Sábado, 23 de Fevereiro de 2008
... ainda Alan Villiers e Portugal.
por Alan Villiers in “Eu Velejei com os Corajosos dos Capitães de Portugal” - The National Geographic Magazine, Maio de 1952.
 

Outrora, lugres-patacho como o “Gazela Primeiro” eram comuns nos Bancos. Agora a maioria foi substituída por lugres de manejo mais fácil. O estai felpudo à esquerda é coberto de filaça entrelaçada para impedir que corte a vela. Na foto, com um temporal a caminho, camaradas do “Gazela Primeiro” arrumam a vela de traquete. Este lugre-patacho é o último da frota bacalhoeira de Portugal.



publicado por cachinare às 17:44
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2008
... ainda Alan Villiers e Portugal.

por Alan Villiers in “Eu Velejei com os Corajosos dos Capitães de Portugal” - The National Geographic Magazine, Maio de 1952.
 

Ao contrário dos lugres, os navios-motor carregam os seus dóris em plataformas especiais. A forma como estão arranjados mantém o convés livre, mas atrasa a largada e o embarcar dos dóris, um contratempo quando surgem temporais repentinos. Na foto, velas pintadas de dóris aninhados secam a bordo do “Elisabeth”, um dos novos navios-motor da frota dos Bancos em St. John´s, Terra Nova.



publicado por cachinare às 14:26
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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008
... ainda Alan Villiers e Portugal.
por Alan Villiers in “Eu Velejei com os Corajosos dos Capitães de Portugal” - The National Geographic Magazine, Maio de 1952.
 
Quando um dóri carregado encosta ao “Argus”, o bacalhau é ganchado para o convés para dentro de compartimentos em forma de caixa ao longo da amurada. Grupos de três homens limpam e escalam o peixe. Os fígados são cuidadosamente aparados e levados para uma usina de pressão, onde se faz o valioso óleo. Os bacalhaus são lançados para dentro do porão, onde uma equipa experiente salga cada peixe cuidadosamente e o arruma. Salga desatenta pode estragar uma carga completa. Na foto, o Engenheiro chefe César Eduardo Maurício escala bacalhau num só golpe.


publicado por cachinare às 22:48
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Sábado, 2 de Fevereiro de 2008
Praias Douradas de Portugal.
Após a campanha no “Argus” em 1950, Alan Villiers resolveu voltar a Portugal pouco tempo depois para de novo presenciar e documentar a vida dos pescadores Portugueses, desta vez ao longo da costa. Em Novembro de 1954 esse trabalho foi publicado uma vez mais na revista National Geographic.
Consegui adquirir também um exemplar desta revista e com todo o gosto traduzi o texto que aqui apresento, incluindo umas poucas fotos, propriedade da mesma.
Por um passado que será sempre nosso e meu.
 
PRAIAS DOURADAS DE PORTUGAL
Por Alan Villiers
in THE NATIONAL GEOGRAPHIC MAGAZINE, Novembro de 1954
 
Se eu fosse um peixe, mantinha-me afastado das douradas praias da Ibéria!
Especialmente, evitaria como se da peste fugisse, o todo da espectacular costa de Portugal. Belas podem ser as suas praias, mas não para um pobre peixe.
Ao longo de todo aquele varrido pelo Sol, pitoresco litoral – desde Caminha no Norte, passando pela Costa Nova e Nazaré, Costa da Caparica, dobrando a Ponta de Sagres e além dela, ao longo de todo o brilhante e dourado, florido Algarve, bem até às fronteiras com Espanha e além delas também – 40.000 pacientes, destros pescadores tiram do mar o sustento tal como o têm vindo a fazer desde tempos imemoriais, caçando o peixe para comer.
Tem sido deste modo desde que o homem teve os seus inícios. O mar guarda uma abundante colheita, a qual não requer semente semeada. Tudo o que o homem necessita são as ferramentas para nele trabalhar, a arte de saber onde o peixe anda e a paciência para esperar por ele.
Ao longo dos tempos, as ferramentas do homem para ceifar a colheita do mar foram evoluindo até aos dias de hoje, em muitos locais e a sua eficiência é quase assustadora. Através de aparelhos electrónicos para detectar o peixe, televisão subaquática para os ver, traineiras de malha fina para o arrastar aos milhões e o peixe poucas hipóteses tem. É possível encontrar estes modernos métodos de pesca em uso nalguns portos de Portugal, também, se pretenderem procurar por eles. Mas depois da minha viagem com os homens-dos-dóris aos Grandes Bancos e Gronelândia, não me interessei muito pela chacina científica de peixe em massa.
 
HOMENS CONTRA O MAR BRAVIO.
 
Os meus amigos homens-dos-dóris haviam-me dito que aqui e ali ao longo da costa Ibérica, homens de mar ainda lançam a sua habilidade e força nua contra o mar. Usando métodos herdados dos Fenícios, remando em enormes lanços, estes pescadores do alto saem para o tempestuoso Atlântico com barcos de proa alta que parecem ter navegado e saído de um passado místico.
Os pescadores continuam a usar estes métodos, disseram os homens-dos-dóris, porque deste modo apanham peixe suficiente e não esgotam seriamente os pesqueiros. Os métodos modernos são todos muito bons, mas os velhos e hábeis pescadores olham para eles como assassinos e temem pelo seu efeito terminal nas reservas de peixe. Os Bancos podem ser esgotados, dizem eles; por isso é melhor manter alguns dos antigos e bem experimentados métodos em vigor. Então, de um modo ou de outro, haverá peixe suficiente para comer e a continuidade das espécies.
 
ONDE OS SÉCULOS NÃO TRAZEM MUDANÇA.
 
Os homens-dos-dóris falaram-me de praias douradas no Norte de Portugal onde todo o homem de corpo feito da terra e todos os bois que eles consigam levar, lançam enormes e Bíblicas embarcações de pesca através da brava rebentação na praia. Os homens que lançam as redes às águas vestem-se praticamente todos da mesma maneira, entoam os mesmos velhos cânticos e trabalham precisamente do mesmo modo que foi passado de pai para filho, geração após geração.
Contaram-me sobre a afamada Nazaré, com a sua meia-lua de praia reluzente praticamente coberta quando está mau tempo, de característicos barquinhos de pesca, uns aparelhados como um dhow (1), outros impulsionados a remos com uma maravilhosa forma de sapato velho, grandes e altivas proas e grande boca para evitar que se virem na rebentação.
Contaram-me também de praias no Algarve, como a de Albufeira, onde encontraria pequenos dhows sem motor ainda pintados com um olho à proa para que possam “ver”. Falaram da grande corrida ao atum, a louca corrida do gordo peixe que vira em direcção ao Mediterrâneo para acasalar, altura em que os homens montam um gigante curral no mar para travar as hordas de velozes barbatanas tal como o têm feito desde tempos antigos.
Direitos sobre a pesca ao atum, outrora pertenceram ao Infante D. Henrique, Henrique-o-Navegador, o qual estabeleceu, por tradição, uma pioneira escola de navegação próximo, na Ponta de Sagres.
Acabei por confirmar que os homens-dos-dóris me haviam contado a pura verdade.
Iniciei a minha viagem no Norte, num local chamado Moledo, na Província do Minho, onde povoações inteiras de guturais homens, cantadeiras mulheres e crianças se juntam a apanhar algas da ondulação para fertilizar os campos provincianos. Apanham as algas com longas varas com redes armadas na ponta e apressando-se na rebentação que se afasta, enchem o máximo que podem, trabalhando o dia inteiro para fazer um monte de bom tamanho. Os apanhadores normalmente trabalham com roupas brancas, embora nem sempre. “Porquê vestir de branco?” perguntei eu. “Porque sempre o fizemos assim.” disseram eles. Apesar da maioria dos homens usar roupas brancas ou quase todas brancas, as mulheres podem vestir-se de um modo mais alegre.
De membros fortes, despreocupada e morena gente, todos correm atrás da ondulação, como se fossem crianças numas férias sem fim. O Sol quente depressa seca as vestes soltas e molhadas pela rebentação. Ricos vinhos da terra empurram boas refeições de peixe e de produtos dos seus bem cultivados campos. Que mais tem a vida para oferecer, ponderei eu enquanto me apressava para ver a embarcação Fenícia de grande proa, os navios de vir a terra originais da guerra anfíbia que labutam através da poderosa rebentação desde as praias de Mira e Costa Nova até Vieira de Leiria.
Passei vários dias ao longo destas praias e num local chamado Leirosa. Tive sorte, pois a faina estava a correr bem e os homens lançavam os barcos três e quatro vezes ao dia.
 
TEMPORAIS MANTÊM OS BARCOS EM TERRA.
 
Por vezes o Atlântico, chicoteado por um temporal repentino, lança-se em tamanha rebentação que nem os grandes barcos contra ele podem lutar e nessa altura não há pescaria. Há alturas em que durante dias não podem sair, enquanto o oceano está enfurecido. Não importa. O verdadeiro pescador é um filósofo. O peixe, argumenta ele, também tem de ter o seu descanso.
Fascinado, observei esta faina antiga. O método é sempre o mesmo, embora de praia para praia os barcos possam variar ligeiramente. Todos eles têm imponentes proas erguidas no alto, que terminam num ponto elevado no qual normalmente se penduram grinaldas de flores. Possuem grandes e bojudos cascos, fundos para carregarem as redes e todos os aprestos necessários, largos para terem uma boa firmeza no mar e não virarem com facilidade.
Os barcos possuem rés bem arredondadas e confortáveis, que lhes dêem um bom deslocamento no mar de modo que, quando a rebentação vem atrás deles à medida que se dirigem para a praia, o mar reclamante encontre bastante para levantar e assim carregá-los em segurança adiante, em vez de neles quebrar e os encher.
Enormes remos impulsionam a embarcação, cada remo feito de um único pinheiro. Estes grandes barcos não possuem velas, motores ou qualquer outra energia excepto os músculos da sua tripulação. Estes têm de regressar à praia após cada lanço de redes e um motor rapidamente ficaria em pedaços. Além disso, seria necessário um pesado motor para impelir tamanhos cascos contra rebentação e mar. Porquê gastar tempo e dinheiro em coisas dessas? Os remos fazem o trabalho muito bem e o seu manejo é perfeitamente sabido.
Fui a bordo destes barcos sempre que pude, sabendo que estava a regredir talvez mil anos na história e maravilhado, também, por estar com estes primos dos homens-dos-dóris dos Grandes Bancos, que também pescam com habilidade e sem medo. Ao princípio não conseguia entender como embarcações que pareciam tão impossíveis de manobrar podiam ser lançadas através da rebentação, pois todas elas tinham 18 metros de comprido e largas o suficiente para dez homens se posicionarem a um remo. O comum barco da rebentação é longo e esguio, tal como um velho bote baleeiro ianque – gracioso e ligeiro e com grande curvatura, contudo não tão delicado que lhe falte robustez suficiente para sobreviver praticamente a tudo.
 
HOMENS E BOIS LANÇAM A EMBARCAÇÃO.
 
Subi a bordo do meu primeiro barco-do-mar em Palheiros de Mira, enquanto se encontrava sobre rolos brutos de madeira de frente para o mar, à margem da rebentação. Dois brandos bois, emparelhados juntos, mantinham-se placidamente em posição, amarrados a curtas cordas que se encontravam atadas a argolas dos lados do barco.
Os animais ficavam por vezes com água pelos joelhos na rebentação, embora não estivesse muito forte nesse dia. Pareciam bem habituados àquilo e não lhes prestavam atenção. Ao pé de cada parelha mantinha-se um homem com uma vara para os controlar.
Havia outras parelhas de bois estacionadas ao longo da praia, uma dúzia ou mais. O barco estava rodeado (excepto na proa) por cerca de 40 homens, todos em vivas camisas de quadrados e de calças arregaçadas bem acima dos joelhos. A maré estava a crescer. Os homens aguardavam até que o mar batesse em volta da proa e a levasse.
“Agora! Agora! Todos à uma! É pô-lo a boiar!”, berra um gigante dum homem, mestre de redes.
“Agora! Agora! Todos à uma!”, gritam os 40 homens e os bois esforçam-se nas suas cangas, sacudindo as narinas que se livram da rebentação e espuma e cunhando na areia mole até afundarem nela à altura dos cascos enquanto a rebentação sobe às suas massivas espáduas.
O barco range e estala. Um camarada à proa grita a um grupo de mulheres em terra que seguram uma pesada corda, dizendo-lhes para manterem a proa de frente para o mar, de modo a que a embarcação não se vire. Os 40 homens empurram com toda a sua força e pequenos rapazes correm a colocar novos rolos em posição de novo debaixo do casco, enquanto a rebentação recua. O grande barco moveu-se uns bons 5 metros, mas a ampla popa está bem em terra e longe de estar a flutuar.
Outra onda enrola na areia e mais outra. Mais por fora do quebrar das ondas, uma maior que as outras faz surgir uma boa chance.
“Agora! De novo, meus filhos! Todos à uma!”, grita o mestre.
 
MAIS UM PUXÃO – ELE FLUTUA!
 
De novo os animais esforçam, os seus donos gritam para os encorajar e os homens puxam com ritmo e força, com água até às coxas no mar fervente, espuma nas caras e o Sol quente a bater.
Ah, agora ele vem! Da vantagem do sítio em que me encontro, no pequeno convés sob a altaneira proa sinto todo o barco a flutuar. Um mar vivo, a correr a partir na praia bate contra o pesado talha-mar e explode em espuma que paira.
“Largai a corda!”, grita o camarada às mulheres em terra. “Largai!”
Elas largam a corda e os bois são desengatados das argolas. Os homens apressam-se desenfreados para o barco; rindo e chapinhando eles pulam sobre as altas bordas, cada qual de imediato fazendo-se ao seu lugar nos remos gigantes, mantendo-se empoleirados nos bancos de remador, bem perigosamente acima do grande porão cheio de redes e cordas.
“Com alma! Puxai com alma! Virai-lhe as costas!”, grita o mestre, pois o mar recuante pode ainda deixar o grande barco em terra e há sempre o perigo de que ele possa guinar e arremessá-los para fora.
Com mau tempo, tal má sorte pode terminar em afogamentos. Com qualquer tempo é uma largada errante e danosa para barco e aparelho. Mas agora, 40 fortes costados esforçam-se com vontade nos grandes remos e 80 braços morenos puxam com toda a força que têm.
Os remos trabalham ao ritmo de um “Oxford eight” (2) e a força que imprimem ao comprido casco, puxa o barco firmemente mar afora. Ele salta e pula num ferver de ressaca, pois o mar parte bem longe da praia e de novo ele salta à medida que cavalga os mares que rodopiam mal humorados em volta de um banco de areia longe da praia.
Agora o barco está a flutuar como deve ser, livre do areal. Já os bois e seus donos são cada vez mais pequenos à distância e a fila de mulheres que seguravam a corda à ré se desfez. As mulheres e raparigas pegaram nos seus cestos do peixe e aguardam pela apanha para o mercado.
O mestre, um grisalho lobo do mar que enverga uma velha boina , mantém a sua ainda atenta vista de fora para o mar, vigiando sinais no tempo. Todo o traiçoeiro Norte Atlântico se vislumbra perante ele, livre até à América. De momento, está a sorrir e as ondas por partir tremulam e erguem-se preguiçosamente no calor de um dia de Verão. No entanto, uma ventania pode levantar-se a qualquer momento.
 
