Terça-feira, 11 de Novembro de 2008
Memória dos bacalhoeiros barlaventinos em Portimão.

 

«”Há um imaginário épico-dramático sobre a pesca do bacalhau” em Portugal. Projecto expositivo, pretende «inscrever na esfera pública rostos e nomes» dos homens que fizeram essa história.
“Tá ali o Zé Filipe!”, “Olh’ó Chico!”. Com gritos de alegria, mas às vezes com a voz e os olhos toldados pela emoção, o grupo de antigos bacalhoeiros de Alvor apressou-se a ir ver-se no cubo de luz onde estão 240 fotografias e outros tantos nomes de antigos pescadores do bacalhau do Barlavento algarvio.
O cubo é a peça central – e quase única – da exposição Caixa da Memória: Bacalhoeiros do Barlavento Algarvio, que abriu na passada sexta-feira no Museu Municipal de Portimão e se prolonga até 23 de Novembro.
A mostra é promovida pelo Museu Marítimo de Ílhavo, onde se encontra depositado o vasto arquivo da frota bacalhoeira portuguesa, entre 1935 e 1974.
Na noite da inauguração, um grupo de antigos pescadores, já reformados, foi convidado para a cerimónia. Mantiveram-se a um canto, enquanto os directores dos museus de Portimão e de Ílhavo e ainda o presidente da Câmara portimonense falavam.
Mas mal acabaram os discursos, os homens, todos na casa dos 60 e tal a mais de 70 anos, quiseram ir espreitar as centenas de fotos e descobrir onde estava a sua. Com eles, filhos e netos acompanharam esta busca.
Houve mesmo um dos antigos pescadores do bacalhau que levou consigo a fotografia que tirou quando teve que se inscrever no grémio, para poder ir para a pesca, na longínqua Terra Nova e Gronelândia.
E comparou a foto com 45 anos, com a que estava no cubo e com a sua cara actual: “Era um moço bem jeitoso!”, concluiu, com um sorriso maroto nos lábios.
A abertura da exposição foi uma das actividades paralelas ao Encontro Internacional de Museus do Trabalho, Indústria e Sociedade, por isso havia muita gente interessada em ouvir as histórias que estes homens do mar, com o rosto marcado pelas rugas, tinham para contar.
A pesca do bacalhau era talvez a faina mais dura de todas, porque cada campanha durava seis meses, com centenas e centenas de homens confinados num barco de pesca, passando longas horas nos botes – os dóris – sujeitos ao frio intenso, ao mar impiedoso, à noite que predomina por aquelas latitudes tão a Norte.
Mas, mesmo assim, entre os jovens das comunidades piscatórias de todo o país, havia sempre muita gente a querer ir para a pesca do bacalhau.
Porquê? A partir dos anos 60, sobretudo porque assim escapavam à Guerra Colonial, que os assustava bem mais que a dureza da faina bacalhoeira. Mas também porque nos seis meses de campanha nos gélidos mares do Norte sempre amealhavam mais qualquer coisita.
José António da Costa Monteiro (foto 2), de Alvor, lembra-se sobretudo do frio, do gelo, da noite cerrada durante quase todo o dia. “A gente às vezes iscava os dedos, mas, tal era o frio, nem se sentia nada!”, recordou.
Sabino Martins Pereira, de 65 anos e olhos da cor do mar, salientou que “a bordo daqueles barcos era como o quartel. A gente tinha que fazer o que eles queriam, havia escalas de serviço, estava tudo organizado”.
A sua filha mais velha nasceu quando Sabino andava numa das quatro campanhas que fez. “Só a conheci já ela tinha mais de dois meses”.
Entre os bacalhoeiros do Barlavento Algarvio, cujos rostos estão agora em exposição no Museu de Portimão, havia gente nascida em Aljezur, Lagoa (Carvoeiro e Ferragudo), Portimão (Alvor), Sagres, Silves, Vila do Bispo e até, imagine-se, em Monchique, apesar de tudo longe do mar.
De todos eles, e dos muitos milhares provenientes do resto do país, foram produzidas cerca de 20 mil fichas, com fotografia. O Museu de Ílhavo tratou e digitalizou todo este imenso acervo e está agora a mostrá-lo em exposições itinerantes. Esta é a primeira no Algarve.»

 

10 de Novembro de 2008 - elisabete rodrigues
 

Artigo e fotos publicados em BARLAVENTO ONLINE



publicado por cachinare às 08:42
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4 comentários:
De Miguel a 13 de Novembro de 2008 às 10:35
Conheci este Blog através do Sesimbra blogspot e gostei bastante ,porque sou um filho e neto de armador e gosto de tudo relacionado com a Pesca em particular com embarcações especialmente as do cerco.
Porque é que no seu blog não tem fotografias de traineiras e de construções das mesmas, visto que o Samuel e o Postiga e feiteira terem construido grande parte da frota nacional ?
Amigo de Sesimbra


De cachinare a 13 de Novembro de 2008 às 11:43
Caro Miguel,

Na verdade Sesimbra, Setúbal e Peniche são os locais de pesca em Portugal a partir de onde mais se escreve e publicam fotos de traineiras, em blogs. Apesar de na minha terra, Vila do Conde a construção naval ter sido bastante, não tenho encontrado muito sobre os barcos em si, nem na Póvoa de Varzim mesmo ao pé, além de que me encontro a viver no estrangeiro e a internet é a minha janela para Portugal de momento. Possuo no entanto algumas fotos de traineiras do Norte de Portugal e a seu tempo serão publicadas, mas também quero escrever sobre elas.
Sigo diariamente o Sesimbra.blogspot, pois é excelente a mostrar o passado e presente dos seus barcos e vida de pesca.

Um abraço,
António Fangueiro


De Anónimo a 14 de Novembro de 2008 às 12:36
Queria desde já agradecer-lhe esta bonita iniciativa .
Andarei muito mais atento ao seu blog de que gosto muito ,gostava de sugerir visto que está no estrangeiro para fazer como eu, que através de amigos que facultaram-me fotos para scnar, para brevemente criar tambem eu um blog, mas só relacionado com a pesca do cerco, isto porque possuo actualmente um arquivo desde da década de 90 com a maioria das traineiras nacionais, mas gostava que alguem do norte me facultassem mais fotos, isto porque tenho poucas da fossa zona.
A todos que me possam facultar fotos de traineiras em formato digital o meu mail é mlourenco007@gmail.com
O meu irmão tem um blog - vilasesimbra visite
Obrigado


De jaime pontes a 28 de Janeiro de 2009 às 17:31
Boa tarde ,é com prazer que véjo,que alguem se enteressa de mostrar boas recordações dos nossos bacalhoeiros ,por tudo muito obrigado,.Também éra maravilhpso que apareçesse blogs com fotos sobre traineiras se possivel, doutros tempos e reçentes com as suas histórias, eu sei daquilo que falo,infelismente algumas histórias são de arrepiar! Enfim boas histórias sobre navios ,lugres ,traineiras ,motoras, e barcos de pesca local.... sem mais um abraço a todos ..J .pontes..


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