Sábado, 12 de Abril de 2008
... ainda Alan Villiers e Portugal.
por Alan Villiers in “Eu Velejei com os Corajosos dos Capitães de Portugal” - The National Geographic Magazine, Maio de 1952.
 

O homem-dos-dóris Emiliano Martins usa um gorro de lã por baixo do seu sueste para estar mais quente. Tanto ele como Joaquim Pedro Rolão (à direita) usam camisas de flanela por baixo dos casacos de oleado. João Fernandes Matías (ao centro), primeiro-piloto do “Argus” usa um gorro da Nazaré. Pela sua parte, normalmente não sai nos dóris e faz o seu trabalho a bordo do navio.



publicado por cachinare às 12:34
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Terça-feira, 25 de Março de 2008
... ainda Alan Villiers e Portugal.
por Alan Villiers in “Eu Velejei com os Corajosos dos Capitães de Portugal” - The National Geographic Magazine, Maio de 1952.
 
Preparar todo o complicado equipamento para a pesca ocupou praticamente todo o tempo aos homens-dos-dóris durante a viagem de 16 dias até à Terra Nova.
Cada homem recebeu uma provisão de anzóis, linhas, chumbadas, madeira e tela para as velas dos dóris, bem como botas, luvas e suestes. Cada um com estes aprestos tinha de preparar o seu aparelho para a faina, fazer as suas bóias e fateixas e aparelhar o seu dóri.

Na foto, o “Argus” aproxima-se dos Bancos de pesca, os homens juntam-se no convés a preparar o equipamento. Um homem sentado num cabrestante trabalha na sua linha de trol. Outro, à esquerda braceia para colocar uma chumbada. O balde de madeira levará dentro a comida do pescador, relógio, apito de nevoeiro, tabaco e fósforos.

- Dedico esta foto ao Sr. Albino Gomes de Vila do Conde, antigo pescador do bacalhau que tem vindo a comentar alguns dos artigos publicados e a adicionar detalhes sempre importantes sobre as Caxinas.



publicado por cachinare às 18:49
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Domingo, 16 de Março de 2008
... ainda Alan Villiers e Portugal.
por Alan Villiers in “Eu Velejei com os Corajosos dos Capitães de Portugal” - The National Geographic Magazine, Maio de 1952.
 

Em St. John´s, Terra Nova, quando na Primavera de 1950 a frota bacalhoeira teve de esperar 17 dias para que os capitães pudessem comprar arenque para o isco, os homens-dos-dóris também passavam o seu tempo a lavar as roupas. Na foto, roupas lavadas e de oleado oscilam na brisa do mar enquanto o “Argus” aguarda no porto. Um dóri serve de ferry para ir a terra.



publicado por cachinare às 11:18
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Domingo, 24 de Fevereiro de 2008
... ainda Alan Villiers e Portugal.
por Alan Villiers in “Eu Velejei com os Corajosos dos Capitães de Portugal” - The National Geographic Magazine, Maio de 1952.
 

Um moço de convés iça para dentro do “Argus” mais peixe do dóri em baixo.



publicado por cachinare às 15:24
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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008
... ainda Alan Villiers e Portugal.
por Alan Villiers in “Eu Velejei com os Corajosos dos Capitães de Portugal” - The National Geographic Magazine, Maio de 1952.
 
Quando um dóri carregado encosta ao “Argus”, o bacalhau é ganchado para o convés para dentro de compartimentos em forma de caixa ao longo da amurada. Grupos de três homens limpam e escalam o peixe. Os fígados são cuidadosamente aparados e levados para uma usina de pressão, onde se faz o valioso óleo. Os bacalhaus são lançados para dentro do porão, onde uma equipa experiente salga cada peixe cuidadosamente e o arruma. Salga desatenta pode estragar uma carga completa. Na foto, o Engenheiro chefe César Eduardo Maurício escala bacalhau num só golpe.


publicado por cachinare às 22:48
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Sábado, 19 de Janeiro de 2008
Os Corajosos dos Capitães.
Em Março de 1950, Alan Villiers chegou a Lisboa para embarcar no Argus durante 6 meses e documentar a Pesca do Bacalhau nos Bancos da Terra Nova e Gronelândia.
A parte mais conhecida deste trabalho é o seu livro "A Campanha do Argus” editado em 1951. No entanto, foi publicado um resumo deste trabalho também em 1952, na revista National Geographic, ilustrado com inúmeras fotos. Adquiri um original desta revista e apresento aqui a minha tradução do artigo. Algumas das fotos aqui incluídas são propriedade da mesma.
Existe um início de movimento em Portugal para eventualmente reaver o antigo Argus, liderado pelo blog Atlântico Azul, para o qual se pede o maior interesse.
 
 
EU VELEJEI COM OS “CORAJOSOS DOS CAPITÃES” DE PORTUGAL
por Alan Villiers
in THE NATIONAL GEOGRAPHIC MAGAZINE, Maio de 1952
 
Quatrocentos e cinquenta anos atrás, Portugueses em vigorosos navios à vela atravessavam o Atlântico ao sabor do vento primaveril de leste para irem pescar nos Grandes Bancos da Terra Nova, a 2.000 milhas de distância. Pescavam ao anzol e à linha, enchiam os seus porões de bacalhau e apressavam-se em direcção a casa antes que o cruel Inverno do Norte os apanhasse.
Nevoeiros, temporais e tempo gelado levavam o seu quinhão em cada ano e ainda assim os pescadores velejavam, pois o bacalhau tornara-se a diferença entre comida ou fome em grande parte do Sul da Europa. Bacalhau salgado era consumido nos dias santos Católicos e era parte das rações de exércitos.
 
NOVOS NAVIOS, VELHOS PERIGOS.
 
Nos anos 50, uma frota de veleiros Portugueses ainda faz largada todas as primaveras para os Grandes Bancos. Embora o tempo tenha trazido mudanças no tamanho, forma e aparelho dos navios, os 2.000 destemidos pescadores que preenchem a frota enfrentam na maioria os mesmos perigos que os seus antepassados sofriam.
Nos inícios da Primavera de 1950 embarquei com a frota Portuguesa de pesca num conjunto de 32 navios, no gracioso quatro-mastros em aço Argus, construído em 1938-39, rei dos navios dos Bancos. Cheguei a Lisboa nos inícios de Março, para poder dar primeiro uma olhadela aos preparativos.
Os veleiros, aprendi eu, ainda dependem principalmente do vento, embora agora tenham motores a diesel para os auxiliar quando necessário. Também possuem luz eléctrica, aquecimento por vapor e refrigeração. Guinchos de força, ainda na memória de alguns dos velhos pescadores, acabaram com o trabalho quebra-costas de içar e descer velas e âncoras.
Mas a pesca em si, o mar e o perigo estão inalterados. Os homens ainda pescam na maneira clássica: pela madrugada, cada um sai sozinho no seu pequeno dóri de um só homem, pondo-se à prova a si mesmo, à sua habilidade e à sua sorte contra o oceano.
Apanhei o Argus no amplo rio Tagus, ou Tejo onde a frota de pesca à linha se estava a reunir para o serviço da Benção. Tinha lugar no famoso Mosteiro em Belém e Igreja dos Jerónimos, construídos no séc. XVI como uma oferta de agradecimento pelo sucesso da viagem de Vasco da Gama.
Para a Benção, a igreja estava apinhada de homens-dos-dóris (1), todos em coloridas camisas de quadrados e botas de alto-mar. Capitães dos lugres estavam lá, bem como almirantes e ministros de Estado, dignatários da Igreja e gentes de Lisboa.
Dei umas passagens cuidadosas pelos túmulos de Vasco da Gama e do poeta Luís Vaz de Camões e ouvi as palavras do Arcebispo de Mitilene enquanto abençoava a frota, ele próprio filho de um homem-dos-dóris afogado nos Grandes Bancos.
Lá fora, os lugres estavam vistosos com as suas bandeiras. Pareciam belíssimos iates prontos para a partida numa corrida oceânica. Frota alinhada e elegante, de altos mastros e serena, aguardava. Mas os ventos de Leste da Primavera já sopravam e era altura de começar a navegar.
 
