Sábado, 31 de Janeiro de 2009
FRV “Anton Dohrn” e os bacalhoeiros de Portugal.

Sete anos após o fim da II Guerra Mundial em 1952, o Ministério Federal da Alimentação, Agricultura e Florestas da Alemanha (RFA) decidiu ceder dinheiros para a construção e equipagem de um navio para pesquisar as pescas. Após um planeamento cuidado, especificações de design e convites para a apresentação de propostas, os estaleiros de Mützelfeldt em Cuxhaven, RFA, eram comissionados para a obra nos inícios de Maio de 1953. A 16 de Agosto de 1954 proclamava-se o baptismo e bota-abaixo. O navio recebeu o nome “Anton Dohrn” e fora baptizado pela neta (Drª Antonie Dohrn) do famoso investigador marinho Anton Dohrn. Após a entrega do navio a 10 de Fevereiro de 1955, o FRV “Anton Dohrn” era cerimonialmente apresentado a 3 de Março pelo Professor Theodor Heuss, Presidente da República Federal Alemã.

Este navio de 999 toneladas brutas fora construído ao estilo de um arrastão lateral. A tripulação, incluindo um médico de bordo, meteorologista e técnico de tempo, chegava aos 30 homens e para trabalho científico o navio oferecia 15 lugares. O espaçoso convés de trabalho inferior oferecia a possibilidade de montagem de máquinas de processamento de peixe para opções de testes.
Durante as suas 164 viagens de estudo, o FRV “Anton Dohrn” percorreu mais de 600.000 milhas náuticas em 3.727 dias de mar e foram levadas a cabo 8.157 operações de arrasto.
Dois acontecimentos em especial testemunham a pesquisa de sucesso deste navio: a descoberta de bancos de pesca entre a Gronelândia e a Islândia em 1955, hoje denominados como “Banco de Dohrn” nas cartas náuticas e pouco tempo depois a descoberta de um planalto submerso a Oeste da Hébridas, hoje denominado “Planalto Anton Dohrn”. Após 17 anos de serviço, o FRV “Anton Dohrn” terminava a sua comissão como plataforma de pesquisa em Julho de 1972. Após conversão para navio patrulha das pescas, recebia o nome “Meerkatze” em Dezembro desse ano e passava a operar em águas da Islândia. Foi desmantelado em 1986.
Traduzido do site oficial do FRV “Anton Dohrn”.
 
Durante as suas campanhas de pesquisa no Atlântico Norte e como não podia deixar de ser, o FRV “Anton Dohrn” cruzou-se com navios bacalhoeiros portugueses, entre eles o “Adélia Maria”, o “Capitão Ferreira”, o “Gazela Primeiro”, o "Lutador" ou o “Senhora da Boa Viagem”, bem como o navio-hospital “Gil Eannes”.
A 17 de Agosto de 1957, J. Messtorff e o Prof. Dr. A. v. Brandt subiram a bordo do lugre-motor “Adélia Maria” e registam em fotografia vários aspectos da pesca à linha pelos portugueses bem como a vida a bordo, pesca em dóris ou processamento do bacalhau. Era já nesta altura um tipo de pesca único no mundo, somente levado a cabo pelos portugueses, algo que fascinava estes investigadores alemães (várias das fotos foram mesmo tiradas do topo dos mastros!) e muita da comunidade internacional. Embora em decadência, este tipo de pesca terminaria em Portugal só em 1974.
Nas fotos acima, da autoria de J. Messtorff, é possível contemplar esta faceta piscatória e marítima portuguesa tão vincada no século XX, mas ao mesmo tempo tão antiga, trabalho de milhares de pescadores durante décadas e hoje na memória envelhecida de inúmeras comunidades da costa de Portugal. No entanto, aos poucos essa memória está a rejuvenescer.
Aqui ficam algumas das fotos da excelente colecção que se pode encontrar completa online no seguinte link: http://www.anton-dohrn.de/html/ad024_1957.html
 
Todas as fotos - Copyright J. Messtorff.
Um agradecimento especial ao Sr. Manfred Stein pela permissão ao uso das fotos.


