Sábado, 16 de Julho de 2011
Aguçadoura elevada a vila.

 

«Aguçadoura festejou ontem à noite a elevação a vila. Em três pontos da localidade poveira foram descerradas, em simultâneo, novas placas com a referência ao estatuto que foi atribuído pela Assembleia da República

O presidente da Junta, Sérgio Cardoso (na foto), explicou as diferenças no símbolo da vila (ouça as  declarações nos nossos noticiários em Podcast).

Recorde-se que a Assembleia da República aprovou a elevação a vila por unanimidade, após um projecto-lei apresentado por deputados do grupo parlamentar do PSD,  entre os quais figurava  Carla Barros que ontem, antes da cerimónia, disse à Rádio Onda Viva que considerava esse acto, um dos mais importantes na sua passagem pelo Parlamento.

Por seu turno, Macedo Vieira,  presidente da Câmara Municipal, manifestou o regozijo pela Póvoa ter mais uma vila

Na sede da Junta de Aguçadoura  passa a pontificar uma bandeira com o símbolo de vila. As comemorações prosseguem hoje, ao longo de todo o dia, e amanhã haverá missa, de manhã, e arraial, à tarde,  nas antigas instalações da escola primária da Boucinha.»

 

via Rádio Onda Viva online.

 

Mais uma vez a autarquia da Póvoa de Varzim demonstra o quão diferente é da de Vila do Conde. Em vez de aglutinar... Eleva.

 

A elevação oficial a 6 de Abril de 2011.



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Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011
A catraia dos Fangueiros contra a catraia dos Farias... .

 

  

«O 3º Encontro de Embarcações Tradicionais organizado pelo Ecomuseu Municipal do Seixal (de 22-26 de Maio, 2009) reuniu na baía do Seixal 48 embarcações e 194 tripulantes: 32 embarcações tradicionais do estuário do Tejo (com 147 marinheiros), 4 barcos do Norte de Portugal (com 20 marinheiros) e 12 barcos da Galiza (com 27 marinheiros).

Neste Encontro participaram também 10 embarcações de apoio, com 36 tripulantes, além de 14 elementos da organização.
Embarcaram ainda e participaram nas várias actividades de navegação, a bordo das embarcações tradicionais das autarquias do estuário do Tejo – desfile, regata e passeios com navegação em frota – 377 pessoas. Nas actividades do 3º Encontro de Embarcações Tradicionais na Baía do Seixal contaram-se assim 621 participações no rio.
Complementarmente, realizaram-se, junto ao cais do Seixal, os ateliês Aprender a fazer… Nós de marinheiro e Pintura tradicional de barcos do Tejo, com 126 participantes, sendo estes maioritariamente crianças.
Ao longo dos cinco dias de actividades foi ressaltada a opinião de que o Encontro de Embarcações Tradicionais na Baía do Seixal já assumiu um importante lugar no calendário de iniciativas culturais no estuário do Tejo, contribuindo para a protecção e a valorização do património marítimo e fluvial, em particular das embarcações tradicionais, enquanto recursos de desenvolvimento, divulgando-os nos âmbitos nacional e internacional. Assim, foi reafirmado, pelos diversos parceiros e associações integrados na dinamização do Encontro, o propósito de contribuir para a sua continuidade e consolidação, quer quanto a embarcações e tripulantes no rio, quer quanto a participantes e diversidade de iniciativas em terra, particularmente de forma a envolver as comunidades locais.»
 
in EcoMuseu Municipal do Seixal – Organização.
 
As 3 fotos acima, são da autoria de Eduardo Goody, a quem devemos um belo e vasto álbum fotográfico deste evento, que na sua 3ª edição, já apresenta excelentes resultados a vários níveis.
Reparem como a catraia sardinheira de Esposende “Santa Maria dos Anjos” navega. É isto que quero voltar a ver a ser feito pelos caxineiros, poveiros, vileiros e demais comunidades que têm estes barcos no seu passado, desde Setúbal a Vila Praia de Âncora. Bolinam que é uma maravilha e o desenho de barco e vela içada no horizonte.... as fotos não precisam de palavras.
O dia virá em que vou ver... a catraia azul-branca dos Fangueiros, contra a catraia verde-rubro dos Cambolas, contra a catraia amarela-negro dos Maranhas, contra a catraia vermelha-branca dos Farias... em disputa, partida da barra da Póvoa, viragem na foz do Ave e meta no regresso à barra poveira. E à espera está a catraia dos Piões, vencedora da regata anterior, que aguarda com outras 2, o adversário restante para a grande Final, a 14 de Agosto. Aos fins de semana, pelo menos, é vê-las bolinar ao longo da costa em puro recreio, vira para a Vila, vira para a Póvoa... a varar no areal ao fim do dia, ou de regresso “à garagem” lá de casa até ao próximo fim-de-semana.
E depois... a meio do Verão, surgem de surpresa na foz de Vila do Conde os 2 batéis de Buarcos e os 3 de Matosinhos, para pernoitar e no dia seguinte, rumar à Póvoa para se juntar às 5 lanchas (2 delas grandes) e 1 batel (o 1.º da Póvoa, lançado à água há 2 meses), com rumo à Guarda, na Galiza.
Um dia... poderá será assim.
 
Eduardo Goody – álbum 3º Encontro Seixal, 2009.



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Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010
"Caxinas - A Minha Terra e a Minha Gente".

«Durante anos, escreveu, gravou e tirou fotografias fruto de centenas de conversas que teve com pescadores. Recentemente, resolveu seleccionar o melhor para o livro que agora chega ao público.

Centenas de fotografias, horas e horas de gravações, anotações em blocos vários, conversas, histórias e depoimentos recolhidos durante anos a fio. Assim nasce "Caxinas - A Minha Terra e a Minha Gente", o primeiro livro de José Vila Cova.
Aos 82 anos, caxineiro, filho e irmão de gente que muito fez pelo desenvolvimento da sua terra, decidiu, agora, partilhar as histórias que ouviu e viveu no seio da maior comunidade piscatória do país. Hoje, a pobreza, a fome, a dureza da pesca do bacalhau, a falta de uma habitação condigna, a inexistência de ruas ou escolas já não caracterizam as Caxinas, mas, volvido mais de um século, o espírito de comunidade, a interajuda, a linguagem muito própria e o sentido de pertença continuam a caracterizar a grande família dos homens do mar. Ali, partilha-se o pão na fartura e a dor na perda dos que o mar leva.
"Durante muitos anos, fui escrevendo, tomando apontamentos, fiz muitas gravações e tirei fotografias. Mais tarde, veio a ideia de escrever o livro", explicou, ao JN, José Vila Cova, que ainda hoje passa os dias à conversa com velhos pescadores.
Pelas centenas de páginas passa a história de uma povoação, que nasce com a gente pobre do mar - os sardinheiros -, que, na procura de uma enseada segura para os barquinhos, ruma da Póvoa para sul e encontra nas Caxinas um porto de abrigo. Caxinas, (também) o fruto de uma povoação das Honduras, que dá o nome à terra - Punta Caxinas - do outro lado do Atlântico, também ela piscatória, também ela uma enseada de abrigo.
"Era uma classe pobre, muito pobre. Assisti, muitas vezes, à fome que se passava aqui no Inverno, quando o mar não deixava sair os barcos. No início, vivia-se em barracões de madeira, sem condições de higiene", recorda Vila Cova, cujo pai começou com uma pequena loja, que viria a ser o primeiro "hipermercado" das Caxinas. Em 1927, doou o terreno, junto ao mar, para a construção da capela do Senhor dos Navegantes, que viria a dar lugar à famosa "igreja do barco".
"Ajudou muito os pescadores. Emprestava-lhes dinheiro para comprar redes e barcos, fiava-lhes comida no Inverno", continua a recordar José Vila Cova, que viria a "fundar", com 27 barracas, a praia das Caxinas, cuja concessão deixou, na década de 80, com 700 barracas.
O irmão faria dezenas de casas, que "os pescadores pagavam a prestações sem juros", e abriria novas ruas. Com o nome da família ficou ainda uma das primeiras instituições de solidariedade daquele lugar de Vila do Conde, onde, hoje, vivem mais de 10 mil pessoas. Era e ainda é assim nas Caxinas: quem pode mais, ajuda quem pode menos.
Da dureza da vida no mar e em terra, às agruras da pesca do bacalhau e dos barcos de pesca local, passando pela apanha do sargaço, pelos usos e costumes locais, até à fé, à dor e às lágrimas de todos sempre que um "irmão" morre no mar, o livro é, diz José Vila Cova, uma homenagem às Caxinas, cheia de histórias curiosas e pontuada por peripécias da boa disposição que caracteriza as suas gentes, vinda de quem é "um orgulhoso vilacondense das Caxinas"».
 
