Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007
O bacalhoeiro “Marité”.
O Marité é um lugre-patacho bacalhoeiro francês de 3 mastros em madeira, considerado o último “terre neuvier” (designação francesa para os navios destinados à longa pesca na Terra Nova) que resistiu até aos nossos dias. Eis um pouco da sua história: o seu nome deriva de “Marie-Thérèse”, filha do armador Le Borgne, tendo sido construído e lançado à água em Fécamp no ano de 1923. Fécamp é terra desde sempre ligada à pesca na Alta-Normandia, face ao Canal da Mancha. Após 6 campanhas de pesca ao bacalhau na Terra Nova e ultrapassado pelos novos navios de casco em aço, é vendido a um dinamarquês; começa pois uma longa e triste vida errante para o navio. Primeiramente faz cabotagem nas ilhas Faroé e mais tarde por força da guerra é requisitado para o transporte de materiais diversos, perdendo a mastreação. Esquecido no canto de um porto, é reparado por jovens suecos que reparam nele em 1978 e dão início ao seu restauro em Estocolmo, baseando-se nos planos originais. O trabalho duraria mais de 10 anos, no entanto, os seus esforços são recompensados e o Marité navega de novo, atravessa o Atlântico e ganhando mesmo a corrida de grandes veleiros de 1992. Já um pouco mais velhos, os seus proprietários suecos colocam o navio à venda em finais dos anos 90. Gérard d´Aboville adquire-o e inicia contactos com potenciais parceiros franceses para fazer regressar o Marité à Normandia. A vila de Rouen mobiliza várias parcerias e o preço é acordado em 2,4 milhões de euros, total que englobou compra e restauro completo. É pois em Rouen o seu porto de acolhimento e onde recebeu novamente o pavilhão francês. Em 2005 foi de novo para doca-seca para novos restauros.
É interessante ter descoberto que existe um último destes bacalhoeiros franceses recuperado e a navegar, comparando-o em significado ao português Gazela Primeiro, embora o “nosso” (agora americano) bem mais antigo em idade e na Faina do bacalhau durante pelo menos 70 anos. Digo interessante, porque vários lugres e navios da nossa frota bacalhoeira eram adquiridos (a maior parte deles em 2ª mão) no estrangeiro já desde o séc. XIX em países como a França, Escócia, Dinamarca, Suécia ou Inglaterra. A descoberta destas coisas, por vezes faz-me pensar se teremos sempre razão quando dizemos que em Portugal não sabemos manter a nossa história viva. Focando especificamente a Faina Maior, seus navios e pescadores, não nos faltam hoje várias publicações sobre o assunto e quanto a navios... o Creoula, futuramente o Santa Maria Manuela o Gil Eannes, o Santo André e sob pavilhão estrangeiro o Gazela Primeiro e o antigo Argus. Pode-se pois dizer que até nem está muito mal a memória dos bacalhoeiros portugueses, comparando com as “super-potências” nas bocas-do-mundo onde tudo é sempre bem feito mas muita coisa fica debaixo do tapete. Que eu saiba, em portugal metemos sardinha e outros peixes em latas, mas nunca o bacalhau... ao contrário de certas “super-potências”.
O Marité é um navio belíssimo (só não gosto do suporte que lhe puseram na popa) e é de louvar todo o trabalho e custo que tiveram para recuperá-lo. Em Portugal não resistiu nenhum dos lugres ou navios em madeira, o Gazela porque o vendemos (caso contrário até se teria perdido por abandono), o Capitão Ferreira está a apodrecer no Talaminho-Seixal, o Novos Mares anda em pedaços por Aveiro, um sem-número afundou ou ardeu durante tantos anos... Pode ser que daqui a 500 anos se faça uma réplica fiel do “Aviz” ou do “Oliveirense” ou do “Dom Deniz” ou do “Adélia Maria” ou do “Brites”... obras de arte sem igual dos Mestres Mónica e a maior prova de agradecimento e monumento que se lhes podia fazer: um dos seus lugres renascido, a navegar e a ensinar. É pena ter de esperar 500 anos como foi para a caravela ou nau de Vila do Conde. A isto voltarei num futuro post. Descubram pois um pouco do "Marité".


publicado por cachinare às 15:09
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