Quarta-feira, 15 de Outubro de 2008
U-96 e o naufrágio do lugre-motor “Delães” – 11/9/1942.

O lugre-motor “Delães” foi construído por António Bolais Mónica na Gafanha da Nazaré em 1938, a sua construção nr.61. Este navio em madeira de 3 mastros tinha 43,90 metros de comprimento, 10,38 de boca e 5,21 de pontal, com uma tonelagem bruta de 415,46 toneladas. De bonitas linhas e com a inconfundível “proa de colher”, influências das belas escunas de pesca Americanas, o primeiro armador do “Delães” seria a Empresa de Pesca de Bacalhau do Porto. Este lugre para a pesca à linha com dóris era igual ao “Oliveirense” e em 1942 foram ambos adquiridos pela Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau (S.N.A.B.).

Em plena 2ª Guerra Mundial, o facto de Portugal ser neutral não impediu que vários navios nacionais fossem afundados por submarinos Alemães. Entre eles, no ano de 1942, ficariam para a história dois navios bacalhoeiros: o “Maria da Glória” afundado a 5 de Junho pelo U-94 e o “Delães” a 11 de Setembro pelo U-96. Ao contrário do “Maria da Glória” que se dirigia para o Estreito de Davis em início de campanha, o Delães rumava já ao Porto, Portugal de onde armava, após 79 dias de pesca com os porões cheios de bacalhau, quando a cerca de 600 milhas a sudeste da Gronelândia foi afundado.
Segundo os relatos, pelas 11:50 o “Delães” foi interceptado pelo U-96 que fazia patrulha “em matilha” com outros submarinos na zona de passagem do comboio naval Aliado ON127. No dia anterior, o U-96 tinha afundado 3 navios deste comboio e a patrulha determinara que o navio de pesca “Delães” apresentava sinais de navegação suspeita. Foi descrito que o navio utilizara o rádio/TSF em clara agressão ao imposto na altura à navegação comercial. Dispararam 3 tiros de canhão de aviso pela proa do lugre, ao que o navio não terá parado e por essa razão resolveram afundá-lo.
Foi então ordenado à tripulação e pescadores do lugre que abandonassem o navio nos dóris e de seguida, a tiros de canhão (bastavam para um navio em madeira) o mesmo seria afundado. Os náufragos do "Delães", comandado nesse ano por João Nunes de Oliveira e Sousa, tiveram melhor sorte que os do trágico “Maria da Glória”. Quando abandonaram o navio e embarcaram nos dóris, amarraram os botes uns aos outros, formando um todo e ao fim de 18 horas foram recolhidos pelo lugre "Labrador" comandado por António Simões Picado e que vinha na sua esteira. Salvaram-se todos.
 
O homem responsável pelo afundamento do “Delães” foi Hans-Jürgen Hellriegel (nas fotos), nascido em Berlim em 1917 e aos 25 anos já Cavaleiro da Cruz de Ferro e comandante do U-96 até meados de Março de 1943. Hellriegel abandonaria o U-96 a 16 de Março para passar a comandar o U-543, submarino da classe IXC/40. Morreu a 2 de Julho de 1944 quando o U-543 que comandava foi atacado por um avião Avenger (VC-58) dos E.U.A. a sudoeste de Tenerife, perdendo-se toda a tripulação.
Quanto ao U-96, o quadro seguinte apresenta o resumo histórico deste famoso U-boot:
 

Tipo
VIIC
U-96
Ordenado
30 de Maio, 1938
 
Construção
16 de Setembro, 1939
Germaniawerft, Kiel - Alemanha (obra 601)
Lançamento
1 de Agosto, 1940
 
Comissionado
14 de Setembro, 1940
Cap. Heinrich Lehmann-Willenbrock (Cavaleiro da Cruz de Ferro)
Comandantes
14 de Setembro, 1940 - 1 de Abril, 1942 -- Cap. Heinrich Lehmann-Willenbrock (C. da C. de Ferro)
 
28 de Março, 1942 – 15 de Março, 1943 – Op. Hans-Jürgen Hellriegel (Cavaleiro da Cruz de Ferro)
 
16 de Março, 1943 – 30 de Junho, 1944 – Wilhelm Peters
 
1 de Julho, 1944 - Fevereiro, 1945 -- Op. Robert Rix
Carreira
11 patrulhas
14 de Setembro, 1940 - 30 de Novembro, 1940 (treino)
 
 
1 de Dezembro, 1940 - 31 de Março, 1943 (frente)
1 de Abril, 1943 – 30 de Junho, 1944 (treino)
1 de Julho, 1944 – 15 de Fevereiro, 1945 (instrução)
 Sucessos
 
27 navios afundados, total de 181.206 TB
4 navios danificados, total de 33.043 TB
Fim
Afundado a 30 de Março, 1945 por bombas Americanas nas docas de Wilhelmshaven, Alemanha.


O U-96 (na foto à superfície), já com outro comandante e noutra patrulha, embarcou um correspondente de guerra, Lothar-Gunther Buchheim, que publicaria mais tarde diversas obras, entre as quais o célebre livro "Das Boot", onde a acção se passa a bordo deste submarino. Este livro daria origem ao filme com o mesmo nome, realizado em 1981 por Wolfgang Petersen, tido como um clássico do género e do qual muitos se recordarão em Portugal da sua passagem em formato de série na tv, por meados dos anos 80.
O U-96 acabou por ser afundado em finais de Março de 1945, não em missão, mas sim docado na base de Wilhelmshaven, na Alemanha, sendo um dos poucos submarinos Alemães que nunca registou uma baixa na sua tripulação durante a 2ª Guerra Mundial.

****
 
Diz-se que o “Maria da Glória” fora afundado por não apresentar marcas de neutralidade pintadas no casco, no entanto o “Delães” já as tinha bem evidentes como é possível verificar na foto inicial, embandeirado em Belém cerca de 1940. Tal como nas estranhas razões para o afundamento de um lugre bacalhoeiro 3 meses antes, também o “Delães” estava totalmente “desproporcionado” às dimensões dos ataques destes submarinos. O U-96 afundara / danificara 31 navios numa tonelagem média de 7.145 TB (toneladas brutas) e o lugre de pesca tinha apenas 415 TB.
O facto destes serem para Portugal os dois únicos episódios relacionados com lugres de pesca na 2ª Guerra Mundial e de terem ocorrido no mesmo ano, leva a considerar a possível pressão de Hitler sobre Portugal para fornecimentos, entre eles de minério.
Na verdade, as forças Alemãs estavam a repetir o que já haviam feito na 1ª Guerra Mundial, com o afundamento em 1918 dos também navios de pesca ao bacalhau iate "Sophia", lugre "Gamo", entre outros, com a devida diferença de que nessa altura Portugal era inimigo.
 
Na Antiguidade dizia-se que só havia 3 espécies de homens; os vivos, os mortos e os que andam no mar... .
 
Fontes:
Uboat.net
Museu Marítimo de Ílhavo
Ricardo Matias – comentários


publicado por cachinare às 08:15
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1 comentário:
De jaime pontes a 30 de Janeiro de 2009 às 00:02
O Delães Lugre de tres mastros e muito igual ao Maria da Gloria até no infurtunio só que felismente deste lugre pareçe que não se lamentou mortos !.Mas que vida curta este lugre teve,e tudo porque havia guerra ,más que culpas tinham os nossos navios bacalhoeiros na altura ? nada justificava aquela traição .Este lugre prometia muito porque éra novo ,porque éra lindo ,porque estáva-mos em tempos de boas pescas ,más éra o tempo que éra e não havia nada a fazer...sem mais um abraço ...J. Pontes


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