adaptado do artigo de Ana Trocado Marques – 14-02-2009 – Jornal de Notícias.
 
Finalmente e após muitos anos, se volta a publicar uma obra sobre esta comunidade que embora já não viva em dunas de areia, mantém muita da originalidade piscatória pela qual se formou. A casa dos meus pais foi uma das que António Vila Cova construíu, como tantas pelas Caxinas e foi um nome que cedo me habituei a ouvir lá em casa e vinha à conversa de vez em quando pelos anos fora.
Espero ter a sorte de adquirir este livro em breve, pois falará de certeza sobre gente como eu, como os meus pais, como os meus vizinhos, os vizinhos deles... . Fala sobre todos nós, os Caxineiros.


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Quarta-feira, 20 de Outubro de 2010
"... uma medalha, que a soubeste ganhar!".

 

"Andava no alto mar, um velhinho pescador,
Sentiu o trol pegar, sem outro poder comprar,
Chorava metia horror. Pediu socorro porém,
Outros botes ali chegaram, reparam viram bem,
Para que saibam também, o trol ao velho salvaram.
O velhinho pescador, fez uma prece a Jesus,
O trol ele safou, e sem querer reparou,
Que nele havia uma cruz... . Isto é para quem trabalha,
Ó para quem sabe trabalhar, teu corpo é uma batalha,
Isto é uma medalha, que a soubeste ganhar!"

Este pedacinho de poesia está "escondido" num dos artigos abaixo sob a forma de comentário. Lá foi colocado pelo amigo Jaime Pontes Pião, das Caxinas, que muito por aqui comenta.
Não pode de modo algum ficar "escondido" e aqui fica ele, ilustrado por mais uma bela foto que encontrei recentemente nos mares da internet. A imagem mostra-nos um pescador bacalhoeiro português, do navio motor "São Jacinto" na campanha de 1962. Parece estar já a alar o seu trol

Pergunto pois a estes antigos pescadores o que se cantava a bordo dos navios nas campanhas do bacalhau, as letras, as ladaínhas e porque não o registam escrito ou gravado. O também habitual comentador Albino também há dias o referiu. Quando a pesca longínqua ou costeira era feita ainda por grandes tripulações e se baseava no trabalho braçal (por exemplo os sardinheiros), era comum cantar-se a bordo. O advento da maquinaria, também aqui traria os seus efeitos nefastos.

Aqui lhes deixo o desafio.

imagem - LIFE magazine 21-12-1962 - direitos reservados.



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Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010
Caxinas uniu-se.

 

Que descansem em Paz.

 

"Realizam-se hoje os funerais dos cinco pescadores de Caxinas"

 

foto via Jornal de Notícias online


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Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010
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"Os Caxineiros são mártires"

 

"Difícil..."

 

"Caxinas recebe..."

 

"Sexta-feira realizam-se os funerais dos pescadores das Caxinas"


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Quarta-feira, 6 de Outubro de 2010
Acidente em Valença mata cinco pescadores das Caxinas.

 

«Cinco pessoas morreram hoje (ontem), terça-feira, num acidente de viação na Nacional 13, em Valença, sendo as vítimas pescadores das Caxinas, Vila do Conde, ao serviço da embarcação "Fascínios do Mar". Segundo Eduardo Afonso, responsável da Protecção Civil de Valença, as vítimas seguiam numa carrinha de nove lugares, que embateu contra a traseira de um camião que estava estacionado na berma da Nacional 13, à porta de um restaurante.

Há ainda a registar quatro feridos, três homens e uma mulher. A mulher, de 40 anos, que ficou ferida está "politraumatizada", "inspira cuidados" e foi transferida para o Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, informou fonte do Hospital de Viana do Castelo.

O caso mais grave é o de um homem de 50 anos, que sofreu um traumatismo craniano grave e "inspira bastantes cuidados", estando internado no Hospital de S. Marcos, em Braga. O ferido está "em estado reservado", encontrando-se sob acompanhamento do serviço de neurocirurgia.

Os outros dois feridos estão no Hospital de Viana do Castelo e vão ser transferidos para a Póvoa de Varzim, mas nenhum deles inspira cuidados: um homem de 45 anos está "estável" e outro fraturou uma perna e vai ser operado, "mas não é grave".

 

Pescadores de espadarte

 

A carrinha partiu de Vila do Conde em direcção a Vigo para recolher os pescadores. Segundo o presidente da Associação Pró Maior Segurança dos Homens do Mar, José Festas, as vítimas eram pescadores da embarcação "Fascínios do Mar".

"Como é habitual na safra do espadarte, descarregaram o pescado no porto de Vigo e regressavam a casa de carrinha", explicou .

Salientou que a pesca do espadarte decorre ao largo dos Açores e prolonga-se por "pelo menos 15 dias".

De acordo com o responsável da Protecção Civil, havia no pavimento apenas um sinal de travagem "muito curta".

 

Iam almoçar a casa

 

Segundo Mário de Almeida, presidente da Câmara de Vila do Conde, os oito pescadores envolvidos no acidente tinham regressado sábado da pesca do espadarte, na embarcação "Fascínios do mar", uma safra que durou 15 dias, tendo nesse dia descarregado metade do pescado no porto de Vigo.

Na noite de segunda-feira, deslocaram-se novamente a Vigo para descarregar a outra metade do pescado, e hoje, terça-feira, de manhã a mulher do mestre da embarcação foi àquela cidade da Galiza buscá-los, estando previsto que ainda almoçariam em casa.

Na viagem de regresso, foi o mestre da embarcação, José Domingos Moreira, quem assumiu o volante da carrinha de nove lugares, uma Renault com matrícula deste ano.

Pouco antes do meio dia, em S. Pedro da Torre, Valença, numa zona de recta da EN13, a carrinha embateu "com extrema violência" na parte lateral de um camião que estava estacionado na berma, perto de um restaurante.

