Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007
“Custa-me ver o mar”.
Aponto primeiro que tudo o aspecto da foto, de jornal , de tez velha e gasta, quase desinteressante e que não capta o olhar, pois é exactamente este o aspecto do caso do “Luz do Sameiro” para os senhores doutores, ministros, comandantes e demais afilhados que andam com o assunto em mãos desde há dez meses. E estavam eles tão bem sentados. O barquito até é tão pequenino que lhes deve chatear imenso ainda andar-se a falar do assunto. Ainda se fosse um transatlântico ou um grande arrastão espanhol, agora este barquito... que chatice, pá. Lá se vão os objectivos de contenção do Estado só em indeminizações. 60 milhões já pagos pela câmara de Lisboa, de dívidas em dois meses? “Tá-se bem”. E isto foram só dívidas inferiores a 10.000 Eur... “Cala-te boca!”, como diz a minha mãe tantas vezes.
Já muito e muita gente escreveu sobre o assunto do naufrágio e nos últimos tempos acabava eu sempre por não querer escrever sobre isso, pois sou apenas mais um Caxineiro que já está habituado a muitas mortes desnecessárias no mar desde que nasci. Mas há também dias em que mais uma ou outra notícia sobre o andamento do caso acaba por revoltar tanto que há que disparar alguma revolta contra algum sítio e por isso cá está ela no blog.
Ainda ouvi ontem que o relatório vindo das “altas instâncias” refere-se ao caso como algo de tão menor importância e até retirando quaisquer culpas a quem tem a obrigação de salvar, que me faz pensar uma vez mais sobre o passado. Refiro-me ao passado porque quando as pessoas eram tratadas da forma que eram por monarcas ou mais recentemente pelo ditador Salazar, todos compreendiam que eram tempos difíceis, passava-se fome e a sociedade era dividida em classes. Tirando os coitados da classe baixa, vivia-se numa sociedade minada por interesses a conseguir a qualquer custo, ou em tempos de ditadura, com um controle doentio a muitos níveis, mas quem sou eu para falar disso se nunca vivi nesses tempos... tive a “sorte” de nascer em 75. Pelos vistos eram tempos de diferença abismal comparando com o nosso... ou será que não? Eram tempos em que quem estava no topo muitas vezes pouco ou nada olhava para baixo e se olhava fazia-o com altivez.. Enfim, é melhor não exagerar nisto. O que me confunde é que em tempos correntes, supostamente tão “socialistas” (não sei o que isso significa) não faltam os casos em que até se sente este “desprezo”, esta falta de contacto entre quem está no poleiro e os que têm as mãos calejadas pelo peso e salitre das redes, a cara queimada e enrugada pela brasa do Sol e pelos invernos, o cheiro ao peixe entranhado quando chegam ao fim-de-semana a casa com o baú, uma das imagens mais marcantes que tenho do meu pai em anos passados, era eu puto. Que me perdoem os que trabalham a terra, mas sou gente do mar e é sobre eles que sei falar. A vida, bem sei, não é difícil só para os do mar... mas a morte não está tão presente nos da lavoura, que mal ou bem, dormem no seu cortelho e poderão temer algumas agruras do tempo nas colheitas, ou doença no gado, um tractor que se vira... pouco mais. No mar é diferente, muito diferente. É estar à mercê do poder daquela imensidão de água, do tempo e de sabedoria antiga, pois as máquinas não sabem tudo.
Ora “Custa-me ver o mar” é expressão pertencente ao homem dono do "Luz do Sameiro", que para sua felicidade ou infelicidade não andava ao mar e acabou por ver amigos e um filho morrerem da forma que toda a gente já sabe, a 20 metros da praia enquanto outros assistiam. O artigo, li-o no DN, (cá está o link) e só deixo aqui a parte final, para que se tente interiorizar o que é viver o dia-a-dia com tragédias destas, ainda mais quando familiares próximos nos deixam de tamanhas formas e não se respeita a dôr de quem fica:
 
“(...) Manuel Maio foi progredindo na pesca. De permeio, 13 anos embarcado na Alemanha, regresso a Caxinas, e mar, mar com o filho mais novo, então em barco próprio. "O meu Inácio era muito bom, nunca negava peixe a quem lho pedisse. Era o menino querido da mãe, coitada, ela perdeu o rumo do Norte." E com ela, conta, "as cinco viúvas". Agora? "O que vai ser destas famílias? Será que o dinheiro do seguro dá para educar os filhos? No meu caso, continuo a tradição, todos os sábados reúno a família para uma sardinhada, a ver se encaramos a vida de outra maneira, mas... quantas e quantas vezes fujo de casa para não ver a minha mulher desfeita em lágrimas. Mar, nunca mais! Tenho direito ao descanso. E quero cuidar dos filhos do meu Inácio, duas meninas de 14 e 18 anos e um rapaz de oito. Aqui há tempos foram à arrecadação que tenho para ali e, na brincadeira, abriram as portas das gaiolas de pássaros. Foi quando me deu vontade de rir."
in Diário de Notícias online, Sábado, 3 de Novembro de 2007.


publicado por cachinare às 12:31
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1 comentário:
De jaime pontes a 1 de Fevereiro de 2009 às 01:23
Pois é Amigo António,morrer a vinte metros da praia ! Já vi esse filme varias vezes,más este encheu-me de raiva sim raiva comigo mesmo por descobrir que o pescador não tém significado algum ém Portugal . Eu que por acaso descuti muitas vezes com os Sres, que tutelam as pescas , sobre segurança no mar e sobre pescas ! E cheguei a conclusão que o Pescador é muito incompreendido e sempre ignorado ,não ainda não surgiu nenhum Dom Sebastião no meio dos nevoeiros para lutar em prol dos pescadores ém Portugal ! por isso já seguramente a trinta anos que aqui nas caxinas se discute os meios de segurança , más onde estão ? O Amigo António surpreende-me com os blogs que põe ca na escrita que me dá sempre vontade de comentar ainda prá mais sendo conhecedor do assunto ,costuma-se dizer que filho de peixe sabe nadar e como tál o meu amigo sabe do que fala , deixa-me surpreendido os saberes os assuntos do mar como também são explicados até parece um Doutor do mar prá já minha homenagem hà tão grande defençor dos mares e mareantes Parabéns por tudo ....sem mais um abraço e saudações maritimas...Jaime Pontes..


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