VOLTAR À PRAIA, UMA MANOBRA DELICADA.
 
Sob o olhar do mestre, dois homens mais velhos cuidam da saída do corda da rede. Uma ponta foi deixada em terra; o barco afasta-se cerca de três milhas e aí, larga uma elaborada rede trabalhada de modo a que recolha cuidadosamente toda a vida marinha que esteja no seu caminho. O aparelho é todo largado enquanto o barco corre para longe da costa; de seguida, o barco vira de novo para terra e puxa uma outra corda. Quando chega à praia, ambas as pontas da rede podem ser aladas em simultâneo.
Levou-nos quase uma hora, a meu ver, largar as cordas e rede e outra para nos fazermos à praia de novo.
Voltar à praia é uma manobra a levar a cabo com cuidado, também, tal como é a largada, pois os perigos são ainda maiores. O ligeiro barco, apanhado numa rebentação enrolante, pode com a maior das facilidades ser virado.
Mas os pacientes bois mantêm-se à espera e o grupo de homens na beira-mar tal como as vendedoras de peixe estão prontos para colocar os rolos e para pegarem nas cordas com firmeza.
A linha de rede ainda a ser largada à popa ajuda a manter o grande barco a direito e desta vez ele navega como um LST (3) a fazer-se a terra numa qualquer praia do Pacífico em tempo de guerra.
Mal toca em terra, os 40 camaradas saltam para fora, a proa é virada face ao mar de novo e os bois são engatados às argolas. Então, os animais de imediato dão início ao esforço de puxar para fora da rebentação o barco de 18 metros. Toda a tripulação e os homens que aguardavam, mais os rapazes, tomam os seus lugares nas grossas cordas que saem do barco ao longo da praia. É então que homens, rapazes e bois puxam vigorosamente até a embarcação estar em cima e a seco, fora do alcance da rebentação. É ali que a deixam, pois irá sair mais uma vez mal esteja carregada com corda e rede nova.
 
BOIS ALAM A MILHAS-LONGA REDE.
 
Houve um padrão fixo em todo este trabalho. Mal o barco tocou em terra, cinco parelhas de bois começaram a carregar passo através da praia, de um lado para o outro, mais uma vez e outra vez, trazendo a terra o fim da linha de rede.
Ao longo da praia, no local de onde largámos – à distância de três quartos de milha – mais cinco parelhas de bois davam início ao puxar das cordas da rede dali; assim a rede milhas-longa era puxada firmemente em direcção à praia pelas cordas atadas a cada uma das pontas.
Vez após vez os animais lutavam pela areia até ao mais longe que conseguiam alcançar e depois, rapidamente desengatados da linha da rede, regressavam ligeiros à beira da água para puxarem de novo de um local intocado.
O dia pôs-se mais e mais quente, mas os bois e homens trabalharam firmes hora após hora, pois é um longo trabalho. Entretanto, outros homens içaram outra rede seca e reparada para a grande embarcação e começaram a armazená-la cuidadosamente a bordo, com as suas respectivas cordas, preparando uma vez mais o barco para sair.
A uma milha de distância, um outro barco estava a sair – mais um barco com outra tripulação de 40 homens e 18 ou 20 parelhas de bois para auxiliar a lançar e a trazer à praia e de novo içar a rede com mais homens e rapazes, qual bando à beira-mar.
Lá ao longe na neblina, conseguia-se ver ainda um outro grande barco e eu sabia que para além daquele haviam mais, onde quer que as plataformas de areia daquelas praias douradas mantenham a rebentação quieta o suficiente para que a arte sobreviva. Desde antes da alvorada até depois do crepúsculo, durante todo o dia, inteiras povoações de pescadores labutam à maneira antiga, trazendo o que colhem do mar.
 
POR VEZES A APANHA É PEQUENA.
 
Não que não hajam dias em que a apanha não é muita. Várias vezes, quando a última parelha de bois acaba de puxar as cordas e a enorme rede semi-circular, está estreitada numa comprida, encharcada e vibrante biruta por fim prostrada na praia, o que contém á uma mísera quantidade de peixe. Uns poucos cestos de sardinha, uma ou duas tremulantes pescadas, alguns pequenos tubarões, algumas lulas, umas cavalas, talvez uma dúzia ou mais de solha e uns poucos peixes maiores – isto pode ser tudo.
Aquando de tais aladas, as peixeiras sentam-se desconsoladas no areal e esperam pelo próximo alar. No entanto desta vez é um lote solarengo e depressa se põem a sorrir e a conversar, enquanto as crianças as rodeiam. O que não se pode ter hoje, virá amanhã. Porquê cismar? Enquanto o Sol brilhar, haverá o suficiente para comer e envolvendo-os está o panorama das douradas praias e toda a beleza de Portugal. Os pescadores, também são filósofos. Eles não são donos dos grandes barcos ou das redes com as quais trabalham. Eles são formados em “companhas” aí de uns 80 homens e os “camaradas” (como os membros das companhas são chamados) têm direito, por costume e tradição antiga, a peixe em quantidade suficiente para manter as suas famílias e recebem uma parte dos lucros da faina. Se não houver lucros, comer comem sempre. E mesmo que não hajam lucros hoje, o amanhã pode trazer fortuna.
Por vezes a grande rede vem a rebentar de peixe e camiões são chamados de vilas e aldeias milhas em redor para transportarem o peixe ao interior, onde dá bom preço.
Barcos e redes são pertença de um só homem, mais influente que a maioria, ou por pequenos grupos. A regra é que o dono leva uma certa percentagem, os camaradas levam a sua e o Estado recebe 12% para policiamento, controle de mercado e fazer das gerações mais novas bons cidadãos.
Eu podia ter ficado semanas em Mira ou Leirosa ou Furadouro, sem dúvida um belo local; ou na Costa Nova, onde vi barcos mais pequenos que são pertença dos próprios pescadores. Mas havia ainda muito mais para ver. Passei um fim-de-semana em Ofir, um agradável lugar para se estar enquanto se comem lagostas gigantes frescas a sair do mar e visitando a próxima e muito interessante cidade de Viana do Castelo.
Nazaré, onde permaneci durante uma semana, é um glorioso presente para artistas ou qualquer pessoa com gosto pela cor, com a sua simples vida tranquila. Lá, as crianças dos pescadores dançam à margem da praia num Domingo de manhã ao som de velhas concertinas.
É uma grande praia a da Nazaré. Existem pensões e hotéis e turistas chegam de autocarro de tão longe quanto Paris. As praias parece que foram arranjadas para parecerem o mais atractivas possível e os Nazarenos são outro factor juntado às suas vantagens naturais.
Nazaré, para os pescadores, é uma baía aberta para lá de um ponto elevado, com uma praia segura para trazer barcos à praia e boas condições de comércio e distribuição. Lá eu vi centenas de alegres embarcações de proas altaneiras, de fundo chato para deslizarem sobre as areias e amplas para levarem as suas cargas.
 
FAMÍLIAS COM NOMES DE PEIXE.
 
A vida familiar na Nazaré centra-se em redor de barcos e praia. Antes do alvorecer ouvi o andar ligeiro de pescadores descalços que se faziam em direcção à praia. Eram sempre homem e mulher, o homem levando um pequeno cesto igual ao dos homens-dos-dóris, contendo comida e água, um cachimbo e um assobio sem o qual nunca se faz ao mar e a mulher com um cesto de pescadeira à cabeça. O homem pesca e a mulher vende e o peixe é tão grande parte das suas vidas que os seus próprios apelidos têm a ver com peixe. Na Nazaré é o Sr. Bonita e Srª. Pargo, jovem Mestre Bacalhau e sua prima Menina Pescada; tão pouco alguém se preocupa que haja algo de impróprio nos nomes.
Notei o quão bem planeadas eram as casas onde os pescadores vivem, num bairro próprio, para eles construído pelo Governo com parte dos 12% que tira da faina. Vi o infantário para os seus pequenos e o bem guarnecido dispensário, o hospital e a loja cooperativa onde o mulherio compra o necessário para fazer as coloridas camisas aos quadrados e a grossa roupa interior de lã. Existem destes bairros em quase todas as praias de pesca.
Podem comprar-se bons barretes na Nazaré por muito pouco, desde que se seja um pescador de mar. Os barretes são bons, pois um homem pode ter a sua provisão de tabaco protegida da espuma da água se a guardar bem no fundo de um arrumado barrete – e mesmo uns poucos escudos, também, dos quais a mulher não sabe.
Bois ajudam no trabalho de lançar e trazer a terra firme os barcos de pesca também na Nazaré – de longos chifres, bestas contentes que gostam de se prostrar nas areias quentes quando não há que fazer. Os Nazarenos pescam com redes lançadas dos seus pequenos barcos em forma de sapato, com linha curta ou longa e através de pequenas redes lançadas da praia. No entanto, eles não possuem nenhuma das grandes embarcações que cavalgam na rebentação das praias mais bravas. A ponta de terra da Nazaré permite que os barcos mais pequenos passem a ondulação e amaina o mar. Aquelas outras praias são bem mais abertas.
 
BARCOS APARELHADOS COMO DHOWS ÁRABES.
 
A minha Província favorita em toda a Península Ibérica é o Algarve, carregado de Sol e pleno de flores, onde crescem amêndoas e brancos casarios crivam verdes vales.
A marca do Mouro é claramente notada no Algarve mesmo hoje, apesar de séculos terem passado desde que os últimos seguidores do Islão deixaram esta área, a qual era para eles um verdadeiro paraíso.
Sinais do Árabe são inúmeros ao longo das praias em lugares como Albufeira, a qual se agarra às suas altivas arribas, ou à plana Quarteira, onde todo o barco puxado ao longo do areal é quase puro Árabe. De vela latina, linhas doces e construção robusta, olhos pintados nas bem formadas proas, nem um motor em todos eles, mantêm-se em longas e irregulares filas contemplando o mar. A praia é o seu porto e não conhecem outro.
Algumas destas embarcações vão para o mar pouco antes do Pôr-do-Sol, outras antes do amanhecer. Alguns pescam toda a noite em águas que conduzem ao Estreito de Gibraltar. Outros pescam durante o dia e eu vi-os lá – sempre em pequenos grupos de fantasticamente pequenos barcos, apenas uns pequeninos barcos – enquanto que pela minha parte, anteriormente havia embarcado em enormes embarcações. Também na Albufeira presenciei idas ao mar ao amanhecer e ao anoitecer, altura em que os homens e as mulheres da vila descem à praia para ajudar, mesmo que muitos deles não tenham ligação directa com a faina.
Albufeira, julgo eu, daria uma óptima vila para artistas, como a Nazaré. É um local pitoresco, situando-se principalmente em montes no topo de uma arriba e virado a Sul em direcção a África, que não fica muito longe daqui. Os seus resolutos habitantes são boa gente; as suas atraentes ruas oferecem variedade e cor. Os barcos de pesca de Albufeira estão alegremente coloridos e nenhum deles se encontra sem a graça de uma linha. O peixe é vendido num mercado à medida que chega a terra e numa manhã contei mais de 80 das pequenas embarcações a descarregar a sua prateada carga nas proximidades.
 
HOMENS QUE PESCAM À NOITE.
 
Na Quarteira, mais para Leste em direcção a Faro, os barcos são do mesmo tipo dos de Albufeira. A tripulação média é de 8 a 10 homens para um barco. A maioria sai para o mar uma hora antes do Pôr-do-Sol e regressam uma hora depois do amanhecer. Alguns pescam aos pares com redes, outros, usam longas linhas, com os seus inúmeros anzóis que permanecem iscados no leito marinho. Uns apanham sardinha com redes; outros peixe-espada, um longo e esguio.
A praia da Quarteira é plana e boa de se usar. Não existem arribas a barrar as saídas e a subida da rebentação é baixa e espaçada, tal que os barcos podem ser facilmente arranjados sem necessidade de bois.
Todos na povoação aparecem para ajudar ao regresso da frota todos os dias – velhas mulheres, crianças, toda a gente. Em especial apressam-se todos eles à praia a dar uma mão se uma borrasca repentina surge e as pequeninas embarcações vêm apressadas sob as suas velas latinas de varas altas em desesperada necessidade de abrigo!
Então aí a labuta é rápida, quase de perder o fôlego. Cedo a rebentação sobe de tom e parte ao longo da praia, enrolando espumosa. As gentes correm de barco em barco, agarrando nas cordas engatadas a argolas nas pequenas embarcações para as puxarem.
O vento começa a uivar. Mais e mais barcos de apressam para a praia, alguns entrando na rebentação ainda com as velas içadas, atirando-se para o areal a todo o fulgor para fugir para fora do alcance da água quebrante.
Por vezes as embarcações ao entrar na praia não lhe conseguem escapar. Barcos viram-se. Em ventanias repentinas alguns afundam-se. As igrejas estão repletas de ofertas por parte daqueles que se salvaram, quantas vezes por milagre. Outros não se salvam. É a vida do mar.
Presenciei uma venda de peixe ao longo da colorida praia da Quarteira, enquanto uma multidão de pequenas embarcações secavam as suas velas e centenas de numerosas famílias se juntava em redor. Crianças, em gritarias de contentes, correm e fazem malandrices em volta dos barcos durante todo o dia.
O peixe, apartado de acordo com o tipo pelos pescadores e suas famílias, era leiloado em montes no areal. O leiloeiro anda de monte em monte, pondo-se ao pé de cada um deles e cantando em voz altiva.
Este cantar é curioso – nada mais que uma sequência de números. O leiloeiro começa em voz alta e vai andando em voz baixa numa longa cantilena e o peixe vai para o comprador que o interrompe. Tais vendas a leilão passam muito depressa; então – e só depois – vão os pescadores para o descanso.
Mas era a tremenda correria ao atum que mais me interessava e apressei-me através dos agradáveis campos do Algarve até Faro, a capital provincial e centro das pescas ao atum.
Eu sabia que a qualquer momento após meados de Março, atuns aos milhares aproximam-se vindos das distantes, misteriosas profundidades do mar, chegando a terra algures na costa Portuguesa, perto do Cabo de Santa Maria e partindo dali para o azul Mediterrâneo para desovar. As condições no Mediterrâneo devem ser as ideais para os jovens atuns. Porquê, ninguém sabe.
Os Mouros foram provavelmente os primeiros a notar esta migração do atum, pois algumas das canções que os atuneiros cantam contêm palavras Árabes e outras são puramente Árabes. No entanto, é provável que os Mouros apenas tenham adoptado os métodos de os cercar quando os encontraram por alturas em que varreram a Península Ibérica.
 
