Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009
Com os pés na Lancha-do-Alto.

No passado mês de Dezembro tive a oportunidade de finalmente concretizar mais este sonho de pequeno, e estar ao pé da grande Lancha-do-Alto da Póvoa de Varzim, único exemplar existente e a navegar hoje em dia. Num enorme agradecimento à Biblioteca da cidade, nomeadamente nas pessoas do seu Director e funcionário, fomos à marina cedo pela manhã e após conhecer um barco só por parcas fotos, a “surpresa” do real tamanho da embarcação foi enorme. Ainda maior se tornou ao subir para um dos vários bancos e notar a altura a que se está das cavernas no fundo do barco. É na verdade uma altura da qual não convém cair desamparado, pois o resultado pode ser desastroso.

Conversando bastante com um dos membros da sua tripulação sobre os aspectos de navegação a bordo, esta lancha foi construída no início dos anos 90 junto à antiga lota da Póvoa de Varzim (da qual tenho muitas memórias) como fiel réplica das antigas que povoavam os areais desta cidade, Valbom, até Setúbal, Brasil e mesmo África colonial. Deve-se essencialmente a uma das maiores figuras da Póvoa desaparecida há um par de anos, Manuel Lopes, cujo gosto pela tradição dos pescadores da sua terra era enorme e não aceitava o desaparecimento dos barcos que em alturas chegaram aos 700 (de vários tamanhos) registados na capitania.
Este barco necessita pelo menos de uma tripulação de 15 homens, todos eles voluntários, para navegar em segurança e normalmente participa em encontros de embarcações tradicionais, nomeadamente na Galiza, tendo já estado em França. Em Portugal este sector cultural está ainda demasiado “perro” e como tal vai estando presente em eventos espaçados, desde Lisboa a Aveiro ou Vila do Conde. Normas de segurança actuais obrigaram a novo investimento, agora com quatro balsas a bordo para situação de naufrágio.
Histórias dos que a tripularam são muitas e é uma pena que não estejam registadas, seja em livro, blogue, etc. Houve alturas em viagem, com vento a favor, em que o relato dos que nela iam era de todos o mesmo: “Aquilo parece que voa no mar”. Os quase 13 metros deste barco impôem grande respeito e o seu enorme leme é disso exemplo, precisando normalmente de 3 homens para pegar nele e de grande profundidade para compensar a grande vela que usa. O trabalho para manobrar um barco destes à vela é grande e por vezes custoso, sendo exemplo disso o levantar do pesado mastro. Registos antigos indicam a existência de lanchas com 2 mastros, tendo o Arq.º Lixa Filgueiras estado na vanguarda do estudo desta tipologia de embarcações tão característica e numerosa no Norte de Portugal.
Estaria lá o dia todo se pudesse, para lhe fotografar todos os detalhes e os passar para o modelo à escala que virá um dia. Foram vários os momentos em que me pús a imaginar este barco cheio de pescadores no passado, carregado de aparelho e como decorreria o trabalho a bordo, a sua organização obedecendo às regras das diferentes partes do barco, às ordens do patrão, etc. O dia estava enevoado e como tal o colorido das fotos não resplandece, mas resplandece o significado e simbologia deste barco que, acredito, um dia terá os irmãos de menor calibre junto dele, o batel, a catraia, o caíco, em representação o mais completa possível do passado marítimo da Póvoa de Varzim e de Portugal.
Espero um dia não muito distante navegar neste barco, quiçá como parte da tripulação. Faz parte do sonho.
 
Agradecimentos: Dr. Manuel Costa e Sr. Ferreira – Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim.


publicado por cachinare às 08:57
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2 comentários:
De joão marinheiro a 18 de Janeiro de 2009 às 18:40
Caro amigo, leio sempre com muito interesse os seus artigos, quase nunca comento, mas isso é um defeito meu. Resolvi comentar este artigo da lancha porque existe uma imprecisão na informação que lhe deram, quem sabe por desconhecimento de causa. Prende-se com a construção da mesma, foi construída no extinto estaleiro Postiga e Feiteira Lda. onde hoje existe a casa do barco na ribeira de Vila do Conde. Depois sim foi levada para a Povoa de Varzim e dai “botada” à água num gesto simbólico de retorno ao mar e ás memórias. Uma cerimonia que encheu de comoção os velho Lobos-do-mar que acorreram em peso à velha praia de onde partiram tantas e tantas, à velha praia onde tantas não chegaram nunca.
Todo este projecto grandioso foi como julgo saber, liderado pelo meu extinto amigo Manuel Lopes, o verdadeiro impulsionador da recuperação do património marítimo no norte de Portugal, a quem a Associação Barcos do Norte Publicamente com a FGCMF prestou homenagem no VIII Encontro de Embarcações Tradicionais realizado em Ferrol no ano de 2007.
Aqui encontra parte da homenagem feita a Manuel Lopes:

http://memoriasvirtuais1.blogspot.com/2007/08/hoje-fui-andar-na-lancha.html

Saudações marinheiras
João Marinheiro


De jaime pontes a 31 de Janeiro de 2009 às 01:50
Caro amigo António é com prazer que ao ver a lancha Poveira me inspira a escrever algo sobre estas bélas Senhoras que tém o nome de lanchas e que realmente são um tesouro doutros tempos !,,Eu que ainda sou do tempo delas quando ia a Povoa com a minha mãe para a ribeira «éra assim denominada a baçia da Povoa »,enquanto os meus pais descarregavam sar dinha na praia do barco sardinheiro ,eu saltava as lanchas que estavam varadas o que me custava muito pois éram muito altas ,e andava de umas para outras sim eram varias , ainda me lembro dos nomes de algumas , como Fé Em Deus , Vamos Com Deus , Senhora da Agonia , e São José entre outras . Que belesa éram as Rainhas dos mares da Povoa e não só ...um abraço até breve ...Jaime pontes...


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