Terça-feira, 30 de Setembro de 2008
USS “Sea Cloud” e os náufragos do lugre-motor “Maria da Glória”.

«O “Sea Cloud” foi construído em 1931 nos estaleiros Krupp em Kiel na Alemanha de acordo com os planos dos contractores de nomeada Americanos Gibbs & Cox. Após o seu lançamento à água na última semana de Abril desse ano, o maior yacht à vela privado até então recebia o nome de “Hussar”.

Sendo o maior yacht à vela jamais construído, esta barca de 4 mastros fora comissionada por um dos homens de negócios mais abastados de Wall Street, E.F. Hutton. A sua esposa, Marjorie Merriweather Post, herdeira de uma enorme fortuna e ela própria mulher de negócios de sucesso, desenhara o yacht de luxo na altura com casco negro completamente a seu gosto e preferência.
Dedicou cerca de dois anos exclusivamente para esta tarefa. Alugando um grande armazém em Brooklyn, instalou um grande diagrama em tamanho real do interior do navio e nele posicionou cuidadosamente antiguidades tal como deveriam estar na sua e outras 6 cabines de luxo.
O propósito da construção do “Hussar” era levar os Huttons e o seu luxo a todos os lugares onde sentissem a sua presença pretendida, fossem por razões representativas de negócios ou simplesmente o prazer de viajar e da aventura. O “Hussar” passava pelo menos 9 meses do ano no mar e os Huttons tomavam rotas tão exóticas quanto as Ilhas Galápagos, Hawaii e Mediterrâneo.
Contudo, a doce vida sobre brancas velas seria em breve abalada, pois o casal iniciaria um processo de divórcio que finalizaria em Agosto de 1935. Um dia após o divórcio, Ed Hutton colocava o “Hussar” em nome da sua ex-mulher, a qual adorava o navio acima de tudo. Como que em retoque final aos seus já dois casamentos falhados, Marjorie alterou o nome ao yach, registando-o sob o nome “Sea Cloud”.
Depois da conturbada separação, Lady Marjorie depressa encontrou conforto no seu velho amigo Joseph E. Davies, um advogado de sucesso que servira como conselheiro económico ao Presidente Wilson durante as negociações de paz em Versalhes após a I Guerra Mundial. Por Dezembro de 1935, a vida de Marjorie tomava uma nova direcção, passando não só a estar envolvida nos círculos de poderosos homens de negócios, mas também nos da política e diplomacia.
Nos inícios de 1937, Davies tomava o cargo de embaixador Americano em Moscovo e o “Sea Cloud” era agora chamado a Leningrado no papel de palácio-flutuante diplomático (quase sem vigilância) e os deveres sociais do navio continuavam a aumentar. Marjorie sabia bem como socializar nos meios diplomáticos. Sovietes proeminentes de bom grado aceitavam os seus convites para presenciarem o estilo de vida luxuoso do Ocidente. Mesmo várias coroas reais estiveram a bordo do “Sea Cloud”, incluindo a Raínha Elisabete da Bélgica. Contudo no decorrer do tempo, as viagens a Leningrado tornavam-se mais perigosas devido ao aumento de vasos de guerra nas águas do Leste Europeu. Em Junho de 1938 o “Sea Cloud” dizia adeus à U.R.S.S. e velejava para Istambul.
Hoje em dia a maioria das pessoas a bordo do navio não faz ideia do que significa uma pequena placa de 5 listas na fronte da casa do leme. Só alguns sabem que cada lista corresponde a meio ano de serviço militar activo para os E.U.A. durante a II Guerra Mundial. O acto patriótico de Lady Marjorie e do seu terceiro marido Joe Davies é normalmente referido como um heróico “sacrifício”, pois o “Sea Cloud”, em lugar de um filho iria para a guerra. Na verdade, o casal tentara vender o navio pouco antes dos E.U.A. entrarem na guerra, mas por esta altura, o mercado para este tipo de luxos havia colapsado.
Os E.U.A. entraram na guerra com o ataque a Pearl Harbor nos finais de 1941. Pouco depois a Marinha começava a comissionar yachts privados de modo a reforçar a frota iniciando-os na patrulha, busca de submarinos e monitorização meteorológica. O presidente Franklin D. Roosevelt, amigo chegado do diplomata Davies, ao princípio rejeitou “serviço militar” para o “Sea Cloud”, afirmando que tamanho yacht era demasiado bonito para ser convertido militarmente. Mas por alturas de 1942 os E.U.A. não se podiam já dar a tais conformidades. Simbolicamente comissionado por 1 dólar, a Guarda Costeira adquiriu o “Sea Cloud”, removeu os mastros (excepto 1 para antena) e gurupés e pintou o navio de cinzento. Pouco restava agora do impressionante yacht de luxo. Aparelhado com armas de tiro e anti-submarino, passou a cruzar as águas próximas dos Açores e Sul da Gronelândia, sob a designação IX-99. Como estação meteorológica flutuante, o navio enviava dados para Arlington, Virgínia de 4 em 4 horas.