As autoridades admitem que o excesso de velocidade possa ter estado na origem do acidente, já que a carrinha "quase levou o camião à sua frente", ficando "completamente desfeita".

Três das pessoas que sobreviveram seguiam nos lugares da frente da carrinha.

 

Apoio psicológico

 

O presidente da Câmara de Vila do Conde já garantiu que o Município vai disponibilizar os seus serviços de psicologia, assistência social e sociologia para apoiar as famílias das vítimas.»

 

via JORNAL DE NOTÍCIAS - Luís Almeida*

*com agência Lusa

 

Condolências às Famílias.

 

A embarcação “Fascínios do Mar”.

 

No Telejornal da RTP de ontem à noite, em reportagem nas Caxinas, foi referido e repetido várias vezes "nesta freguesia de Caxinas". Note-se que Caxinas (com Poça da Barca), apesar de ter cerca de 15.000 habitantes, não é freguesia. O concelho de Vila do Conde considera, vergonhosamente, Caxinas como sendo apenas "um lugar" da cidade. Infelizmente, este não é o artigo indicado para reavivar este assunto.


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Sexta-feira, 25 de Junho de 2010
"Cachineiros a bordo!"

 

«Abundando nesta conflictiva relação entre comunidades próximas, trarei aqui um exemplo da costa Norte portuguesa, concretamente de Vila do Conde e a sua quase limítrofe Póvoa de Varzim. No extremo da primeira, pela parte do mar, está o bairro de pescadores da Cachina e practicamente ao lado as casas dos marinheiros da Póvoa. Como não podia deixar de ser, as relações entre ambos os dois grupos são tensas.
Num antigo trabalho levado a cabo com a metodologia de “palavras e coisas”, podemos ler o que um rapazote da Cachina dizia à investigadora: “Ólhi, Sinhora, bote tamém isto nos sês escritos, nû s´isqueça: os cátchinos sã munto bôs, num sã com´ós da Póboa que tém más corage, mas bê o mal e num le bótu-na móu! (Netto, 1949:25).
Lembro agora uma anedota que agradeço ao Dr. Costa Pinto. É bem sabido que os portugueses pescavam ao bacalhau desde, pelo menos, a alvorada do séc. XVI (Cf. Moutinho, 1985). Utilizaram durante vários (dois) séculos a mesma técnica: uma embarcação que transportava muitos homens e botes, os dóris. Chegado o navio ao local eleito, lá nos Bancos da Terranova, arriavam todos os dóris com um pescador em cada; afastando-se estes do navio, começavam a pescar à linha; andavam assim todo o dia e, à caída da tarde, o sino do navio chamava a todos para o regresso da pesca. A chamada fazia-se também quando o capitão via que se aproximava temporal ou chegava a névoa (dois fenómenos habituais naquelas latitudes). Numa ocasião, e aqui vem a anedota, o navio chama os dóris e estes chegam ao costado; com o temporal a vir, o capitão, possivelmente de Aveiro, diz: “Poveiros a bordo” e vê como sobem vários pescadores, mas muitos outros se deixam ficar nos seus botes... e o mar a crescer. Ao capitão, sem perceber o que se passa, diz-lhe alguém que seria melhor dizer também “Cachineiros a bordo”. Dito e feito, sobem todos. Um cachineiro prefere deixar-se ficar num mar de temporal, a refugiar-se num navio onde todos são considerados vizinhos poveiros.»
 
do artigo de Francisco Calo Lourido - «INDIVIDUALISMO FRONTE ÓS NOSOS, AFIRMACIÓN LOCAL CONTRA OS ALLEOS E DEFENSA DO TERRITORIO.»
 
in Antropoloxia Mariñeira - Actas do Simpósio Internacional, 1997 – Pontevedra, Galiza.
“aportuguesado” do original em galego.
 
foto - FRV Anton Dohrn

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Domingo, 31 de Janeiro de 2010
Tudo isto existe, tudo isto é fado.

«Foi num ambiente de muita emoção e alívio que os nove pescadores foram recebidos ontem ao final da tarde pelos familiares, em Caxinas, Vila do Conde, depois de terem sido resgatados pela Força Aérea a 300 quilómetros ao largo da Figueira da Foz, local onde o barco em que seguiam – o ‘Luís Fortunato’ – se afundou após ser levantado no ar por uma onda de seis metros.

'Meu filho, não voltes para o mar', disse, banhada em lágrimas, a mãe de um dos tripulantes da 'motora' que se partiu e foi ao fundo pouco depois das 23h00 de ontem, ao cair 'em falso' de uma onda com mais de seis metros.
A chegada às Caxinas do autocarro da Câmara do Montijo, em que os pescadores viajaram desde a base da Força Aérea, foi saudada por cerca de três dezenas de familiares que, ansiosamente, esperavam junto à Igreja do Senhor dos Navegantes.
'Isto foi um milagre muito grande. Quando soube da notícia desmaiei e só consegui sossegar quando ouvi a voz do meu filho ao telefone', disse ao CM Assunção Marques, mãe do pescador Bruno Marques.
Já Maria das Dores Fangueiro, mãe de outro pescador, Claudino Manuel, falou de 'um susto de morte', referindo que quando lhe chegou a notícia do naufrágio, pelas 06h30, 'a primeira coisa que me veio à cabeça foi que tinham morrido todos'.
'Felizmente Deus esteve do lado deles. Obrigado Senhor dos Navegantes', disse Maria das Dores, abraçando emocionada o filho.
O dono do barco, Manuel Fortunato, realçou que 'o importante é que ninguém tenha morrido'. 'Quero agradecer à Força Aérea, à Associação dos Pescadores, à Câmara de Vila do Conde e à tripulação do barco ‘Pereira e Moça’ [barco que prestou auxílio] porque a eles se deve a vida destes homens', disse.
Claudino Manuel, Bruno Marques, Francisco Xavier, António Tato, Carlos Manuel (mestre do barco), António Cascão, Vítor Vieira, Tiago Novo e Salvador Craveiro tiveram a sorte que poucos têm nestes casos. O barco foi ao fundo e conseguiram escapar ilesos. O presidente da Câmara de Vila do Conde, Mário de Almeida, falou de 'uma grande sorte, quase um milagre'.
 
PORMENORES
AGRADECIMENTO
Na missa das 18h30 de ontem, o pároco das Caxinas, padre Domingos Oliveira, que em 34 anos já sepultou 77 pescadores, agradeceu a Deus a boa sorte dos nove homens.
HABITUADOS À TRAGÉDIA
O povo das Caxinas já não estranha as más notícias e as mortes dos homens que vão para o mar. Desta vez, rejubilaram: os pescadores salvaram-se todos.
DUAS HORAS À PROCURA
O helicóptero da Força Aérea sobrevoou a zona do naufrágio durante mais de duas horas até detectar os pescadores.
 
NAVIO JAPONÊS SOCORRE SETE
Os dois primeiros homens foram resgatados pelas 05h45, depois do helicóptero da Força Aérea os ter procurado durante duas horas. Dado que o combustível estava a esgotar-se, tiveram de regressar ao Montijo, mas deram as coordenadas a um navio japonês que se encontrava na área e que recolheu do mar os restantes sete homens. Quando o segundo helicóptero chegou os sobreviventes foram resgatados pelo mesmo sistema que os anteriores: um recuperador-salvador desceu até eles e recolheu-os um por um por intermédio de um cabo de aço e de um colete. Chegaram ao Montijo, pelas 13h45.
 