ESPOSAS ENTRISTECIDAS À PARTIDA DOS MARIDOS A NAVEGAR.
 
Saímos da grande igreja, com as suas decorações de cordas e âncoras que marcam os laços de Portugal com o mar, apressámo-nos até à beira da água e daí para bordo. As últimas mulheres dos homens-dos-dóris estavam a ser levadas a remos para terra nos pequenos dóris vermelhos e as crianças com elas mostravam-se quietas e entristecidas. Os homens-dos-dóris, fiquei eu a saber, iam ano após ano com os mesmos navios e alguns privilegiados de entre eles eram permitidos terem as suas mulheres e crianças a bordo durante os últimos poucos dias antes da partida.
Eram estas as esposas que eu agora via virem através da viva água azul. Apresentavam-se vestidas à maneira das povoações piscatórias de Portugal. Havia uma do Norte, em volumosas e coloridas saias; outras, do Algarve a Sul, trajavam negro sombrio, com chapéus altos de feltro no cimo das cabeças.
A bordo do Argus tudo estava em actividade. Chamamentos fortes dos homens-dos-dóris misturavam-se agora com o bater metálico do cabrestante que trazia os cabos para dentro e o estalar dos moitões à medida que altas velas brancas subiam para o alto dos mastros.
Outras três escunas iam navegar connosco , pois os pescadores dos Bancos gostam de ir em companhia. Esta é a tradição desde os dias em que piratas varriam o Atlântico Norte, no entanto tem ainda uma outra razão: no princípio da Primavera quando os navios navegam e pelo Outono quando regressam, temporais repentinos surgem e navios mais velhos podem afundar-se. Se houverem outros nas proximidades, estes poderão socorrer as tripulações.
 
O RANCHO: GRANDES BELICHES E GRANDES HOMENS.
 
Guinámos vagarosamente sob as colinas de Lisboa e olhamos para trás sobre a cidade branca pela última vez em muitos meses pela frente. À medida que o lugre atravessava a barreira do Tejo e passava para o mar, gaivotas gritavam em volta dele, o vento começou a suspirar no cordame e a água clara gorgolejava e espirrava na proa curva.
Lá em baixo no rancho, tal como o castelo de proa de um navio dos Bancos Português é sempre chamado, metade do complemento de pescadores ia-se arranjando e estabelecendo. A outra metade seria embarcada nos Açores, pois o Argus estava destinado primeiro a Ponta Delgada na ilha de São Miguel. O rancho era um local cavernoso cheio de grandes homens, grandes beliches e todo o tipo de aprestos para cozinhar, pescar e navegar.
Num lado deste beliche, segurando uma caneca de vinho numa mão e uma fatia de pão quebradiço na outra, estava sentado António Rodrigues, de 63 anos de idade. António, fiquei a saber, fazia a sua 43ª viagem aos Bancos por bacalhau. Era um velho e formoso homem, de face enrugada e morena, mas o corpo era ainda tão vivo e ágil como o de um novo. Eu tinha visto a sua mulher sair de bordo junto com as outras. Havia ainda um olhar de despedida nos seus olhos.
“Como se sente por fazer a sua 43ª viagem de regresso aos Bancos?” perguntei eu.
“Não preferia estar em mais sítio nenhum e não há melhor navio, gracejou António, tragando um gole de vinho púrpura. “É uma boa vida para um homem.”
“Há quanto tempo é que está no Argus?”
“Desde o dia em que foi construído!”, retorquiu o velho homem. E o mesmo sucedia com quase todos os homens-dos-dóris, excepto os muito novos. A maioria era de meia-idade.
 
O HOMEM QUE CAPTURAVA UMA TONELADA POR DIA.
 
Um pouco mais tarde notei um lúgubre homem de olhar determinado e com uma face arrebatadora a tomar a sua vez ao leme. Um camarada – um jovial jovem com uns 22 anos, fazendo a sua quinta viagem – disse-me que aquele era o Pescador de 1ª, Francisco Emílio Battista, pescador campeão da frota inteira. Ele apanhava uma tonelada de bacalhau por dia. Uma tonelada por dia! Olhei para ele com assombro, pois não fazia ideia que peixe poderia se apanhado em tamanha carga à linha e anzol.
Os camaradas de Francisco tinham uma anedota acerca da sua proeza de pesca. “Ele possui um viveiro próprio,” explicou um segundo camarada. “Ele tem o seu próprio bacalhau e simplesmente se dirige a ele e apanha-o.”
O Capitão Adolfo, o mestre do Argus, encontrava-se junto ao leme. Ele era um brando homem de tez escura com cerca de 50 anos de idade. Eu sabia que ele havia andado no mar em veleiros desde os seus 8 anos. Ainda tinha as roupas de terra vestidas, um fino fato de ocasião e um chapéu de feltro, com sapatos brilhantemente polidos. Na sua mão direita reluzia um anel de diamante. Havia-se juntado ao navio à última da hora, vindo para bordo com os papéis de liberação. A sua mulher e família estavam em Ílhavo, a afamada povoação de capitães de navios e pescadores de bacalhau que se situa num braço de terra a Sul de Aveiro, no Norte de Portugal.
Dela saem a maioria dos mestres de lugres. Mas embora o Capitão Adolfo andasse a sair de Ílhavo nos passados mais de 40 anos, ele não tinha grande gosto na vida de pescador.
“O Capitão,” disse o camarada, “ele odeia o mar. Ainda assim ele irá encher o seu navio de bacalhau. Espere e verá.”
Não podia esperar para tal presenciar.
E agora o admirável Argus rumava em direcção aos Açores e os homens-dos-dóris começavam a receber os seus dóris e o seu aparelho de pesca aprontado. Em Ponta Delgada embarcamos outros 26 pescadores, dando-nos um complemento de 53 no total. Com os moços de convés e os cozinheiros, oficiais, engenheiros e por aí fora, o lugre tinha 70 almas dentro. O seu convés estava apinhado com os pequenos dóris vermelhos empilhados aos 6 e 7 de altura, encaixados juntos como blocos das crianças e atados à coberta.
 
MISTÉRIO DO ISCO DESAPARECIDO.
 
