Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008
A Pesca ao Bacalhau no séc. XIX na Terra Nova e Labrador.
A pesca do bacalhau para salga era o sustendo principal na economia da Terra Nova e Labrador durante todo o séc. XIX. Consistia em três ramos: na pesca costeira próxima à ilha, na pesca no Labrador e na pesca longínqua nos Bancos. Destas, a pesca costeira era tanto a maior como a mais antiga, com raízes numa pesca migratória Inglesa que datava aos anos 1500s. Contudo, o excesso da exploração do peixe nos 1800s, levou ao declínio da pesca da costa. De modo a manter as exportações, a província introduziu equipamento de pesca mais eficiente e expandiu os seus esforços nas pescas ao largo da costa do Labrador e nos Grandes Bancos.
 
A pesca costeira
 
As guerras Napoleónicas e Anglo-Americanas dos inícios dos anos 1800s ajudaram a tornar a pesca costeira da Terra Nova e Labrador numa pesca residente, em vez da indústria migratória anterior. À medida que as pescas Americanas e Francesas declinavam entre 1804 e 1815, o bacalhau da Terra Nova e Labrador tornou-se mais valioso no mercado internacional. Isto proporcionou que mais pescadores Ingleses e Irlandeses se fixassem permanentemente na ilha, em vez de para lá rumarem para a pesca todos os Verões. A maioria destes homens e mulheres estableceram povoados ao longo da costa noroeste da Terra Nova e na Península de Avalon e outros migravam para a Costa Francesa da ilha à pesca do bacalhau numa altura em que as hostilidades abalavam os esforços de pesca Franceses na zona.
A pesca costeira era uma indústria sasonal e baseada na família. Os pescadores, normalmente homens, deixavam as suas casas cedo pela manhã e remavam ou velejavam até os leitos de pesca nas proximidades em pequenos barcos. A maioria pescava ao bacalhau usando linhas de mão, uma linha com um anzol na ponta. Os pescadores iscavam o anzol com lula ou capelim, largavam-no na água e puxavam a linha acima e abaixo para atraír o bacalhau.
Quando os homens regressavam a casa, toda a família era envolvida na cura da apanha. Mães, esposas, filhas e filhos ajudavam a descabeçar o bacalhau, a retirar a espinha e tripas antes de o salgar e a estendê-lo em plataformas de madeira para secar ao Sol. O processo da secagem podia levar semanas e a família tinha de recolher o produto para um abrigo sempre que chovia. As comunidades piscatórias comercializavam o seu bacalhau salgado com mercadores de modo a pagarem pelo equipamento e provisões anteriormente adquiridas a crédito.
A prosperidade em tempo de guerra dos inícios dos anos 1800s resultou num quase duplicar da população na Terra Nova e Labrador que em 1815 já era de cerca de 40.500. As exportações de peixe da colónia também cresceram em proporção atingindo perto de 1,2 milhões de quintais (1 quintal = 50,8 kg). Quando as hostilidades cessaram, o preço do bacalhau caíu dramaticamente e os pescadores residentes tiveram de aumentar a quantidade pescada ou virar-se também para a caça à foca de modo a compensar os retornos e a manter as exportações.
À medida que a população crescente apanhava maior volume de peixe, tal começou a originar uma pressão crescente nas reservas locais de bacalhau. O bacalhau tornou-se escasso em áreas onde há mais tempo se pescava, como em Conception Bay, Trinity e Bonavista. Para compensar, alguns pescadores adoptaram aparelhos de pesca mais eficientes, incluindo redes de malha e de cerco ao bacalhau, linhas de trol (linhas longas com centenas de anzóis) e armações fixas na água que pescavam continuamente.
Alguns pescadores também aumentaram os seus esforços por áreas, transferindo-se dos leitos de pesca dentro das amplas baías da ilha para os cabos e promontórias exteriores. Estas pescas requeriam embarcações maiores, normalmente aparelhadas em escuna, medindo entre 8 e 9 metros e pesando entre 5 e 20 toneladas. Os barcos maiores e novos aparelhos, contudo, eram dispendiosos e a maioria dos pescadores não os podiam adquirir. Os pescadores que os usavam, apanhavam maiores volumes de peixe em menor tempo do que o tradicional método de linha e anzol, criando maior competição nos leitos de pesca.
À medida que o novo equipamento se espalhava por meados dos 1800s, muitos pescadores costeiros começaram a protestar o seu uso. Alguns argumentavam que o novo equipamento deixava muito pouco peixe para os pescadores à linha, que não podiam competir ou pagar por tais equipamentos; outros temiam que as novas tecnologias estivessem a esgotar os stocks de bacalhau da costa. A inacção do Governo aumentou o descontentamento dos pescadores à linha e uns poucos, frustrados, começaram a sabotar redes e outros aparelhos. Eventualmente, contudo, os outros pescadores tiveram de começar a adoptar o novo equipamento por necessidade ou começar a trabalhar para os que já o possuíam, reconhecendo que poucos trabalhos existiam na ilha para além da pesca.
 
