Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008
Fim à vista para o ex-bacalhoeiro “Argus”.

O mítico navio bacalhoeiro da frota portuguesa, “Argus”, imortalizado por Alan Villiers na viagem de pesca que fez nele no princípio dos anos 50, encontra-se desde há vários meses apresado num porto da ilha de Aruba, próximo da costa da Venezuela.

Utilizado para fins turísticos nas caraíbas desde há cerca de 30 anos, longos problemas financeiros do proprietário levaram em 2007 à paragem dos seus navios e o “Polynesia II”, registado em Grenada esteve a leilão em Aruba pela 3ª vez desde Setembro último. Ao que parece, ninguém tem interesse no navio devido ao seu avançado estado de degradação de inúmeros anos sem manutenção. Quando o navio deixou a pesca e começou a ser totalmente transformado para cruzeiros, todo o aparelho vélico foi alterado, interiores e o casco enchido com cimento, como forma de lastro. Como é sabido no meio náutico, a junção de cimento a um casco em aço mais a água do mar são extremamente corrosivos com o passar dos anos e daí o mau estado do navio. Para mais, a falta de manutenção fez hoje do ex-”Argus” um navio com o fim anunciado, com problemas e desgaste a vários níveis, incluindo infestações de insectos e ratos. Está assim há meses atracado no porto de Aruba à espera de uma decisão.
Sendo um navio bastante conhecido no meio turístico da região, o seu destino vai sendo seguido por um grupo de admiradores e de ex-trabalhadores que não recebem pagamento de vários meses. No primeiro leilão foi estimado um preço inicial entre 250.000 e 300.000 dólares e ninguém lhe pegou, pois o custo da recuperação necessária é enorme. Fala-se que será adquirido pelo governo de Aruba para ser afundado e servir de recife artificial, como turismo subaquático.
Este é o relato de uma passageira: “O meu marido e eu embarcamos no último cruzeiro do “Poly” no ano passado, em Setembro de 2007. Depois de o deixarmos, navegou na tarde seguinte para o seu último destino actual e por experiência própria posso afirmar que não se encontrava no melhor estado já naquela atura. Tínhamos embarcado nele em Agosto de 1998 e ficamos muito surpreendidos por ver como o seu estado se deteriorara comparado com aqueles anos. O convés estava numa condição terrível, mole e esponjoso em muitas partes e coberto com fita isolante a tapar buracos e pontos desgastados. Tudo apresentava um certo estado de envelhecimento, comparado com o que era 9 anos antes e lembro-me de comentar com o meu marido o facto de parecer que ninguém se importava em cuidar do navio desde há muito tempo. Não sendo conhecedora de navios, não poderei comentar o estado do seu casco ou detalhes técnicos, mas do ponto de vista das aparências, o navio necessitava de muito trabalho para o fazer voltar ao que era antes”.
 
Este lugre bacalhoeiro construído em 1939 na Holanda é em tudo semelhante ao “Creoula” e “Santa Maria Manuela”, embora com mais capacidade de porão e outros detalhes técnicos mais refinados e evoluídos nas suas dimensões. É o “terceiro cisne branco”, como ficaram conhecidos estes navios e custa de certo modo ver que o seu fim se aproxima desta forma em nada respeitando o seu passado e dos homens que nele árduamente pescaram. Imortalizado mundialmente em livro, revistas, fotos e filme, é um pedaço da história de Portugal e do que representou a Pesca do Bacalhau que desaparece. É talvez o navio bacalhoeiro português mais famoso de sempre, juntamente com o “Gazela Primeiro”.
Custa ainda mais que seja um navio esquecido em Portugal e que tal como a Pascoal & Filhos fez ao adquirir o casco do “Santa Maria Manuela” para recuperação total, não surja nenhum mecenas em Portugal que o recupere para os mais variados fins. O “Creoula” e o “Santa Maria Manuela” são duas provas de que tal é possível e Portugal agradece muito.
Num país desde sempre ligado ao Mar, seus navios e barcos, não há ninguém ou instituição, grupo empresarial, Fundação ou demais que possa utilizar este pedaço de história em prol próprio e do seu país?
 
A 1ª imagem mostra o já “Polynesia II” numa edição postal comemorativa da ilha de Nevis, no Sul das caraíbas, em 08.10.1980, provavelmente a sua viagem inaugural em cruzeiros. Na imagem 2, o “Argus” fundeado em Belém, para a cerimónia de Bênção dos Bacalhoeiros em princípios dos anos 40.
 
Links de interesse:
Revista da Armada, Março de 2005 – A história do “Argus”.
O “Argus em Lisboa” - lmc-creoula.blogspot.com.


publicado por cachinare às 08:59
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4 comentários:
De jaime pontes a 29 de Janeiro de 2009 às 23:39
Óla companheiro Boa noite ,que belesa o Argus ,soberbo lugre motor ,prinçepe dos lugres dos anos -50 ,até 70 salvo erro ,grande veleiro , que com ventos favoraveis não havia quem o batesse em veloçidade ,mesmo aqueles navios como o neptuno e outros com palheta,éra um regalo ver esses veleiros que não só o Argus ,máis o Creoula, e o Manuela .Lembro-me uma certa viagém de regreço a portugal pérto dos Açores ,nós no Aviz com ventos rijos e favoraveis ,julgava-mos que vinha-mos na maior com as vélas todas içadas até o redondo feito, ém pleno dia logo de manhã ,quando surge a oeste dois veleiros ,éram o Argos e o Creoula,que em pouco tempo nos alcansou como quem passou um lugre parado ,que diferença ,então ouvi comentários dos mais velhos de bordo que os dois veleiros iam a por -16 ou18 milhas a hora !.Se alguns pescadores que ainda estão entre nós soubesse o que se passa com o Argus de certesa que ficavam com um nó na garganta em espeçial os que por lá passaram !.um abraço companheiro Fangueiro ...j .Pontes


De César Lourenço a 26 de Julho de 2009 às 02:37
boa noite.
Sou da Gafanha da Nazaré e gostava de informar que a empresa pascoal&filhos adquiriu o antigo argus. está atracado "em casa" no cais bacalhoeiro da Gafanha da Nazaré.
Palavras de apreço para os dirigentes desta empresa. recuperar patrimonio que é de todas as nossas memórias substituindo o estado não é para qualquer um. de se lhe tirar o chapéu.
abraço e continuem com a paixão da pesca do bacalhau. é um pouco da nossa história em particular da minha terra.


De RUI PIMENTA a 18 de Dezembro de 2009 às 19:51
Quero dizer que meu pai, Manuel Pimenta, foi enfermeiro durante vários anos no ARGUS. Tem hoje 89 anos e ficou satesfeito por saber que o argus voltou a portugal. Rui pimenta


De rui cajeira a 26 de Dezembro de 2009 às 18:52
O meu avô, João Pereira Cajeira (o Ti João Bispo) fez dezenas de campanhas no ARGUS. Vi-o hoje atracado no cais na Gafanha. A ser verdade a sua recuperação, é a melhor notícia que poderia ter, sobretudo em memória daqueles valentes pescadores-marinheiros! Bem hajam, rui cajeira.


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