Mais adiante próximo do rancho, o navio possuía um grande espaço refrigerado para o isco, mas nele não havia ainda peixe de isco. Por alguma razão misteriosa, a sardinha que era usada para isca havia temporariamente desertado das costas de Portugal.
E assim dos Açores fizemo-nos em direcção a St. John´s (2) na Terra Nova, para embarcar o nosso isco. Não seria possível pescar um bacalhau sem o isco.
Quanto mais tempo eu passava a bordo do Argus mais eu ficava maravilhado com ele. Era um navio à vela mas estava preparado com todos os aparelhos modernos que se usavam. Os Portugueses não são antiquados; mantêm-se fiéis ao velame de um lugre por ser o ideal para pescar nos Bancos, onde um navio tem de se manter no mar por muitos e difíceis meses e onde um navio a motor poderia ficar sem combustível.
Deram ao Argus todo o equipamento moderno de que necessitava. Havia aquele grande compartimento frigorifico por exemplo, levando cerca de 30 toneladas; um rádio-telefone e um aparelho electrónico para com precisão medir a profundidade do mar.
Estava também preparado com aquecimento a vapor, para as costas da Gronelândia. Os seus mastros de aço eram ocos para servirem de escape às caldeiras e para o enorme motor a diesel lá em baixo. Era um belo navio moderno e não tive qualquer problema em me arranjar nele com os bondosos Portugueses.
Então chegamos a St. John´s e lá ainda não havia isco, pois havia estado uma má estação de gelo e as gentes da Terra Nova não conseguiam alcançar o arenque. Era princípios de Abril e estava frio. Passamos 17 dias no porto, simplesmente à espera.
Os homens-dos-dóris tinham as suas longas linhas preparadas; equipavam os seus dóris e lavavam as roupas nos límpidos riachos de montanha, batendo-as nas pedras como era costume fazer lá na terra. Depois disso não havia nada para fazer – nada a não ser ver as lojas ou brincar com os miúdos de St. John´s.
O mais custoso para o pescador à boa-vida era que não tinham hipótese nenhuma de ganhar alguma coisa. O pagamento para os homens-dos-dóris é por resultados – não haver pesca significa que não há pagamento e claro, atrasa a viagem e põe de parte o regresso a casa. Praticamente todos os homens-dos-dóris são homens de família e o que mais prezam são as suas famílias e as suas casas. Ficámos contentes quando por fim o arenque surgiu e recebemos o nosso há muito aguardado isco.
 
A PÉ ÀS QUATRO, NÉVOA OU LIMPO.
 
Então aí, pescamos bacalhau nos Grandes Bancos ao largo da Terra Nova durante seis frias e enevoadas semanas, enquanto esperávamos que o Sol de Verão derretesse o gelo no Estreito de Davis a abrisse a passagem para a Gronelândia. Mas não havia nenhum Sol e tão pouco Verão algum. Que lugar!
O Argus e suas consortes simplesmente ancoraram nos Bancos, escolhendo um local onde o fundo rochoso prevenisse que a horda de arrastões pudesse trabalhar, pois os rochedos rasgariam as suas caras redes-de-arrasto. Os 53 pescadores iam todos os dias possíveis pelas 4 da manhã à borda do navio... névoa ou limpo – e raramente estava limpo. Com rapidez saiam sob as suas pequeninas velas oleadas na direcção do horizonte, largavam o seu trol (3) e pescavam todo o dia. Enquanto o trol de 600 anzóis estava no fundo, os homens-dos-dóris pescavam à mão com o riley (4), em forma de arenque e preparados com dois grandes anzóis.
Eu saí com os dóris. Até agora, pensava eu que estava razoavelmente acostumado ao mar e mais ou menos habituado às suas tribulações. Mas num dóri descobri que ainda era um novato. Os rigores de velejar em grandes veleiros e dobrar o Cabo Horn não são nada comparados com o tipo de coisas a que um homem-dos-dóris nos Grandes Bancos tem ao seu alcance.
Dêem primeiro uma olhada a um dóri. Não passa de um barco aberto de aspecto frágil, de fundo chato e construído com apenas umas pranchas. Não tem quilha, nem mesmo um leme. Os seus bancos de remador desmontam-se de forma a poder ser aninhado uns nos outros. Tem pouco mais de 4 metros de comprimento e menos de 2 de largo. O seu pequenino mastro é um pedaço de árvore nova que o pescador corta para si; o seu aparelho é caseiro, tal como são as suas velas. Tudo parece bem para um dia de calmaria no Potomac (5). Mas são poucos os dias de calma na Primavera nos Grandes Bancos e menos ainda ao largo da Gronelândia.
O meu dóri foi puxado com força para o costado do navio balouçante por um par de roldanas livres e dois ganchos de ferro. Dei uma olhada fora de bordo ao frio, cruel mar e pensei: “Preferia ficar no Argus – ele já é pequeno o suficiente”. Mas os 53 homens-dos-dóris miravam-me das turbulentas águas cinzentas e eu tinha de ir. O meu dóri estava cheio de linhas, aprestos e isco com uma pequena bússola em cima do lote, para o caso de nevoeiro.
“Vá com a noção de que tem guias” disse o velho António Rodrigues. “Nunca se sabe quando aparecerá a névoa por aqui. E não se preocupe com o dóri. Os dóris são bons. Agora os homens neles...”.
Fixei o conselho do velho António.
“E afaste-se da amurada do navio depressa.”, dizia ele. “Esse é o sítio de perigo! Pode ficar esmagado contra as placas de aço se não tem cuidado”.
Os ganchos de ferro sacudiram o meu dóri para o corrimão. O lugre branco balouçava a sotavento. Um nefasto mar gorgolejante ergueu-se até amimar no fundo do pequeno barco.
“Agora!”, gritou o Cozinheiro mais o 2º Engenheiro nas roldanas e deixaram-me ir. Com o marulho e uma pancada em cima do mar, eu estava largado. Empurrei-o para longe do costado de aço homicida o mais depressa que consegui.
Quão enorme parecia o Argus, visto dali de baixo na superfície da águas! Ele era apenas um lugre de 696 toneladas, mas naquele momento parecia-me ter 20.000. De imediato o meu dóri começou a debater-se e a saltar e a agitar em cima do mal humorado mar que corria pelos Bancos e comecei a subir o meu pequeno mastro e velas o mais vigorosamente que consegui.
Uma vez que as velas estavam ao alto, fiquei estupefacto por ver quão bem aquele pequenino dóri navegava. Ele era vivo, por certo – quase o bastante para me fazer enjoar – mas portou-se muito bem.
 
PROBLEMA: ENCONTRAR O BACALHAU.
 
De imediato o mar parecia o sítio mais solitário que alguma vez havia conhecido. Sempre estive habituado a ficar a bordo de todos os navios em que naveguei, do princípio ao fim da viagem. Normalmente não se vai fora de bordo para o mar se tal puder ser evitado. A partir deste barco pequenino senti pela primeira vez a vasta imensidão e o incalculável desafio do grande e aberto oceano.
Estava brutalmente frio. Não fazia ideia como iria ser capaz de trabalhar com as minhas mãos, tendo um trol de 300 anzóis para largar quando alcançasse um bom local. Um bom local? Como poderia eu saber a diferença?
Fiz-me na direcção principal que havia visto o nosso pescador campeão seguir e levei em conta navegar até conseguir ver o seu dóri. Todos os dóris tinham grandes números brancos de cada lado da proa. O dele era o nr. 16. Naveguei e naveguei e nem sinal do nr. 16 eu vislumbrei. Quando o casco do Argus se encontrava quase debaixo do horizonte, decidi que havia ido longe o suficiente.
Então baixei a minha vela, lancei fora o pequeno arpéu, isquei os últimos anzóis do trol (não houvera tempo para iscar todos antes da sair do navio) e larguei a linha bem para o fundo, através da corrente. Eram cerca de 35 braças de mar.
De seguida comecei a pescar com os rileys. Para trabalhar com estes, pega-se numa linha de riley em cada mão, baixa-se o riley até ao fundo e depois alternadamente dão-se uns puxões com esperteza para cima e deixa-se cair de novo. É suposto cangar no bacalhau no movimento para cima.
O meu não pegou. Talvez não houvessem nenhuns no fundo. Como se poderia saber tal, com tamanha distância até ao fundo? Um homem-dos-dóris obviamente tinha de ter o cérebro nas pontas dos dedos e os meus estavam dormentes e particularmente sem cérebro nessa manhã. O dóri pulava e saltava e era preciso estar de pé nele para trabalhar o riley. Sentei-me. Alei uma linha de riley e apeguei-me à outra. A linha de trol tem de estar largada em baixo três ou quatro horas antes de poder ser alada.
 