A pesca no Labrador
 
Seguindo-se à depressão após 1815, uma maior número de pescadores começou a migrar da Terra Nova para o Labrador a cada Verão para lá irem pescar. A pesca no Labrador servia dois fins: proporcionava o uso dos navios de caça à foca durante a estação fora da pesca e permitia aos pescadores das baías onde o bacalhau havia acabado continuarem a ganhar a vida. Contudo, apenas pescadores que possuíam escunas tinham capacidade para rumar a Norte e estes tinham de passar semanas ou mesmo meses longe de casa. Em resultado, alguns pescadores traziam as famílias com eles, tanto para companhia como para ajudarem na cura do peixe.
A pesca no Labrador consistia em dois grupos: estacionários, que haviam establecido estações na costa de onde pescavam todos os dias e flutuantes, que viviam a bordo dos navios e velejavam a Norte e Sul da costa do Labrador, indo mais a Norte do que os estacionários. Os flutuantes armazenavam o seu peixe em sal e traziam-no de volta à Terra Nova no fim de cada estação para lá ser seco, enquanto que os estacionários salgavam e curavam o seu peixe à beira-mar pouco depois de o apanhar. Ambos os métodos tinham contrariedades. O clima húmido do Labrador várias vezes resultava numa cura pobre do peixe, enquanto que os flutuantes arriscavam arruinar a sua apanha durante a longa viagem de regresso.
Por meados dos 1860s, a pesca ao bacalhau na costa Sul do Labrador produzia apenas pequenas quantidades. Para compensar, alguns pescadores voltaram a inovar no equipamento, particularmente armações do bacalhau, enquanto outros rumavam mais para Norte em busca de novos leitos. A expansão para o Norte com o novo aparelho de pesca, durante algum tempo resultou em maiores apanhas e permitiu à colónia manter ou aumentar as exportações. Em princípios do séc. XX, companhas de pescadores vindos de portos da Terra Nova e Nova Inglaterra embarcavam em escunas e rumavam ao Labrador durante Março e Abril. Pescadores solitários viajavam para Norte no navio-correio, na esperança de serem admitidos numa tripulação. Residentes permanentes e companhas temporárias preparavam os seus aparelhos enquanto esperavam pela chegada do bacalhau. O peixe aparecia nas águas costeiras do Sul do Labrador em finais de Junho e algumas semanas mais tarde mais a Norte.
Alguns dos residentes permanentes do Labrador participavam na faina do bacalhau no Verão e Outono. Os que eram de origem Europeia ou Nativa-Europeia e viviam na área de Chateau Bay, passavam o Inverno em casas isoladas com turfa num vale protegido e subsistiam da caça e armadilhas. Mudavam-se para a costa no Verão, onde viviam em modestas casas próximas aos leitos de pesca.
As instalações de pesca denominadas “estações” incluiam uma casa, um barracão para processamento do peixe junto a um pontão e um ancoradouro para um ou mais barcos. Várias estações foram construídas em zonas bastante populadas como por exemplo em Battle Harbour. Em regiões mais remotas, pequenas comunidades auto-suficientes salpicavam a paisagem. As estações de peixe eram alojadas na costa rochosa próximo de leitos ricos em peixe e junto delas montavam-se as bases da seca do peixe.
Uma vez o peixe apanhado, era limpo e tirada a cabeça. Era depois escalado e a espinha removida para poder ser espalmado. De seguida era lavado e salgado. Secar o peixe era um processo gradual: Nas estações onde a madeira era escassa ou não havia, o bacalhau salgado era estendido nas rochas a secar ao Sol e ao vento, depois amontoado em pilhas e pesado e de novo arrumado nas rochas. Deste modo a humidade contida no peixe era gradualmente reduzida.
Estruturas em madeira (quando disponível) eram armadas acima do solo sobre as quais bacalhau escalado e salgado era colocado para seca. Eram feitas em madeira de abeto, que existia nas proximidades. O processo era semelhante ao da secagem nas rochas, estendendo o peixe pela manhã e recolhendo-o ao anoitecer até estar seco o suficiente, o que podia levar mais de 20 dias.
Quando o bacalhau estava seco, em grandes comunidades como a de Battle Harbour era transportado das secas para o molhe em carrinhos de mão. Lá, o peixe era inspecionado e apartado de acordo com a qualidade e tamanho e preparado para o transporte até às áreas de pesagem. Mercadores a bordo de navios aguardavam para comprar o peixe e transportá-lo para os mercados.
Pessoas que passavam a época em estações de trabalho remotas, transportavam o seu bacalhau seco para as comunidades maiores ou aguardavam que barcos recolectores lá fossem. O peixe era depois descarregado na doca de Battle Harbour onde seria catado, pesado e vendido. Aqui, parelhas de homens carregavam o bacalhau pesado e vendido para um navio-vapor que aguardava. Além do bacalhau, navios mercantes transportavam óleo de fígado de bacalhau para mercados em todo o mundo.
Com o passar das décadas, as pescas no Labrador acabaria por entrar em sério declínio e nos anos 1920s desapareceu.
 
