Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008
Os “Arrantzales”, senhores do mar.
Até ao séc. XVIII, os Bascos monopolizaram a indústria do bacalhau salgado. Os Bascos estiveram entre os primeiros Europeus a atravessar o Oceano Atlântico. Em finais do séc. XIV, foram eles que deram com a ilha da Terra Nova. Este factor garantiu-lhes pesca abundante e a base do seu produto comercial mais importante – bacalhau salgado – durante os próximos 600 anos.
Os pescadores, “arrantzales” na língua Basca e “bacaladeros” em Castelhano, largavam de San Sebastián, Pasajes, San Juan de Luz, Bilbao e Zibur em Março e Abril para regressarem em Outubro das costas do Labrador, Islândia e Irlanda. Levavam consigo carne seca salgada e outros produtos para troca na sua longa viagem, voltando com a apanha de bacalhau salgado e baleia. Naquela altura, a competição com as frotas rivais Holandesas e Inglesas era dura. Até ao séc. XVIII, os Bascos mantiveram o seu monopólio da indústria de bacalhau salgado em parte porque tinham uma grande vantagem com as suas enormes reservas de sal.
Após a descoberta da Terra Nova, navios Bascos continuaram a velejar até ao Canadá e Gronelândia. Esta intensa actividade de pesca e os estaleiros navais que a suportavam, tiveram o seu pico no séc. XVII. Entre 40 a 80 navios de 100-300 toneladas largavam do porto de Bayonne todas as estações e nessa altura eram crca de 4.500 os pescadores do País Basco Francês no mar. Os marinheiros de San Juan de Luz, que pescavam principalmente na Terra Nova, estableceram o comércio do bacalhau salgado em Bilbao. As mulheres estavam encarregues da descarga e armazenamento enquanto os homens pescavam no mar aberto. Em 1645, existiam 721 pescadores em San Juan de Luz e 40 anos mais tarde eram já 3.000 num total de 54 navios.
Em 1713, com o Tratado de Utrecht, o monopólio Basco do bacalhau salgado terminou e este comércio passou para as mãos dos Ingleses. O tratado garantia aos Bascos o direito à pesca, arranjo e seca do bacalhau na Terra Nova, mas a pressão dos Ingleses e numerosas disputas forçaram os Bascos a mudar-se para outros portos, especialmente na parte Russa da Península de Kola. No séc. XX, os Bascos continuaram a pescar bacalhau mas a apanha tornou-se progressivamente menor. Em 1962, um padre, Alberto Garate, decidiu mudar-se com os pescadores do porto de Pasajes, onde a empresa P.Y.S.B.E. tinha a sua sede, para Santier na ilha da Terra Nova, onde viriam a construír o santuário de Stella Maris para os últimos pescadores Bascos no activo.
Os bacalhoeiros da P.Y.S.B.E. levavam 10 a 11 dias para chegarem aos leitos do bacalhau. A faina tinha lugar a cerca de 45 metros das praias e a 300 das arribas. Uma vez os navios chegados aos baixios, lançavam as redes e arrastavam por 3 ou 4 milhas, apanhando todo o peixe no seu caminho. O processo de arrasto durava cerca de 2 horas. Quando a rede estava cheia, o navio era parado e içavam a rede. Isto era levado a cabo várias vezes ao dia, sem paragem. Entre cada largada da rede, os salgadores preparavam o peixe, primeiro cortando as cabeças e depois escalando o bacalhau, empilhando-os por fim uns nos outros com uma camada de sal. Este foi o último grupo de pescadores verdadeiramente significativo. Gradualmente, Bascos e Espanhóis foram excluídos das pescas no estrangeiro. Quando o limite territorial foi alargado às 200 milhas, todo o território do bacalhau do mundo lhes ficou proibido. As grandes companhias de bacalhau salgado, que eram as proprietárias das grandes frotas de arrastões estão agora encerradas. A Trueba y Pardo de Bilbao fechou nos anos 60 e a P.Y.S.B.E. já não existe.
Nos anos 90, apenas uns poucos velhos arrastões deixaram os portos. Hoje, os Bascos mudaram de ofício e em vez de pescar e processar bacalhau, importam-no, particularmente da Islândia, mas também das Ilhas Faroé, Noruega e Dinamarca.
 
Tradução do artigo de Mikel Zeberio Torrontegi.

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publicado por cachinare às 08:21
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