MEIA CARGA NUMA ALADA.
 
O dóri continuava a saltar e a pular e não havia um verdadeiro ritmo na água. O vento começou a suspirar e surgiu um sinistro banco de detestável nevoeiro de barlavento. Aqui e ali, em momentos em que o meu dóri se erguia nas cristas do mar, eu podia ver outros dóris – nunca mais de cinco ou seis, embora soubesse que haviam mais de uns 300 à minha volta, pois encontravam-se vários grandes lugres nas proximidades. Comecei a pensar que aqui fora no mar, um dóri perdido seria imensamente árduo de encontrar. E dóris, sabia-o eu , perdiam-se com frequência suficiente.
Perto das 9 da manhã comecei a alar para dentro o meu trol. Isso levou-me duas horas, pois não tinha qualquer arte no negócio. De novo um homem tem de trabalhar e de novo o dóri pinoteia e salta e tenta cuspir-te borda fora.
Mas, pela sorte dos principiantes, tive uma alada nada má. O meu trol, como todos os outros, consistia em vários comprimentos de 100 jardas de linha grossa casada. A esta, pequenos pedaços de linha mais fina, chamados “nós” estavam atados cada a cerca de uma braça um do outro. Cada nó segura um anzol, 50 deles para cada 100 jardas da grossa linha.
A maioria dos pescadores usava linhas compostas por oito a doze destas secções de 50 anzóis, de tal modo que estavam a pescar com cerca de 400 a 600 anzóis. Mas para começar, eu estava a experimentar com uma de 300 anzóis. Esse já era negócio suficiente! Manejar o trol de modo a que os anzóis não se enrosquem é um trabalho habilidoso e eu estava longe de ser habilidoso e por isso, os meus enroscaram-se. Então tive de parar para os safar e isso levou tempo.
Mas o bacalhau é um peixe estúpido e dócil. Os que estavam nos anzóis esperavam pacientemente até que eu os alasse, mesmo os de 35 quilos. Alguns tinham apenas a ponta do anzol cangado nos seus néscios, borrachentos beiços, mas mesmo assim permaneciam ali, aguardando a sua vez para serem puxados para dentro do dóri. Um ou dois escaparam-se enquanto os trazia à superfície. Então agarrei numa espécie de arpão leve, um pedaço de madeira com um grande gancho na ponta, peguei-os pelas guelras e arremessei-os para as pranchas e cavernas sem mais cerimónia.
Se um estivesse demasiado vivo, atordoava-o com a outra ponta deste pequeno arpão. Mas a maioria deles apenas batia um pouco e depois permaneciam quietos na pilha.
Tal como qualquer pescador estaria, eu estava entusiasmado ao princípio com a quantidade da minha alada – quase 50 peixes. Mas rapidamente isso me passou. O bacalhau é simplesmente demasiado lerdo para causar grande excitação.
A maioria dos que apanhei pesavam, a olho, 15 a 20 quilos. Quando os tinha todos dentro, o meu dóri estava cerca de metade cheio. Só uns poucos eram pequenos, aí de 9 quilos – e essa é uma das razões pela qual os Portugueses ainda preferem o lugre e a pesca de dóri. Apanha-se maior e melhor peixe ao anzol. Os arrastões, usando redes, têm de passar demasiadas vezes sobre o mesmo fundo onde o leito é bom, mas os dóris conseguem ir a qualquer sítio.
 
DEPOIS DO PEIXE VEM A NÉVOA.
 
Não larguei o trol de novo. Normalmente um homem-dos-dóris estaria fora até ter o seu dóri cheio ou ver a bandeira de chamada – qualquer grande bandeira no mastro de popa – içada. Mas eu não era um homem-dos-dóris e agora sabia que nunca o seria. Eu estava só a experimentar e fiquei imensamente contente por o ter experimentado e estar agora de regresso ao navio.
Mas aquela névoa infernal tinha descido. Um braço dela estava entre mim e o Argus. De súbito, vi-me sozinho no mar e os braços fantasmagóricos do horrível nevoeiro estavam a encostar-se à minha volta! Bem, eu podia ancorar e esperar. António Rodrigues havia-me dito para proceder assim.
“Nunca entre em pânico,” tinha dito ele. “Quem entra em pânico está morto.”
No entanto o nevoeiro não parecia ser daquele determinado. Aqui e ali eu conseguia vislumbrar o céu cinzento acima; por vezes o clarear era menos intenso. Levantei a pequena vela principal e a mínima giba , pois soprava uma gentil brisa sobre a água. Eu tinha as minhas orientações e coloquei a bússola do barco no banco de remador à minha frente.
Com um dos três pequenos remos do dóri a sotavento como tábua de abatimento e leme, fiz-me meio amedrontado ao rumo da orientação que tinha do navio e mantive um olhar atento por outros dóris. Eu tinha uma buzina para soprar e também tinha um pedaço de pão e água suficiente para um par de dias, se usada racionadamente.
Quando se sai num dóri, espera-se voltar no mesmo dia. Os homens-dos-dóris nunca se preparam a si ou aos seus barcos contra a calamidade. Se vier, aceitam-na e há que se safar.
 
UMA SIRENE DE NEVOEIRO – DE QUE A DIRECÇÃO?
 
