Domingo, 14 de Setembro de 2008
As razões de uma “Frota Branca”.

Durante os quase 6 anos da II Guerra Mundial, os marinheiros Portugueses continuaram a sulcar os mares fosse na marinha mercante, frota de pesca ou mesmo marinha de guerra. Com trágicos ataques a verificar-se contra os seus navios e para prevenir mais infortúnios, o governo de Portugal formalizou às partes beligerantes em 1942 um pedido de neutralidade para com os navios de pesca ao bacalhau, principalmente os veleiros, embora muitos dos lugres e novos navios incluíssem já motor e arrastões já fizessem parte da frota desde 1936, como o “Santa Joana” ou o “Santa Princesa”.

Sobre os inícios da pesca do bacalhau por arrasto em Portugal, esta verificou-se em 1909, quando o iate “Élite” seria o primeiro arrastão bacalhoeiro, mais tarde durante a I Guerra transformado em draga-minas de nome “Augusto de Castilho” e afundado pelo submarino Alemão U-139 perto dos Açores durante a escolta ao navio de passageiros “São Miguel”. Perderam-se 6 vidas das 42 a bordo.
Foi então acordado em 1942, com as forças Aliadas e acima de tudo com as forças do Eixo, que a frota de pesca ao bacalhau, composta por cerca de 45 navios, partiria em Maio em duas partes separadas de cerca de 20 navios cada, com comunicação de rádio-telefone/TSF restrictas excepto em caso de emergência máxima. Ambos os comboios de navios seriam comandados por dois oficiais de marinha embarcados respectivamente em dois navios de apoio.
Decidiu-se de igual modo pintar de branco os cascos dos 45 navios, envergando a bandeira de Portugal, nome e nacionalidade em grandes dimensões e durante a noite, deveria esta informação estar iluminada. Esta seria a forma primária de reconhecimento às partes beligerantes. Devido à côr branca dos cascos, os quais até então eram de diferentes cores, consoante os armadores a que pertenciam, a frota de pesca ao bacalhau com dóris (na sua maioria) passou a ser conhecida nos gelados mares do Atlântico Norte como a “Frota Branca” (“White Fleet”), designação que se manteria até ao seu fim nos anos 70. Existiam no entanto já cerca de 1940 alguns navios em côr branca e marcas da neutralidades. A exemplo hoje em dia, o antigo bacalhoeiro “Creoula” (hoje navio de treino) e o antigo “Argus” (hoje Polynesia II) de 1937-38 a 1942 eram vermelho sangue-de-boi com uma faixa amarela na linha de água, pasando depois ao branco actual.
O 1º comboio, composto pelos navios mais velozes, largava da baía de Cascais com o navio-hospital a vapor de apoio “Gil Eannes” (o antigo) à frente e o 2º comboio, de navios mais lentos era comandado pelo então novo navio-motor em aço “São Ruy”. Estes juntavam-se já no mar aos navios da frota à vela de 3 e 4 mastros. Como o “Ana Maria” e “Paços de Brandão” vindos da Foz do Douro no Porto e o “Júlia Primeiro” vindo da Figueira da Foz.
Durante a travessia do Atlântico, que levava por vezes mais de 30 dias devido à falta de vento, os navios a motor, mais rápidos, eram obrigados a reduzir a marcha de modo a esperar pelos mais lentos. Alguns lugres separavam-se por vezes dos comboios devido a temporais. Nestas ocasiões, os navios de apoio enviavam via rádio-telefone/TSF avisos aos beligerantes de modo a salvaguardar os navios afastados. De novo com bom tempo, todos os navios voltavam à sua formação, de acordo com o número da posição atribuído à partida no porto. Numa ou outra campanha, todo o comboio teve de regressar a Cascais devido a danos ou entrada de água e depois das reparações voltavam todos em formação a fazer-se rumo a noroeste.