A pesca nos Bancos
 
À medida que a pesca costeira no Labrador declinava ao longo do séc. XIX, o Governo da Terra Nova e Labrador encorajou os pescadores a rumarem aos Grandes Bancos, oferecendo-lhes subsídios. Por meados dos 1870s, os pescadores chegavam aos Grandes Bancos em escunas de madeira, vapores de caça à foca e outras embarcações na ordem das 20 às 250 toneladas. A pesca nos Bancos típica ia de Março a Outubro, mas os planos de pesca variavam conforme as comunidades. Os pescadores que viviam na costa nordeste da ilha por exemplo, várias vezes tinham de aguardar até Abril para a largada, devido ao gelo na água. As embarcações faziam três ou quatro campanhas aos Bancos em cada estação e lá permaneciam durante semanas antes do regresso a casa.
Após a chegada aos Bancos, as tripulações ancoravam os seus barcos em locais favoráveis e lançavam os dóris à água. Estes pequenos barcos levavam dois ou três camaradas, os quais pescavam ao bacalhau usando linhas de mão, rileys e linhas de trol. Os pescadores abandonavam a embarcação-mãe todas as manhãs, remavam até vários leitos de pesca e regressavam ao navio durante o dia para descarregar a apanha. Também limpavam o peixe, escalavam e salgavam.
Os pescadores que pescavam nos Bancos faziam face a numerosos perigos. Temporais e tempo mau ameaçavam as escunas e outras embarcações dos Bancos, enquanto os tripulantes dos dóris se arriscavam a perder-se nos nevoeiros e temporais. Grandes navios transatlânticos também frequentavam os Bancos e podiam inadvertidamente virar ou afundar dóris e escunas em tempo enevoado. As condições de vida e espaço a bordo eram quase sempre mínimas e quaiquer tripulantes feridos ou doentes tinham de esperar até o regresso ao porto para receber atenção médica.
A pesca do largo foi proveitosa durante os 1880s e atingiu o pico em 1889, quando 4.401 pescadores da Terra Nova e Labrador pescaram mais de 12.000 toneladas de bacalhau. A indústria entrou em declínio nos 1890s e as descargas continuaram a diminuir. Em 1920, muitas comunidades já haviam parado com a pesca nos Bancos completamente.
 
Traduzido em parte do artigo de Jenny Heggins, 2007 – Newfoundland and Labrador Heritage Web Site.


publicado por cachinare às 07:49
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