Após algum tempo ouvi um lugre a soar a sua grande sirene de nevoeiro, pois todos eles possuíam sirenes de raides aéreos nos seus topos de mastro para chamar os pescadores na névoa. Mas onde estava este lugre? Era ele o Argus? Eu não sabia. Não fazia ideia da direcção do som no nevoeiro.
Eu conhecia o sinal distinto que o Argus usava no seu sino de nevoeiro, o grande e antigo sino de igreja que estava pendurado no cordame da mezena. Soprei um sinal no meu búzio e aguardei por uma resposta. Nada veio. Por isso aquela sirene não era de bordo do Argus, ou eu escutá-la-ia através de algum capricho na condição da névoa. Continuei. De novo soprei na minha buzina.
O que era aquilo? Um eco? Soprei de novo. Não era nenhum eco! Era um pescador a soar o nosso sinal, um homem do Argus, no nevoeiro tal como eu. Gritei para chamar-lhe a atenção, para comparar o rumo da minha bússola com a dele. Ele também gritou. Não conseguia enxergar nada a não ser a branca e sinistra névoa e o frio rodopiar do untuoso e desditoso mar.
Então aí, indistinto ao princípio e quase inacreditável, vi o triângulo de uma pequenina vela a ganhar mais forma saindo do enevoado circundante; um enrolar de água branca gorgolejava na pequena proa carregada. Estava ali um dóri! Nr. 16! Battista, o 1º Pescador – Não podia dar com melhor homem que aquele. Ele sorriu.
“Não é bom! Não é bom!” gritou ele. No entanto ele parecia abominavelmente jovial e eu podia ver que o seu dóri estava cheio até à borda com excelente bacalhau grande.
Mal encontrei o 1º Pescador, soube que tudo estava bem. Depois de um quarto de hora de suave deslize através do pano de nevoeiro, subitamente uma monstruosidade branca agigantou-se sobre nós direito ao nosso lado. Parecia um icebergue.
“Argus!” sorriu o Battista, “Regressamos ou não?”
Sim, regressamos e eu havia tido que chegasse de pesca de dóri para esse dia – e para sempre onde quer que fosse.
E contudo nessa noite no rancho, vi todas as mãos bem dispostas o bastante. Não se tinha perdido ninguém. Todos eles eram navegadores experimentados no nevoeiro, com uma capacidade misteriosa para descobrirem o rumo de regresso ao lugre.
Eu sabia bem que andar perdido no nevoeiro era apenas um dos riscos que aqueles bravos, calmos homens tinham como parte do seu trabalho diário, sendo lançados à deriva por tempestades, abalroados por navios ou dominados por um mar crescente – até serem atirados para fora dos seus dóris por brincadeiras de baleias – estes eram perigos que tinham de aceitar como rotina. A vida de um homem-dos-dóris não era vida para tímidos ou para os que ficam e casa.
Lá em baixo no rancho estava um jovem pescador Açoreano chamado Francisco de Sousa Dâmaso, na sua primeira viagem aos Bancos. Um dia ele foi abalroado por uma baleia. Não que a baleia lhe quisesse algum mal. Simplesmente sucedeu que veio à tona para respirar mesmo por debaixo de parte do seu dóri e esse foi o seu infortúnio. O dóri foi adornado lentamente no ar e pescador, peixe e tudo o que estava dentro virou-se lentamente para fora. Então a baleia afastou-se, sem dúvida mansa e estupefacta com o dano que causara.
Podia ser a primeira viagem do Senhor Dâmaso, mas não era a primeira vez que via uma baleia. Ele enxotou a besta para o largo, endireitou o seu dóri (que não se havia virado totalmente) e subiu cuidadosamente de novo para ele. Depois recuperou todos os seus aprestos que pode e o peixe e prosseguiu com a sua faina.
São um bando de taciturnos, aqueles homens-dos-dóris e todos eles andavam em vários tipos de faina desde o dia em que começaram a andar. Eu adorava escutar os seus contos e conversas, especialmente os dos mais velhos. Eles contavam histórias dos realmente duros tempos dos Bancos, quando centos de pequenos dois-mastros costumavam vir de Portugal, Espanha e França e de Gloucester no Massachusetts (muitos dos nossos velhos homens-dos-dóris haviam saído de Gloucester) e não havia frigoríficos, electricidade ou radio-telefonia. Por vezes perdiam três e quatro escunas juntas numa tempestade repentina e todos os seus pescadores com eles; uma vez, numa única noite de temporal perderam 200 pescadores.
“Mas agora – o quê”, exclamou o velho António Rodrigues, era quase “vida de menina de escola!”
 
VIAGEM DE BORLA ATÉ À CHINA.
 
Disso duvidei. Eu sabia que o António, ele próprio havia andado perdido no nevoeiro durante dias – ele não sabia quantos – e havia sido resgatado por um veleiro errante saído de Boston e com destino às costas da China. António teve de ir até à China nele. Alguns anos passaram até ao seu regresso de novo ao Algarve, onde há muito que o choravam e tinham por morto.
Agora o velho António ria-se acerca do que ele chamava a sua “viagem de borla à China”. Ele era um rijo velho tipo e um verdadeiro homem-dos-dóris.
Com regularidade o 1º Pescador foi apanhando a sua tonelada de bacalhau por dia. Ele era um habilidoso e infatigável pescador. Mais que isso, ele era o tipo de homem que sobressairia em quase qualquer trabalho. Havia nascido para a pesca, no encantador porto da Fuzeta no Algarve e assim, a pescar ele se distinguia.
Havia outros capazes de chegarem ao nível do 1º Pescador durante algum tempo – João de Oliveira, o 2º Pescador; Francisco Martins dos Açores e César de Medeiros, que parecia um pirata. Mas nenhum se mantinha àquele nível por muito tempo.
Por vezes tempo impossível mantinha os dóris aninhados pois não tinha qualquer uso largá-los se se agitavam em demasia para os homens poderem pescar ou se o mar era tão alto que não os conseguiam carregar. Um dóri tinha de trazer consigo uma boa carga de peixe para o homem-do-dóri fazer vida. Com mau tempo eles arreliavam-se, todos eles. Quando havíamos esgotado a isca de St. John´s, dirigimo-nos a North Sidney na Nova Escócia para mais arenque e cavala fresca para levar para os fundos da Gronelândia. Em North Sidney encontravam-se 10 lugres e um par de navios-motor com dóris.
Aos nossos homens-dos-dóris foram dados 5 ou 10 dólares a cada para gastarem. Vi-os a comprar coisas para os filhos e netos, mas nada para eles próprios.
 
A NORTE PARA A GRONELÂNDIA.
 
Mal o isco estava a bordo, lá fomos de novo, em direcção a Norte através do Estreito de Belle Isle rumo à Gronelândia. Havia grandes icebergues no estreito e a Corrente do Labrador estava ainda cheia de gelo. Fomos apanhados de maneira ruim num campo de gelo com névoa e durante um dia e uma noite tivemos de parar e afastar os gelos. Mesmo um pequeno pedaço de gelo pode arrebentar com as placas de um navio de aço.
Tivemos sorte. O gelo não perfurou o nosso casco ou o dos navios connosco, o nosso navio-irmão Creoula, o quatro-mastros Aviz, ou o pequeno navio-motor Elisabeth. Um temporal limpou a névoa e retomámos o navegar em direcção aos bancos de Fyllas e ao Pequeno e Grande Hellefiske, no Estreito de Davis.
Nestes últimos vinte e cinco anos houve aquilo a que os cientistas chamam, um “ciclo quente” na Gronelândia e o bacalhau foi capaz de migrar mais para Norte. Onde o bacalhau ia, também iam os lugres e os homens-dos-dóris. Durante os três meses seguintes o Argus e suas consortes pescaram nas cheias de detritos de gelo e traiçoeiras águas dos bancos próximo do Círculo Ártico no Estreito de Davis. Nalguns anos uns poucos navios vão ainda mais longe para Norte.
O método de pesca era o mesmo dos Grandes Bancos excepto o facto de se usar linhas de trol ainda mais longas. Juntando as impiedosas costas recortadas da Gronelândia, atira-se-lhe com um cenário de velhos icebergues encalhados e adicionam-se os azares de repentinas e furiosas tempestades, mais umas correntes vivas e aí têm os pesqueiros da Gronelândia.
Havia luz contínua do Sol da meia-noite durante os primeiros dois meses e meio. Os homens-dos-dóris trabalhavam e trabalhavam, várias vezes fazendo 20 horas por dia, pescando desde as 4 da madrugada e arranjando e salgando até à meia-noite.
O peixe salgado era acondicionado lá em baixo no cavernoso porão. Até estar cheio, não seguíamos rumo a casa; se os temporais do Outono e gelo novo nos afastassem da Gronelândia, voltaríamos de novo aos Grandes Bancos. Os rancorosos ventos dos montes da Gronelândia são brutalmente frios. Arriámos âncora no mar aberto, pois não podíamos pescar nas águas territoriais da Gronelândia. Os homens-dos-dóris sofriam torturas no ar gelado. As suas caras estalavam, as mãos abriam, as suas roupas de oleado cortavam-lhes os pulsos. Mas apenas estavam desgostosos quando o tempo lhes trazia atrasos e não podiam em segurança lançar os seus dóris.
 
