Quinta-feira, 29 de Novembro de 2007
A nau “Madre de Deus”.
A nau “Madre de Deus”, construída em Lisboa em 1589, fez duas viagens à Índia tendo sido capturada no regresso da segunda viagem, em 1592, ao largo da ilha das Flores, após renhido combate contra três navios da Armada inglesa. O imponente navio foi capturado pelos corsários após seis horas de combate. O procedimento habitual, à época, ditava que se fizesse o transbordo das mercadorias e se lhe deitasse fogo de seguida. Contudo, em 1592, os corsários ingleses ficaram tão impressionados com o tamanho da nau (com cerca de 1000 toneladas, enquanto um navio inglês rondava as 350), que a rebocaram para o porto de Dartmouth em Inglaterra. Aqui a nau portuguesa foi exibida e estudada com grande pormenor, dadas as suas elevadas dimensões e multidões vinham de longe só para a ver. A nau “Madre de Deus” de enormes dimensões para a época, privilegiava, a par da navegabilidade, um considerável espaço de carga que tornasse rentável a carreira da Índia, pelo que navios do seu género rapidamente se tornaram presas apetecíveis para corsários e piratas que então começavam a rondar esta rota.
texto adaptado de:
http://museu.marinha.pt/Museu/Site/PT/Extra/Popups/AnauMadredeDeus.htm
http://www.marinha.pt/extra/revista/ra_ago2000/pag25.html
 
Este curto texto sobre a também curta história desta nau serve de introdução ao ponto que pretendo focar com este post, que é o livro em imagem anexa de Ferdinando Oliveira Simões e Manuel Leitão lançado em 2004 pelo Museu de Marinha. Provavelmente este livro sobre a nau e presumo como construír a sua réplica, surgiu porque este navio era um portento da época comparado com as outras “potências” europeias. Apenas prova a capacidade de inovação portuguesa, neste caso naval, que tem séculos de história e evolução, não foi momentânea. Mas o meu maior interesse está no facto de ser hoje possível construír este modelo de navio, desenhado e feito por portugueses há cerca de 400 anos. Isto para os amantes do modelismo naval é quase um “milagre”, pois basicamente não existem modelos de navios portugueses à venda em Portugal e mesmo no estrangeiro muito pouco. Até faz pensar que Portugal nunca teve mar e Marinha. Muitos modelos são construídos caseiramente, quase “a olho” ou por conhecimentos através dos quais se conseguem arranjar os planos, coisa rara.
Pergunto eu então, repetindo-me mais uma vez, porquê que não se vendem planos de tantos navios portugueses? Se não existe ninguém interessado em produzi-los e metê-los em caixas para venda até aceito (na verdade não aceito muito bem), mas ao menos que se faça negócio com os planos e cartas dos barcos, pois há muita gente interessada e à espera de pôr mãos à obra, cheios de vontade. Nem precisam de ser os de séculos passados, pois será claramente mais dífícil saber como eram exactamente (o que foi ultrapassado com este da Madre de Deus ou por exemplo com a nau mais pequena agora em Vila do Conde, entre outros), mas porque não tantos e tantos navios do século XX, fossem de transporte de passageiros, carga ou de pesca? Óbviamente interessam-me muito os de pesca e para quem já andou a investigar os links sobre os lugres e navios de pesca do bacalhau aqui ao lado, terá notado que muitos são bem bonitos e interessantes. Dos muitos estaleiros navais que existiam na costa portuguesa, lembro-me muito bem dos de Vila do Conde, no rio mesmo à face da estrada e das cavernas de barcos de pesca a crescerem em direcção ao céu, o cheiro a madeira e o som das serras eléctricas ao longe. Sempre que lá passava enchia as mãos e os bolsos de serrim para o ir cheirando até casa, pois sempre me fascinaram as “profissões da madeira”. Hoje já não existem os estaleiros nessa forma e passaram para a outra margem do rio, estão mais escondidos e abrigados. Ora com tantos estaleiros de Norte a Sul do país, não haverá centenas de navios diferentes na sua história que interessam a muita gente? Que guardem os seus direitos de reprodução, mas porque não os vendem em desenho? O Museu Marítimo de Ílhavo possúi um espólio riquíssimo incluindo material dos estaleiros dos Mestres Mónica, que muitos lugres e navios para o bacalhau construíram. Vários deles são na minha opinião um regalo para a vista, com linhas e design lindíssimo e dou o exemplo do “Aviz”, lugre-motor em madeira de 4 mastros-mochos construído em 1939 na Gafanha da Nazaré e considerado modelar pela sociedade inglesa classificadora de navios Lloyd's Register of Shipping.
A nau “Madre de Deus” e a publicação deste livro parece ter sido uma pedrada no charco, no entanto confinada à venda somente na loja do museu, presumo. Ainda assim é de louvar, mas caio sempre na mesma pergunta a mim mesmo... porquê que este é outro exemplo do Portugal empenado? Qual é o segredo do seu empenamento?... a ganhar pó nas prateleiras do presente português, camada após camada.
Termino com o “Creoula” que muito miúdo e graúdo adoraria construír em casa. É o mais famoso veleiro-bacalhoeiro português hoje em dia. Confesso que varri e varro a internet todos os dias à procura de fotos dele, dos detalhes dos nós das madeiras do seu pranchado e de com quantas linhas se cosem as velas, pois não quero continuar à espera de um dia, por milagre, ver o seu modelo ou plano à venda, pois acho que morrerei de velho e frustrado. A minha versão por certo não será perfeita, mas ao menos dará para “matar-o-bicho”.
 
Esta firma dinamarquesa, a Billingboats, que muitos conhecerão, está na vanguarda daquilo que eu gostaria de ver minimamente em Portugal.


publicado por cachinare às 12:10
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