ATUM ENCURRALADO COMO GADO.
 
Ao longo da costa da Sicília e aqui e ali nas costas do Norte de África é possível encontrar-se estas enormes armações do atum, currais onde os atuns em migração são apanhados para enlatar. Mas o melhor curral de todos é o que existe ao largo de Faro, pois este captura primeiro o atum, fresco do oceano. Algumas das outras armações apanham-nos quando estão já de regresso da desova, altura em que já são mais magros e cansados.
Eu saí para ver as armações do atum ao largo de Faro, indo com o dono, Sr. Manuel Francisco Lã e o meu omnipresente Sr. Joaquim Maia Águas.
Várias milhas fora da costa, no mar desprotegido, vi o que ao primeiro me pareceram longas linhas de cortiças flutuantes, milhas e milhas delas. O Sr. Lã explicou que o corpo da armadilha é uma enorme barreira com a forma da letra “L”, tendo cada um dos seus braços umas 3.000 jardas de comprido. As redes são suportadas por cortiças e todo o aparelho é mantido no sítio por uma série de cuidadosamente colocados ancoradouros, os quais incluem 600 grandes âncoras. Na ponta do “L” existe uma espécie de cancela nas redes e o atum que aparece nervoso e pode ser desviado por uma sombra na sua corrida à desova, bate na rede e vira-se inevitavelmente em direcção à cancela. Os braços do “L” estão posicionados de forma a que aqui e ali existam bolsas, desenhadas para conduzirem o atum naquela direcção.
Uma vez que o atum entre no curral, tem a vida feita. O portão está desenhado de tal forma que produz sombras ao longo da entrada e o atum nada para dentro, mas não voltará para trás. A cancela não tem de ser fechada excepto quando a apanha é muito grande e pesada.
A própria armação é um espaço cercado por pesadas redes, cerca de 400 jardas de comprido por 50 de largo. Muito atum se pode juntar ali. Eles vêem em cardumes de 60 (ocasionalmente) até 1.000, por vezes a chegar aos 2.000. Eles nadam fundo e ninguém sabe quantos estão no curral até a rede do fundo ser içada e o peixe é forçado à superfície. Se um atum é visto na armação, sabe-se que ali está um cardume. Nenhum atum sozinho entra enquanto a correria decorre.
 
OCIOSOS MANTÊM-SE NA VIGIA POR PEIXE.
 
A toda a volta da armação, flutuam compridos barcos negros, quase sinistros em aparência, os quais são ancorados ali em Abril e lá ficam durante a estação. Neles, homens estão em vigia. Existem vigilantes especiais, os quais se denominam por ociosos – um nome difamatório, pois a última coisa que são é preguiçosos – que permanecem em botes a mirar as profundezas o dia todo.
O atum é muito difícil de detectar para os olhos sem experiência os verem, pois ele nada bem fundo com o seu dorso azul para cima. Eu não conseguia ver nada a não ser água, embora pouco depois o chefe ocioso anuncie muito calmamente que um cardume se aproxima. Eu olhei e olhei e não via nada – apenas as linhas de cortiça amarelas a boiar sossegadas e os barcos negros e os dhows ancorados que levariam o atum para o mercado assim que fossem apanhados. Tudo isto e ao longe, talvez umas 10 milhas, a costa arenosa do Algarve e além dela Faro, a cidade mais a Sul de Portugal e capital de Província, a tremeluzir no calor da manhã.
De imediato surgiu uma excitação controlada, embora o ocioso apenas tenha sussurrado algo ao veterano mestre de redes, o qual veio cumprimentar o Sr. Lã. “Peixe!” disse ele, apontando. Para ele e para Lã a palavra peixe significa atum – em qualquer altura durante Maio e Junho.
Até ali, tudo havia sido silencioso. Não mais de três ou quatro homens estiveram em vigia, nos barcos todos. Agora, sem qualquer outro som, figuras começam a surgir nos barcos agrupados em volta do curral até serem 100 ou mais com determinadas caras morenas. Silenciosamente se puseram no trabalho de lançar uma rede móvel através da armação para encurralar o atum dentro e conduzi-lo na direcção do copo à sua extremidade.
Uma vez na armação, o atum nada à volta e à volta. O mestre das redes, tomando o comando, deu ordem para lançar a rede mal ele visse – eu ainda não via nada – que o atum se dirigia para o fim do copo. E lançada foi a rede com um relâmpago. Então aí o barulho já era muito! Os homens crêem que o atum os consegue ouvir e que se houver algum barulho repentino antes da rede os ter encurralado, o peixe pode escapar. Até ali, a malha das redes de barreira é grande o suficiente para permitir que o atum nade através dela. Só mesmo quando o peixe atinge o copo é que se encontra realmente preso.
 
BALEIAS ASSASSINAS CAUSAM A DEBANDADA.
 
Mas o atum não sabe disso. A única esperança de liberdade está no facto de ser alarmado e o que mais o assusta em tudo é a baleia assassina – o terrível roaz, que preda sobre o gordo atum e sabe de igual modo sobre a correria.
Se roazes se aproximarem das redes – e por vezes fazem-no – os atuns enlouquecem e furam por todo o lado, causando milhares de dólares em estragos com o seu pânico. Aí as redes têm de ser içadas de novo e toda a armação laboriosamente reposta.
Uma vez que a rede principal é lançada, os homens fazem todo o barulho que podem para mandarem o atum ainda mais para o copo, pois esta é de rede de malha tão grossa que o próprio roaz não consegue ultrapassá-la, embora uma baleia maior pudesse. (De vez em quando grandes baleias entram, também e uma grande chateação elas causam).
Mal o atum se encontra no copo, os homens começam a içar a rede do fundo, cantando uma velha canção, melodiosa e de belo ritmo. Faz-me lembrar cânticos que ouvi os Árabes usar durante trabalhos pesados, quando com eles velejei nos seus dhows ao longo das costas de África e no Golfo Pérsico.
A rede do fundo é pesada e há muita dela. Ainda assim, não consigo vislumbrar nada – não há sinal de peixe algum em nenhum lado! Mas sei muito bem que os homens não dariam início ao erguer da rede do fundo ou a fazer barulho contra a mesma até que os ociosos de vigia num bote acima do copo tivessem reportado que o peixe havia entrado.
Eu olho e olho, dum ponto vantajoso num dos barcos negros. À minha volta, homens em tronco nú aguardam tensos e com vontade, dobrando grandes anzóis curvados nos seus pulsos direitos, olhando para a superfície da água no copo onde o atum despontará.
 
MISTÉRIO DO PEIXE-VOADOR.
 
Continuo a olhar, com as minhas câmaras prontas. O Sr. Lã olha ao meu lado.
“Procura pelo peixe-voador!” Exclama o Sr. Águas. “Eles surgem sempre primeiro”.
Peixe-voador? Não vejo nenhum peixe-voador. O que poderia andar esse peixe a fazer junto com o atum? Pois os grandes atuns, sabia-o eu, caçam peixes-voadores e comem os mais que podem apanhar. Eu vi-os dos grandes veleiros em viagem da Austrália, nos Ventos Alísios de nordeste. As estranhas palavras de Águas depressa ganham significado. Surge uma agitação à superfície, depois outra e mais outra. Um peixe-voador desponta, um dos maiores que alguma vez vi!
Mais peixes-voadores rompem, voando loucamente, caindo de novo na água à frente da parede de homens que avança nos barcos que içarão a rede. Os peixes-voadores nadam em volta e em volta, com os grandes olhos fixos, procurando uma saída para fora da armadilha. Eles voam num golpe apenas para caírem dentro dos barcos em volta.
Agora sim, surge uma agitação brava nas águas, primeiro rompida por uma ou duas grandes barbatanas dorsais e depois por 20 dorsais, 50 dorsais, 100!
Tudo ao mesmo tempo, surge um desfazer selvático das águas à medida que a rede do fundo é puxada inexoravelmente para a superfície e os enormes corpos dos magníficos atuns rodopiam-se em volta, em volta e em volta.
O atum selvagem bate e esbarra-se contra si próprio e a superfície da água é atormentada como se um furacão a tivesse atingido, espuma voa alto à medida que o atum bate, continuando os aladores da rede a cantar a sua exultante melodia e os sinistros barcos negros avançam lentamente, firmes.
 
O ÚLTIMO RODEIO AO ATUM.
 
Agora o atum está à superfície. Enormes corpos azuis, gloriosamente simétricos, poderosos e ligeiros, nadam freneticamente – este é o seu último rodeio! Eles nadam em círculos no sentido dos ponteiros do relógio, mais e mais depressa, procurando uma saída, frenéticos para alcançarem os locais de desova que agora nunca conhecerão.
A espuma é batida num creme já tingido com sangue, pois os atuneiros estão agora a cobrar o seu preço. À medida que o grande peixe dardeja em círculos cada vez mais apertados, homens gancham os que estão mais próximos dos barcos, sacando-os habilmente. Eles baixam-se sobre as águas serpeantes; gancham sempre nas guelras com um só golpe, estocada certeira.
Dois homens gancham o mesmo peixe se puderem e aí, à uma, puxam-no para cima sobre a borda do barco, onde cai embatendo e tremulando com a sua força imensa no fundo. Noto que os homens não podem aspirar a trazer o atum para dentro sozinhos, pois o seu peso médio será de mais de 80 quilos e alguns pesam tanto como 275 quilos. Os homens guiam os monstros a bordo, pois a própria força bestial dos atuns lança-os para dentro do barco, com o rabo a bater na água violentamente enquanto os homens pelejam com a cabeça.
Os homens são primorosos a engatar o bicheiro mesmo nas guelras e a dar leves pancadas na cabeça do atum direccionando-os à amurada inclinada do seu barco, de modo a que a sua própria força o condene. Pobre atum! Ele não tem noção de tamanha força. Não tinha motivo alguma para estar naquele curral.
Agora a água está vermelha com o sangue do peixe debatente e a superfície do copo está cada vez mais apertada. Homens malham ao último atum com bicheiros compridos, forçando-os às laterais. Os compridos barcos negros zunem e tamborilam com as bravas batidas do condenado e moribundo atum.
 
TOURADA DO MAR.
 
Ainda cantam os aladores da rede, cantam, cantam. O Sol vai descendo. Alguns atuns livram-se dos ganchos. Um nada em volta e em volta com um bicheiro longo preso numa ferida atrás das guelras. Um homem salta para dentro para recuperar o instrumento e conduzir o atum para o lado. Outro salta com uma perna de cada lado do peixe no momento da vitória. A “tourada ao atum”, como lhe chamam, é um bravo e sanguinário momento, enquanto dura.
Então o alvoroço morre. O último atum, batendo, socando, vibrando no seu imenso reprimido e desfalecente poder, permanece ofegando a bordo. A água atormentada descansa de novo. Por um tempo, um longo tempo, os atuns agitam-se e batem onde se encontram e os costados e cavernas dos barcos vibram e tremem.
Aí, tudo acaba. Os aladores da rede afastam-se calmamente, a cantadoria pára e o fundo do copo é largado novamente. A rede móvel é retirada da armação. O mestre das redes coloca de novo os seus ociosos em vigia, pois é provável que mais atum já se dirija para o curral.
A corrida tem início; agora virão aos milhares.
A apanha que presenciei naquela manhã totalizou cerca de 150 grandes atuns. Depois de cada apanha, uma bandeira é içada para indicar aos vigilantes em terra quantos foram apanhados de modo a que as conserveiras em Vila Real de Stº. António possam ser informadas. O peixe é transportado para dhows que aguardam, os quais erguem as suas velas latinas e deslizam na presença do vento matinal.
No entanto, vejo-me deixado com mil perguntas. Porquê os peixes-voadores? Serão eles como que pilotos? Serão eles conselheiros dos atuns acompanhando-os? O que sei é que o atum os come – isso eu sei.
“Aparecem sempre primeiro os peixes-voadores. Vêmo-los primeiro.” Diz Lã. “Mas porquê? Nenhum homem sabe responder. É – bem, só mais um mistério do mar”.
Eu tive sorte em ver a pesca ao atum. Por vezes os homens mantêm-se nos seus barcos por dias e dias e não há peixe nenhum. Mas eventualmente eles chegam sempre, algures entre 15 de Maio e 20 de Junho de cada ano. Como eles navegam ou como sabem quando vir – também estes, são mistérios do mar.
 
ARMAÇÃO AO ATUM SÉCULOS ANTIGA.
 
Mas haverá ainda imenso atum aos milhares por contar algures nas profundezas do mar, pois embora este rodeio tenha ocorrido – ao largo de Faro, ao largo de Tavira, ao largo da costa Marroquina, ao largo da Sicília – durante séculos sem fim, o Mediterrâneo é um grande mar e o Estreito de Gibraltar é amplo.
As redes são viradas na direcção oposta e o atum é apanhado na sua viagem de regresso, também, em muitos locais. Mas não ao largo de Faro. Lá, eles gostam do seu atum gordo e cheio de nutrição e os magros eles deixam passar, intocados no seu regresso ao profundo e misterioso mar.
 
