Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008
“O Barco Poveiro” – Octávio Lixa Filgueiras.

«Só a memória enriquece e alimenta. Não há pedra que mais sangre nem asa que mais nos liberte. Talvez por isso os saberes da memória respirem um tempo e um espaço muito próprios. A morte que tudo transfigura pratica as artes supremas da imprevisibilidade. E, nesta imprevidência se compraz, irremediávelmente, a nossa condição humana.

 
O Autor e o Livro, aos quais quisemos manifestar a nossa admiração, cedo demais, magoada e dolorosamente, se transformaram em Memória. E tendo assim acontecido é já num outro universo que os recordamos. O que vemos são as velas e os barcos. A saudade das “lanchas dos Poveiros a saírem da barra, entre ondas e gaivotas”. Projectos e causas, ganhos e perdas que se enlaçam e confluem no labor incessante de um Homem. Na presença de um olhar de ave rente ao mar. Num voo permanente de trabalhos e dias feitos de aprendizagem e paixão. Numa vida inteira dedicada às navegações indizíveis da arquitectura em viagem. Alguém que viveu reaprendendo sempre. Corrigindo continuamente. De ouvidos atentos ao marulhar de novos rumos. Coleccionador de percursos, geografias e errâncias. Amador de comparações e estranhezas. Bebedor das mil águas de um rio comum.
 
Octávio Lixa Filgueiras (1922-1996), nascido na Foz do Douro como Raúl Brandão, quem sabe se como ele o teria impressionado a vozearia dos pescadores Poveiros que “dormiam no rio cobertos com a vela e primeiro que pregassem olho era um falatório que se ouvia em toda a vila”. Ambos amaram e compreenderam o Mar e os Pescadores. Um e outro bem podiam exclamar, como Álvaro de Campos: “E vós, ó cousas navais, meus velhos brinquedos de sonho!”.
Lixa Filgueiras guardou, tímida e tardiamente, as suas incursões literárias tendo prontamente encaminhado os seus interesses para a história milenar das embarcações Portuguesas, estimulado e desperto pela existência de tão infinita e engenhosa variedade de formas e origens.
A sua Obra, para a qual não lhe foi concedida a vida que merecia e precisava, afirma-se em quase duas centenas de trabalhos de investigação nos domínios da arquitectura e da etnologia navais. E não é possível deixar de registar ou esquecer, ainda, a intensa actividade profissional onde avultavam relevantes funções oficiais, práticas pedagógicas inovadoras a par de uma constante e frutuosa intervenção cultural e científica em congressos e colóquios nacionais e estrangeiros.
 
Os estudos notáveis que consagrou, no decorrer dos anos, ao “barco poveiro” não perderam as marcas sucessivas de um renovado e sempre enriquecido rigor:
 
“A Lancha Poveira e o Saveiro de Valbom” – 1958.
“Barcos – A Arte Popular em Portugal” – 1963.
“Barcos da Costa Norte, sua Contribuição no Estudo das Áreas Culturais” – 1965.
“Acerca das Siglas Poveiras” – 1966.
“O Barco Poveiro” – 1966.
“Sobre as Origens do Barco Poveiro” – 1970.
“Les Bateaux de Pêche de Póvoa de Varzim et le Sinagot” – 1973.
“A Lancha Poveira de Dois Mastros” – 1976.
“A Propósito da Protecção Mágica dos Barcos” – 1978.
“Cooperativas de Pesca: Primeiros Ensaios na Póvoa de Varzim” – 1980.
“Barcos de Pesca de Portugal” – 1981.
“Santos Graça, Contribuição para o Estudo das Raízes Ideológicas de uma Obra” – 1982.
“As Embarcações nos Ex-Votos” – 1983.
“Das Influências Nórdicas nas Embarcações Tradicionais no NW Peninsular” – 1984.
“Armações do Barco Poveiro – Modalidades” – 1985.
“O Barco Poveiro – Tentativa de Decifração Filo-genética” – 1989.
 
Às temáticas poveiras que, na sua sóbria e rica especialidade, atravessam quase meio século da sua vida, deve somar-se a cooperação que nos concedeu ao participar nos trabalhos do Colóquio Internacional de Etnografia “Rocha Peixoto” (1966), na organização da exposição das “Siglas Poveiras” organizada pelo Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim (1979) e na coadjuvação graciosamente prestada ao Projecto de Construção e Navegação da Lancha Poveira do Alto (1991), orientando a montagem final do filme sobre a sua construção e responsabilizando-se pelo competente comentário técnico.
 
Operosa e diversificada actividade, “bordejando as incertezas e as dúvidas”, mas realizada sempre com invejada indepndência e singular aprumo. Fiel àquele, muito seu “estatuto do artista” que recusa dissolver ou apagar, na ambiguidade das razões económicas – o “viver disso” - , o “puro gesto lúdico que as pessoas acompanham num saber que é comum, numa doação que dá prazer”.
No mundo interior de Lixa Filgueiras, intelectual de subtis mundivivências e incómodas marginalidades, habitam seres, tão simples e complexos, como Mestre Joaquim Gonçalves Brás, da Póvoa de Varzim, construtor de barcos e de sonhos; António Manuel, pastor de Malhadas, entalhador de buxo ao rumo inspirador de vozes divinas; Domingos Pereira Salvador que em Tourém “transformava a sua casa numa caverna encantada”; Joaquim da Costeira, moleiro de Caneiros que “pistonava o seu Wagner pelas noites de luar”... e, certamente, tantos outros, ocultos e vivos nos recessos iluminados da sua Obra. Em idêntica sintonia estão as inclinações e os afectos que, talvez, expliquem as razões e convergências da Homenagem e da Convivência com que Lixa Filgueiras quis, neste seu derradeiro trabalho, honrar e unir a memória de dois Poveiros ilustres: Santos Graça e Flávio Gonçalves. Argumentos mais do que suficientes para que a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim melhor se orgulhe e dignifique ao apoiar e proporcionar a edição cuidada deste Livro.
Sobretudo agora, neste momento tão longamente esperado, em que o Livro e o Barco se encontram, na língua da maré, prontos a vencer a carreira e a altura do Mar. Sobretudo agora que se dá ao Mar um novo Rumo!»
 
por Manuel Lopes – antigo Director do Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim.
 
Li recentemente esta obra de princípio ao fim num par de dias e a vontade de continuar o contacto e a descoberta do trabalho de Lixa Filgueiras, Santos Graça, Raúl Brandão, entre vários outros, continua crescente.
O espólio de Octávio Lixa Filgueiras encontra-se hoje no Museu Marítimo de Ílhavo, ao que sei disponível para consultas.
A 3ª imagem mostra uma Lancha Poveira possível de construír num modelo em papel. Aqui fica o link para as imagens para impressão.


publicado por cachinare às 08:29
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