O NEVOEIRO APRISIONA UM PESCADOR.
 
Também aqui havia nevoeiro, cerrado, frio e cegante. Uma vez, o pescador António Rodrigues Chalão, um habilidoso homem de perto do Porto que trabalhava no Inverno como salva-vidas na barra do Douro, esteve à deriva cinco dias e quase que acabámos por desistir dele. Desapareceu na névoa e de seguida iniciou-se um temporal.
O temporal abateu-se por três dias e depois mais névoa se pôs. Mas ao quinto dia depois de ter desaparecido, o tempo limpou – e António Rodrigues Chalão regressou! Ele voltou sorridente, mas teve de ser içado a bordo dentro do dóri, pois estava completamente exaurido. Contudo, nesse dia mais tarde estava a pescar de novo.
Eu conversei com ele sobre a sua experiência. O que lhe ia pelo pensamento, ali no frágil dóri?
“Rezei,” disse ele. “Fiz o que pude e depois rezei e pensei na minha mulher e sete filhos lá em Portugal. A bússola não trabalhava; foi por isso que a névoa me apanhou. Depois no temporal, ancorei e virei-me de frente para o vento, usando os remos para manter o dóri seguro. Em várias ocasiões tive de afiançar pela minha vida, pois ondas pesadas quebravam a bordo. Tive medo que a minha âncora cedesse, pois o cabo que a segurava era apenas um pedaço de corda e seria levado à deriva para longe dos bancos para o estreito aberto. Aí, sabia que seria o meu fim.”
“Mas então não cedeu?”
“Não. Mas tive de remar muito, para manter o dóri orientado para o mar. Fiz um pouco de abrigo com a vela. Comi o bacalhau crú e bebi da humidade do nevoeiro que acumulava no meu gorro de lã.”
Isto foi tudo o que consegui saber de António Rodrigues Chalão, depois de ter remado durante cinco dias contra o temporal para manter um barco de 4 metros de frente para o mar para lá do Círculo Ártico. A pele nas suas palmas das mãos estava gasta quase até à carne. Mas ele tinha sorte em estar vivo e ele sabia disso. O pequeno cemitério em Holsteinborg na Gronelândia tem muitas campas nas quais descansam homens-dos-dóris afogados.
Numa noite, 15 pescadores estiveram à deriva, do lugre Maria das Flores, um três-mastros de Aveiro. Quando a névoa baixou e os homens não regressaram, todos os capitães mantiveram vigia e comunicaram entre si por radio-telefone e a ansiedade nas suas vozes era por vezes dolorosa de se ouvir. Estes capitães carregavam uma terrível responsabilidade, pois é sua a função de decidir se é seguro largar os dóris ou não. Ventos poderosos afunilam acima e abaixo do Estreito de Davis trazendo repentinos e perigosos mares aos bancos de pesca. Contudo, se os dóris fossem mantidos aninhados sempre que o tempo ameaçasse, então navio nenhum encheria de peixe e pescador nenhum faria vida. Os capitães “têm” de arriscar os seus homens.
Toda a frota soltou um grande suspiro de alívio na manhã seguinte quando soube que os homens perdidos do Maria das Flores estavam a salvamento.
Eles tinham fugido para um fiorde e abrigaram-se debaixo de um dóri virado, regressando ao seu lugre pela manhã quando estava claro e limpo. Não se esqueceram de arranjar o seu peixe quando chegaram a terra e um grupo de Gronelandeses até lhes espontaram as suíças e cabelo, tal que regressaram com muito melhor aparência.
Por meados de Setembro o nosso Argus tinha uma carga tolerável. Ele havia carregado bacalhau suficiente para estar cheio várias vezes, mas o bacalhau continuava a encolher todos os dias e o sal formava uma salmoura que era bombeada para fora duas vezes ao dia. O balançar do lugre ajudava a acomodar a carga mais junta e outra e outra vez o grande porão do peixe era cheio até ao tecto do convés na maioria dos seus compartimentos, somente para voltar a ser enchido.
“Há sempre lugar para meter mais outro bacalhau!” disse o Capitão Adolfo e por isso andava sempre miserável. Ele detestava abandonar os pesqueiros enquanto houvesse espaço para meter outro bacalhau a bordo. A capacidade oficial do navio estava registada em cerca de 12.000 quintais (um quintal Português são quase 60 quilos de peixe seco) e por finais de Agosto já ele tinha isso a bordo.
 
CORRIDA CONTRA DOIS TEMPOS.
 
Continuamos assim a pescar, embora as nevascas tivessem voltado, com as noites a crescer e firmemente o tempo se fazia pior. Os velhos homens-dos-dóris remendavam as suas caras com alcatrão para encher as abertas. As suas mãos há muito que tinham cedido. “O bom tempo há-de curá-los.” Disse o velho António. “Apanharemos o Inverno em casa!” disse o 1º Pescador.
Comecei a recear que poderíamos ter o Inverno ali ao largo da Gronelândia. Já se viam algas compridas a crescer nos costados do lugre. O seu casco estava roçado a todo o comprido por causa das largadas dos dóris e o bater dos mesmos contra o aço à medida que os homens garfavam para cima a sua apanha de bacalhau do dia. O convés em madeira estava escorregadio e limo do mar crescia na cintura.
Mas dia após dia os tanques de peixe tinham de ser enchidos. Noite atrás de noite os pescadores, em duas filas robustas malhavam no húmido e horrível bacalhau com as suas facas afiadas destripando e escalando e as labaredas rugiam da pressão da máquina em frente, onde o óleo de fígado do bacalhau era feito.
O nosso Capitão Adolfo, silencioso e impenetrável, mantinha o lugre nos limites, mudava o navio de posição daqui para ali na eterna busca pelo bacalhau – bacalhau e mais bacalhau e ainda mais bacalhau! Os dóris iam borda fora pontualmente às 4 todas as manhãs. As reservas de isco iam assertivamente diminuindo.
O Capitão Adolfo era um homem prestável por natureza e entristecia-o ficar tanto tempo tão longe de casa. Desde que era um cavaco dum rapaz que nunca conhecera um Verão no seu nativo Portugal. E agora era provável que jamais o veria. Nem o veriam os homens-dos-dóris.
 
POR FIM, BACALHAU SUFICIENTE!
 
