Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008
“Poveirinhos pela Graça de Deus”.

«Nasci a dois passos da Igreja da Lapa, na entrada da Poça da Barca, já em Vila do Conde. Quatro casas a Norte estava na Póvoa. Da minha janela, frente ao mar, aprendi a admirar o movimento da barra. Fui testemunha de naufrágios: vi morrer, embrulhados nas ondas, alguns vizinhos e amigos. Tempo de frágeis embarcações de vela e remos que levavam a bordo, como tripulantes, pequenos ratos-de-água de 10 ou 12 anos. Os mesmos meninos que nadavam nús nas pedras do cabedelo e recoziam as tripas no areal fronteiro à Igreja.

Passei algum tempo da minha infância na apanha das marachombas ou rapa do mexilhão com o rapazio de cuadas nas calças e camiseta aos quartos que se entretinha a gingar nas catraias abicadas à praia. Ouvi, à revessa das velhas embarcações espalhadas pela ribeira, as histórias do “Cego do Maio” ou do “Patrão Lagoa”, contadas por velhos pescadores nos intervalos de uma bisca de seis, jogada com as carteiras dos cigarros “Provisórios”. Brinquei à bolinha-de-pelear e ao galgo, enquanto atava as estrelas coloridas e enfeitadas com laçarotes na ponta mais chegada. Fui de anjinho nas procissões do Enterro do Senhor e tinha lugar cativo na porta do sacristão da Lapa para admirar extasiado os remexidos do Senhor d´Agonia. Cantei as “janeiras” e mascarei-me na “serra essa velha”. Os costumes da gente do mar da Póvoa encaixavam-me à medida.
Nasci a gostar do mar. Conhecia pelo nome os pescadores do meu bairro e perdia-me nas suas fantásticas aventuras da pesca do bacalhau. A roda da vida levou-me, profissionalmente, às Capitanias de Vila do Conde e Póvoa de Varzim. Aí, acompanhei o evoluir da comunidade. O progresso das novas embarcações, as conquistas sociais e a busca de conhecimentos. Através da correspondência oficial, vivi as suas alegrias, admirei as suas conquistas e senti as suas tragédias.
Como correspondente do “Jornal de Notícias” (1964-2006) fui convidado a escrever sobre a Póvoa piscatória. Era a satisfação de um sonho. De 1970-1972, na última página e inseridas no seu caderno dominical, escrevi histórias sobre os homens do mar, seus usos e costumes.
Da recolha desses textos foram pubicados dois livros: “Homens do Mar da Póvoa” (1973) e “A Póvoa de Varzim, a Terra e o Mar” (1976), com prefácio do jornalista e escritor Vale Moutinho.
Com as duas edições há muito esgotadas, a Câmara Municipal achou por bem reeditar em 2001 as obras que retratam uma época da sua comunidade piscatória. Como complemento, acrescentei pequenas crónicas dos anos oitenta. Textos publicados no “Jornal de Notícia”, “Gazeta dos Desportos” e “Voz da Póvoa”. Chamei ao novo livro “Histórias do Mar da Póvoa”. Foi o primeiro volume da colecção “Linha do Horizonte” – Biblioteca Poveira, lançada, em boa hora, pela Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.
Hoje, volvidos seis anos, aceitando honrosamente novo convite da Câmara Municipal, regresso com novas histórias da comunidade piscatória local. Uma selecção de crónicas dispersas pelo semanário “O Comércio da Póvoa”, sob a rubrica “O Café da Guia”, e algumas outras guardadas no baú das recordações. Um ensaio etnográfico e biográfico sobre os pescadores Poveiros, seus usos e costumes, a que dei o título “Poveirinhos pela Graça de Deus”.
Espero que gostem tanto de o ler como eu gostei de escrever.»
José de Azevedo - Autor.
 
Até hoje, esta foi a obra sobre gentes da minha terra que mais gozo me deu ler, pois é composta por pequenas histórias que abrangem não só o meio piscatório, mas todo um leque de homens e mulheres notáveis localmente, alguns a nível nacional, lojas e cafés que já não existem afamados por todo o Norte de Portugal ou costumes e tradições que muitas já ninguém as practica. Várias destas histórias contêm um grande sentido de humor e as mais de 400 páginas só pecam por não ser mais.
O título deste livro foi manchete ainda no tempo da Monarquia, quando D. Luís navegava no seu iate por mares da Póvoa e deparando-se com os característicos barcos Poveiros, comuns aos Galegos, perguntou aos pescadores se eram Portugueses ou Galegos. A resposta não se fez esperar: “Sêmos Poveirinhos, pela Graça de Deus”.
A bonita foto da capa, da autoria de Alfredo Costa Ramos, retrata a chegada dos barcos na Póvoa de Varzim, com duas lanchas grandes e os ratos-de-água sempre em volta de tudo e todos.
 
Link para possível aquisição do livro: Na Linha do Horizonte.


publicado por cachinare às 09:34
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3 comentários:
De António Serra a 9 de Outubro de 2008 às 16:40
Cheguei até aqui quase "por acaso". Em boa hora o fiz.
Para o que deu para ver (que ainda foi muito pouco) está um trabalho de "Mestre".

Parabéns!...

Voltarei cá mais vezes...

António Serra


De jc a 9 de Outubro de 2008 às 18:02
Venho cá diariamente ou quase e nunca tinha comentado mas hoje resolvi fazê-lo para lhe agradecer o trabalho que aqui partilha com todos os que gostam do Mar e em particular a pesca do bacalhauTenho aprendido muita coisa aqui com o Sr. e por sua causa a minha admiração e respeito por todos esses Homens anónimos na sua maioria também é muito maior graças a sí!.Muito obrigado.


De João Baptista a 22 de Outubro de 2008 às 00:21
É sempre com prazer que aqui venho, tambem eu morei ali junto à igreja da lapa na "ronca". Um destes dias meu amigo tenho de lhe enviar algumas correções a dois , pelo menos, das embarcações mais bonitas.
Abraço e bons ventos


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