Terça-feira, 30 de Outubro de 2007
A bordo do Gil Eannes.
Ainda durante as curtas férias deste Outubro em Portugal, arranjei tempo e oportunidade para dar um salto a Viana do Castelo. Já levava essa ideia comigo desde a Polónia e com um belo dia de Sol chegamos a Viana pela fresca da manhã com outro casal amigo. Antes da “abordagem”, um merecido almoço à portuguesa e merecido café também à portuguesa, pois por terras polacas não se vive o dia-a-dia da mesma forma...
De imediato ao aproximarmo-nos do navio, a enorme silhueta branca causa alguma emoção por entrar e ver como é aquilo por dentro, mesmo a mim, ligado desde sempre à pescaria. Depois de subirmos as escadas até ao convés, surgiu um senhor da sua idade, com uma daquelas maletas de couro castanho ao ombro que me fez lembrar os revisores dos autocarros quando eu era puto e depois deixaram de existir. Bilhetes são a dois euros, bem barato comparado com muitos outros museus pelo país fora. Disse-nos o senhor que era só seguir as setas e veríamos tudo o que havia para ver. Já no interior, de imediato se começa a sentir o recuo de umas décadas, pois tudo está mantido tal como era originalmente. A diferença pela qual se nota que agora o navio é um museu está patente nos muitos quadros informativos pelas paredes dos corredores sobre a história do navio, quais as suas funções, mapas cartográficos de Cape Breton ou Hellefiske, fotos da faina do bacalhau e também por várias vitrines com objectos de uso tanto dos pescadores como do pessoal do navio, em especial material médico ou de medição. As primeiras divisões onde entrei foram os aposentos do capitão, com todas as comodidades possíveis, belos sofás, rica casa-de-banho. Continuando, a iluminação amarelada ajuda imenso ao ambiente antigo e mesmo o cheiro não desapareceu. Os compartimentos médicos de consulta e exames de pacientes só apresentavam uma diferença da altura original: não se via nada respeitante a burocracia, ou seja, papéis; de resto, mesa de raios-x ou cadeira de dentista, está tudo lá a proporcionar uns arrepios a alguns. Estivemos numa sala enorme com instrumentos de medição náutica, cartas de mar e o que me pareceu ser uma bússola giroscópica, eléctrica.
A casa-das-máquinas é deveras impressionante e descer àquele emaranhado metálico é uma daquelas visões. Não faltavam miúdos em visita a querer tocar em tudo e a fugir aos pais, mas na casa-das-máquinas acalmavam, provavelmente “atordoados” por tamanha complexidade. Vimos depois a cozinha, com condições excelentes, compartimento com forno para o pão, daqueles como vemos hoje em dia em qualquer padaria, tachos, panelas e rolo da massa, tudo lá. No piso inferior está o coração do navio a nivel de estabilidade em navegação e por isso é lá que se encontra a sala de operações e esterelização. De novo se vê que não lhes faltava nada e quem não soubesse estar dentro de um navio, diria estar num qualquer hospital dos nossos dias. Até elevador (trancado) tem para o sobe-e-desce dos pacientes. A mesa de operações está com a iluminação redonda (típicamente conhecida) ligada o que ajuda ao ambiente médico. Dali, prosseguimos para a roda do leme, o ponto mais mágico de qualquer navio e foi um pandemónio de fotos e gargalhadas. Achei curioso notar que estar com um “bicho” daqueles nas mãos por exemplo ao atracar deve ser complicado. Bem se vê o que muita gente faz aí pelas ruas a estacionar carros... imagine-se com um navio nas mãos! Era só cascalho no cais. Fomos por fim para a parte do topo do navio, para umas últimas fotos em tão solarengo dia e apreciar a zona da cidade vista dali. Sei que existe um bar no interior do navio, mas acabei por não reparar ou passar por ele, bem como uma pequena loja que se encontrava em remodelação e como tal com pouco interesse. Curioso foi mesmo ao lado da loja existir uma sala onde estavam a passar o documentário da RTP2 “Bombordo” sobre o Gil Eannes, o tal documentário sobre o qual já escrevi há umas semanas atrás. Quando reparei nele, de imediato voltei à loja e perguntei se o vendiam (sabendo eu já que não). Respondeu-me a senhora que não o vendem nem sabe onde se vende. Fiz a pergunta mais para ter a certeza, pois sabia que por alguma razão a RTP não o divulga, o que para mim é um mistério nem no próprio navio o encontrar.
Ao todo a visita foi de hora e meia mas seria mais pausada caso tivesse mais tempo.
Cedo percebi, mal entrei, que este navio construído em 1955 teve dinheiro disponível, nomeadamente do plano Marshall, para ser bem construído, pois as condições a todos os níveis e de equipamento mostram bem isso. É de salientar o saber e astúcia dos estaleiros de Viana do Castelo que encetaram em tamanha e complicada obra naquela altura, quando nunca tinham construído tal tipo de navio. Tal historial e capacidade de trabalho reflectem-se no facto de serem hoje estaleiros navais de sucesso em Portugal, practicamente os únicos.
Terminando, os dois euros são muito bem dados e não causam rombo no orçamento (digo eu). Passam-se ali umas belas horas, quer se perceba alguma coisa de navios, mar e mareantes, pesca do bacalhau, ou não. Aprende-se bastante, pode-se falar alto e os putos podem correr aos gritos por tudo quanto é sala e corredor, ao contrário dos museus “normais”. Aconselho a visita, pois há partes do navio ainda por recuperar, os fundos são sempre bem-vindos e a memória não pode morrer nunca.
Subindo depois ao monte de Stª Luzia... lá está ao longe em baixo, a silhueta do Navio-mãe da Frota Branca... imponente e silenciosa.