Alguns lugres mudaram-se para os Grandes Bancos, para suportarem os temporais de Outono lá e continuarem a apanhar bacalhau quando houvesse bonança. Alguns com mais sorte já navegavam a todo o pano para Portugal. Mas ainda batalhava o Argus, junto com o Creoula e uma mão cheia deles.
Por fim lá chegou o dia em que mesmo o Capitão Adolfo achou que tínhamos bacalhau que chegasse, embora não fosse carga cheia, assinale-se! Havia ainda espaço para o bacalhau ocasional. No entanto, todos os tanques estavam cheios de óleo de fígado de bacalhau, todos os barris no convés cheios de línguas salgadas e caras de bacalhau e outras várias partes comestíveis sendo que o próprio porão estava bastante perto do cheio. Onde a linha de Plimsoll (6) estava ninguém sabia, pois estava ocultada debaixo das compridas e húmidas algas.
Durante um cento de dias havíamos comido bacalhau e ceado diariamente a sopa da meia-noite de caras de bacalhau. Os homens-dos-dóris chamam-lhe a “sopa da chora”, pois dizem que quando a acabam de comer, dali o destino é ir de novo para os Bancos às 4 da madrugada. Cem dias da sopa da chora eram dias suficientes para mim.
Finalmente o nosso Capitão levantou âncora. Ao princípio os pescadores não ousaram crer que ele ia finalmente para casa. Recearam que, se o tempo facilitasse, ancorávamos de novo num dos bancos a Sul e amontoariam o último bacalhau uma vez mais no cavernoso porão. O último bacalhau? Tal peixe não existia! Mas veio um temporal de Norte e corremos rumo a casa, direitos a Sul através do Estreito de Davis, com o Creoula a toda a força ao nosso lado e o feroz vento a uivar no cordame, com os mares frios a espumarem a bordo.
Contudo, só foi após termos navegado e passado o banco de Fyllas e depois o Banco Danas, que os homens-dos-dóris ousaram sorrir. Danas era o último grande banco. O rumo agora era sueste, em direcção aos Açores – os Açores e Sol e o bonito Portugal!
Um ou dois ciclones abateram-se da orla da Corrente do Golfo e deram-nos uma forte varrida. O pequeno navio-motor Cova da Iria, apanhado num turbilhão, afundou-se. Estava a 600 milhas de nós. O lugre Adélia Maria recuperou alguns dos homens do Cova da Iria com os seus próprios dóris, pois um pescador dos Bancos tem um salva-vidas para cada homem a bordo. Para um pescador destes, o seu dóri é a sua vida. Se ele não o salvar, nada salvará.
 
DE REGRESSO A CASA PARA O SOL.
 
Os grandes mares lançavam-se sobre nós e quebravam ao longo das cobertas, mas o Argus era um bom e entroncado navio e Adolfo um marinheiro sabedor. Tínhamos de nos erguer enquanto o rádio crepitava com histórias deste e daquele lugre com dóris levados borda fora, pescadores desaparecidos, aparelhos de pesca destruídos.
Os nossos próprios homens-dos-dóris de vigia estavam atados juntos à beira do leme para prevenir que fossem borda fora. O Atlântico Norte em Setembro e princípios de Outubro é um bárbaro e ruim oceano.
Numa manhã solarenga, atracamos na bela Ponta Delgada e os nossos pescadores Açoreanos lá ficaram, cheios de sorrisos. Navegámos nessa noite à luz do luar as últimas poucas centenas de milhas, a feliz fugida para casa. Deixei o gracioso Argus, agora ferrugento mas sublime e ainda uma silhueta de romance e aventura, num braço do Tejo.
Olhei para trás para ele enquanto ainda o conseguia vislumbrar. Dos 45 navios à vela e a motor da frota dos Bancos que largaram, 43 regressaram. Alguns dos bravos homens-dos-dóris lá ficaram para todo o sempre a descansar debaixo do cinzento e velho mar ou sob o abrigo das frias colinas de Holsteinborg.
Foi uma grande aventura esta que partilhei com eles e aprendi a considerar os Portugueses, como os verdadeiros “Corajosos dos Capitães”.
 
 
  • (1) homens-dos-dóris – optei por ser fiel à especificidade da pesca do bacalhau em dóris e chamar a estes pescadores a exacta tradução da palavra em inglês “dorymen”.
  • (2) St. John´s – Porto de escala e abrigo na Terra Nova, referido por muitos pescadores como “São João da Terra Nova” em Português.
  • (3) trol – do inglês "trawl", são longas linhas carregadas de anzóis espaçados cerca de uma braça, no inglês também dito “long-line”. Cada pescador podia largar duas ou três.
  • (4) riley - aparelho de pesca extra enquanto o trol pescava. Ver http://noseomar.blogspot.com/2007/11/o-riley.html .
  • (5) Potomac – Rio dos E.U.A. que desagua entre os estados de Maryland e Washington D.C., na costa Leste.
  • (6) linha de Plimsoll – Linha de carga que define o limite de carga segura nos vários tipos de navios.


publicado por cachinare às 16:54
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Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007
O “Argus” em Greenwich.
Há uns dias atrás escrevia eu sobre modelismo naval e nem a propósito descobri que em Londres, no National Maritime Museum, existe um diorama que mostra o português “Argus” em plena faina com os dóris em redor dele. Vivi em Londres durante dois anos e meio e tive oportunidade de ir uma vez a este museu que fica na margem Sul do rio, em Greenwich, o tal ponto geográfico que dá nome ao meridiano. Nessa visita acabei por não me aperceber deste modelo, mas recordo-me de uma sala com imensos modelos antiquíssimos, dos sécs. XVII, XVIII e XIX, usados pelas firmas de construção naval para mostrar aos futuros donos como funcionaria o seu novo navio.
Este bem original diorama foi feito por um senhor chamado Kenneth Britten de Bolehill, Derbyshire em 1975. Fico curioso em saber porquê que o fez e o que sabe ou sabia sobre a pesca do bacalhau portuguesa.
Nunca é demais repetir que este navio hoje tem o nome de “Polynesia II” e faz cruzeiros nas Caraíbas. Tenho estado atento ao desenrolar dos acontecimentos sobre a crise que afecta a companhia Windjammer Barefoot Cruises, à qual pertence o antigo “Argus” e mais 3 navios. Segundo parece, o “Argus” já não navega há vários meses e terá sido apresado com outro navio por problemas financeiros da companhia. Deixo aqui o link de um jornalista que tem vindo a seguir o caso, para compararem a realidade da companhia (que está negra) com a do site oficial da mesma companhia (acima) que apresenta uma “situação perfeita” e continua a enganar dezenas de pessoas que pagam por cruzeiros que nunca se irão realizar. Não se sabe ainda onde tudo isto vai acabar, mas gostava eu que acabasse com o “Argus” a voltar a Portugal porque um qualquer Luso, amante do mar e do passado português lhe deitou a mão nesta oportunidade que se avizinha.