'OPERAÇÃO COMPLEXA' DEVIDO AO MAU TEMPO
'Foi uma operação complexa', contou ao CM o piloto do primeiro helicóptero, capitão Marco Casquilho, que chegou ao local do naufrágio cerca das 05h45. 'Estava muito vento, na ordem dos 60 km/h, e a ondulação também era forte, com ondas de quatro metros e meio, e era ainda de noite, o que dificultou bastante o resgate', explicou. Foram estas condições as responsáveis pelo afastamento das duas balsas salva-vidas do local original do naufrágio.
O piloto lembra ainda que os dois homens que resgatou 'estavam muito abalados, mas bem de saúde, pois as balsas estavam bem equipadas'. O tenente-coronel António Moldão foi o segundo piloto a partir para o local do incidente, onde resgatou os restantes sete homens, já a bordo de um cargueiro japonês, mobilizado para o socorro.
Ontem, na Base Aérea nº 6, no Montijo, os nove pescadores foram recebidos pelo armador e por José Festas, presidente da Associação Pró-Maior Segurança dos Homens do Mar, que garantiu que foi 'a calma que tiveram e o facto de o navio estar muito bem equipado com dispositivos de segurança' que levou a que tivesse sobrevivido a mais de oito horas no mar.
Na base, os nove homens tomaram banho, vestiram roupas da Força Aérea, almoçaram, tiraram uma foto de grupo com os pilotos, e seguiram de imediato viagem para Vila do Conde num autocarro.
 
UM MILHÃO DE EUROS AO FUNDO
O ‘Luís Fortunato’, com vinte metros de comprimento, saiu a primeira vez para o mar em meados de 1996 e naufragou a meio do chamado tempo útil de vida, que, neste tipo de embarcações, é de 25 anos.
Novo, custa 'para cima de um milhão de euros', diz o mestre José Festas, da Associação dos Pescadores das Caxinas.
No rol de prejuízos, há ainda a juntar as cerca de sete toneladas de pescado, na maioria espadarte, que seguiam nos porões.
A 'motora', como chamam os pescador a este tipo de embarcação, possuía todo o equipamento necessário para a pesca em alto-mar.»
 

in Correio da Manhã – 29.01.2010 - Helder Almeida/Secundino Cunha


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Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009
Larus Cachinnans.
Andava eu a investigar sobre o pombalete, ave que vive e nidifica nas regiões frias do Atlântico Norte, e que os pescadores do bacalhau costumavam usar como isco quando este escasseava a bordo, e descobri uma curiosidade sobre a tão comum gaivota que povoa as costas de Portugal e não só. O seu nome oficial em latim é Larus Cachinnans e é muito comunm vê-las principalmente durante o Inverno a correr a praia deserta das Caxinas em altos pios que ecoam pela beira mar. Não fazia eu ideia que as origens da terra e da ave têm em comum o “cachinare”, significando “rir às gargalhadas”.
As gaivotas adultas têm a cabeça, peito e parte inferior do corpo de cor branca, enquanto que o dorso é cinzento. O bico é forte, de côr amarelo intenso, com uma mancha vermelha na parte inferior. Nas extremidades das asas a côr é preta com rasgos de branco. Quanto às gaivotas mais jovens, demoram 3 anos a tornar-se adultas e durante este periodo vão mudando de tom gradualmente a partir do pardo pintalgado.
Alimentam-se de tudo o que seja pequeno o suficiente e comestível, desde animais marinhos a vegetais, insectos, pequenos pássaros (que atacam em pleno voo) e ovos (de outras espécies e por vezes os seus). O seu voo, parecendo por vezes atabalhoado, permite-lhe realizar espectaculares picados e subidas o que lhes permite a caça de outros pássaros. Andam e nadam com facilidade e têm por costume seguir os barcos de pesca para capturar os restos e peixes que escapam das redes.
Sendo habitualmente uma ave pacífica que permite a proximidade do homem, em altura de nidificação podem tornar-se bastante agressivas chegando mesmo a atacar em voos picados e em grupo. Os seus ovos, perfeitamente camuflados e a tez parda da plumagem dos jovens são perfeitos nas zonas onde nidifica, entre rochedos ou dunas nas praias.
Está provado que as gaivotas são monógamas e fazem par para toda a vida, embora não permaneçam juntas durante todo o ano. Nidificam sempre no mesmo local, reunindo-se através de chamamentos para reproduzir. A postura é normalmente entre 2 e 4 ovos e a incubação entre 26 e 28 dias. As gaivotas adultas de ambos os sexos encarregam-se da alimentação dos mais novos. É nesta altura que se pode notar melhor a mancha vermelha debaixo do bico. Os filhotes bicam esta mancha de forma insistente até o adulto regurgitar comida. Durante o crescimento, há sempre um progenitor no ninho de guarda, pois outras gaivotas costumam atacar ou roubar ovos da mesma espécie.
A gaivota alcança uma grande longevidade, chegando a passar os 20 anos, sendo a média 13. Embora as gaivotas da costa de Portugal não sejam migratórias, podem chegar a afastar-se dos seus locais habituais algumas centenas de kilómetros, dependendo do alimento e território. Também se descobriu que as maiores distâncias são percorridas pelas aves mais jovens.
A adaptação desta ave à civilização é enorme. Da alimentação baseada no mar, passou também a explorar os restos da sociedade, o que fez elevar bastante o seu número e levou certos pontos da Europa a tomar medidas de controlo.
Fica este resumo sobre esta ave que é tão comum para nós que passa quase despercebida no dia-a-dia da beira-mar. A partir de agora passarei a olhar para elas sabendo um pouco mais sobre quem realmente são... e que “cachinnans” são parte do nome.


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Sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
Os motores das antigas catraias.

Descrevia-me há tempos o meu pai a altura em que começou a pescar junto com o avô nas Caxinas, numa pequena catraia, tinha ele 11 anos, isto cerca de 1959. Por essa altura, cada vez mais catraias tinham já abandonado a vela como propulsão principal, e utilizavam pequenos motores fora-de-borda. Era o caso da catraia do seu avô, de cerca de 5,5 metros de comprimento, de nome “Sagrada Família” – “Jesus, Maria, José” já adaptada com um motor fora-de-borda Evinrude, de 5,5 cv, côr azul claro. Após alguma investigação, presumo que seria o motor nas primeiras imagens, o Evinrude “Fisherman”, um dos de maior sucesso da marca.

Todas as imagens que aqui coloquei baseiam-se nos motores dos quais o meu pai se lembra, cerca de 1955-1965, os Evinrude, Johnson, Mercury e Gale. Mencionou-me também motores Lambretta, mas sobre eles não encontrei qualquer referência.
Também na pesca do bacalhau se usaram motores adaptados aos dóris, mas sobre este aspecto é mais difícil encontrar relatos ou fotos, e perceber como realmente estavam instalados nos dóris. Sei que seriam montados ao centro do bote.
Estou certo que alguns dos habituais comentadores se lembram destes motores, e seria excelente se pudessem descrever todos os motores dos quais se recordam, no maior detalhe possível, fosse na costa portuguesa, ou na pesca do bacalhau.
Quem sabe um dia não se compram algumas destas relíquias para o futuro Museu das Caxinas / Poça da Barca.
 
imagens dos motores Gale, copyright de Duckworksmagazine.

