Sábado, 10 de Janeiro de 2009
Contadores de histórias - Dos dóris às traineiras.
A voz de Matthew Mitchell é calma e os seus modos pausados. “ No meu primeiro dia num dóri, nos Bancos, à pesca na Terra Nova, andei perdido no dóri todo o dia. Eu estava a pescar com um homem experiente, mas andamos todo o dia perdidos. Não demos com a bóia e nunca mais regressamos. Eu tinha apenas 14 anos. Fomos recolhidos pelo “Iris & Verna”, do Capitão Bob Moulton. Meteu-nos a bordo da nossa embarcação durante a noite.”
Uma alma tímida recusaria voltar ao mar depois desta viagem, mas Matthew Mitchell e inúmeros outros rapazes novos, forçavam os pensamentos de enjoo de mar e saudades de casa para o lado. Eles pertenceram à era dos “navios de madeira e homens de ferro”, durante a Grande Depressão. Os empregos eram poucos, mas a vontade de trabalhar era muita.
As memórias do Capitão Mitchell são contadas pela voz da experiência. Ele consegue pintar um quadro com as suas palavras e os que o escutam sentem o movimento das ondas no mar, quase que provam o spray de salitre no ar. “Uma Aventura em Realismo” tem sido um slogan do Museu das Pescas do Atlântico em Lunenburg, Nova Escócia desde há muito tempo. Os pescadores reformados, como o Capitão Mitchell, que trabalham a bordo dos barcos do Museu asseguram que a aventura será tão forte quanto o seu aperto de mão e tão real quanto o seu “Benvindos a Bordo”.
A escuna “Theresa E. Connor” é impressionante como bandeira do Museu. Mas o navio ganha vida quando os homens contam as histórias da pesca no Atlântico Norte. As suas aventuras reais de vida são parte da colecção de tesouros históricos encontrados no Museu. Uma conversa com um dos seus antigos pescadores torna a visita ao Museu completa. O Capitão Mitchell sorri e comenta: “Nem lhe sei dizer quantas pessoas nos apertaram as mãos e nos disseram “Você é a melhor parte do Museu”. Eles adoram as velhas histórias.”
Os visitantes podem encontrar os pescadores retirados a bordo do “Theresa E. Connor” e da traineira de arrasto lateral “Cape Sable” para reviverem os “bons velhos tempos”. Os “bons velhos tempos”, contudo, não eram assim tão bons. Para os pescadores e suas famílias era imenso trabalho duro e perigoso. Matthew Mitchell nasceu em Port au Bras na Terra Nova e enquanto miúdo ajudava o seu pai na sua armação do bacalhau. Quando novos, Mitchell e os seus irmão sabiam limpar e preparar peixe nas docas de Port au Bras. Era bom treino para os anos vindouros.
Quando tinha 16 anos, veio para Lunenburg, sem conhecer ninguém na comunidade, isto em 1934. “Foi a bordo do “Silver Arrow” que embarquei pela primeira vez. Faziamos pela vida dentro de dóris. Pesquei nesse Inverno a bordo do “Silver Arrow” e depois passei para o “Pasadena II”, uma escuna da salga. Com o passar dos anos, o Capitão Mitchell andou na pesca da salga, do alabote e do peixe fresco. Fez parte das tripulações do “Alcala”, “Bluenose”, “Brenda Marguerite”, entre outros. Em 1947 passou para a traineira de madeira “Cape North” e nela trabalhou durante 19 anos, sendo durante 10 capitão. Casado em 1939, teve 4 filhos e hoje todos trabalham ligados ao mar.
Retirou-se do mar em meados dos anos 70 e em 1976 foi convidado pelo Museu das Pescas para Capitão de Terra das embarcações do Museu, recebendo desde então os visitantes. Quando questionado se alguma vez pensou, após ter deixado a sua terra há 62 anos atrás, que iria ter uma carreira de vida tão interessante, a resposta é expedita: “Não. Havia alturas, quando se andava na pesca de dóri, em que se julgava que nunca mais se voltaria a bordo da escuna, quanto mais julgar que um dia se chegaria a Capitão.”
 
Traduzido de Fisheries Museum of the Atlantic – Lunenburg, Nova Escócia.
Fotos pertencentes ao museu.
 
Como comentário breve, este é outro exemplo do que se deve tentar fazer nos museus marítimos, como o de Ílhavo, sendo este o mais importante em Portugal, mas também por outras instituições locais pela costa fora. As minhas raízes estão na pesca e sei bem como as histórias do meu pai, embora não contasse muitas, me ficaram para sempre na memória e são hoje parte do meu enorme gosto pelo mar e suas gentes. Não faltarão pescadores reformados que de bom grado partilhariam as suas histórias uma ou duas vezes por semana, conforme pudessem ou lhes pedissem.

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publicado por cachinare às 09:47
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Aproveitando a ocasião, sugiro a todos, pescadores...
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