Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008
“Há muito medo no meu país”.

«Foi jornalista premiado, hoje é um escritor galardoado. Tem mais de 20 livros publicados nos géneros de reportagem, teatro, romance, narrativa e conto. O novo chega no dia 28. "Os mal amados".

Fernando Dacosta diz ser privilegiado por ter vivido um "compacto de experiências": do Estado Novo ao Liberalismo, a juntar aos grandes vultos com quem conviveu, como Natália Correia, Jorge de Sena e Agostinho da Silva. É defensor da preservação da memória e sobre ela muito escreve. "Os mal amados" é também um livro memoralista. Aborda a sociedade portuguesa desde o antigo regime até aos nossos dias. É o país visto pela oposição.
 
Por que faz da preservação da memória uma espécie de cavalo de batalha?
Temos um imaginário público que necessita de ser alimentado. Os sonhos que tivemos no passado continuam no futuro. Daí dizer-se que temos saudade do futuro e não do passado. A minha geração foi altamente privilegiada, porque viveu um compacto de experiências que marcaram definitivamente a segunda metade do século XX. Compete-nos agora sensibilizar os mais jovens. De momento, não há regimes em ascensão. Estamos a assistir ao desbravar de uma era que vai fazendo movimentos para olhar o passado. Já os surrealistas diziam que "se queres caminhar para o futuro tens de olhar para o passado".
Mas como é que a memória nos abre caminho para o futuro?
Sem memória não há ideias, sem ideias não há pensamento, sem pensamento não há criatividade e sem criatividade não há futuro. Agora as pessoas, sobretudo as que nos governam, estão perversamente a apagar a memória e a vender o seu peixe. É por esta razão que os grandes criadores portugueses estão a dar grande importância à memória.
E no seu caso pessoal?
Sempre fui sensível a esta questão. Convivi com grandes vultos da segunda metade do século XX desde o regime até à oposição.
Os livros que escreve e retratam a memória têm tido grande êxito. Não tem receio de haver repetições, de um regresso ao passado?
As coisas não se repetem. A Direita endeusou, a Esquerda simbolizou o Deus do bem e do mal, mas o político tem apenas de ser reduzido à sua condição humana. A maior parte dos nossos políticos, jovens, dinâmicos e pós-modernos ainda não repararam que estão todos no século XIX e não no XXI. Enquanto isto, o grosso das pessoas recusa pensar, sonhar e agarra-se à sua existência como se não houvesse vida paralela. Há medo, nunca vi tanto medo no meu país.»
 
Artigo de Licínia Girão – Jornal de Notícias 21.11.2008
 
Também é verdade que um país está dependente do que se vai passando no continente onde se insere e no mundo mas não vejo o que terá isso a ver com o descurar da memória. A forma de ser da Política (e seu pensamento) em Portugal tem certas deformações que quer se queira quer não reflectem-se na maneira como a sociedade pensa, cria e desenvolve mais, ou menos. O desinteresse actual pela Política só ajuda “muito político”, a entravar e a apagar muito do nosso passado, principalmente o local, quantas vezes com interesses ocultos num futuro próximo.
Dentro de minha casa mando eu, e não preciso de ser abastado (como Portugal o não é) para decorar as paredes com as cores e os quadros que gosto, os móveis na posição mais confortável, as plantas neste e naquele canto, etc, etc.
Portugal é a casa de todos nós e cabe-nos mantê-la asseada e bem decorada. A memória está cheia de elementos decorativos e funcionais da maior beleza e valor e não faltam hoje os modernos ideais e conceitos a substituí-los, aberrações do visual e “apagadores” dessa memória. Encontro-os na minha terra e por certo os terá na sua também.

 


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publicado por cachinare às 08:46
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