  
  • (1) dhow – tipo de embarcação tradicionalmente Árabe de vela latina, por vezes chamado “pangaio” segundo escritos antigos Portugueses.
  • (2) "Oxford eight" – Corridas de remadores, oito por embarcação, entre as universidades de Oxford e Cambridge em Inglaterra.
  • (3) LST – embarcação de fundo chato desenvolvida na II Guerra Mundial para descarregar tropas e carga em praias abertas.
 
Links sobre a Armação do Atum, ou Almadraba:
 
“Almadraba Atuneira” de António Campos – Tavira 1961. – A última em Portugal.
Almadraba de Barbate, Cádiz – Ainda em prática no Sul de Espanha.


publicado por cachinare às 23:15
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Sábado, 19 de Janeiro de 2008
Os Corajosos dos Capitães.
Em Março de 1950, Alan Villiers chegou a Lisboa para embarcar no Argus durante 6 meses e documentar a Pesca do Bacalhau nos Bancos da Terra Nova e Gronelândia.
A parte mais conhecida deste trabalho é o seu livro "A Campanha do Argus” editado em 1951. No entanto, foi publicado um resumo deste trabalho também em 1952, na revista National Geographic, ilustrado com inúmeras fotos. Adquiri um original desta revista e apresento aqui a minha tradução do artigo. Algumas das fotos aqui incluídas são propriedade da mesma.
Existe um início de movimento em Portugal para eventualmente reaver o antigo Argus, liderado pelo blog Atlântico Azul, para o qual se pede o maior interesse.
 
 
EU VELEJEI COM OS “CORAJOSOS DOS CAPITÃES” DE PORTUGAL
por Alan Villiers
in THE NATIONAL GEOGRAPHIC MAGAZINE, Maio de 1952
 
Quatrocentos e cinquenta anos atrás, Portugueses em vigorosos navios à vela atravessavam o Atlântico ao sabor do vento primaveril de leste para irem pescar nos Grandes Bancos da Terra Nova, a 2.000 milhas de distância. Pescavam ao anzol e à linha, enchiam os seus porões de bacalhau e apressavam-se em direcção a casa antes que o cruel Inverno do Norte os apanhasse.
Nevoeiros, temporais e tempo gelado levavam o seu quinhão em cada ano e ainda assim os pescadores velejavam, pois o bacalhau tornara-se a diferença entre comida ou fome em grande parte do Sul da Europa. Bacalhau salgado era consumido nos dias santos Católicos e era parte das rações de exércitos.
 
NOVOS NAVIOS, VELHOS PERIGOS.
 
Nos anos 50, uma frota de veleiros Portugueses ainda faz largada todas as primaveras para os Grandes Bancos. Embora o tempo tenha trazido mudanças no tamanho, forma e aparelho dos navios, os 2.000 destemidos pescadores que preenchem a frota enfrentam na maioria os mesmos perigos que os seus antepassados sofriam.
Nos inícios da Primavera de 1950 embarquei com a frota Portuguesa de pesca num conjunto de 32 navios, no gracioso quatro-mastros em aço Argus, construído em 1938-39, rei dos navios dos Bancos. Cheguei a Lisboa nos inícios de Março, para poder dar primeiro uma olhadela aos preparativos.
Os veleiros, aprendi eu, ainda dependem principalmente do vento, embora agora tenham motores a diesel para os auxiliar quando necessário. Também possuem luz eléctrica, aquecimento por vapor e refrigeração. Guinchos de força, ainda na memória de alguns dos velhos pescadores, acabaram com o trabalho quebra-costas de içar e descer velas e âncoras.
Mas a pesca em si, o mar e o perigo estão inalterados. Os homens ainda pescam na maneira clássica: pela madrugada, cada um sai sozinho no seu pequeno dóri de um só homem, pondo-se à prova a si mesmo, à sua habilidade e à sua sorte contra o oceano.
Apanhei o Argus no amplo rio Tagus, ou Tejo onde a frota de pesca à linha se estava a reunir para o serviço da Benção. Tinha lugar no famoso Mosteiro em Belém e Igreja dos Jerónimos, construídos no séc. XVI como uma oferta de agradecimento pelo sucesso da viagem de Vasco da Gama.
Para a Benção, a igreja estava apinhada de homens-dos-dóris (1), todos em coloridas camisas de quadrados e botas de alto-mar. Capitães dos lugres estavam lá, bem como almirantes e ministros de Estado, dignatários da Igreja e gentes de Lisboa.
Dei umas passagens cuidadosas pelos túmulos de Vasco da Gama e do poeta Luís Vaz de Camões e ouvi as palavras do Arcebispo de Mitilene enquanto abençoava a frota, ele próprio filho de um homem-dos-dóris afogado nos Grandes Bancos.
Lá fora, os lugres estavam vistosos com as suas bandeiras. Pareciam belíssimos iates prontos para a partida numa corrida oceânica. Frota alinhada e elegante, de altos mastros e serena, aguardava. Mas os ventos de Leste da Primavera já sopravam e era altura de começar a navegar.
 
ESPOSAS ENTRISTECIDAS À PARTIDA DOS MARIDOS A NAVEGAR.
 
Saímos da grande igreja, com as suas decorações de cordas e âncoras que marcam os laços de Portugal com o mar, apressámo-nos até à beira da água e daí para bordo. As últimas mulheres dos homens-dos-dóris estavam a ser levadas a remos para terra nos pequenos dóris vermelhos e as crianças com elas mostravam-se quietas e entristecidas. Os homens-dos-dóris, fiquei eu a saber, iam ano após ano com os mesmos navios e alguns privilegiados de entre eles eram permitidos terem as suas mulheres e crianças a bordo durante os últimos poucos dias antes da partida.
Eram estas as esposas que eu agora via virem através da viva água azul. Apresentavam-se vestidas à maneira das povoações piscatórias de Portugal. Havia uma do Norte, em volumosas e coloridas saias; outras, do Algarve a Sul, trajavam negro sombrio, com chapéus altos de feltro no cimo das cabeças.
A bordo do Argus tudo estava em actividade. Chamamentos fortes dos homens-dos-dóris misturavam-se agora com o bater metálico do cabrestante que trazia os cabos para dentro e o estalar dos moitões à medida que altas velas brancas subiam para o alto dos mastros.
Outras três escunas iam navegar connosco , pois os pescadores dos Bancos gostam de ir em companhia. Esta é a tradição desde os dias em que piratas varriam o Atlântico Norte, no entanto tem ainda uma outra razão: no princípio da Primavera quando os navios navegam e pelo Outono quando regressam, temporais repentinos surgem e navios mais velhos podem afundar-se. Se houverem outros nas proximidades, estes poderão socorrer as tripulações.
 
O RANCHO: GRANDES BELICHES E GRANDES HOMENS.
 
Guinámos vagarosamente sob as colinas de Lisboa e olhamos para trás sobre a cidade branca pela última vez em muitos meses pela frente. À medida que o lugre atravessava a barreira do Tejo e passava para o mar, gaivotas gritavam em volta dele, o vento começou a suspirar no cordame e a água clara gorgolejava e espirrava na proa curva.
Lá em baixo no rancho, tal como o castelo de proa de um navio dos Bancos Português é sempre chamado, metade do complemento de pescadores ia-se arranjando e estabelecendo. A outra metade seria embarcada nos Açores, pois o Argus estava destinado primeiro a Ponta Delgada na ilha de São Miguel. O rancho era um local cavernoso cheio de grandes homens, grandes beliches e todo o tipo de aprestos para cozinhar, pescar e navegar.
Num lado deste beliche, segurando uma caneca de vinho numa mão e uma fatia de pão quebradiço na outra, estava sentado António Rodrigues, de 63 anos de idade. António, fiquei a saber, fazia a sua 43ª viagem aos Bancos por bacalhau. Era um velho e formoso homem, de face enrugada e morena, mas o corpo era ainda tão vivo e ágil como o de um novo. Eu tinha visto a sua mulher sair de bordo junto com as outras. Havia ainda um olhar de despedida nos seus olhos.
“Como se sente por fazer a sua 43ª viagem de regresso aos Bancos?” perguntei eu.
“Não preferia estar em mais sítio nenhum e não há melhor navio, gracejou António, tragando um gole de vinho púrpura. “É uma boa vida para um homem.”
“Há quanto tempo é que está no Argus?”
“Desde o dia em que foi construído!”, retorquiu o velho homem. E o mesmo sucedia com quase todos os homens-dos-dóris, excepto os muito novos. A maioria era de meia-idade.
 
O HOMEM QUE CAPTURAVA UMA TONELADA POR DIA.
 
Um pouco mais tarde notei um lúgubre homem de olhar determinado e com uma face arrebatadora a tomar a sua vez ao leme. Um camarada – um jovial jovem com uns 22 anos, fazendo a sua quinta viagem – disse-me que aquele era o Pescador de 1ª, Francisco Emílio Battista, pescador campeão da frota inteira. Ele apanhava uma tonelada de bacalhau por dia. Uma tonelada por dia! Olhei para ele com assombro, pois não fazia ideia que peixe poderia se apanhado em tamanha carga à linha e anzol.
Os camaradas de Francisco tinham uma anedota acerca da sua proeza de pesca. “Ele possui um viveiro próprio,” explicou um segundo camarada. “Ele tem o seu próprio bacalhau e simplesmente se dirige a ele e apanha-o.”
O Capitão Adolfo, o mestre do Argus, encontrava-se junto ao leme. Ele era um brando homem de tez escura com cerca de 50 anos de idade. Eu sabia que ele havia andado no mar em veleiros desde os seus 8 anos. Ainda tinha as roupas de terra vestidas, um fino fato de ocasião e um chapéu de feltro, com sapatos brilhantemente polidos. Na sua mão direita reluzia um anel de diamante. Havia-se juntado ao navio à última da hora, vindo para bordo com os papéis de liberação. A sua mulher e família estavam em Ílhavo, a afamada povoação de capitães de navios e pescadores de bacalhau que se situa num braço de terra a Sul de Aveiro, no Norte de Portugal.
Dela saem a maioria dos mestres de lugres. Mas embora o Capitão Adolfo andasse a sair de Ílhavo nos passados mais de 40 anos, ele não tinha grande gosto na vida de pescador.
“O Capitão,” disse o camarada, “ele odeia o mar. Ainda assim ele irá encher o seu navio de bacalhau. Espere e verá.”
Não podia esperar para tal presenciar.
E agora o admirável Argus rumava em direcção aos Açores e os homens-dos-dóris começavam a receber os seus dóris e o seu aparelho de pesca aprontado. Em Ponta Delgada embarcamos outros 26 pescadores, dando-nos um complemento de 53 no total. Com os moços de convés e os cozinheiros, oficiais, engenheiros e por aí fora, o lugre tinha 70 almas dentro. O seu convés estava apinhado com os pequenos dóris vermelhos empilhados aos 6 e 7 de altura, encaixados juntos como blocos das crianças e atados à coberta.
 
MISTÉRIO DO ISCO DESAPARECIDO.
 
Mais adiante próximo do rancho, o navio possuía um grande espaço refrigerado para o isco, mas nele não havia ainda peixe de isco. Por alguma razão misteriosa, a sardinha que era usada para isca havia temporariamente desertado das costas de Portugal.
E assim dos Açores fizemo-nos em direcção a St. John´s (2) na Terra Nova, para embarcar o nosso isco. Não seria possível pescar um bacalhau sem o isco.
Quanto mais tempo eu passava a bordo do Argus mais eu ficava maravilhado com ele. Era um navio à vela mas estava preparado com todos os aparelhos modernos que se usavam. Os Portugueses não são antiquados; mantêm-se fiéis ao velame de um lugre por ser o ideal para pescar nos Bancos, onde um navio tem de se manter no mar por muitos e difíceis meses e onde um navio a motor poderia ficar sem combustível.
Deram ao Argus todo o equipamento moderno de que necessitava. Havia aquele grande compartimento frigorifico por exemplo, levando cerca de 30 toneladas; um rádio-telefone e um aparelho electrónico para com precisão medir a profundidade do mar.
Estava também preparado com aquecimento a vapor, para as costas da Gronelândia. Os seus mastros de aço eram ocos para servirem de escape às caldeiras e para o enorme motor a diesel lá em baixo. Era um belo navio moderno e não tive qualquer problema em me arranjar nele com os bondosos Portugueses.
Então chegamos a St. John´s e lá ainda não havia isco, pois havia estado uma má estação de gelo e as gentes da Terra Nova não conseguiam alcançar o arenque. Era princípios de Abril e estava frio. Passamos 17 dias no porto, simplesmente à espera.
Os homens-dos-dóris tinham as suas longas linhas preparadas; equipavam os seus dóris e lavavam as roupas nos límpidos riachos de montanha, batendo-as nas pedras como era costume fazer lá na terra. Depois disso não havia nada para fazer – nada a não ser ver as lojas ou brincar com os miúdos de St. John´s.
O mais custoso para o pescador à boa-vida era que não tinham hipótese nenhuma de ganhar alguma coisa. O pagamento para os homens-dos-dóris é por resultados – não haver pesca significa que não há pagamento e claro, atrasa a viagem e põe de parte o regresso a casa. Praticamente todos os homens-dos-dóris são homens de família e o que mais prezam são as suas famílias e as suas casas. Ficámos contentes quando por fim o arenque surgiu e recebemos o nosso há muito aguardado isco.
 
A PÉ ÀS QUATRO, NÉVOA OU LIMPO.
 