Alcançados os Grandes Bancos da Terra Nova ou águas da Gronelândia, os comboios recebiam ordens para dispersar e seguir a habitual rotina de pesca, onde os capitães já podiam comunicar uns com os outros via rádio-telefone. Após estar completa a campanha de cerca de 6 meses, o procedimento era o mesmo, em formação de 2 comboios, porões cheios ao máximo possível de bacalhau salgado, dirigindo-se até à posição exacta do seu número e todos juntos rumo aos seus portos de abrigo em Portugal. Com este sistema, os navios da Frota Branca Portuguesa não tiveram mais problemas com ataques até ao fim da guerra.
Do trabalho de Alan Villiers “A Campanha do Argus”, surgem os seguintes relatos, em transcrição:
--- “No ano de 1942, quarta campanha, o “Argus” partiu de Lisboa a 21 de Maio e devido à guerra não aportou em Ponta Delgada, Açores, onde habitualmente embarcava pescadores locais. Abordado em viagem pelo navio-patrulha HMS “F.M. Phillips”, o seu comandante não teve dúvidas e a 6 de Junho o lugre-motor estava já nos Grandes Bancos. Nesta campanha pouco se deteve pelos Bancos e a 9 de Junho entrou no porto de North Sidney na Nova Escócia para embarcar isco. Por certo se arrependeu da decisão, pois lá permaneceu até 23 de Junho devido às más condições do isco local. Esteve em pesca desde 22 de Julho até 3 de Setembro no Estreito de Davis, periodo no qual encheu os porões de peixe. – (durante a guerra não havia arrastões a pescar no Estreito de Davis e o bacalhau era abundante) - . Largaram do Banco de Store Hellefiske, Gronelândia a 3 de Setembro, passando por Ponta Delgada a 17 e ancorando no estuário do Tejo em Lisboa a 22, numa campanha total de 4 meses e 1 dia.
--- No ano de 1943, quinta campanha, o “Argus” içou âncora de Lisboa a 31 de Maio, incorporado num dos dois comboios. Estava ainda imposto o sistema de comboios, de modo a manter possível que os navios Portugueses operassem, sendo as partes beligerantes informadas antecipadamente sobre a organização e dispersão. Os navios-motor e escunas mais potentes seguiam directamente para os leitos de pesca do Estreito de Davis e os lugres mais pequenos para os Grandes Bancos. Não aportavam a qualquer porto. O “Argus” alcançou o Estreito de Davis a 23 de Junho, onde pescou até 8 de Setembro, data em que estava de carga cheia. De regresso ao rio Tejo em Lisboa, ainda em comboio, dava entrada a 4 de Outubro, depois de 4 meses e 4 dias de campanha.
--- No ano de 1944, sexta campanha, o “Argus” deixou Lisboa em comboio a 17 de Maio, alcançou o Estreito de Davis a 8 de Junho onde pescou até 9 de Setembro, numa ausência total de casa de 4 meses e 14 dias.
--- No ano de 1945, sétima campanha, o “Argus” partiu de Lisboa a 30 de Abril em comboio, sendo este o último comboio efectuado pelos navios da pesca do bacalhau. Chegou aos Grandes Bancos a 15 de Maio e lá pescou até 13 de Junho. Seguiu depois directamente para a Gronelândia onde pescou no Estreito de Davis de 23 de Junho a 24 de Agosto, altura em que tinha carga cheia. De volta a Lisboa a 12 de Setembro, a campanharia seria de 4 meses e 13 dias”.
A guerra terminava a 5 de Maio de 1945 com a rendição da Alemanha Nazi, voltando as rotas marítimas à normalidade e terminando a ameaça dos submarinos, particularmente dos temidos U-boots (submarinos), mas permanecendo ainda algum perigo derivado das minas.
Durante o periodo de conflito, dois lugres de pesca ao bacalhau Portugueses seriam barbaramente atacados e afundados por U-boots em 1942: os lugres-motor de 3 mastros “Maria da Glória” e “Delães”.


publicado por cachinare às 18:27
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