 



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Terça-feira, 10 de Novembro de 2009
Uma nova Catraia está a nascer.

Já várias pessoas terão notado no que escrevo, que estou constantemente “a bater no ceguinho” no que respeita a barcos tradicionais, especialmente os do tipo poveiro, pois quase ninguém se interessa por reavivá-los, na rica tradição piscatória da qual fazem parte. Este reavivar significa primeiro que tudo construír de novo estes barcos, fomentar associativismo em torno deles, e usá-los em prol quer próprio, quer das comunidades que através deles ergueram casas, ruas e identidade nos areais de antigamente.

Ora há dias, o habitual comentador Albino Gomes revelou-me a melhor notícia desde que este blogue existe, no que respeita aos barcos do tipo poveiro, que tanto me fascinam: uma nova Catraia está a ser construída nos estaleiros Samuel & Filhos, em Vila do Conde.
Desde que a Lancha-do-Alto poveira “Fé em Deus” foi construída nos inícios dos anos 90, nada mais se fez por estes barcos na Póvoa de Varzim, cabendo o mérito em Vila do Conde à Associação dos Marinheiros da Armada com a recuperação da “Briosa” e “Baltasar”. Tudo o resto continua enterrado na memória de poveiros e caxineiros, que se lembram saudosamente dos seus antigos barcos, mas ninguém decide ir ao estaleiro encomendar um. Não será por certo por falta de dinheiro, pois carros topo de gama enchem as ruas das Caxinas desde há muitos anos. Acredito que a falta de informação será a maior causa, mas acima de tudo a falta de Exemplos. A lancha “Fé em Deus” passa a maior parte do ano “escondida” e é grande demais para convencer alguém a ter uma igual, actualmente.
Esta nova catraia pode finalmente ser o ponto de viragem, pois não chega a 6 metros de comprimento e com 3 ou 4 homens está a navegar. É muito importante que os poucos barcos de tipo poveiro que existem estivessem sempre bem visíveis em locais públicos, fosse um fim-de-semana aqui, outro ali, em ruas principais, em frente ao mar, etc. É preciso que as pessoas “tropeçem” neles, façam perguntas, e lhes seja explicado tudo sobre eles, de onde evoluíram, como são construídos, como navegavam, como armavam, etc. Só assim aumentará o interesse e futuras construções surgirão.
O comentário do Albino segue abaixo, pois não pode estar escondido por trás do artigo onde foi inserido, e que a foto acima começe a ganhar a côr que tanto merece, De uma vez por todas.
 
«Felizmente que hoje, a Associação dos Marinheiros da Armada, de Vila do Conde, da qual tive a honra de ser um dos principais fundadores, para além da catraia BRIOSA, tem neste momento em construção no Estaleiro do Samuel, uma nova Catraia com cerca de 5,80 m de comprimento. Registe-se que a partir da minha presidência naquela Associação Marinheira, em 2003, a BRIOSA, juntamente com a lancha poveira Fé em Deus, a catraia esposendense Stª Mª dos Anjos e a catraia vianesa Nª Srª da Agonia, têm participado em dezenas de Encontros de Embarcações Tradicionais em Portugal e Espanha. Anote-se ainda, que a Nª Srª da Agonia, propriedade da Associação de Barcos do Norte, é uma embarcação típica da nossa Vila Chã e recentemente descobrimos que foi construída por Benjamin Moreira, hoje Presidente da Junta da Freguesia. Portanto, embora isto esteja muito mal, de quando em vez lá vai havendo algumas excepções, por banda de uns tantos que teimam em remar contra a maré... . Al bino Gomes.»
 
Seria do maior interesse que se divulgassem os passos da construção da catraia, pelo menos com algumas fotos. Tão interessante como ver um barco na água, é vê-lo no estaleiro, a ganhar forma.
 
Imagem – filme “Ala-Arriba” – José Leitão de Barros, 1942.


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Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
O projecto DORNA.

«As muletas podem voltar ao Tejo. Hoje desaparecidas, foram as principais embarcações utilizadas até ao início do século XX na pesca do arrasto efectuada ao largo da costa da Caparica. Tal como as muletas, há outros tipos de barcos tradicionais portugueses que poderão ter uma segunda vida, ao abrigo do Projecto Dorna, promovido pela Associação das Indústrias Marítimas (AIM). Este projecto está a desenvolver a marca BATE - Barco Atlântico Tradicional Europeu, que certificará a qualidade da sua construção, desde o tipo de madeira utilizada, até à técnica utilizada no seu fabrico, que seguirá os melhores padrões da carpintaria naval.

Filipe Duarte, director técnico da AIM, refere que o projecto Dorna está bastante avançado, sendo liderado pela Diputación Provincial de A Coruña. Além da portuguesa AIM, o DORNA integra ainda o Colégio Oficial de Arquitectos de Galicia, a Agencia de Desarollo Comarcal OARSOALDEA, o Causeway Coast Maritime Heritage Group e a GALGAEL - ambas instituições do Reino Unido -, e a Conselleria de Pesca espanhola.
O objectivo deste projecto é recuperar a construção naval tradicional, que está a desaparecer em toda a Europa, conservando um património histórico cuja manutenção só é viável se a indústria naval tradicional for modernizada de forma inteligente. Este objectivo só é concretizado se forem cruzadas diversas valências, entre as quais a formação profissional, o desporto, o turismo e a actividade comercial, além da perspectiva didáctica e cultural.
Para o efeito, a AIM refere que estão a ser efectuados planos directores de recuperação das infra-estruturas dos estaleiros tradicionais portugueses e de levantamento das embarcações tradicionais do espaço atlântico. Outro vector fundamental deste projecto é a criação de uma plataforma de comércio electrónico que facilitará o acesso dos estaleiros tradicionais aos mercados que têm apetência pelas embarcações de madeira típicas.
Já foram identificados os principais estaleiros que podem ser incluídos no projecto DORNA, entre os quais a Socrenaval, de Vila Nova de Gaia, onde se continuam a construir barcos rabelos. Tal como os moliceiros construídos na zona de Ílhavo, perto de Aveiro. "Aliás, o próprio presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, Ribau Esteves, tem sido um estusiasta deste projecto", refere Filipe Duarte, comentando que "esta zona, da área de influência da ria de Aveiro, beneficia da experiência do museu marítimo local".
Mas haverá muitos outros estaleiros navais tradicionais susceptíveis de serem integrados neste projecto, tais como o Réplica Fiel, no Seixal, embora a iniciativa dos accionistas e donos dos estaleiros seja determinante, porque serão eles que terão de candidatar as suas unidades ao processo de modernização que posteriomente as transformará em Museus Vivos.
Finalmente, haverá uma componente turística, fundamental neste projecto, porque contribuirá para a sua rentabilização. Na realidade, estas embarcações são emblemáticas e servem de ex-libris regionais. A ideia é integrar os barcos típicos portugueses nos pacotes turísticos promovidos pelas agências de viagens, de forma a disponibilizar viagens costeiras com uma componente cultural regional. "Mas o projecto Dorna não se fica por aqui, porque foram previstas muitas outras iniciativas, como seminários, eventos transnacionais, exposições e workshops", adianta Filipe Duarte.»
 
in jornal EXPRESSO – 28/04/2009 – J.F. Palma-Ferreira.
 