Então aí, pescamos bacalhau nos Grandes Bancos ao largo da Terra Nova durante seis frias e enevoadas semanas, enquanto esperávamos que o Sol de Verão derretesse o gelo no Estreito de Davis a abrisse a passagem para a Gronelândia. Mas não havia nenhum Sol e tão pouco Verão algum. Que lugar!
O Argus e suas consortes simplesmente ancoraram nos Bancos, escolhendo um local onde o fundo rochoso prevenisse que a horda de arrastões pudesse trabalhar, pois os rochedos rasgariam as suas caras redes-de-arrasto. Os 53 pescadores iam todos os dias possíveis pelas 4 da manhã à borda do navio... névoa ou limpo – e raramente estava limpo. Com rapidez saiam sob as suas pequeninas velas oleadas na direcção do horizonte, largavam o seu trol (3) e pescavam todo o dia. Enquanto o trol de 600 anzóis estava no fundo, os homens-dos-dóris pescavam à mão com o riley (4), em forma de arenque e preparados com dois grandes anzóis.
Eu saí com os dóris. Até agora, pensava eu que estava razoavelmente acostumado ao mar e mais ou menos habituado às suas tribulações. Mas num dóri descobri que ainda era um novato. Os rigores de velejar em grandes veleiros e dobrar o Cabo Horn não são nada comparados com o tipo de coisas a que um homem-dos-dóris nos Grandes Bancos tem ao seu alcance.
Dêem primeiro uma olhada a um dóri. Não passa de um barco aberto de aspecto frágil, de fundo chato e construído com apenas umas pranchas. Não tem quilha, nem mesmo um leme. Os seus bancos de remador desmontam-se de forma a poder ser aninhado uns nos outros. Tem pouco mais de 4 metros de comprimento e menos de 2 de largo. O seu pequenino mastro é um pedaço de árvore nova que o pescador corta para si; o seu aparelho é caseiro, tal como são as suas velas. Tudo parece bem para um dia de calmaria no Potomac (5). Mas são poucos os dias de calma na Primavera nos Grandes Bancos e menos ainda ao largo da Gronelândia.
O meu dóri foi puxado com força para o costado do navio balouçante por um par de roldanas livres e dois ganchos de ferro. Dei uma olhada fora de bordo ao frio, cruel mar e pensei: “Preferia ficar no Argus – ele já é pequeno o suficiente”. Mas os 53 homens-dos-dóris miravam-me das turbulentas águas cinzentas e eu tinha de ir. O meu dóri estava cheio de linhas, aprestos e isco com uma pequena bússola em cima do lote, para o caso de nevoeiro.
“Vá com a noção de que tem guias” disse o velho António Rodrigues. “Nunca se sabe quando aparecerá a névoa por aqui. E não se preocupe com o dóri. Os dóris são bons. Agora os homens neles...”.
Fixei o conselho do velho António.
“E afaste-se da amurada do navio depressa.”, dizia ele. “Esse é o sítio de perigo! Pode ficar esmagado contra as placas de aço se não tem cuidado”.
Os ganchos de ferro sacudiram o meu dóri para o corrimão. O lugre branco balouçava a sotavento. Um nefasto mar gorgolejante ergueu-se até amimar no fundo do pequeno barco.
“Agora!”, gritou o Cozinheiro mais o 2º Engenheiro nas roldanas e deixaram-me ir. Com o marulho e uma pancada em cima do mar, eu estava largado. Empurrei-o para longe do costado de aço homicida o mais depressa que consegui.
Quão enorme parecia o Argus, visto dali de baixo na superfície da águas! Ele era apenas um lugre de 696 toneladas, mas naquele momento parecia-me ter 20.000. De imediato o meu dóri começou a debater-se e a saltar e a agitar em cima do mal humorado mar que corria pelos Bancos e comecei a subir o meu pequeno mastro e velas o mais vigorosamente que consegui.
Uma vez que as velas estavam ao alto, fiquei estupefacto por ver quão bem aquele pequenino dóri navegava. Ele era vivo, por certo – quase o bastante para me fazer enjoar – mas portou-se muito bem.
 
PROBLEMA: ENCONTRAR O BACALHAU.
 
De imediato o mar parecia o sítio mais solitário que alguma vez havia conhecido. Sempre estive habituado a ficar a bordo de todos os navios em que naveguei, do princípio ao fim da viagem. Normalmente não se vai fora de bordo para o mar se tal puder ser evitado. A partir deste barco pequenino senti pela primeira vez a vasta imensidão e o incalculável desafio do grande e aberto oceano.
Estava brutalmente frio. Não fazia ideia como iria ser capaz de trabalhar com as minhas mãos, tendo um trol de 300 anzóis para largar quando alcançasse um bom local. Um bom local? Como poderia eu saber a diferença?
Fiz-me na direcção principal que havia visto o nosso pescador campeão seguir e levei em conta navegar até conseguir ver o seu dóri. Todos os dóris tinham grandes números brancos de cada lado da proa. O dele era o nr. 16. Naveguei e naveguei e nem sinal do nr. 16 eu vislumbrei. Quando o casco do Argus se encontrava quase debaixo do horizonte, decidi que havia ido longe o suficiente.
Então baixei a minha vela, lancei fora o pequeno arpéu, isquei os últimos anzóis do trol (não houvera tempo para iscar todos antes da sair do navio) e larguei a linha bem para o fundo, através da corrente. Eram cerca de 35 braças de mar.
De seguida comecei a pescar com os rileys. Para trabalhar com estes, pega-se numa linha de riley em cada mão, baixa-se o riley até ao fundo e depois alternadamente dão-se uns puxões com esperteza para cima e deixa-se cair de novo. É suposto cangar no bacalhau no movimento para cima.
O meu não pegou. Talvez não houvessem nenhuns no fundo. Como se poderia saber tal, com tamanha distância até ao fundo? Um homem-dos-dóris obviamente tinha de ter o cérebro nas pontas dos dedos e os meus estavam dormentes e particularmente sem cérebro nessa manhã. O dóri pulava e saltava e era preciso estar de pé nele para trabalhar o riley. Sentei-me. Alei uma linha de riley e apeguei-me à outra. A linha de trol tem de estar largada em baixo três ou quatro horas antes de poder ser alada.
 
MEIA CARGA NUMA ALADA.
 
O dóri continuava a saltar e a pular e não havia um verdadeiro ritmo na água. O vento começou a suspirar e surgiu um sinistro banco de detestável nevoeiro de barlavento. Aqui e ali, em momentos em que o meu dóri se erguia nas cristas do mar, eu podia ver outros dóris – nunca mais de cinco ou seis, embora soubesse que haviam mais de uns 300 à minha volta, pois encontravam-se vários grandes lugres nas proximidades. Comecei a pensar que aqui fora no mar, um dóri perdido seria imensamente árduo de encontrar. E dóris, sabia-o eu , perdiam-se com frequência suficiente.
Perto das 9 da manhã comecei a alar para dentro o meu trol. Isso levou-me duas horas, pois não tinha qualquer arte no negócio. De novo um homem tem de trabalhar e de novo o dóri pinoteia e salta e tenta cuspir-te borda fora.
Mas, pela sorte dos principiantes, tive uma alada nada má. O meu trol, como todos os outros, consistia em vários comprimentos de 100 jardas de linha grossa casada. A esta, pequenos pedaços de linha mais fina, chamados “nós” estavam atados cada a cerca de uma braça um do outro. Cada nó segura um anzol, 50 deles para cada 100 jardas da grossa linha.
A maioria dos pescadores usava linhas compostas por oito a doze destas secções de 50 anzóis, de tal modo que estavam a pescar com cerca de 400 a 600 anzóis. Mas para começar, eu estava a experimentar com uma de 300 anzóis. Esse já era negócio suficiente! Manejar o trol de modo a que os anzóis não se enrosquem é um trabalho habilidoso e eu estava longe de ser habilidoso e por isso, os meus enroscaram-se. Então tive de parar para os safar e isso levou tempo.
Mas o bacalhau é um peixe estúpido e dócil. Os que estavam nos anzóis esperavam pacientemente até que eu os alasse, mesmo os de 35 quilos. Alguns tinham apenas a ponta do anzol cangado nos seus néscios, borrachentos beiços, mas mesmo assim permaneciam ali, aguardando a sua vez para serem puxados para dentro do dóri. Um ou dois escaparam-se enquanto os trazia à superfície. Então agarrei numa espécie de arpão leve, um pedaço de madeira com um grande gancho na ponta, peguei-os pelas guelras e arremessei-os para as pranchas e cavernas sem mais cerimónia.
Se um estivesse demasiado vivo, atordoava-o com a outra ponta deste pequeno arpão. Mas a maioria deles apenas batia um pouco e depois permaneciam quietos na pilha.
Tal como qualquer pescador estaria, eu estava entusiasmado ao princípio com a quantidade da minha alada – quase 50 peixes. Mas rapidamente isso me passou. O bacalhau é simplesmente demasiado lerdo para causar grande excitação.
A maioria dos que apanhei pesavam, a olho, 15 a 20 quilos. Quando os tinha todos dentro, o meu dóri estava cerca de metade cheio. Só uns poucos eram pequenos, aí de 9 quilos – e essa é uma das razões pela qual os Portugueses ainda preferem o lugre e a pesca de dóri. Apanha-se maior e melhor peixe ao anzol. Os arrastões, usando redes, têm de passar demasiadas vezes sobre o mesmo fundo onde o leito é bom, mas os dóris conseguem ir a qualquer sítio.
 
DEPOIS DO PEIXE VEM A NÉVOA.
 
Não larguei o trol de novo. Normalmente um homem-dos-dóris estaria fora até ter o seu dóri cheio ou ver a bandeira de chamada – qualquer grande bandeira no mastro de popa – içada. Mas eu não era um homem-dos-dóris e agora sabia que nunca o seria. Eu estava só a experimentar e fiquei imensamente contente por o ter experimentado e estar agora de regresso ao navio.
Mas aquela névoa infernal tinha descido. Um braço dela estava entre mim e o Argus. De súbito, vi-me sozinho no mar e os braços fantasmagóricos do horrível nevoeiro estavam a encostar-se à minha volta! Bem, eu podia ancorar e esperar. António Rodrigues havia-me dito para proceder assim.
“Nunca entre em pânico,” tinha dito ele. “Quem entra em pânico está morto.”
No entanto o nevoeiro não parecia ser daquele determinado. Aqui e ali eu conseguia vislumbrar o céu cinzento acima; por vezes o clarear era menos intenso. Levantei a pequena vela principal e a mínima giba , pois soprava uma gentil brisa sobre a água. Eu tinha as minhas orientações e coloquei a bússola do barco no banco de remador à minha frente.
Com um dos três pequenos remos do dóri a sotavento como tábua de abatimento e leme, fiz-me meio amedrontado ao rumo da orientação que tinha do navio e mantive um olhar atento por outros dóris. Eu tinha uma buzina para soprar e também tinha um pedaço de pão e água suficiente para um par de dias, se usada racionadamente.
Quando se sai num dóri, espera-se voltar no mesmo dia. Os homens-dos-dóris nunca se preparam a si ou aos seus barcos contra a calamidade. Se vier, aceitam-na e há que se safar.
 
UMA SIRENE DE NEVOEIRO – DE QUE A DIRECÇÃO?
 
Após algum tempo ouvi um lugre a soar a sua grande sirene de nevoeiro, pois todos eles possuíam sirenes de raides aéreos nos seus topos de mastro para chamar os pescadores na névoa. Mas onde estava este lugre? Era ele o Argus? Eu não sabia. Não fazia ideia da direcção do som no nevoeiro.
Eu conhecia o sinal distinto que o Argus usava no seu sino de nevoeiro, o grande e antigo sino de igreja que estava pendurado no cordame da mezena. Soprei um sinal no meu búzio e aguardei por uma resposta. Nada veio. Por isso aquela sirene não era de bordo do Argus, ou eu escutá-la-ia através de algum capricho na condição da névoa. Continuei. De novo soprei na minha buzina.
O que era aquilo? Um eco? Soprei de novo. Não era nenhum eco! Era um pescador a soar o nosso sinal, um homem do Argus, no nevoeiro tal como eu. Gritei para chamar-lhe a atenção, para comparar o rumo da minha bússola com a dele. Ele também gritou. Não conseguia enxergar nada a não ser a branca e sinistra névoa e o frio rodopiar do untuoso e desditoso mar.
Então aí, indistinto ao princípio e quase inacreditável, vi o triângulo de uma pequenina vela a ganhar mais forma saindo do enevoado circundante; um enrolar de água branca gorgolejava na pequena proa carregada. Estava ali um dóri! Nr. 16! Battista, o 1º Pescador – Não podia dar com melhor homem que aquele. Ele sorriu.
“Não é bom! Não é bom!” gritou ele. No entanto ele parecia abominavelmente jovial e eu podia ver que o seu dóri estava cheio até à borda com excelente bacalhau grande.
Mal encontrei o 1º Pescador, soube que tudo estava bem. Depois de um quarto de hora de suave deslize através do pano de nevoeiro, subitamente uma monstruosidade branca agigantou-se sobre nós direito ao nosso lado. Parecia um icebergue.
“Argus!” sorriu o Battista, “Regressamos ou não?”
Sim, regressamos e eu havia tido que chegasse de pesca de dóri para esse dia – e para sempre onde quer que fosse.
E contudo nessa noite no rancho, vi todas as mãos bem dispostas o bastante. Não se tinha perdido ninguém. Todos eles eram navegadores experimentados no nevoeiro, com uma capacidade misteriosa para descobrirem o rumo de regresso ao lugre.
Eu sabia bem que andar perdido no nevoeiro era apenas um dos riscos que aqueles bravos, calmos homens tinham como parte do seu trabalho diário, sendo lançados à deriva por tempestades, abalroados por navios ou dominados por um mar crescente – até serem atirados para fora dos seus dóris por brincadeiras de baleias – estes eram perigos que tinham de aceitar como rotina. A vida de um homem-dos-dóris não era vida para tímidos ou para os que ficam e casa.
Lá em baixo no rancho estava um jovem pescador Açoreano chamado Francisco de Sousa Dâmaso, na sua primeira viagem aos Bancos. Um dia ele foi abalroado por uma baleia. Não que a baleia lhe quisesse algum mal. Simplesmente sucedeu que veio à tona para respirar mesmo por debaixo de parte do seu dóri e esse foi o seu infortúnio. O dóri foi adornado lentamente no ar e pescador, peixe e tudo o que estava dentro virou-se lentamente para fora. Então a baleia afastou-se, sem dúvida mansa e estupefacta com o dano que causara.
Podia ser a primeira viagem do Senhor Dâmaso, mas não era a primeira vez que via uma baleia. Ele enxotou a besta para o largo, endireitou o seu dóri (que não se havia virado totalmente) e subiu cuidadosamente de novo para ele. Depois recuperou todos os seus aprestos que pode e o peixe e prosseguiu com a sua faina.
São um bando de taciturnos, aqueles homens-dos-dóris e todos eles andavam em vários tipos de faina desde o dia em que começaram a andar. Eu adorava escutar os seus contos e conversas, especialmente os dos mais velhos. Eles contavam histórias dos realmente duros tempos dos Bancos, quando centos de pequenos dois-mastros costumavam vir de Portugal, Espanha e França e de Gloucester no Massachusetts (muitos dos nossos velhos homens-dos-dóris haviam saído de Gloucester) e não havia frigoríficos, electricidade ou radio-telefonia. Por vezes perdiam três e quatro escunas juntas numa tempestade repentina e todos os seus pescadores com eles; uma vez, numa única noite de temporal perderam 200 pescadores.
“Mas agora – o quê”, exclamou o velho António Rodrigues, era quase “vida de menina de escola!”
 