publicado por cachinare às 14:33
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3 comentários:
De Mário Marafona a 2 de Novembro de 2007 às 20:15
Caro Fangueiro,

Tenho lido deliciado estes seus últtimos posts, pela paixão com que tenta recuperar a memória da vida do seu pai. Também o meu andou por ali. Tendo tido também "direito" a viajar no Gil Eannes, uma delas às portas da morte. Gostaria de ler o livro que V. não pode deixar de publicar.

Um abraço Caxineiro do
Mário Marafona


De cachinare a 3 de Novembro de 2007 às 11:57
Caro Marafona,

Agradeço imenso o elogio e que lhe agrade o pouco que vou escrevendo. É verdade que tento recuperar o passado não só do meu pai, mas também da mãe, pois ambas as partes da família sempre estiveram ligadas ao mar. O tal livro que diz, gostaria de ver publicado... depende muito de eu estar em Portugal e o tempo corre sem parar para ter oportunidade de entrevistar pescadores. Quanto às experiências e histórias do seu pai ou conhecidos, faço-lhe eu agora o desafio de as registar, escritas ou gravadas. Tenho um post no passado Agosto intitulado "Bacalhau, parte de nós" que o poderá guiar na entrevista.
Fica o meu desafio e quem sabe ouvir novidades da sua parte brevemente.

Com amizade Caxineira,
A.Fangueiro


De jaimepontes a 24 de Fevereiro de 2009 às 19:31
Caros Amigos ,muito boa tarde ,vou conntar uma história passada a bordo do Gil Eanes ! Foi para o Gil Eanes a 6 de Agosto com duas hernias ,portanto ém 1969 e lá para meados de agosto os doentes pescadores que lá estáva-mos que éra-mos a volta de 30 fizemos um levantamento de rancho porque o pão éra do dia passado ,o vinho éra mais agua do que vinho e assim um dia ,como me dava bém com o Sre capelão de bordo ,eu fis lhe ver isso mesmo ,que o pão éra seco e o vinho éra agua autentica ,então ele disse-me falem com o Sre Cozinheiro que ele com certeza não sabe o que se passa ! Então assim combinamos e mandamos o servente chamar o Sre cozinheiro por favor ,o servente éra um Sre de cor de Cavo Verde más muito prestável,.O Sre cozinheiro chegou e logo perguntou, que se passa? Nós respondemos ,Sre Mestre Cozinheiro fassa o favor de vêr o vinho e o pão ,o vinho é pouco mais que agua e o pão é do dia anterior ,o Mestre Cozinheiro foi honésto depois de ver bém chamou os ajudantes de cozinha e o moço da copa e perguntou a cada um deles que tutelavam os da cozinha e a copa e deu um forte raspanete nos Sres e para outra ves que não aconteça isto, porque o pão tém que ser fresco e o vinho que eu voçês bebem não é este que aqui está por isso tenham mais responsabilidades ! E assim meus Amigos se passou esta e outras mais coisas no Gil Eanes ,os tripulantes é que não gostaram porque lhes faltou a fartura e passaram a querer tratar mal os doentes que foi o meu caso e dum outro o Nazareno ,pois fomos dezafiados e quase chegamos no vai e vém de palavras mas não passou disso por tudo boas recordações do Sre Comandante Mario Esteves e dos Sres Doutores , Mestre Cozinheiro e o Sre Capelão e também os enfermeiros que foram Impecaveis um bém haja aos Senhores e ao Navio Hospital Gil Eanes pelo menos eu presto homenagém pelo mês e meio que lá passei ...saudações maritimas .Jaime Pião de Caxinas


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