Sábado, 23 de Agosto de 2008
Nos Porões da Memória.

«A memória das grandes sagas do trabalho no mar só serão menos frágeis e mais plurais se as suas narrativas partilhadas no espaço público se alimentarem de testemunhos subjectivos e visuais.
As fotografias obtidas nos interstícios das fainas do bacalhau, ora destinadas ao acto íntimo de recordar, ora vertidas em longos álbuns compostos com uma certa intenção documental, confirmam a natureza fortemente visual das culturas marítimas. Muitos foram os tripulantes das frotas bacalhoeiras que se deram ao gosto de fazer fotografias do estranho mas belo mundo em que se moviam. Não poucos "oficiais" e alguns pescadores fotografavam em silêncio, quais actores efémeros de uma vida que sabiam extraordinária e condenada aos rituais da recordação, ao arquivo nos "porões da memória"...
Esta exposição reúne três conjuntos de fotografias propositadamente diversos: um capitão, um piloto e um enfermeiro partilham imagens de sua própria autoria, fragmentos de uma vida cruel que ainda assim recordam com saudade!»

 
Álvaro Garrido
Director do Museu Marítimo de Ílhavo
 
João Laruncho de São Marcos.

«Natural de Ílhavo, nasceu em 1919, no seio de uma família com remotas ligações às fainas marítimas, tendo em seu pai a figura tutelar do marinheiro experimentado pelas provações e sacrifícios da vida no mar.
Após completar a instrução primária, procura trilhar um caminho que o afaste das lides do mar. Aos 12 anos, frequenta, à noite, a Escola Comercial Fernando Caldeira, em Aveiro.
O sentido de responsabilidade, que marcará para sempre a sua personalidade, leva João São Marcos a procurar soluções imediatas que trouxessem conforto à sua família. Nesse sentido, sem o revelar a ninguém, faz admissão à Escola Náutica, tornando-se marinheiro dois anos depois (1939), vindo a embarcar como imediato no lugre “Islândia”, em viagens pelo Mediterrâneo, em plena Segunda Guerra Mundial. Em 1943, embarca no navio-motor “São Ruy”, onde faz a sua primeira e única campanha numa embarcação de pesca à linha - tipo de pesca que considera "artesanal". Em Outubro de 1945, ingressa na Empresa de Pesca de Aveiro, à qual ficará ligado, directa ou indirectamente, durante 57 anos. Ao serviço da EPA comandou vários arrastões, como o “Santa Joana”, o “Santa Mafalda” e o “Santo André”. Neste último navio, que comanda entre 1952 e 1962, com algumas pausas de permeio, adquire fama de "campeão da pesca", título que o próprio atribui ao estudo persistente e à vontade indómita de pescar sempre mais. As imagens que aqui se mostram evocam essas primeiras viagens e as pescarias fartas nos mares gelados da Terra Nova e Gronelândia.»

Artur Seabra Oliveira.

«Artur Fernando Mendes Seabra de Oliveira nasceu em Penafiel a 1 de Junho de 1938.
À semelhança de outros pilotos que igualmente se deram ao prazer de fotografar, a pesca do bacalhau foi pouco mais do que um parêntesis na sua vida de mar. Ciente da sua preparação como oficial da Marinha Mercante, experimentou diversas classes de navios, quase sucessivamente.
Em 1960 fez o seu primeiro embarque no navio de passageiros “Quanza”, um dos mais emblemáticos da Companhia Colonial de Navegação, no qual cumpriu duas viagens. De seguida, experimentou os petroleiros: ainda em 1960 fez uma viagem no “Erati”, da Soponata. Depois foi para os Carregadores Açorianos, onde andou em navios velhos, sem radar e sem girobússola… Na mesma companhia fez a “linha da América” no “Açores”, a sua última viagem antes de ir ao bacalhau.
Nas campanhas de 1963 e 1964 foi de Piloto no navio-motor de pesca à linha, “Capitão João Vilarinho”. Ficou em terra, a descansar e a meditar, durante o ano de 1965. Voltou à pesca do bacalhau no ano seguinte, como Imediato do lugre “Avé Maria”, com o capitão Manuel Machado.
Decidira que aquela seria mesmo a sua última viagem, uma viagem para mais tarde recordar, fosse qual fosse a memória que dela viesse a fazer. Numa arribada no portinho de Frederikshåb, na costa oeste da Gronelândia, tratou de arranjar uma boa máquina fotográfica. Acabou por obter uma moderna Yashika Lynx-5000 de 1966, que trocou por uma garrafa de wisky Vat69 que trouxera de Lisboa com essa precisa intenção.»

João Cruz.