VIAGEM DE BORLA ATÉ À CHINA.
 
Disso duvidei. Eu sabia que o António, ele próprio havia andado perdido no nevoeiro durante dias – ele não sabia quantos – e havia sido resgatado por um veleiro errante saído de Boston e com destino às costas da China. António teve de ir até à China nele. Alguns anos passaram até ao seu regresso de novo ao Algarve, onde há muito que o choravam e tinham por morto.
Agora o velho António ria-se acerca do que ele chamava a sua “viagem de borla à China”. Ele era um rijo velho tipo e um verdadeiro homem-dos-dóris.
Com regularidade o 1º Pescador foi apanhando a sua tonelada de bacalhau por dia. Ele era um habilidoso e infatigável pescador. Mais que isso, ele era o tipo de homem que sobressairia em quase qualquer trabalho. Havia nascido para a pesca, no encantador porto da Fuzeta no Algarve e assim, a pescar ele se distinguia.
Havia outros capazes de chegarem ao nível do 1º Pescador durante algum tempo – João de Oliveira, o 2º Pescador; Francisco Martins dos Açores e César de Medeiros, que parecia um pirata. Mas nenhum se mantinha àquele nível por muito tempo.
Por vezes tempo impossível mantinha os dóris aninhados pois não tinha qualquer uso largá-los se se agitavam em demasia para os homens poderem pescar ou se o mar era tão alto que não os conseguiam carregar. Um dóri tinha de trazer consigo uma boa carga de peixe para o homem-do-dóri fazer vida. Com mau tempo eles arreliavam-se, todos eles. Quando havíamos esgotado a isca de St. John´s, dirigimo-nos a North Sidney na Nova Escócia para mais arenque e cavala fresca para levar para os fundos da Gronelândia. Em North Sidney encontravam-se 10 lugres e um par de navios-motor com dóris.
Aos nossos homens-dos-dóris foram dados 5 ou 10 dólares a cada para gastarem. Vi-os a comprar coisas para os filhos e netos, mas nada para eles próprios.
 
A NORTE PARA A GRONELÂNDIA.
 
Mal o isco estava a bordo, lá fomos de novo, em direcção a Norte através do Estreito de Belle Isle rumo à Gronelândia. Havia grandes icebergues no estreito e a Corrente do Labrador estava ainda cheia de gelo. Fomos apanhados de maneira ruim num campo de gelo com névoa e durante um dia e uma noite tivemos de parar e afastar os gelos. Mesmo um pequeno pedaço de gelo pode arrebentar com as placas de um navio de aço.
Tivemos sorte. O gelo não perfurou o nosso casco ou o dos navios connosco, o nosso navio-irmão Creoula, o quatro-mastros Aviz, ou o pequeno navio-motor Elisabeth. Um temporal limpou a névoa e retomámos o navegar em direcção aos bancos de Fyllas e ao Pequeno e Grande Hellefiske, no Estreito de Davis.
Nestes últimos vinte e cinco anos houve aquilo a que os cientistas chamam, um “ciclo quente” na Gronelândia e o bacalhau foi capaz de migrar mais para Norte. Onde o bacalhau ia, também iam os lugres e os homens-dos-dóris. Durante os três meses seguintes o Argus e suas consortes pescaram nas cheias de detritos de gelo e traiçoeiras águas dos bancos próximo do Círculo Ártico no Estreito de Davis. Nalguns anos uns poucos navios vão ainda mais longe para Norte.
O método de pesca era o mesmo dos Grandes Bancos excepto o facto de se usar linhas de trol ainda mais longas. Juntando as impiedosas costas recortadas da Gronelândia, atira-se-lhe com um cenário de velhos icebergues encalhados e adicionam-se os azares de repentinas e furiosas tempestades, mais umas correntes vivas e aí têm os pesqueiros da Gronelândia.
Havia luz contínua do Sol da meia-noite durante os primeiros dois meses e meio. Os homens-dos-dóris trabalhavam e trabalhavam, várias vezes fazendo 20 horas por dia, pescando desde as 4 da madrugada e arranjando e salgando até à meia-noite.
O peixe salgado era acondicionado lá em baixo no cavernoso porão. Até estar cheio, não seguíamos rumo a casa; se os temporais do Outono e gelo novo nos afastassem da Gronelândia, voltaríamos de novo aos Grandes Bancos. Os rancorosos ventos dos montes da Gronelândia são brutalmente frios. Arriámos âncora no mar aberto, pois não podíamos pescar nas águas territoriais da Gronelândia. Os homens-dos-dóris sofriam torturas no ar gelado. As suas caras estalavam, as mãos abriam, as suas roupas de oleado cortavam-lhes os pulsos. Mas apenas estavam desgostosos quando o tempo lhes trazia atrasos e não podiam em segurança lançar os seus dóris.
 
O NEVOEIRO APRISIONA UM PESCADOR.
 
Também aqui havia nevoeiro, cerrado, frio e cegante. Uma vez, o pescador António Rodrigues Chalão, um habilidoso homem de perto do Porto que trabalhava no Inverno como salva-vidas na barra do Douro, esteve à deriva cinco dias e quase que acabámos por desistir dele. Desapareceu na névoa e de seguida iniciou-se um temporal.
O temporal abateu-se por três dias e depois mais névoa se pôs. Mas ao quinto dia depois de ter desaparecido, o tempo limpou – e António Rodrigues Chalão regressou! Ele voltou sorridente, mas teve de ser içado a bordo dentro do dóri, pois estava completamente exaurido. Contudo, nesse dia mais tarde estava a pescar de novo.
Eu conversei com ele sobre a sua experiência. O que lhe ia pelo pensamento, ali no frágil dóri?
“Rezei,” disse ele. “Fiz o que pude e depois rezei e pensei na minha mulher e sete filhos lá em Portugal. A bússola não trabalhava; foi por isso que a névoa me apanhou. Depois no temporal, ancorei e virei-me de frente para o vento, usando os remos para manter o dóri seguro. Em várias ocasiões tive de afiançar pela minha vida, pois ondas pesadas quebravam a bordo. Tive medo que a minha âncora cedesse, pois o cabo que a segurava era apenas um pedaço de corda e seria levado à deriva para longe dos bancos para o estreito aberto. Aí, sabia que seria o meu fim.”
“Mas então não cedeu?”
“Não. Mas tive de remar muito, para manter o dóri orientado para o mar. Fiz um pouco de abrigo com a vela. Comi o bacalhau crú e bebi da humidade do nevoeiro que acumulava no meu gorro de lã.”
Isto foi tudo o que consegui saber de António Rodrigues Chalão, depois de ter remado durante cinco dias contra o temporal para manter um barco de 4 metros de frente para o mar para lá do Círculo Ártico. A pele nas suas palmas das mãos estava gasta quase até à carne. Mas ele tinha sorte em estar vivo e ele sabia disso. O pequeno cemitério em Holsteinborg na Gronelândia tem muitas campas nas quais descansam homens-dos-dóris afogados.
Numa noite, 15 pescadores estiveram à deriva, do lugre Maria das Flores, um três-mastros de Aveiro. Quando a névoa baixou e os homens não regressaram, todos os capitães mantiveram vigia e comunicaram entre si por radio-telefone e a ansiedade nas suas vozes era por vezes dolorosa de se ouvir. Estes capitães carregavam uma terrível responsabilidade, pois é sua a função de decidir se é seguro largar os dóris ou não. Ventos poderosos afunilam acima e abaixo do Estreito de Davis trazendo repentinos e perigosos mares aos bancos de pesca. Contudo, se os dóris fossem mantidos aninhados sempre que o tempo ameaçasse, então navio nenhum encheria de peixe e pescador nenhum faria vida. Os capitães “têm” de arriscar os seus homens.
Toda a frota soltou um grande suspiro de alívio na manhã seguinte quando soube que os homens perdidos do Maria das Flores estavam a salvamento.
Eles tinham fugido para um fiorde e abrigaram-se debaixo de um dóri virado, regressando ao seu lugre pela manhã quando estava claro e limpo. Não se esqueceram de arranjar o seu peixe quando chegaram a terra e um grupo de Gronelandeses até lhes espontaram as suíças e cabelo, tal que regressaram com muito melhor aparência.
Por meados de Setembro o nosso Argus tinha uma carga tolerável. Ele havia carregado bacalhau suficiente para estar cheio várias vezes, mas o bacalhau continuava a encolher todos os dias e o sal formava uma salmoura que era bombeada para fora duas vezes ao dia. O balançar do lugre ajudava a acomodar a carga mais junta e outra e outra vez o grande porão do peixe era cheio até ao tecto do convés na maioria dos seus compartimentos, somente para voltar a ser enchido.
“Há sempre lugar para meter mais outro bacalhau!” disse o Capitão Adolfo e por isso andava sempre miserável. Ele detestava abandonar os pesqueiros enquanto houvesse espaço para meter outro bacalhau a bordo. A capacidade oficial do navio estava registada em cerca de 12.000 quintais (um quintal Português são quase 60 quilos de peixe seco) e por finais de Agosto já ele tinha isso a bordo.
 
CORRIDA CONTRA DOIS TEMPOS.
 
Continuamos assim a pescar, embora as nevascas tivessem voltado, com as noites a crescer e firmemente o tempo se fazia pior. Os velhos homens-dos-dóris remendavam as suas caras com alcatrão para encher as abertas. As suas mãos há muito que tinham cedido. “O bom tempo há-de curá-los.” Disse o velho António. “Apanharemos o Inverno em casa!” disse o 1º Pescador.
Comecei a recear que poderíamos ter o Inverno ali ao largo da Gronelândia. Já se viam algas compridas a crescer nos costados do lugre. O seu casco estava roçado a todo o comprido por causa das largadas dos dóris e o bater dos mesmos contra o aço à medida que os homens garfavam para cima a sua apanha de bacalhau do dia. O convés em madeira estava escorregadio e limo do mar crescia na cintura.
Mas dia após dia os tanques de peixe tinham de ser enchidos. Noite atrás de noite os pescadores, em duas filas robustas malhavam no húmido e horrível bacalhau com as suas facas afiadas destripando e escalando e as labaredas rugiam da pressão da máquina em frente, onde o óleo de fígado do bacalhau era feito.
O nosso Capitão Adolfo, silencioso e impenetrável, mantinha o lugre nos limites, mudava o navio de posição daqui para ali na eterna busca pelo bacalhau – bacalhau e mais bacalhau e ainda mais bacalhau! Os dóris iam borda fora pontualmente às 4 todas as manhãs. As reservas de isco iam assertivamente diminuindo.
O Capitão Adolfo era um homem prestável por natureza e entristecia-o ficar tanto tempo tão longe de casa. Desde que era um cavaco dum rapaz que nunca conhecera um Verão no seu nativo Portugal. E agora era provável que jamais o veria. Nem o veriam os homens-dos-dóris.
 
POR FIM, BACALHAU SUFICIENTE!
 
Alguns lugres mudaram-se para os Grandes Bancos, para suportarem os temporais de Outono lá e continuarem a apanhar bacalhau quando houvesse bonança. Alguns com mais sorte já navegavam a todo o pano para Portugal. Mas ainda batalhava o Argus, junto com o Creoula e uma mão cheia deles.
Por fim lá chegou o dia em que mesmo o Capitão Adolfo achou que tínhamos bacalhau que chegasse, embora não fosse carga cheia, assinale-se! Havia ainda espaço para o bacalhau ocasional. No entanto, todos os tanques estavam cheios de óleo de fígado de bacalhau, todos os barris no convés cheios de línguas salgadas e caras de bacalhau e outras várias partes comestíveis sendo que o próprio porão estava bastante perto do cheio. Onde a linha de Plimsoll (6) estava ninguém sabia, pois estava ocultada debaixo das compridas e húmidas algas.
Durante um cento de dias havíamos comido bacalhau e ceado diariamente a sopa da meia-noite de caras de bacalhau. Os homens-dos-dóris chamam-lhe a “sopa da chora”, pois dizem que quando a acabam de comer, dali o destino é ir de novo para os Bancos às 4 da madrugada. Cem dias da sopa da chora eram dias suficientes para mim.
Finalmente o nosso Capitão levantou âncora. Ao princípio os pescadores não ousaram crer que ele ia finalmente para casa. Recearam que, se o tempo facilitasse, ancorávamos de novo num dos bancos a Sul e amontoariam o último bacalhau uma vez mais no cavernoso porão. O último bacalhau? Tal peixe não existia! Mas veio um temporal de Norte e corremos rumo a casa, direitos a Sul através do Estreito de Davis, com o Creoula a toda a força ao nosso lado e o feroz vento a uivar no cordame, com os mares frios a espumarem a bordo.
Contudo, só foi após termos navegado e passado o banco de Fyllas e depois o Banco Danas, que os homens-dos-dóris ousaram sorrir. Danas era o último grande banco. O rumo agora era sueste, em direcção aos Açores – os Açores e Sol e o bonito Portugal!
Um ou dois ciclones abateram-se da orla da Corrente do Golfo e deram-nos uma forte varrida. O pequeno navio-motor Cova da Iria, apanhado num turbilhão, afundou-se. Estava a 600 milhas de nós. O lugre Adélia Maria recuperou alguns dos homens do Cova da Iria com os seus próprios dóris, pois um pescador dos Bancos tem um salva-vidas para cada homem a bordo. Para um pescador destes, o seu dóri é a sua vida. Se ele não o salvar, nada salvará.
 
DE REGRESSO A CASA PARA O SOL.
 
