Quarta-feira, 16 de Julho de 2008
Uma vida de mar.

Hoje é o aniversário do meu pai. São 60 anos todos eles vividos à beira-mar, desde que deu os primeiros passos pela praia das Caxinas e fieiro da Póvoa de Varzim. Aos 11 anos foi para o mar com o avô na pequena catraia que possuía de nome "Jesus Maria José" dum lado e "Sagrada Família" do outro, onde aprendeu as artes de pesca ao trol (à linha) entre outros segredos do mar. Aos 14 anos e tendo o seu pai terminado uma vida de 15 anos de pesca ao bacalhau há pouco tempo, passou a ir ao mar numa pequena motora em parte já pertença da família, de nome “Cego do Maio”, bonita embarcação típica de popa de leque (redonda) que marcou todos os anos 60 e 70 na Póvoa de Varzim e vários outros portos do país.

Celebrou os 19 anos já no mar largo dos Bancos da Terra Nova, na sua 1ª campanha de pesca ao bacalhau em 1967 a bordo do navio-motor “Novos Mares”, navio da mesma classe do “São Jorge” e “Vila do Conde”, entre outros e pertença da companhia Testas & Cunha de Aveiro. As 8 campanhas que fez ao bacalhau foram neste navio, do qual ambiciono arranjar os planos para lhe construír uma réplica à escala e oferecer de surpresa num futuro aniversário. Esta foto é de uma dessas campanhas, em 1971 a navegar ao largo da ilha de St. Pierre, entre a Terra Nova e o Cabo Bretão na Nova Escócia. Em 1974 passou o 25 de Abril dentro do navio ancorado no Tejo e já em ares de mudança, seguiram ainda para a Terra Nova, no entanto, seria uma campanha de reivindicações e era o fim anunciado da velha e característica pesca do bacalhau à linha com dóris. A campanha terminava mais cedo e o “Novos Mares” era historicamente o último navio de pesca à linha a abandonar St. John´s em 1974 rumo a Portugal, podendo talvez por isso e por ter sido o último bacalhoeiro em madeira construído nos estaleiros Mónica, ser considerado um navio histórico. Apesar disso e porque muitas vezes só se dá valor à história décadas mais tarde, o navio foi desmantelado e andam pedaços dele espalhados por Ílhavo, Malhada e Costa Nova.
Depois de 1974, foram vários os barcos locais por onde passou e há cerca de 15 anos que o trabalho de pescador é em terra. A foto que aqui mostro recordo-me dela desde que era pequeno, uma das fotos mais emblemáticas lá de casa, no entanto nunca imaginei ou soube o que realmente mostrava, pois a pesca do bacalhau era esta e mais 2 fotos e uma grande arca antiga de madeira revestida a chapa cheia de roupas de mar, grossas meias de lã antigas com buracos, roupas de oleado amarelas, botas de mar gigantes (para um miúdo) e até estralhos de fio de seda muito grossa. Só muito mais tarde me apercebi que aquilo eram relíquias da Faina Maior e que aos poucos tudo se tinha posto no lixo, para minha tristeza. Além disto pouco ou nada o meu pai falava da pesca ao bacalhau, até há um par de anos atrás quando comecei a investigar a sério este passado Português. Do pouco que sabia em miúdo era a “sopa da chora”, “St. Jones”, os estralhos de pesca e os “navios à vela” nos quais o avô tinha andado que me faziam imaginar como teria sido, pois navios à vela não eram do meu tempo nem os via na Póvoa entre os outros.
Hoje julgo que já estou mais “por dentro do assunto” e descobri muitas fotos dos navios à vela, mas nunca imaginara que o meu pai fora tal como o meu avô parte disto, de milhares de outros que participaram em tamanha epopeia de pesca, tão antiga e tão única. Fiquei muito contente pelo feliz acaso da foto do meu pai aparecer no recente álbum editado pelo Museu Marítimo de Ílhavo “Portugal no Mar – Homens que Foram ao Bacalhau”. Das cerca de 3.700 fotos, 16.000 ficam por mostrar e é em memória desses e dos do tempo em que não havia registos, que a Pesca do Bacalhau não deve ficar esquecida e há que a mostrar tal como era sempre mais e mais.
 
Agradeço ao meu pai a sabedoria do silêncio que o mar transmite, o pequeno bote de lata que me ensinou a fazer e as tardes de pesca nas pedras do cais, as 3 horas gravadas sobre os 8 anos de pesca na Terra Nova e muito mais que me mostrou e em breve me vai mostrar sobre o seu passado. – “P´ra hoje Deus deu. P´ra amanhã, Deus dará!”


publicado por cachinare às 07:37
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3 comentários:
De dolphin a 17 de Agosto de 2008 às 01:26
O seu pai estava a bordo do "Novos Mares" quando se deu o naufrágio do "São Jorge" onde eu era Imediato. Foi o navio a quem pedi auxílio através do V.H.F. porque era o que estava mais perto. Tinhamos saído de St. John's por volta do meio dia e cerca das 18.00 horas deu-se o incêndio seguido de naufrágio. Para mais pormenores veja o meu blog www.mardeviana.blogs.sapo.pt.
Curiosamente o seu pai é da minha idade. Fiz 60 anos em Dezembro passado.
Um abraço.
Dolphin


De dolphin a 17 de Agosto de 2008 às 01:32
Esqueci-me de dizer que "O naufrágio do S. Jorge" foi "postado" em Outubro de 2007.
Dolphin


De jaime pontes a 25 de Janeiro de 2009 às 19:23
Meu amigo António ao ler este link que é uma maravilha ,fiquei a saber quem é o António o pai e o avõ más isto já a meses atrás quando começei a embrenhar-me nos linkes portanto foi atraves destas leituras que começei a entrar no assunto sem mais comprimentos ao senhor q ue éra Imediato do São Jorge,belo navio esse São Jorge éra neste que eu poderia ter embarcado de certesa que com melhores Ofiçiais e melhor cosinheiro ,um abraço ...Jaime pontes


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