publicado por cachinare às 09:04
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3 comentários:
De jaime pontes a 31 de Janeiro de 2009 às 19:36
Ola de onde apareceu estas fotos todas ?Que maravilha amigo António ,ao ver tudo fiquei um tempo parado a olhar as fotos ,mais o seu significado ,claro que eu sei que o amigo António tém muita obra dentro da mala ! Os pescadores a regreçar ao navio uns mais outros menos bacalhau era assim a pesca , a escala , a salga , sim das sete viagens que dei ao bacalhau seis como salgador , que maravilha o dia a dia de bordo do navio , mas havia de tudo , quando corria bém éra mesmo uma festa , mas quando as coisas não corriam então éra negativo ,os Alemães a bordo a tirar fotos , admirando o trabalho dos pescadores Portugueses! e o tempo bóm que decorria ém plena groenlandia que´bóm tão bom que os visitantes foram ao porão ver como éra a salga ,tambem os Oficiais do Adélia a confraternizar com os biologos Alemães , fotos lindas quem as ve não esquece facilmente , bóm trabalho amigo António um abraço saudações maritimas ...Jaime Pontes..


De jaime pontes a 5 de Fevereiro de 2009 às 21:54
Recordar é viver , ver estas fotos fês-me recuar no tempo e fazer contas de memória , as minhas memorias ,sim de repente ao olhar uma a uma , os botes a regreçar uns com boas técas outros nem tanto e alguns com pouco mais que nada éra assim a pésca do bacalhau ,! Más a escala sim os escaladores ,os troteiros ,os partedores de cabeças, os mossos de convés a tirar as caras ,as linguas , e os sames do bacalhau que se aproveitava tudo ,até os figados ,e os salgadores esses homéns que trabalhava desde as cavérnas do navio até o convés os homens do sal ,que éram os ultimos a comer a sopa da chora ! Porque tinham que salgar o ultimo bacalhau . . .um abraço amigo António e comprimentos a todos ...Saúdações Maritimas...Jaime Pontes...


De RUI amaro a 24 de Fevereiro de 2009 às 00:54
Caros A. Fangueiro e J. Pontes
Recordo-me da vinda a Leixões, ai por finais da década de 50, do ANTON DOHRN (1), navio Alemão de investigação das pescas, de linhas muito elegantes, armado em arrastão lateral e de apreciar as suas excelentes instalações e laboratórios, que foram facultados a alguns populares, que passeavam pelos cais de Leixões, e os Alemães diziam que as tripulações dos navios bacalhoeiros Portugueses eram uns autênticos HERÓIS DO MAR, nomeadamente os homens dos dóris, ai como o amigo Jaime Pontes, sabe muito melhor do que nós como duríssima era aquela vida no meio daqueles mares de gelo, para não nos faltar aqui na Pátria o saboroso “fiel amigo”! E durante os dois conflitos mundiais, sempre com o fantasma dos U-boots, que apesar da nossa neutralidade, na de 1939/45, nos fizeram estragos irreparáveis. Mas a vida do pescador bacalhoeiro era assim e era a guerra, e Portugal perdeu cerca de centena e meia de homens nas pescas e no comércio.
Na minha actividade profissional de assistência aos navios, muitas tripulações de várias nacionalidades, e ainda hoje nas trocas de mensagens de outros sites ou através do meu e-mail privado, era e continuo a ser questionado sobre a pesca dos Portugueses nos mares gelados do Noroeste do Atlântico e eles ficam aterrorizados com o que lhes dou a conhecer e ainda desconhecem que os Portuguese já por volta de 1400 por lá andavam. Não sou marítimo mas as minhas origens paternas são de gente da ria, do rio e do mar, e não sou nenhum leigo no assunto. A única vez que embarquei num navio bacalhoeiro, foi ainda criança, no puro lugre à vela ANA MARIA, que enquanto aguardava maré e rebocador fazia bordos à terra e ao mar sob Nortada fresca, fora da barra do Douro e arrepiei-me todo de ver aqueles mastros altíssimos com as velas retesadas à escota curta, sempre inclinados a um bordo e o convés cheio de mar quanto bastava, e entrei a barra do Porto. Foi um acontecimento já mais esquecido!
Na década de 50 vinham a Leixões muitos arrastões bacalhoeiros Alemães e Franceses e na de 60, um ou outro Alemão, vinha desembarcar pescadores Portugueses mas lugres nunca se viram por estas bandas, se bem que noutros tempos viessem, sobretudo palhabotes da Terra Nova.
O ANTON DOHRN (1) em 1972 foi substituído pelo WALTER HERWIG, de arrasto pela popa, que tomou o nome de ANTON DOHRN (2) e outros ANTON DOHRN se sucederam.
Saudações marítimo-entusiásticas
Rui Amaro (Navios à Vista)


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