Os grandes mares lançavam-se sobre nós e quebravam ao longo das cobertas, mas o Argus era um bom e entroncado navio e Adolfo um marinheiro sabedor. Tínhamos de nos erguer enquanto o rádio crepitava com histórias deste e daquele lugre com dóris levados borda fora, pescadores desaparecidos, aparelhos de pesca destruídos.
Os nossos próprios homens-dos-dóris de vigia estavam atados juntos à beira do leme para prevenir que fossem borda fora. O Atlântico Norte em Setembro e princípios de Outubro é um bárbaro e ruim oceano.
Numa manhã solarenga, atracamos na bela Ponta Delgada e os nossos pescadores Açoreanos lá ficaram, cheios de sorrisos. Navegámos nessa noite à luz do luar as últimas poucas centenas de milhas, a feliz fugida para casa. Deixei o gracioso Argus, agora ferrugento mas sublime e ainda uma silhueta de romance e aventura, num braço do Tejo.
Olhei para trás para ele enquanto ainda o conseguia vislumbrar. Dos 45 navios à vela e a motor da frota dos Bancos que largaram, 43 regressaram. Alguns dos bravos homens-dos-dóris lá ficaram para todo o sempre a descansar debaixo do cinzento e velho mar ou sob o abrigo das frias colinas de Holsteinborg.
Foi uma grande aventura esta que partilhei com eles e aprendi a considerar os Portugueses, como os verdadeiros “Corajosos dos Capitães”.
 
 
  • (1) homens-dos-dóris – optei por ser fiel à especificidade da pesca do bacalhau em dóris e chamar a estes pescadores a exacta tradução da palavra em inglês “dorymen”.
  • (2) St. John´s – Porto de escala e abrigo na Terra Nova, referido por muitos pescadores como “São João da Terra Nova” em Português.
  • (3) trol – do inglês "trawl", são longas linhas carregadas de anzóis espaçados cerca de uma braça, no inglês também dito “long-line”. Cada pescador podia largar duas ou três.
  • (4) riley - aparelho de pesca extra enquanto o trol pescava. Ver http://noseomar.blogspot.com/2007/11/o-riley.html .
  • (5) Potomac – Rio dos E.U.A. que desagua entre os estados de Maryland e Washington D.C., na costa Leste.
  • (6) linha de Plimsoll – Linha de carga que define o limite de carga segura nos vários tipos de navios.


publicado por cachinare às 16:54
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Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008
Alan Villiers.
Alan John Villiers nasceu a 23.09.1903 em Melbourne na Austrália. Era o segundo filho do poeta e líder sindicalista Australiano Leon Joseph Villiers. O jovem Villiers cresceu nas docas do porto de Melbourne a ver navios mercantes entrar e sair e sempre sonhou um dia embarcar num deles.
Deixando a sua casa com 15 anos de idade, alistou-se como aprendiz na barca “Rothesay Bay”. Este navio operava no Mar da Tasmânia em rotas entre a Austrália e a Nova Zelândia. Villiers era um marinheiro nato e depressa aprendeu e ganhou o respeito dos seus camaradas. Um acidente a bordo da barca “Lawhill” fê-lo permanecer em terra em 1922, quando já era um marinheiro formado, razão pela qual procurou e conseguiu trabalho como jornalista no “Hobart Mercury” de Hobart, na Tasmânia, enquanto recuperava dos ferimentos.
O chamamento do mar era forte e rapidamente regressou ao mar quando o navio-fábrica baleeiro “Sir James Clark Ross” com cinco perseguidores de baleias à sirga pedia por homens em finais de 1923. A sua história da viagem seria mais tarde publicada como “Whaling in the Frozen South”. Este navio era na altura o maior do mundo na caça à baleia, caçando principalmente no Mar de Ross, um dos últimos bastiões de baleias da época.
Em 1927, Villiers ganha passagem a bordo do “Herzogin Cecile”, o que resultaria na obra “Falmouth for Orders” e o poria em contacto com a família Cloux, que mais tarde seriam seus sócios na compra da barca “Parma”. As experiências a bordo do “Grace Harwar” em 1929, onde dobrou o Cabo Horn, dariam origem ao livro “By Way of Cape Horn”. A barca de três mastros “Grace Harwar” era um belo navio, contudo, já com 40 anos de serviço, apresentava riscos vários, com o casco carregado de algas e cracas. “Cascos sujos fazem os navios lentos e navios lentos tornam duras as passagens”, escrevia ele, mas Villiers sempre mostrou um grande desejo que o acompanharia durante toda a vida, de documentar os grandes últimos veleiros antes que fosse tarde demais e o “Grace Harwar” era um dos últimos navios totalmente à vela. Com uma pequena e mal paga tripulação e sem necessidade de carvão, estes navios eram menos dispendiosos que os navios a vapor e uns 20 ainda andavam no comércio. A azarada viagem levou 138 dias e o “Grace Harwar” foi o último da frota, mas as experiências a bordo produziram 1.850 metros de filme.
Villiers reencontrou-se com a família Cloux em 1931 tornando-se seu sócio na aquisição da barca de quatro mastros “Parma” que continuava no transporte de cereal. Como capitão do navio, provou ser um excelente comandante ganhando a corrida entre navios do mesmo transporte e gastando 103 dias, enfrentando um temporal nessa viagem de 1932. Em 1933 fê-lo em 83 dias. Vendendo as suas acções à família Cloux, Villiers decidiu adquirir o “Georg Stage” em 1934. Originalmente construído em 1882 em Copenhaga, Dinamarca, este veleiro tinha por função a instrução de marinheiros. Salvando-o do desmantelamento, deu-lhe o novo nome de “Joseph Conrad”, marinheiro e escritor Polaco de afamadas histórias de mar. Como pioneiro no treino de mar, Villiers circum-navegou o globo com uma tripulação amadora, usando unicamente o ambiente de mar para criar carácter e disciplina entre a jovem tripulação na moderna máxima de que o treino em navios à vela não serve para ensinar a juventude para uma vida de mar mas sim, para usar o mar como instrução da juventude para a vida.
Regressando quase dois anos mais tarde, Villiers vendeu o “Joseph Conrad” e publicou dois livros sobre as aventuras a bordo: “Cruise on the Conrad” e “Stormalong”. Este navio é hoje pertença do museu marítimo Mystic Seaport no Connecticut, E.U.A funcionando como navio-museu.
Com o início da II Guerra, Villiers foi comissionado como Tenente em 1940 na Royal Naval Reserve e serviu na Operação Dynamo em Dunquerque na Bretanha enquanto a aviação alemã carregava nas tropas e os navios as evacuavam através do Canal da Mancha. Participou noutras campanhas de guerra no Dia-D, na Batalha da Normandia, na Invasão da Sicília, na Campanha de Burma e no Pacífico. No fim da guerra, é promovido a Comandante e galardoado com a Cruz Britânica de Serviço de Distinção, bem como Comandante da Ordem Portuguesa de Santiago D´Espada pela sua galante conduta.
Casado em 1940 pela segunda vez, Villiers fixou-se em Oxford, Inglaterra continuando a sua actividade no mar e na escrita. Foi capitão no “Mayflower” em 1957 aquando da travessia do Atlântico depois do original o ter feito 337 anos antes e batendo o seu tempo em 13 dias. Esteve envolvido com quase todos os últimos veleiros históricos existentes na altura, como o “Balclutha”, “Falls of Clyde”, o bacalhoeiro Português “Gazela Primeiro” bem como o navio-escola “Sagres II”. Foi conselheiro no filme de 1962 “Revolta na Bounty” e contribuíu regularmente nos anos 50 e 60 para a revista National Geographic.
Serviu como Presidente da Sociedade de Investigação Náutica do Museu Marítimo Nacional Inglês em Greenwich, Londres e foi Governador da Sociedade de Preservação da “Cutty Sark” antes da sua morte a 3 de Março de 1982.
Relativamente à sua ligação com Portugal, Alan Villiers é convidado por Pedro Teotónio Pereira, embaixador português em Washington em 1950, a documentar a pesca do bacalhau num lugre Português, o “Argus”, na Terra Nova e Gronelândia. Essa campanha de 6 meses foi uma das mais marcantes da sua vida, pois presenciou aspectos de mar e pescadores que nunca imaginara ou vira em veleiros mercantes. Dessa experiência surgiu o livro “A Campanha do Argus”, um filme (que pode ser adquirido no Museu Marítimo de Ílhavo) com o mesmo nome e inúmeras fotos que foram doadas em 1959 ao mesmo Museu Marítimo de Ílhavo. Em 1952 publica um artigo na National Geographic sobre essa campanha, intitulado “Eu Velejei com os Corajosos dos Capitães de Portugal” e em 1954 volta a Portugal, desta vez para documentar a vida dos pescadores ao longo da costa, em especial na Nazaré e Algarve. De novo na National Geographic desse ano publicaria o artigo sobre essa experiência, de nome “Praias Douradas de Portugal”.
 
Pelo seu grande amor pelo mar e acima de tudo por documentar aspectos de navios e homens em vias de extinção na altura, Alan Villiers prestou um grande contributo à memória do mundo e também a Portugal, pois a campanha no “Argus” é uma das suas obras mais lidas e conhecidas em todo o globo relacionadas com aventuras marítimas.
Tal como o próprio escreveu, “...o treino em navios à vela não serve para ensinar a juventude para uma vida de mar mas sim, para usar o mar como instrução da juventude para a vida”. Tal como já se faz nalguns países, universidades e mesmo liceus são proprietários de navios que são usados na tal “instrução para a vida”. Portugal é um país de mar e seria na minha opinião algo a desenvolver com o devido apoio do Estado, mas como sempre... não há dinheiro, ou vontade, ou tempo... sabe-se lá. Muitos miúdos desfavorecidos ou “mal-comportados” se fizeram homens a bordo de navios no passado, pois o mar obriga à responsabilidade. Há que continuar a trabalhar para isso.
 
Alguns links de interesse:
 
Resumo sobre Alan Villiers no site de j.aldeia, com bibliografia.
Algumas fotos das viagens.
O "Argus" hoje em dia como "Polynesia II" e navio de cruzeiro de uma companhia (Windjammers Barefoot) em crise profunda.


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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008
“Grampus” na evolução das escunas.
As histórias das corridas entre barcos de pescadores nos Bancos da Nova Inglaterra, são baseadas em eventos de finais do séc. XIX. A pesca passou de costeira para o largo nos Grandes Bancos por volta de 1830. Tal significava viagens maiores e como tal algo que preservasse o pescado a bordo, neste caso o sal. Mudanças económicas a partir de 1840, fizeram com que grande número de barcos saísse para os Bancos. Nesta altura, expandindo-se os E.U.A. para Oeste, canais e os caminhos-de-ferro transportavam o sal e o peixe salgado, seco, ou fumado, surgindo também o gelo como preservante de cargas. Uma carga que se estragava facilmente urgia pelo aumento na velocidade das embarcações. Essa rapidez foi ganha em barcos diferentes dos “pinkies”, há muito usados no Golfo do Maine. O barco de eleição para os Bancos – estreito, de pequeno calado e pesado – evoluiu do “sharpshooter”. Estas rápidas escunas tinham o problema de serem lentas a mudar de direcção, deixando os rasos cascos à mercê de encalharem na extremidade. De igual modo, para envergarem o seu enorme plano de vela, tinham um longo gurupés, ou por alcunha o “viuveiro” no qual, nos gelados Invernos dos Bancos, muita mulher ficava viúva.
Um capitão media-se pela sua vontade em manter as velas içadas sempre na velocidade máxima até chegar aos mercados. Tripular nos limites o barco, normalmente uma escuna de 2 mastros com cerca de 18 metros, era imperativo em todas as condições de tempo. A corrida partia quase sempre dos Grandes Bancos ou do Banco de George.
James Connolly escreveu histórias sobre os homens de Gloucester nos inícios de 1900. Um misto de facto e ficção, um desses contos narra uma corrida entre uma escuna de pesca de Gloucester, a “Lucy Foster” e um hiate de dono Inglês, o “Bounding Billow”. Encontrando-se em Reykjavik, Islândia, acordaram correr um contra o outro até Gloucester. Connolly, tal como Joe Garland, Rudyard Kipling ou Wesley Pierce, romantizaram os Capitães e culparam os donos pela evidente grande perda de pescadores e barcos na busca pela velocidade. Entre 1860 e 1899, 600 escunas e 3.500 pescadores nos Grandes Bancos perderam a vida. Anualmente havia cerca de 300 barcos na frota dos Grandes Bancos durante este periodo.
Quem quisesse ter lucros, tinha de jogar com estas regras. Proprietários, desenhadores e construtores focavam-se na velocidade. Os pescadores, dependendo do deu quinhão dos lucros, eram devotos desta realidade. Juntando aos barcos de difícil manobra, muitas das tripulações tinham de aprender rapidamente a velejar, por pura necessidade. Não tinham o treino que normalmente um marinheiro mercante tinha. Velejavam também com equipamento que não tinha a manutenção ou melhorias dos navios mercantes. Quanto aos desenhadores, alguma ignorância marítima poderá ser adicionada à sua cumplicidade. Só foi na altura em que os McMannus de Boston começaram a desenhar barcos de calado mais fundo, com mais rocega e peso reduzido à proa que as casualidades começaram a diminuir, a partir de 1880. As mudanças no desenho dos McManus começaram a ser comuns nos Bancos, pois Tom McManus, tal como o seu pai, velejaram a bordo de escunas de pesca e sabiam em primeira mão as realidades. Desde os seus 10 anos de idade que Tom se preocupava com várias más características da vida dos pescadores. Passou anos a tentar acabar com a existência da “viuveira”, o que acabou por conseguir com a escuna “Indian Head” em que a proa foi projectada ao máximo para incorporar o gurupés.
As qualidades de segurança das embarcações de pesca era um assunto muito discutido e o Capitão J.W. Rollins da Comissão de Pescas dos E.U.A., conduziu uma cruzada pela segurança na frota. Ele criticou os rasos “clippers” por serem instáveis, de fraca resposta e incontroláveis em condições adversas. Convenceu a Comissão a levar a cabo a batalha com a ajuda de vários arquitectos navais, advogando por calados mais fundos. Convidaram novos tipos de desenho a exporem e patrocinaram a construção de um tipo muito diferente de escuna, o “Grampus” de 1886, (fotos 1 e 2)desenhado por Dennison Lawlor de Boston. Um ano antes já os McManus tinham desenhado e construído o “John H. McManus”, o mais rápido e capaz nos seus dias ganhando a primeira das grandes corridas de pescadores a 1 de Maio de 1886. Estes barcos de pesca eram mais rápidos que os hiates de competição da altura.
O “Grampus” foi lançado à água a 23 de Março de 1886 em Essex, Massachusetts e o seu nome deriva de um pequeno cetáceo da família dos golfinhos. Sendo em geral parecido com a típica escuna de pesca da Nova Inglaterra, apresenta algumas das seguintes diferenças: tem cerca de mais 60 cm de profundidade do que outras escunas do mesmo comprimento; em vez de uma complicada roda da proa, possúi uma proa a direito quase perpendicular à água e abaixo da linha-de-água sai a curvar suavemente até à quilha; a popa não é tão larga e tem muito mais rodo. Como curiosidade, veja-se a semelhança do castelo de proa com o do bacalhoeiro Português “Gazela Primeiro” (fotos 3 e 4).
Depois de alguns anos a pescar, foi considerado ter muito boas características para a investigação marítima e entre 1912 e 1916 esteve ao cargo de Henry Bryant Bigelow, considerado o pai da Oceanografia Moderna e fundador da Instituição Oceanográfica Woods Hole. O “Grampus” fez o levantamento de fundos marinhos e de espécies no Golfo do Maine.
Foi a escuna percursora das belas proas em forma de colher, nas quais os mestres Mónica em Portugal se inspiraram para desenhar lugres como o “Brites”, o “Oliveirense” ou o "Novos Mares".
“Não havia outro som a não ser o das chumbadas borda-fora, o tremular do bacalhau e a pancada dos paus quando os homens os atordoavam. Era um pescar maravilhoso”. in “Os Corajosos do Capitão” de Rudyard Kipling.
Sendo um barco revolucionário e muito admirado pelas suas vantagens, julga-se ter sido a inspiração de Rudyard Kipling na sua obra “Os Corajosos do Capitão”, livro sobre o qual existe um filme de 1937 onde um dos personagens (e pescador) é o Português “Manuel”.
Curiosamente, “Os Corajosos do Capitão” é precisamente o título que Alan Villiers deu ao seu artigo na National Geographic em 1952 sobre a sua experiência a bordo do bacalhoeiro Português “Argus”.
 