Enquanto que todos os outros proprietários de yachts perderam os seus navios na guerra ou os venderam à Marinha, o “Sea Cloud” era o único da sua classe ainda a navegar no final da guerra. A 4 de Julho de 1946, Joe e Marjorie juntamente com 7 amigos, rumaram para a costa da Florida. O yacht teve de se desenrascar sem os mastros, mas fora agora pintado de branco brilhante e a águia dourada de outrora adornava de novo a proa. No Verão de 1947 todo o aparelho original foi reposto e em 1949 o navio recebeu velas novas, o que mesmo para milionários, não era fácil de conseguir no pós-guerra. A reconstrução do “Sea Cloud” levou cerca de 4 anos a terminar e Marjorie retomava o “comando” do seu navio, re-entrando de novo nos círculos altos da sociedade. O maior e mais bonito yacht da América navegava principalmente na costa Leste dos E.U.A. e Joe Davis, que sofria de enjoo-de-mar e não tinha de explorar “águas desconhecidas”, podia agora concentrar-se nas suas amizades, como a do ditador da República Dominicana Rafael Leonidas Trujillo. O ditador ia a bordo mais do que qualquer outro visitante e andava já de olho no yacht. Entretanto Marjorie chegava à conlusão que não podia mais manter o yacht de luxo ao custo de uma tripulação de 72 pessoas e o terceiro casamento, agora aos 78 anos estava também em crise. Assim, nos princípios dos anos 50 decidiu vender o navio.
Procurando durante meses por um comprador, o seu novo dono acabaria por ser o brutal ditador da República Dominicana, Trujillo em 1955, o qual mudou o nome do navio para “Angelita”. O yacht presidencial era usado primariamente como habitação. De novo o navio estaria nas bocas do mundo aquando do assassinato de Trujillo a 30 de Maio de 1961. Enquanto o país era abalado por uma revolução, o “Angelita” navegava com o falecido a bordo com destino a Cannes, França, incluindo membros da sua família e uma enorme soma de dinheiro. Pouco antes das Ilhas Canárias, o “Angelita” recebia uma mensagem rádio do novo governo, que o forçava a regressar.
A cara herança recebia agora o nome de “Pátria” e era de novo posto à venda, voltando 5 anos mais tarde a mãos Americanas. O comprador era a Operation Sea Cruises Inc., baseada no Panamá. O seu presidente, John Blue, mandava agora o “Antarna” (o novo nome do navio) para Nápoles, Itália, onde seria completamente restaurado. Ao seu regresso à América no entanto, devido a uma disputa legal com as autoridades, o navio esteve temporariamente atracado. Após 8 anos a sofrer os danos do tempo em Colón, não estava esquecido pelos entusiastas da vela e o Alemão Hartmut Paschburg, um capitão e economista com experiência a recuperar velhos veleiros, reconheceu o “Antarna” e iniciou a sua libertação. Junto com um grupo de empresários de Hamburgo, Alemanha, adquiriu o yacht de luxo e recuperou o seu antigo nome, “Sea Cloud”. Mas agora a tarefa de atravessar o Atlântico adivinhava-se a mais difícil e em Julho de 1978, Paschburg e 38 outros aventureiros voaram para Colón no Panamá, onde durante meses trabalharam no decadente yacht para o tornarem navegável. Em meados de Outubro o “Sea Cloud” rumava à Europa e a 15 de Novembro de 1978 dava entrada no porto de Hamburgo, recebido e aclamado por milhares de pessoas.
Os novos donos ficaram emocinalmente “desfeitos” quando viram o seu yacht, pois notaram que seria preciso investir muito mais dinheiro que o inicialmente planeado. Em Fevereiro de 1979 o “Sea Cloud” foi levado para os estaleiros de Howaldtswerke-Deutsche Werft AG em Kiel, o sucessor dos Germania-Werft e a longa recuperação teve início. 8 meses mais tarde o “Sea Cloud” fazia o seu primeiro cruzeiro sob nova bandeira e a magnífica diva anda nos oceanos do mundo desde então.»
 
Texto baseado e traduzido do site oficial do “Sea Cloud”.
 
Apresento aqui toda a história deste belo navio principalmente por ter sido ele que em 1942 encontrou no meio do Atlântico o dóri com 9 náufragos (1 deles já morto) do lugre-motor bacalhoeiro “Maria da Glória. Seriam estes os únicos sobreviventes. Na altura com funções e aspecto militar, muito diferente do original, ficaria na história a sua ligação àqueles pescadores Portugueses, cuja tragédia recentemente descrevi.

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publicado por cachinare às 08:13
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