publicado por cachinare às 15:35
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Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007
Vistos por satélite.
Para quem não sabe, o Google Earth é mais uma das muitas características deste motor de busca que permite “viajar” por todo o globo terrestre e chegar à nitidez de se poder ver a nossa casa vista do ar. De vez em quando perco umas horas a saltar de um sítio para o outro, pois considero esta ferramenta bastante interessante e lúdica.
Há uns tempos que já havia descoberto o “Gil Eannes” atracado em Viana, foi fácil, com o seu branco reluzente. Uns dias depois andei a “voar” por São Jacinto, Aveiro em busca do “Santa Maria Manuela” e também não foi difícil, pois a silhueta não engana, é a mesma do “Creoula” e a ferrugem também lá está toda. Devo mencionar que este programa usa imagens cerca de um ano em atraso, ou seja, andamos a ver como eram os sítios mas provavelmente em 2006. Mais recentemente, resolvi procurar por todos os outros navios da história bacalhoeira portuguesa ainda possíveis de encontrar e a tarefa foi no mínimo... prolongada. Por zonas da capital, também lá está o “Creoula” na base do Alfeite em Almada, com os seus quatro mastros a fazer sombra na água e muito próximo da base, no Talaminho, Seixal consegui descobrir os restos do “Capitão Ferreira”, navio mítico para muitos e que mete dó olhar para ele naquele estado. Só me foi possível encontrá-lo com a dica da sua localização no blog “lmcshipsandthesea”, no qual aconselho que leiam os comentários. Voltando-me de novo para Norte, por águas de Ílhavo, lá está o “Santo André”, arrastão-museu flutuante de sucesso junto ao Jardim Oudinot. Resolvi então ir em busca do “Gazela Primeiro” e do “Argus”. Para o “Gazela” teria de ir até Filadélfia nos E.U.A., inteirar-me de toda a zona de rio da cidade, que é enorme e dos muitos sítios de atracação de navios. Após um par de horas lá o descobri, o agora denominado “Gazela of Philadélphia”, também de silhueta inconfundível e foi uma alegria. Quanto a ir em busca do mais complicado, o “Argus” agora denominado “Polynesia II”... sabia que faz a sua vida em cruzeiros pelas Caraíbas e tive de descobrir quais as ilhas por onde faz escalas. A companhia de turismo a que pertence tem uns 7 percursos diferentes só para este navio e foi então que a tarefa se complicou. Cada percuro, passa por umas 6 ou 7 ilhas diferentes, não havia saída fácil e foi começar pelo primeiro percurso e primeira ilha. Muitas horas depois... nada a não ser dois navios que “poderiam” ser o “Argus”, mas não me parecia. Aparece-me então uma ilha onde um turista qualquer colocou uma foto precisamente do “Polynesia II” ancorado ao largo, mas para azar, a imagem de satélite inclúi umas nuvens precisamente nessa zona. Algo desiludido com tal azar, faltavam ainda umas poucas ilhas a circundar, pensando eu que talvez a foto não fosse do mesmo ano da de satélite. Assim se confirmou, pois acabei por reparar numa silhueta muito semelhante ao “Polynesia II”, ancorado ao largo da ilha de St. Barthélemy (pertence à França). Os botes condizem, a lona azul condiz mas acima de tudo o gurupés (mastro da proa) com a rede é inconfundível. Após 3 dias de buscas, era de certeza o “Polynesia II”, antigo “Argus”. Então aí é que fiquei mesmo contente, mas curiosamente também algo triste porque não havia mais nenhum para procurar. Muitos mais lugres e navios bacalhoeiros portugueses existem... mas todos debaixo de água e aí o Google ainda não chegou... .


publicado por cachinare às 13:23
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Segunda-feira, 10 de Setembro de 2007
Só um detalhe.

Eis parte de uma foto que encontrei, na infindável investigação à Faina Maior, que mostra o quão poderoso navio de trabalho era o Argus.

Pertence a uma colecção de 8 fotos (que poderão visualizar aqui) de um fotógrafo Canadiano, sobre a Frota Branca, entre 1960-1968. Presumo que terá mais fotos da época, mas só estas estão publicadas.

Repare-se no detalhe dos 3 pescadores na parte de trás do navio, o qual dá para imaginar à escala a dimensão do Argus. De recordar que era um navio com maior capacidade de carga do que os Creoula e S. M. Manuela, mas para tirarem todas as dúvidas, poderão consultar o link aqui ao lado.

Gostava eu de ter sido um daqueles putos ao pé do navio... a ver se ainda crescia a tempo de embarcar num deles.



publicado por cachinare às 10:51
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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007
POR FAVOR... tragam-no de volta a nós.
Acabo de ler esta manhã no blog atlanticoazul pela escrita de Luis Miguel Correia, que o antigo lugre português ARGUS, o qual desde 1976 navega nas Caraíbas como navio de cruzeiros operado pela companhia WINDJAMMER BAREFOOT CRUISES, como o nome POLYNESIA II, está à venda.
Para quem não sabe, este é o mundialmente famoso lugre português onde em 1950 o Comandante Alan Villiers embarcou durante a campanha de pesca, a convite do embaixador de Portugal em Washington. Do embarque do famoso escritor australiano resultou a edição do livro (e recentemente DVD) “A Campanha do Argus” que imortalizou este navio e a “White Fleet” de Portugal e tornou mundialmente conhecidas as condições árduas em que decorria a pesca do bacalhau à linha. Segundo li, esta obra faz parte da “mesinha de cabeceira” de capitães de navios por todo o mundo, pois é uma narrativa impressionante e apaixonante sobre a relação do homem com o mar.
 
Confesso que fiquei e andarei um bocado tenso e apreensivo com esta notí-cia, pois a perspectiva de ver o grande Argus de volta ao nosso país envergando a bandeira portuguesa é quase inquietante. Digo inquietante porque seria um sonho tornado realidade para mim e muitos, muitos mais ver este navio de volta ao nosso país, mas a verdade é que sei da dificuldade de visão de muitas das gentes com dinheiro em Portugal, para não falar do Governo. Preocupa-me, porque foram necessários imensos anos para que uma instituição privada decidisse pegar no Santa Maria Manuela e trazê-lo de novo à vida no seu esplendor inicial e desta vez não há anos sequer. Há que entrar em acção rapidamente.
Se eu tivesse uns bons milhões, estaria já em acção, mas como não tenho e as perspectivas de ter estão “em águas de bacalhau”, cá fica o post, a ver se ajuda a acordar consciências Lusas. Para mim há certas coisas que são fulcrais e uma delas é a minha identidade como Português. Tenho tanto orgulho em sê-lo, tal como Caxineiro, que pesa toneladas, no bom sentido.
 
Resumindo, temos o Creoula a fazer maravilhas por Portugal, com milhares de pessoas deliciadas só de olhar para ele, além de que a sua história é por demais rica e representativa de uma época que eu por vezes já defino como Romântica Bacalhoeira. É por isso que o Creoula é muito mais que um navio. É a ponta do iceberg (da Gronelândia) no que respeita à Faina Maior. Através dele, há muita gente a investigar o que está por detrás e a “pasmar” com a dimensão deste passado. O Santa Maria Manuela seguir-lhe-à por certo as rotas de sucesso e esplendor e espero dentro de uns anos poder navegar nele, pois o meu avô fez nele 9 campanhas nos anos 50.
 
Dois dos Cisnes do Gelo estarão juntos de novo, para sempre esperemos... e seria o “tal sonho” ver o terceiro, o Argus junto deles, aparelhado na sua bela forma original e acabar com a imagem que tem hoje, na minha opinião de “palhaço” nas caraíbas, onde se brinca aos piratas dentro dele. Um atentado à sua história e imagem.
 
Termino com uma passagem do artigo de A.M. Gonçalves na Revista da Marinha:
 
“A terminar a história dos nossos bacalhoeiros que ainda hoje navegam, resta-nos apenas lembrar que os navios da classe Creoula – Creoula, Santa Maria Manuela e Argus –, constituíram a última evolução dos veleiros portugueses. (...) Os nossos votos vão, no sentido de que um dia os três navios-irmãos possam encontrar-se e voltar a navegar juntos...”
António Manuel Gonçalves
In Revista da Marinha nº384, Março 2005
 
Encontram a história detalhada do lugre ARGUS aqui.
 
“Glória Antiga... volta a Nós”


publicado por cachinare às 11:23
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