Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007
Caxinas de antigamente 2/3.
Eis uma 2ª tranche de fotos sobre um modo de vida já ido das praias das Caxinas, embora algo de artesanal ainda se pesque no meio e para lá daqueles rochedos. Na primeira foto, as rochas que ali se veem foram alguns anos mais tarde “alongadas” com pedra e existe hoje ali um pontão simples, só de pedras. Gosto bastante da segunda foto, com as mulheres a atar as redes em expressão enigmática e pensativa, enquanto o puto brinca por perto. Como era fenomenal passar as tardes quentes ali na praia ao lado da mãe, da avó ou da tia, com as vozes, a areia carregada de pequenos e inspiradores à criatividade pedaços de coisas que o mar trouxe, conchas, bóias velhas, tábuas das caixas do peixe com pregos vivos e ferrugentos. Eram estas tábuas as minhas favoritas para atirar à água e ver como deslizavam nela, aprendendo e percebendo como navegam os barcos a sério. Anos mais tarde na escola aprendi que chama-se a isso hidrodinâmica e aquilo fascinava-me. Fi-los depois em chapa, com latas de ananás ou latas de tinta de cinco litros, ensinado pelo meu pai, que me mostrou pela primeira vez, tinha eu uns 5 anos, com um simples martelo e faca de mesa velha, como se corta a lata e que é importante dar-lhe quilha e leme atrás. Tenho a certeza que muitos assim fez ele quando era puto, nos anos 50. Depois com betume tapa-se no fundo, os buraquinhos na chapa da proa e da ré, de seguida dois furos, um de cada lado è proa e passa-se o cordel para puxar o orgulhoso navio a cortar a água. Sonhei durante anos que a lata do lixo lá de casa, que era uma lata de gasóleo dos barcos, aí de 50 litros ficasse velha para de imediato eu a rapinar e fazer um barco mesmo grande, que talvez aguentasse comigo ali nas águas calminhas da praia do Fieiro. Tal nunca aconteceu, porque a lata aguentou mais do que devia e eu cresci. Ainda assim fiz muitos destes barquinhos de latas, pois o leme partia-se depois de umas 10-15 dobradelas e era preciso um barco novo. Quando a mãe não ia tratar do peixe à lota e se ficava em casa, metia-se o barco na pia da roupa e passava-se o tempo a tentar medir quantos berlindes carregava o barco sem afundar. Era a minha escola favorita. Houve uma altura em que fiz barcos com garrafas de plástico ou garrafões de lexívia. Estes carregavam imenso berbigão e ameijoa no Fieiro, mas não eram bonitos como os de lata. Mais tarde descobri que os carrinhos a pilhas tinham motores e lampadinhas bem interessantes e então... começam os barcos de esferovite a motor, mas essa já é outra era. Fica para depois.
Na terceira foto, lá estão as mulheres já a dar tratamento ao peixe acabadinho de chegar e para venda. Vi isto na lota velha da Póvoa tantas e tantas vezes, pois era isto que a minha mãe fazia, tratando do peixe dos barcos que o traziam a terra nas “chalandras” (botes), onde depois as mulheres o tratavam e o tractor puxava para a lota. Andava eu por ali perto atrás dos cardumes de taínha e peixinhos minúsculos nas águas quentes e paradas. Um dia consegui apanhar um, meti-o dentro de um saco de plástico transparente com água do mar todo contente. Juntei-lhe um caranguejo pequenote e uma horita depois... não vou dizer o que o caranguejo fez ao peixito. Mais uma vez a escolinha da vida junto ao mar ensinava a lei da vida.
Por fim na quarta foto, dois velhos do mar, assustadores para os putos muitos deles e alguns pensava eu que eram feitos de cortiça daquela com que se faziam bóias para as redes, pois quando olhava para eles, a cara era tal e qual e quando falavam era voz rouca e seca. Ao mesmo tempo fascinavam-me tais figuras, pois sabia que o mar moldou-os assim e que passaram a ser criaturas dele, em corpo e em mente até ao fim da vida.


publicado por cachinare às 13:27
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2 comentários:
De dolphin a 28 de Novembro de 2007 às 21:41
Que bela descrição faz dos tempos de criança!
Fiquei encantado.
Um abraço
Dolphin


De jaime pontes a 7 de Fevereiro de 2009 às 17:37
Que belas fotos ,fazendo lembrar os meus tempos de miúdo,tudo no seu lugar ,que maravilha ?Aprimeira foto é os barcos sardinheiros barados, outros a barar , os miudos a brincar na areia ,o Cabo do Mar que éra o Sre José Tacto em converça com o tio Diogo ,e os miúdos do meu tempo a pescar nas pedras com as canas a boia ,aos paxões e peixes reis , xaramanecos e tainhas ! A segunda ,dis-nos que as mulheres atam a mujiganga «rede de arrasto »,e a outra ,a praia cheia de barcos ,nesse tempo hàviam mias de -150-,barcos ,e o tio Joaquim do coca mais o tio Manel regedor em converça ,outros tempos ! e a última os barcos chegaram do alvor e estão a barar ,entretanto as mulheres preparam-se para carregar com a sardinha para a venda que é na povoa ,e fazem contas prá ver quem leva as gamelas com mais sardinha ! Éra assim o antigamente nas caxinas ,ém espeçial no verão ?Os barcos que háviam nas caxinas nesse tempo éram designados por duas proas porque éra quaze igual , más os pescadores sabiam bém o que éra a proa e o que éra a ré ! Barcos caxineiros oriundos dos poveiros ,sim os barcos maiores éram catraias para o pilado ou pesca do alto ,a seguir éram os sardinheiros e depois os caicos que éram para o trol do congro e da faneca por térra ,só na Povoa é que existiam os lanchões ! ...Um abraço amigo António comprimentos a familia ...Saúdaões Maritimas ...Jaime Pontes...


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