Terça-feira, 1 de Julho de 2008
“Uma Crónica da Pesca do Bacalhau”.

«As comemorações do Dia do Pescador em Sesimbra tiveram como convidado Joaquim Leitão, que foi radiotelegrafista numa viagem de pesca do bacalhau, e autor do livro “Uma Crónica da Pesca do Bacalhau – Memórias de um Radiotelegrafista”. Uma pessoa que teve um estatuto obviamente acima do de um pescador, em tempos difíceis, mas que sempre teve muito respeito pela classe dos pescadores. Joaquim Leitão afirmou mesmo que o que lhe ficou desta experiência foi “uma grande lição da luta de classes”, e partilhou com toda a assistência várias histórias em que os pescadores eram invariavelmente explorados e enganados pelos armadores e oficiais, que lhes negligenciavam os bens mais básicos à vida, chegando até a declarar pesos de pescado abaixo do que os pescadores traziam, para proveito próprio.
  Este orador cativou ainda a atenção e simpatia dos presentes fazendo um historial cronológico de toda a pesca do bacalhau, que já foi responsável até por guerras. Não foram esquecidas referências aos submarinos alemães, que torpedeavam barcos de pesca portugueses no tempo da Guerra Mundial, ou aos pescadores que se dirigiram para a Noruega mesmo sem cartas marítimas, quando a pesca do bacalhau foi proibida pelo Canadá.
  De entre a assistência, destacou-se um antigo pescador sesimbrense, Argentino Esteves, que chegou a participar na faina do bacalhau, trazendo as histórias mais hilariantes e caricatas de quem viveu por dentro as dificuldades de estar longe de casa, entre desconhecidos (na pesca do bacalhau os barcos eram tripulados por pescadores de vários pontos do país, no máximo 2 ou 3 da mesma terra), com tempo gelado, num barco enorme e só com uma luz à noite. Chegaram a ocorrer mortes a bordo, por congelamento, e a enfrentar ciclones.

Este antigo pescador, analfabeto, contou ainda como conseguia trocar algumas palavras de inglês, confirmou que muitas vezes trazia 700kg de peixe para bordo e o capitão anotava 400, e divulgou a curiosidade de o bacalhau “só ter espinha do umbigo para o rabo, não tem do umbigo para a cabeça”. Quanto ao que se ganhava na pesca, “dava para comer e para passar fome”.
O convívio foi a nota dominante, com uma gama tão rica de convidados e de experiências para trocar, curiosamente vindas de quem foi pescador e também de quem não passou dificuldades mas visivelmente compreendia o ponto de vista de quem estava do outro lado, e tentou combater algumas injustiças.
  Houve tempo para histórias de avarias no barco, desembarques forçados, contactos com esquimós… os esquimós, como raça em extinção que eram, segundo Joaquim Leitão, tinham um instinto de preservação da raça que os fazia querer cruzar com estrangeiros, havendo bailes com muitas mulheres que, à falta de homens locais, simpatizavam muito com os pescadores portugueses… outra história curiosa foi a de uma avaria ocorrida na costa dinamarquesa, cujas autoridades não queriam permitir o desembarque dos pescadores portugueses, permissão essa que apenas surgiu após um dia, e sob condição de todos fazerem um exame médico prévio, para despiste de eventuais doenças.
  A Vereadora Guilhermina Ruivo mostrou-se agradada com o resultado, no final da iniciativa, e referiu que a temática da pesca do bacalhau surgiu porque “não nos podemos debruçar só sobre o que é típico, mas sim sobre o conhecimento de uma forma geral”. No ano passado existiu uma iniciativa com histórias de pescadores locais de diversas artes, que terá sido mais emotiva, mas desta vez, com a inclusão de pessoas de fora, falou-se de coisas que não são tão habituais, e que permitiram aos pescadores e demais intervenientes o contacto com novas realidades».
 
por Vasco Roque – in “O Sesimbrense
 
Esta será pois mais uma obra de grande interesse pela particularidade da função do autor a bordo do navio.


publicado por cachinare às 19:51
link do post | comentar | favorito

1 comentário:
De jaime pontes a 12 de Fevereiro de 2009 às 22:01
Que béla história aqui reportada ,tém toda razão quem a conta ,os pescadores faziam diferença na pesca, ou nas contas do Capitão ? É que um bom pescador tinha também de correr com a vaga ,para receber mais uns bónus , porque éra assim que se constatava ,naquela vida que para alguns éra uma festa ,mas para outros ,éra um inferno . Quando um navio ia a térra ,aos portos da groenlandia ,nos anos 60 éra uma maravilha ,levar uma ou duas garrafas de vinho do porto ou de aniz e trocar por crones ,depois éra só procurar, porque as mulheres raçadas esquimós e Európeias queriam namorar ,más antes da gente sair a térra vinha um médico a bordo para averiguar se a mallta estáva bém , fazer o tál rastreio! por isso tém razão quem conta essa históriia . Com todo o respeito que me mereçe o autor desta história no que respeita a pésca acho um bocado exagerado ao dizer que chegou a apanhar 700 quilos ,num só dia e o Capitão só apontou 400 , isso é de mais ,más eu passei por isso porque apanhar 4 e 5 até 6 quintais de bacalhau e o apontamento ser de menos 1 ,aconteceu muita vês e pouca treta se não ficas com as pernas partidas ,éra o dia a dia . ! Sem mais um abraço Saúdações maritimas .Jaime Pontes.


Comentar post

mais sobre mim
subscrever feeds
últ. comentários
Outros tempos ,diria mesmo meus tempos de rapaz ,o...
Pois ,nesse estado bem bebido até a sua sombra ele...
Ver está foto, salta-me muitas saudades de ouvir m...
Pescador da Nazaré ,homem do antigamente ,com traj...
Uma das formidáveis pinturas de Almada Negreiros, ...
sou de Nazare gostava de saber o meu estorial de 1...
....................COMEMORAÇÕES DO DIA DA MARINHA...
Esta réplica do Vila do Conde, participou em vário...
Pois é exactamente tal como acima se diz.Depois de...
Boa tarde , com respeito a foto aqui presente eu j...

culturmar

tags

a nova fanequeira de vila chã

ala-arriba

alan villiers

apresentação

aquele portugal

argus

arte marítima

bacalhoeiros canadianos-americanos

bacalhoeiros estrangeiros

bacalhoeiros portugueses

barcos tradicionais

caxinas

cultura costeira

diversos

fotos soltas

galiza

jornal mare - matosinhos

memórias

modelismo naval

multimédia

museus do mar

pesca portuguesa

póvoa de varzim

relatos da lancha poveira "fé em deus"

santa maria manuela

veleiros

vila do conde

todas as tags

Vídeos
links
arquivos