Embora pareça que esta maravilhosa ideia de reconstruír barcos tradicionais “construtivamente” tenha agora “caído do céu”, já alguns países e regiões o fazem com grande sucesso desde há vários anos, por iniciativa das próprias comunidades. Em Portugal infelizmente, a iniciativa própria custa sempre muito a desenvolver-se e quando surge, os obstáculos legislativos e financeiros não permitem o avanço. Mesmo quando organizações estrangeiras “injectam” o seu interesse no nosso património a ver se lhe pegamos... nem assim muitas vezes a coisa vai.
Veremos então se vai ser desta, que o património de cultura costeira portuguesa vai começar a renascer, sim, “começar” porque o projecto é a nível nacional e estas coisas levam pelo menos um par de décadas a arranjar interessados, a instalar-se e a multiplicar-se. Acima de tudo, o que mais custa é criar a organização.
Ainda assim, pergunto: e se eu quiser abandonar o escritório e pôr mãos-à-obra a construir barcos tradicionais da minha terra? De quem e que tipos de apoios poderei ter?
Ao saber agora do arranque deste projecto DORNA, ainda mais acredito que as visões que tenho da cultura costeira (como muitos as têm), em especial na minha terra, se podem tornar realidade a tempo dos “velhos” homens do mar ainda as (re)verem. Verem catraias de novo a ser construídas à moda antiga junto à praia na Favita, em simples barracões, as velas a serem cortadas e cosidas, o cheiro do breu a ferver e acima de tudo, ver depois os barcos “vivos”, usados pelos seus filhos e netos em regatas organizadas, e todo o rol de eventos que a DORNA refrere e não são novidade. A praia das Caxinas voltava ao seu “novo” passado, o areal teria de novo barcos e barracões de aprestos, praticava-se e ensinava-se vela tradicional, até se voltava a ir à pesca “para turista ver”. Enfim... as visões são muitas, mas por vezes só quando uma organização ou “senhor estrangeiro” nos vem mostrar o valor disto (como aconteceu na Galiza há 30 anos, com o sueco Staffan Morling), é que lhe daremos razão.
Houve um tempo, em que os Portugueses foram pioneiros nos assuntos do Mar. Punham-se à proa do navio, e não à popa.
Agradeço ao amigo Albino Gomes o comentário de há dias sobre o excelente trabalho de campo  que tem vindo a ser feito. Presumo que se refere a este projecto DORNA. Acreditemos que este projecto de uma vez por todas vai impulsionar e dinamizar a nossa cultura costeira e que vai apoiar quem realmente quer trabalhar em prol dela.
 
foto 1 – Construção de um bote polbeiro em Bueu, Galiza.
foto 2 – Catraias nas Caxinas – in Octávio Lixa Filgueiras – “O Barco Poveiro”.


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Quinta-feira, 1 de Outubro de 2009
Tipos Perfeitos da Raça.

«Na Primavera de 1966,o canadiano Wayne Ralph (foto 1) fotografou um grupo de pescadores portugueses cujo navio bacalhoeiro estava atracado no porto de St. John’s, capital da Terra Nova. No final de 2008, essas fotografias foram publicadas na Notícias Magazine (NM) e um desses homens descobriu-se nelas com 18 anos. No Verão de 2009, Wayne Ralph veio a Portugal expor essas imagens a convite do Museu Marítimo de Ílhavo e no dia da inauguração reencontrou-se com o pescador. Aqui se narra esse reencontro, numa conversa em que foi também questão a história comum de dois países unidos pelo bacalhau.

 
Contámos parte desta história na NM de 14 de Dezembro de 2008, quando publicámos algumas das fotos que fez dos pescadores portugueses no porto de St. John’s, capital da Terra Nova, em 1966. Um deles foi reconhecido por um parente, que lhe ofereceu a revista pelo Natal, provocando uma vaga de memórias e emoções. Quer contar o que aconteceu entretanto?
Em Janeiro deste ano recebi um e-mail do filho desse ex-pescador dizendo-me que o pai se tinha visto na revista (nessas imagens ele tinha 17 anos) e chorado (o que o filho nunca o vira fazer). Nesse e-mail o pai agradecia-me por tê-lo fotografado. Eu ignorava até esse momento o nome desse pescador, como os dos outros que fotografei. O próprio nome do navio em que seguiam apenas o soube por essa altura, depois de digitalizar as imagens e de as ampliar de modo a tentar colher elementos identificativos. António (o pescador de que temos estado a falar) era o elemento mais novo da tripulação do Dom Dinis nessa campanha. Tínhamos sensivelmente a mesma idade quando o fotografei no porto de St. John’s. Eu morava perto do porto, e nesse dia andava por ali a passear. Era um dia de sol, nessa Primavera de 1966 (algures entre Abril e Junho) e eu tinha estado a tirar algumas fotografias. Conforme me fui aproximando, os pescadores portugueses começaram a reparar em mim e um deles sorriu e cumprimentou-me gestualmente – e embora não falasse inglês, convidou-me para subir a bordo. Foi ele o homem que me deu a sua morada, que eu perdi, mas lembro-me de ver escrito Aveiro. Foi também ele quem me serviu de modelo, e subiu ao mastro, para que o fotografasse. Havia outros homens, mas estavam ocupados, tinham trabalho para fazer, alguns estavam a cozinhar o almoço, outros estavam a remendar redes.
 
Fosse como fosse, estava habituado a ver os portugueses por ali, no porto de St. John’s, ano após ano – escreveu isso mesmo na narrativa de memórias que está a preparar.
Essas memórias que guardei dos portugueses na Terra Nova só mais recentemente se transformaram em textos. Seja como for, prometi a esse rapaz de Aveiro que lhe enviaria as fotografias, o que nunca cheguei a fazer. Fiquei com essas imagens para mim – imagens que sempre considerei muito interessantes, por todas as razões, incluindo as técnicas: a luz, o enquadramento, e até a qualidade do filme, que era um Panatomic da Kodak, de exposição longa. Temos de lembrar-nos de que nessa altura tudo era feito manualmente, a focagem, a medição da luz, tudo.
 
Nessa altura, quando os portugueses faziam parte da paisagem humana de St. John’s, recorda-se ou não de ser capaz de distingui-los dos outros pescadores?
Os navios dos portugueses eram diferentes de todos os outros, eram os únicos que eram veleiros, de três ou quatro mastros, enormes, com aquelas velas lindíssimas e aquele charme que os outros não tinham. E eram brancos, por causa da Segunda Grande Guerra, o que eu não sabia à época [os navios bacalhoeiros portugueses foram mandados pintar de branco pelo Estado-Maior Naval na sequência de ataques alemães a lugres da nação «neutral» no alto-mar]. A White Fleet era única. Podíamos ver esses navios quando o tempo estava mau, pois eles procuravam abrigo no porto, onde ficavam até o tempo melhorar. Quando a White Fleet chegava íamos todos ver os seus navios. Da minha secretária da escola conseguia vê-los pela janela.
 
