia Naval em Ketelhaven na Holanda e datam do séc. XVI. Suecos, Ingleses e Holandeses já usavam este tipo de barcos activamente e referências indicam que terão chegado à América com os primeiros colonos.
Registos indicam que barcos como o “Emma C. Berry” tinham tripulações de dois a seis homens. O grande crescimento económico no Connecticut por alturas de 1866 assegurou mercados ao longo da costa para peixe fresco e lagosta e em parte ajudou à evolução das chalupas que passaram a armar em escuna. A competição encorajou à aquisição de embarcações maiores que pescassem mais longe em tipos de pesca sasonais. Uma rara descrição da pesca com chalupa de 1844 descreve o que provavelmente seria o dia-a-dia: “Pela Primavera, uma tripulação de dois homens mais um rapaz, apanharam 200 ou 250 quilos de alabote no primeiro dia e fizeram $100 por parte. De seguida puseram-se à pesca da cavala com redes e depois bacalhau até Setembro. Compraram mais tarde uma chalupa maior, de Noank com 33 toneladas, que levava 5 homens. No princípio de Janeiro saíam para a pesca ao bacalhau; na Primavera para os baixios de Nantucket à pesca do alabote e de volta a casa à cavala, sendo depois o barco levado para Boston por um camarada que recebia ¼ pelo transporte. Durante o Inverno, carregaram até Boston 3.999 bacalhaus com um peso de 23.500 quilos e valor de $734,18. Na Primavera apanharam 2.205 bacalhaus no valor de $240,43. Depois dois dos homens levaram duas cargas de lagosta para Nova Iorque. Em parte da estação de Verão, muitas das chalupas iam à pesca do espadarte nas águas em redor de Block Island”.
Em 1890 o “Emma C. Berry”, que se dedicava principalmente à pesca da cavala, foi vendido para o Maine, sendo registado para a pesca e transporte. 30 anos depois foi abandonado mas acabaria por atraír a atenção de um novo dono que o recuperou e armou em iate. Em 1969 foi doado ao Museu de Mystic Seaport, onde foi restaurado e aparelhado de novo como chalupa. Entre 1987-88 foi reconstruído o convés original e em 1995 foi designado como Marco Histórico Nacional.
Com o passar dos tempos e a capacidade das escunas de pesca e mais tarde dos barcos a motor, as chalupas perderam o poder económico, no entanto inúmeras réplicas aproximadas das chalupas de Noank podem ser vistas hoje a navegar com a mesma graça.
As duas imagens dos planos aqui apresentadas são as únicas existente e datam dos anos 30, altura em que a embarcação armava em escuna, com dois mastros. As linhas do casco são estas e são a base para construír o modelo.
 
Links de interesse:
 
Detalhes de construção de um modelo do “Emma C. Berry” (documento em pdf.)
Detalhes e fotos do modelo aparelhado na forma original em chalupa.


publicado por cachinare às 21:23
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