Terça-feira, 23 de Setembro de 2008
Ecos do “Santa Maria Manuela” em St. John´s, Terra Nova.

«Basta ouvir as palavras “Frota Branca” e é o suficiente para recordar agradáveis memórias de infância a muitos dos velhos habitantes de St. John´s.

De 1504 até Julho de 1974, centenas, mesmo milhares de pescadores Portugueses vieram a terra em St. John´s todos os anos.
Trabalhavam em espaços apertados nos seus navios de pesca, famosos pelos seus cascos completamente brancos. Eram uma aparição benvinda por todos os curiosos que os observavam e se maravilhavam à sua destreza com uma bola de futebol no cais. Ainda mais curioso para alguns, era o à vontade que tinham por vezes em se atirarem do cais à água a recuperar uma bola fugida, ignorando ou esquecendo a água poluída.
Os marinheiros eram também visita frequente ao Bannerman Park das proximidades, a disfrutar do Sol de Verão quendo de folga, ou a lavar as roupas na água do riacho que corria das Southside Hills. Era comum presenciar as roupas dos pescadores penduradas a secar em locais próximo das Narrows.
Muitos consideravam os pescadores Portugueses bem parecidos e amigáveis, quando andavam em grupos pelas ruas da baixa, de sorrisos cativantes o suficiente para quebrarem a barreira da língua.
Algumas destas cenas podem tornar-se realidade de novo no próximo ano se os planos de um comerciante de pescado Português se vierem a compôr.
Aníbal Paião, um dos detentores da companhia de pesca Pascoal & Filhos, está a restaurar um navio da Frota Branca. A companhia pretende fazê-lo navegar até à Terra Nova.
“É nossa intenção, seja estrictamente por razões de negócios com companhias Canadianas, ou por razões culturais a celebrar, manter e desenvolver o nosso antigo relacionamento com o Canadá, em particular com a Terra Nova e planear uma viagem a St. John´s”, referiu Paião ao “The Telegram”.
A recuperação do navio, de nome “Santa Maria Manuela”, está na fase inicial. A companhia planeia alugá-lo para negócios ou recreio em Portugal. Essa parte está já decidida. Ainda não há data para navegar de novo através das Narrows, mas Paião claramente gostaria de o ver acontecer.
“Um regresso, celebrará a fantástica e épica história da pesca ao bacalhau nos Grandes Bancos pelos Portugueses e a muito boa relação entre o povo Português e o Canadiano”, afirmou Paião.
De acordo com o profissional de hotelaria e historiador Jean Pierre Andrieux, o “Santa Maria Manuela” é um dos três navios da Frota Branca construídos antes da 2ª Guerra Mundial que ainda hoje sobrevivem. Os outros dois são um navio de passageiros nas Caraíbas e um membro da Marinha Portuguesa. Todos os três são navios gémeos.
O “Santa Maria Manuela” foi construído em 1937 e navegou como parte da Frota Branca até ser parcialmente desmantelado em 1994.
O destino da Frota Branca ficou selado quando Portugal aderiu à União Europeia em 1986 e concordou com a demanda da União em reduzir o número de embarcações na sua frota de pesca. Aos armadores de navios foi oferecido dinheiro para abaterem os seus barcos. Contudo, intensas movimentações por parte de conhecedores da Frota Branca salvaram o “Santa Maria Manuela” da destruição completa e a União concordou em fazer dele uma excepção.
Ainda assim, somente o casco sobreviveu. Manteve-se como uma “banheira” metálica durante 10 anos até a Pascoal & Filhos o adquirir e iniciar o seu restauro ao nível da sua glória inicial. A reconstrução desenvolve-se neste momento na Gafanha da Nazaré, Portugal.
“É importante notar,” disse Andrieux, “que o Aníbal (Paião) descende de uma família de bem conhecidos capitães da Frota Branca Portuguesa. O seu avô, pai e tio eram todos afamados capitães desta frota. Este grande projecto, cheio de riscos financeiros devido à sua magnitude, é na minha opinião um legado à tradição da sua família de pescadores”.
Paião referiu que a sua companhia ainda pesca com dois navios no Atlântico Norte, mas maioritáriamente compra e processa bacalhau.
O “Santa Maria Manuela” levará mais de um ano a reconstruír e levará ainda mais tempo para planear uma viagem à Terra Nova, mantendo-se a Frota Branca na memória... por agora.»
 
por Peter Walsh.
The Telegram” - St. John´s – 31/05/2008.
Foto incluída no mesmo artigo.
 
Esta notícia com cerca de dois meses num jornal de St. John´s, demonstra a realidade das memórias que a Frota Branca e os homens que a compunham deixaram nas gentes desta terra.
A vontade que demonstram em ver de novo um daqueles míticos navios no seu porto é grande, o que já aconteceu em 1998 com o “Creoula”. Admitindo que o “Santa Maria Manuela” recuperará muitas mais das características (e aparência) de pesca do seu passado, ao contrário do “Creoula” que as perdeu como navio da Marinha, a sua entrada em St. John´s seria ainda mais especial para eles e para nós. Acredito que esse dia virá, como diz o autor do artigo, dentro de alguns anos, pois só a recuperação, a meu ver levará bem mais do que um ano como refere.
Há muitos anos que tenho em mente um dia fazer uma viagem a St. John´s com o meu pai, para ver aquele sítio a que tantas vezes se referia quando eu era miúdo. Lá teria de ser de avião, mas sempre o idealizei de barco, para poder presenciar a entrada nas Narrows. Entretanto surgiu a recuperação de outro dos navios da Frota Branca, o “Santa Maria Manuela” e os seus propósitos bem ligados à população parecem prometer oportunidades que até há um ano atrás eram inexistentes. Uma delas é realmente viajar até à Terra Nova num bacalhoeiro real e numa viagem de aprendizagem e memória histórica.
Porque não fazer disto uma viagem anual, com paragem nos Grandes Bancos para pôr os “verdes turistas” dentro de dóris a experimentar a pesca do bacalhau à linha ou à zagaia? Pô-los à partida de Aveiro a preparar aprestos de pesca, dóris e palamentas, a aprender a vida do convés e toda a sua parafernália de detalhes diários num navio de pesca à vela. Pô-los mais tarde a cortar isco, a escalar e a salgar bacalhaus, a cortar as cabeças e línguas, a separar fígados, a saborear a sopa da chora e a ouvir os Louvados às 4:30 da madrugada. Vejo-a como uma viagem toda ela a imitar muito do que se passava numa campanha de pesca do passado, com a diferença de ser bem mais curta, com outros confortos a bordo e provavelmente sem se ter permissão para pescar muitos bacalhaus (com a devida autorização das autoridades do Canadá).
Veremos quando a pretendida por muitos viagem a St. John´s se realizará, mas gostaria que fosse bem breve e não apenas uma, para poder fazê-la ainda junto com o meu pai, vendo muito do que o meu avô viu durante 9 campanhas a bordo deste lugre que renasce.


publicado por cachinare às 08:22
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