Até que ponto essas vivências de infância e juventude na Terra Nova explicam as suas escolhas profissionais? Antes de se tornar um fotógrafo e escritor a tempo inteiro foi piloto-instrutor militar, mais tarde piloto comercial, profissões aventurosas...
Há na minha família uma longa história relacionada com as profissões do mar. Na verdade, a única excepção foi o meu pai, que se tornou militar. E eu cresci num mundo cheio de uniformes militares, dominado pela possibilidade da guerra. Mas, porque tive uma educação (ao contrário do meu pai que abandonou a escola, e do meu avô, que era pescador de bacalhau, e dos meus tetravôs, que eram capitães de veleiros), não fui obrigado a ir para o mar. Tornei-me piloto militar por opção minha. Aos 12 anos sabia que ia ser piloto. Mas se o meu pai tivesse sido um homem do mar é provável que eu também fosse. António, o ex-pescador que agora reencontrei, foi para o mar com 8 anos. Na Terra Nova há muitas pessoas como ele, pessoas da minha geração que não estudaram e que foram para o mar ainda quase crianças. Tal como os portugueses que eu via a jogar futebol em St. John’s, e que ganhavam sempre os jogos, eram muito bons jogadores.
 
Como os distinguia dos espanhóis ou dos marroquinos, que também jogavam futebol quando estavam atracados?
Os portugueses tinham roupas distintivas, feitas à mão, os pescadores da Frota Branca vestiam-se de maneira diferente dos outros. E isso é visível também nas minhas fotos de 1966 – numa delas há um conjunto de homens vestidos com roupas compradas em lojas, blusões como os dos homens da marinha mercante. Os pescadores portugueses não vestiam roupas dessas. A probabilidade de esses homens serem portugueses era baixa.
 
Gente da Terra Nova. Como explica as relações tão excepcionalmente amistosas entre os portugueses da Frota Branca e os seus conterrâneos?
Quando eu era miúdo e via os portugueses sempre por ali, no porto de St. John’s, eu sabia que tinham sido eles a encontrar-nos, na escola aprendi que o primeiro descobridor a encontrar a Terra Nova foi Gaspar Corte-Real, um português. Por outro lado, sempre foi muito claro para mim que os portugueses que paravam em St. John’s eram os mais pobres de todos. Eram sempre avistados a andar pelas ruas em grupos, olhando para as montras das lojas, hesitando em comprar. Tal como o rapaz que eu descrevi na história publicada em Dezembro passado, que não tinha dinheiro para comer um banana-split e ficou a ver-me comer o meu. Os portugueses tinham quando muito, dinheiro para beber uma cerveja, mas não para pagar uma refeição ou uma sobremesa cara. Penso que sempre hou-ve um olhar compreensivo relativamente a esses constrangimentos dos portugueses, que de resto eram muito bem-parecidos e tinham muito sucesso com as raparigas. Sabíamos, ainda, que os portugueses eram os que trabalhavam com menos condições. A pesca do bacalhau era dura para todos, mas para os portugueses era-o ainda mais. Isso fazia deles heróis absolutos, tal como vem explicitado no famoso livro de Alan Villiers [A Campanha do Argus, uma edição da Cavalo de Ferro].
 
Sabia, na altura, o contexto em que os portugueses eram recrutados para essas pescarias na Terra Nova? Sabia que a pesca do bacalhau na sua terra fazia parte de um programa económico de regime? Sabia que a pesca do bacalhau foi o eixo da economia de abastecimento nacional dirigida por Salazar?
Não, ignorava tudo isso na altura. Apenas sabia que havia acordos internacionais relativos aos bancos de bacalhau da Terra Nova. Quando fotografei António e os outros pescadores portugueses ainda não havia restrições, a lei de protecção do nosso mar ainda não tinha entrado em vigor.
 
Houve um momento em que as autoridades canadianas pediram ao Estado português que parasse de pescar aquelas quantidades enormes de bacalhau nas vossas águas. Mas Salazar fez ouvidos moucos e mediante acções diplomáticas conseguiu continuar a mandar os portugueses ao bacalhau da Terra Nova – e isso durou até 1974.
Eu não sabia nada disso naquela altura. Os portugueses interessavam-me porque a sua frota era inigualável em beleza e romantismo, interessavam-me os navios e os homens, porque levavam aquela vida duríssima, embora por vezes tivessem a minha idade, e isso tocava-me. Eu nem sequer sabia que em Portugal vigorava uma ditadura. Apenas nos interessavam os astronautas, a ida à Lua, a guerra-fria. Sabia da existência de Franco e da guerra de Espanha porque lera Hemingway. Lera também os livros de espiões, Ian Flemming, e sabia que havia uma cidade chamada Lisboa, uma cidade romântica que albergara espiões durante a Segunda Guerra Mundial, e vi o filme Casablanca. Quando entrevistei pilotos de guerra para um livro meu sobre os aviadores militares da Segunda Guerra Mundial, uma das coisas mais espantosas que todos me contaram foi que quando estavam a regressar da guerra, vindo pelo Mediterrâneo, iam para Inglaterra por Gibraltar, sobrevoando Lisboa, e todos achavam incrível que estivesse iluminada de noite, enquanto outras cidades europeias estavam na mais cerrada escuridão, que era ao que estavam habituados. De modo que sobrevoar Lisboa era como passar por Hollywood, a vossa capital tinha essa aura. Há um ensaio num livro que saiu recentemente sobre os portugueses no Canadá [The Portuguese in Canada – Diasporic Challenges and Adjustment, coordenado por Carlos Teixeira e Vítor M.P. da Rosa, University of Toronto Press, 2009] que fala dos portugueses como sendo gente da Terra Nova – porque não eram olhados como os outros estrangeiros. Se for falar com polícias que trabalhavam nessa altura, eles dir-lhe-ão que os portugueses eram os que menos conflitos provocavam, os que raramente iam para a prisão. Já os espanhóis andavam de facas e entregavam-se a lutas que por vezes os levavam para os nossos hospitais. Os únicos portugueses que podíamos encontrar nos hospitais eram os que tinham sido vitimados por incêndios a bordo dos navios.
 
Memórias sentidas. Voltemos a esse encontro inacreditável entre si e o pescador que fotografou na Terra Nova em 1966. Quais são os seus significados, e os desta sua vinda a Portugal?
Posto de uma forma simples: passei anos e anos a pensar que devia ter enviado as fotografias a esse outro pescador, o homem que era de Aveiro e me deu a sua morada. Sempre me senti um pouco culpado por não o ter feito, senti remorsos por não ter sido mais consequente. Quando o filho de António me disse que o pai gostaria muito de me reencontrar, fiquei a pensar que também eu queria muito esse reencontro. Mas não sabia onde poderia vir a ter lugar. Foi então que em meados de Junho passado recebi um e-maildo director do Museu Marítimo de Ílhavo, Álvaro Garrido, a convidar-me para expor em Ílhavo essas fotografias tiradas em 1966. Decidi vir, não só para a inauguração da exposição, mas também para reencontrar esse antigo pescador, o que aconteceu no dia 8 de Agosto, no museu. António apareceu com toda a sua família. Foi um momento inesquecível. Até Janeiro passado eu nem sequer sabia o nome dele, ele era apenas alguém que eu fotografara 43 anos antes em St. John’s, mas que representava todos os portugueses que eu conhecera durante a minha infância e juventude na Terra Nova. Ele não fala inglês e eu não falo português, mas isso não teve importância alguma.
 