Não encontrei qualquer informação sobre os últimos dias desta escuna.


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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2007
António “Bacalhau”.
Hoje umas palavras de apreço aos pescadores açorianos, homens valentes que também foram parte da grande epopeia do bacalhau e que por vezes são algo omitidos, talvez devido ao seu isolamento no meio do mar Oceano... e não só.
A capa do livro acima intitula-se “O Homem e o Mar – Os Açorianos e a Pesca Longínqua nos Bancos da Terra Nova e da Gronelândia”. Foi escrito e preparado por um açoriano natural das Flores, João A. G. Vieira, que antes já tinha lançado uma obra sobre a caça à baleia nos Açores. Para os interessados na Faina Maior, é uma obra de enorme interesse e já a encontrei à venda na internet, no entanto ao preço de 70 €. Que me desculpem os editores, mas deve estar escrita a ouro. Provavelmente uma ou duas dúzias de pessoas e instituições a comprará, mas como não me farto de repetir, interessa é que se venda ao maior número de pessoas possível. E andamos tantos de nós a tentar perceber porquê que “as coisas não se sabem” ou o povo não se interessa pelas coisas... . Em Portugal tem-se muito a mania de editar livros e conhecimento a preço de ouro. Mas não me quero alongar nisto, pois é o que temos. Curiosamente a capa do livro é quase igual à da última edição d´ “A Campanha do Argus” de Alan Villiers, que por acaso já adquiri. Alguém meteu a pata na poça numa das editoras. Adiante.
A principal razão pela qual escrevo sobre este livro, é que num curto resumo sobre o mesmo, descobri que muitos dos pescadores açorianos eram também jogadores da bola. Lugres como o Argus ou o Oliveirense, entre outros, faziam escala nos Açores em Ponta Delgada rumo à Terra Nova para embarcar pescadores locais, dos melhores que havia alguns deles. Eram também momentos que as gentes dos Açores não esquecem e em tudo se assemelhavam às partidas ou chegadas dos navios no continente, os mesmo choros, sorrisos e desesperos. Ora como referi, muitos desses açorianos eram jogadores de futebol e sendo eu grande apreciador da bola, não podia deixar passar esta junção ao bacalhau. O Marítmo Sport Clube, (não confundir com o Marítimo madeirense) fundado em 1934, era uma das equipas que dava cartas por alturas dos anos 50 (e não só) no campeonato açoriano, sendo várias vezes campeão e tendo por rival o conhecido Santa Clara. Ambos estes clubes são de zonas piscatórias e como tal a rivalidade é enorme. É o mesmo entre Rio Ave e Varzim, de onde eu venho... . Entre os seus jogadores, um dos mais acarinhados na altura chamava-se António Augusto, mais conhecido por “Bacalhau”, homem que jogava na área, marcava e dava a marcar imensos golos e que a figura acima mostra. Na foto do plantel pode-se ver em baixo, o último à direita, António Carreiro que jogava a extremo-esquerdo. Tanto o “Bacalhau” como o Carreiro partiam para a Faina quando os navios chegavam a Ponta Delgada, curiosidade esta que me faz pensar sobre o futebol actual. Entre os dois, na foto do plantel encontra-se a “estrela” António Viúva, considerado o melhor jogador de sempre do clube e que faleceu aos 80 anos em Toronto no Canadá. Lá viveu os últimos 30 anos da sua vida onde ainda foi pescador. Vida dura tinha o jogador da bola nestes tempos e como disse Hildeberto, outro jogador do mesmo plantel, “No meu tempo os jogadores comiam uma laranja ao intervalo e lavavam a roupa em casa. Agora há tudo e ninguém passa a vida toda num clube, como nós antigamente”.
Sem dúvida que os tempos agora são outros, o bacalhau vem de outras paragens e não sei se tantos jogadores da bola serão pescadores actualmente. O que sei é que os açorianos merecem e muito também que se fale deles e mereciam ter mais que umas visitas raras do “Creoula” de vez em quando. Mereciam ter um lugre só seu, uma réplica do “Oliveirense” digo eu, para que a sua memória fosse bem visível, ali atracada no porto. O turismo açoriano poderia bem pensar no assunto,  pois não falta gente a querer “dar umas voltas de barco”, tal como escolas e universidades tirariam vantagens de aprendizagem dele. Veremos como a recuperação do Santa Maria Manuela vai impulsionar a que se construam réplicas de belíssimos lugres, quer a nível privado ou institucional. É algo que ambiciono ver um dia.
Para terminar... fica a insatisfação pelo preço da obra.


publicado por cachinare às 15:32
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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2007
400 rostos bacalhoeiros Figueirenses.

Segundo notícia da Agência Lusa, duas exposições serão inauguradas quinta-feira, 04/10, pelas 18:00, no CAE da Figueira da Foz e estarão patentes ao público até 31 de Dezembro.

Uma delas refere-se à Campanha do Argus, trabalho fotográfico de Alan Villiers do ínicio dos anos 50 doado ao Museu Marítimo de Ílhavo e a outra, sem dúvida de grande importância e estima para tantos Figueirenses refere-se a fotos de rostos de 400 pescadores da Figueira que andaram ao bacalhau entre a década de 50 e 1974.

Aqui fica a notícia na íntegra:

 

"Cerca de 400 fotografias de pescadores de bacalhau oriundos do concelho da Figueira da Foz constam de uma exposição a inaugurar quinta-feira no Centro de Artes e Espectáculos (CAE) desta cidade, elaborada pelo Museu Marítimo de Ílhavo."
  
"Caixa de Memória - Figueirenses na pesca do Bacalhau" assim se chama a exposição que reúne 400 rostos e nomes de pescadores que, durante 20 anos, entre a década de 50 e 1974, se dedicaram à pesca do bacalhau.
"Quem ia para a pesca tinha de se inscrever no antigo Grémio do Comércio do Bacalhau. O museu tem todos os arquivos, são 19 mil nomes, 934 oriundos do concelho da Figueira da Foz. Escolhemos 400, a partir da década de 50, para haver possibilidades de incluir (na exposição) homens ainda vivos" disse à Lusa Álvaro Garrido, director do Museu Marítimo de Ílhavo (MMI).
É a segunda vez que o MMI promove a "Caixa da Memória", depois do projecto ter incluído pescadores de Matosinhos que se dedicavam à pesca do bacalhau.
Álvaro Garrido sublinha a "emoção" com que centenas de pescadores de Matosinhos aderiram à exposição ali realizada, esperando repetir, na Figueira da Foz, o sucesso da iniciativa.
"Temos tido muitos contactos (com pescadores) e vamos realizar algumas dezenas de entrevistas para um projecto de arquivo de memórias vivas da pesca do bacalhau", sublinhou.
O responsável do museu afirmou ainda que qualquer pescador que apareça retratado na exposição a inaugurar quinta-feira no CAE poderá levar para casa uma cópia da ficha de inscrição original.
"Teremos todo o gosto de lhes oferecer uma reprodução a cores da ficha de inscrição", disse.
Para além da "Caixa de Memória", o Centro de Artes da Figueira da Foz apresentará uma exposição de fotografias intitulada "A Campanha do Argus", de Alan Villiers, jornalista e escritor australiano que, em 1950, embarcou no lugre Argus, vivendo e anotando todos os detalhes da campanha da pesca do bacalhau nos mares frios da Terra Nova e Gronelândia.
"Em 1959 Alan Villiers doou ao então Museu Municipal de Ílhavo o álbum original das fotografias que fez a bordo do Argus. A colecção foi recuperada e digitalizada para poder ser mostrada em exposições itinerantes", explicou Álvaro Garrido.
Para além das fotografias, a viagem de Villiers resultou numa reportagem publicada na National Geographic Magazine, em 1952, um filme e um livro, originalmente traduzido em 16 línguas e depois reeditado pelo Museu Marítimo de Ílhavo em português e espanhol.
Ambas as exposições serão inauguradas quinta-feira, pelas 18:00, no CAE da Figueira da Foz e estarão patentes ao público até 31 de Dezembro."
© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.
 
Provavelmente será difícil um dia o MMI levar a cabo a mesma exposição só com pescadores das Caxinas, mas acredito um dia ver "Caixa de Memória - Vilacondenses, Caxineiros e Poveiros na Pesca do Bacalhau". - Fica o desejo.


publicado por cachinare às 14:45
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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007
POR FAVOR... tragam-no de volta a nós.
Acabo de ler esta manhã no blog atlanticoazul pela escrita de Luis Miguel Correia, que o antigo lugre português ARGUS, o qual desde 1976 navega nas Caraíbas como navio de cruzeiros operado pela companhia WINDJAMMER BAREFOOT CRUISES, como o nome POLYNESIA II, está à venda.
Para quem não sabe, este é o mundialmente famoso lugre português onde em 1950 o Comandante Alan Villiers embarcou durante a campanha de pesca, a convite do embaixador de Portugal em Washington. Do embarque do famoso escritor australiano resultou a edição do livro (e recentemente DVD) “A Campanha do Argus” que imortalizou este navio e a “White Fleet” de Portugal e tornou mundialmente conhecidas as condições árduas em que decorria a pesca do bacalhau à linha. Segundo li, esta obra faz parte da “mesinha de cabeceira” de capitães de navios por todo o mundo, pois é uma narrativa impressionante e apaixonante sobre a relação do homem com o mar.
 
Confesso que fiquei e andarei um bocado tenso e apreensivo com esta notí-cia, pois a perspectiva de ver o grande Argus de volta ao nosso país envergando a bandeira portuguesa é quase inquietante. Digo inquietante porque seria um sonho tornado realidade para mim e muitos, muitos mais ver este navio de volta ao nosso país, mas a verdade é que sei da dificuldade de visão de muitas das gentes com dinheiro em Portugal, para não falar do Governo. Preocupa-me, porque foram necessários imensos anos para que uma instituição privada decidisse pegar no Santa Maria Manuela e trazê-lo de novo à vida no seu esplendor inicial e desta vez não há anos sequer. Há que entrar em acção rapidamente.
Se eu tivesse uns bons milhões, estaria já em acção, mas como não tenho e as perspectivas de ter estão “em águas de bacalhau”, cá fica o post, a ver se ajuda a acordar consciências Lusas. Para mim há certas coisas que são fulcrais e uma delas é a minha identidade como Português. Tenho tanto orgulho em sê-lo, tal como Caxineiro, que pesa toneladas, no bom sentido.
 
Resumindo, temos o Creoula a fazer maravilhas por Portugal, com milhares de pessoas deliciadas só de olhar para ele, além de que a sua história é por demais rica e representativa de uma época que eu por vezes já defino como Romântica Bacalhoeira. É por isso que o Creoula é muito mais que um navio. É a ponta do iceberg (da Gronelândia) no que respeita à Faina Maior. Através dele, há muita gente a investigar o que está por detrás e a “pasmar” com a dimensão deste passado. O Santa Maria Manuela seguir-lhe-à por certo as rotas de sucesso e esplendor e espero dentro de uns anos poder navegar nele, pois o meu avô fez nele 9 campanhas nos anos 50.
 
Dois dos Cisnes do Gelo estarão juntos de novo, para sempre esperemos... e seria o “tal sonho” ver o terceiro, o Argus junto deles, aparelhado na sua bela forma original e acabar com a imagem que tem hoje, na minha opinião de “palhaço” nas caraíbas, onde se brinca aos piratas dentro dele. Um atentado à sua história e imagem.
 
Termino com uma passagem do artigo de A.M. Gonçalves na Revista da Marinha:
 
“A terminar a história dos nossos bacalhoeiros que ainda hoje navegam, resta-nos apenas lembrar que os navios da classe Creoula – Creoula, Santa Maria Manuela e Argus –, constituíram a última evolução dos veleiros portugueses. (...) Os nossos votos vão, no sentido de que um dia os três navios-irmãos possam encontrar-se e voltar a navegar juntos...”
António Manuel Gonçalves
In Revista da Marinha nº384, Março 2005
 
Encontram a história detalhada do lugre ARGUS aqui.
 
“Glória Antiga... volta a Nós”


publicado por cachinare às 11:23
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