«João Domingues Cruz nasceu na Marinha Grande a 24 de Fevereiro de 1941.
Quando trabalhava em Lisboa como enfermeiro, logo após ter concluído o curso, decidiu inscrever-se nos serviços de saúde do Grémio da Pesca do Bacalhau a fim se fazer tripulante de navios bacalhoeiros. O que ouvira de outros enfermeiros sobre as vantagens económicas da “grande pesca” e a possibilidade de escapar à “Guerra do Ultramar” ao fim de sete campanhas consecutivas nos mares da Terra Nova e Gronelândia, motivam a sua inscrição no Grémio. 
Em 1960, embarca pela primeira vez. A amizade que estabelece com os capitães do “Rio Antuã”, o Capitão Marcelo, primeiro, e o Capitão Francisco Paião, na viagem seguinte, fazem dele o enfermeiro com maior número de campanhas a bordo do navio-motor.
No “Santa Mafalda” vive o episódio mais dramático que guarda da sua vida no mar: um naufrágio à saída da barra de Lisboa.
Após abandonar a pesca e os navios, completa o tempo necessário para escapar à Guerra na sede dos serviços de saúde do Grémio, em Lisboa. Tem como principal tarefa prestar assistência médica às mulheres que trabalham na seca de bacalhau do Seixal.
Logo que termina a sua vida de mar emigra para a Suíça, onde exerce a profissão de enfermeiro durante cerca de trinta anos. A pesca do bacalhau revela-se uma preciosa experiência profissional.
O álbum de fotografias que fez durante as suas viagens ao Atlântico Norte conta algumas histórias dessa sua curta, mas inesquecível vivência.»
 
Texto integral no Museu Marítimo de Ílhavo online.
 
 
Uma das razões pela qual a Pesca do Bacalhau me fascina é o facto de, como muitos dizem, ter sido “uma vida cruel, mas que deixou saudade” e o facto de ter tido pai, avô, tios e vizinhos como parte desta epopeia aumenta ainda mais o fascínio.
Cada vez mais admiro o Museu Marítimo de Ílhavo por ser bandeira estandarte deste tema em Portugal e pelos seus directores, passados e presente (Dr. Álvaro Garrido) que não páram de trazer o tema ao público em diversas formas. Julgo que a tendência é sempre para continuar a aumentar e o renascer do lugre “Santa Maria Manuela” será um grande aliado.
A expressiva foto de apresentação da exposição, mostra uma navio a chegar da campanha de 6 meses de pesca, com os porões bem cheios de bacalhau... e de memórias. Não consegui descortinar o nome do navio, da mesma classe do “Novos Mares” onde o meu pai andou e deixa-me a pensar se não será o próprio.
 
Mais uma vez lamento o facto de não estar em Portugal... .


publicado por cachinare às 12:12
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2 comentários:
De jaime pontes a 10 de Fevereiro de 2009 às 01:52
Olá amigo António,é com grande prazer que acompanho todo o estórial dos lugres ,e dos navios bacalhoeiros e seus afins .A foto da exposição de apresentação ,é o Novos Mares ,julgo não ter dúvidas sobre isso .Falar sobre Ílhavo é como falar sobre Memórias ,não hà dúvidas que ainda é na Cidade de Ílhavo que se encontra ,algo sobre os Lugres navios bacalhoeiros e pescadores dos Dorys ,bém haja a todos que memorizam e homenageiam os nossos Capitães, pescadores, e todos que embarcaram nos Lugres e Navios bacalhoeiros ! Nós cá ém Vila do Conde nunca ninguém se lembrou que foi cá de Caxinas que saiú para a pesca do bacalhau a maioria de pescadores ,más não me admira nada isso ,porque ém Vila doConde quém nos governou e govérna não reconhessem nenhum valor ,não hà vestigios nem sinais de alguém que se lembre de hómenagear os grandes pescadores bacalhoeiros que noutros tempos deram vida e louvores a Vila do Conde ,pelo contrario hoge fala-se com os mais velhos pescadores aqui nas caxinas e quando lhes lembram o bacalhau a maioria encolhe os ombros porque se esqueçeram de tudo o que passaram ,não há nada aqui nas caxinas que faça recordar os mais novos que caxinas foi de onde sairam para a pesca do bacalhau a maior parte de pescadores ainda no seculo -19-até os fins dos bacalhaus ,más ainda estou cá para ver essa homenangem ressurgir ném que seja em dia de nevoeiro .!Falar dos velhos pescadores bacalhoeiros e outros que miseria, que horrores,más ainda hoje ninguém se entereçou pelos nossos reformados velhos cansados ,morrerem com um prato aos pés... comprimentos a todos um abraço Saúdações Maritimas .Jaime Pontes.


De Joao Cruz a 24 de Maio de 2015 às 23:08
Encontrava-me a bordo do navio da imagem. A pessoa que acena para o navio era uma minha Familiar. Trata-se do navio Rio Antuā, onde fui durante 7 campanhas Enfermeiro (1960 a 1967) Espero ter contribuído para esclarecer a dúvida.Toca-me profundamente o interesse pelo tema até porque tive pescadores que muito apreciei e que recordo com saudade, das Caxinas.
Grato, ao vosso dispôr, com amizade João D. Cruz


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