Sei que depois passou alguns dias no local onde vive o antigo pescador e a sua família.
Passei três dias com a família de António. Tive oportunidade de conhecer outras pessoas, antigos pescadores nomeadamente, que aliás não acreditavam que tinha sido eu o autor daquelas imagens [risos]! Felizmente trouxe os negativos, em que há também outras fotografias, de mim jovem, do meu cão na altura, do carro do meu pai, dos meus colegas de escola... O que mais me impressionou foi ver o quanto guardam St. John’s no coração. Todos eles ficam muito sentimentais quando falam desses tempos na Terra Nova. Lembram de forma muito vívida e emotiva essa época em que passavam por vezes vários dias em St. John’s.
 
Para eles você é a representação da Terra Nova e do seu povo, que os acarinhou ao longo de todos esses anos de campanhas bacalhoeiras.
Exactamente. Alguns ficaram com os olhos cheios de lágrimas, e começaram a falar desses outros homens nas fotografias, indagando o que lhes teria acontecido, quem estaria ainda vivo.
 
Sei que alguns desses pescadores retratados nas suas fotografias de 1966 foram reconhecidos e que alguns são da mesma zona. Porque não os encontrou?
Creio que não estavam interessados nesse reencontro.
 
Talvez queiram esquecer. Há uma memória recalcada desses tempos, seguramente devido à sua dureza. Tal como acontece com combatentes da guerra colonial.
Penso que há traumas associados a essas longas viagens. Para António foi muito emotivo, houve uma quantidade impressionante de memórias que emergiram. Talvez esses outros homens não quisessem vivenciar isso. Talvez queiram esquecer, sim. Falei com um capitão aposentado, um homem com uma grande experiência, que começou nos dóris, e ele reafirmou-me a dureza dessas pescarias. António contou-me que quando estavam em St. John’s e chovia se lavavam debaixo dessa chuva. Nos navios, havia pouca água, e eles lavavam-se numa pequena quantidade de água, que servia também para fazerem a barba, e que no final bebiam! António contou-me que, quando estavam em St. John’s, por vezes iam ao Hotel Newfoundland, que era um hotel para homens de negócios, um lugar caro e onde havia um código de indumentária. Os portugueses por vezes iam lá beber uma cerveja, de gravata e com as suas melhores roupas, com os seus fatos a cheirar a naftalina, e bebiam uma cerveja que faziam durar o serão todo.
 
Saudade das campanhas. O que vai fazer com esta experiência, esta viagem a Portugal, estes reencontros?
Ainda não sei. Há mais do que uma dimensão a considerar, por um lado, uma questão mais pessoal, de busca identitária, de querer saber por que razão quero escrever, ser um escritor. Por outro, há um desejo de documentar uma história que é comum. A vida de António, o pescador português que acabei de reencontrar pessoalmente, é muito diferente da dos seus filhos. Ele passou de uma vida dura como poucas para uma vida pautada pelo conconforto standard da actual classe média. A filha de António tem uma formação universitária e o seu filho tem um trabalho especializado fora de Portugal. Isso é também o que fazem os filhos da Terra Nova que querem melhorar o seu nível de vida: sair do país para trabalhar. O que quero dizer é que as pessoas das classes médias, que agora estão no pico das suas vidas activas, são todas filhas de um António. Em quarenta anos, o mundo mudou muito, e há muitos paralelismos que podem ser estabelecidos entre Portugal e a Terra Nova. A questão é então a de saber o que significa pertencer hoje em dia à classe média. António comove-se quando fala da pesca do bacalhau no Atlântico Norte, e diz que tem imensas saudades desse tempo. Mas de que tem saudades afinal? Ele descreve de forma muito vívida a dureza dessa vida no mar, mas, paradoxalmente, tem saudades dela. Aquilo era uma coisa de cariz militar, daí designarem-se essas pescarias por campanhas de pesca, tal como se diz das campanhas militares.
 
Fazendo um esforço de entendimento humano: de que acha que o ex-pescador António tem saudades?
Talvez da camaradagem entre os homens, num momento que foi decerto muito formador do seu carácter. Talvez, também, de um certo heroísmo que estava associado a essa pesca. Um homem era-o tanto mais quanto mais peixe pescasse. Entre os homens e perante as mulheres, também. Os bons pescadores, os que pescavam mais do que os outros, tinham um outro estatuto.
 
Salazar bebia todos os anos com os melhores pescadores um cálice de vinho do Porto, numa cerimónia que precedia a largada da frota para a campanha. O regime conferia um valor simbólico a esses heróis do mar, cuja bravura era manipulada através de encenações da propaganda que os comparavam aos marinheiros de Quinhentos.
Isso reflectia-se na vida das populações. Na terra de António as raparigas sabiam quem eram os melhores pescadores, e era com eles que queriam casar. António era bem visto pelas mulheres, a sua própria mulher mo disse. Ser um pescador da Frota Branca era o máximo. Em A Campanha do Argus, de Villiers, há uma personagem que é o mau pescador, e todos troçam dele, porque todos os dias saía de manhã para a pesca e voltava com cinco ou seis bacalhaus, o que fazia dele um zero à esquerda a todos os níveis. Talvez isso tivesse que ver com o valor da masculinidade, com uma hipermasculinidade. Mas não só, porque tal como escrevi, eu próprio, que não era português, me achava muito pouco masculino, se comparado com os pescadores portugueses da minha idade que eu via em St. John’s. Eu não passava de um rapazola, já eles eram claramente homens.
 
Imagino que olha de outra maneira para isso, hoje em dia.
Não sei até que ponto, porque a verdade é que admiro essas capacidades.
 
Como é normal num militar.
Exacto. Eu próprio acabei por ter uma vida pautada por um certo heroísmo, à minha escala. Fui piloto militar, depois piloto de uma companhia de aviação comercial, aterrei no Árctico, voei debaixo de tempestades, fiz aterragens de emergência, enfim, tive uma vida de piloto, o que também era, e é ainda, considerado uma marca de masculinidade. Mas uma outra masculinidade, diferente da que era atribuída aos homens da Frota Branca. Eu fiz questão de dizer a António (alguém no Museu teve a amabilidade de fazer a tradução) que o admiro, também porque nunca pareceu sentir pena de si próprio por ter vivido aquelas experiências extremas.
 
Julgo que a outra hipótese era ir fazer a guerra em África... .
Claro, hoje sei disso. Enfim, é uma história rica de factos humanos e sociais relevantes. O mundo mudou, há menos opressão e menos pobreza. Mas há mais outras coisas. O director do Museu Marítimo perguntou-me como estava a Terra Nova a mudar e eu respondi que está a padecer da mesma doença que afecta o mundo inteiro, e que é configurada pela sociedade norte-americana. Quando eu era miúdo e ia brincar para a rua com os meus amigos a ordem era para não voltar para casa antes da cinco da tarde. Hoje a paranóia securitária afecta imensamente a infância e a vida das famílias. Hoje em dia as crianças têm de ter tudo, tudo lhes é dado, para circunscrevê-las, protegê-las do que julgamos perigoso. Penso que a questão é a de tentar perceber o que está a acontecer à nossa cultura, àquilo que a distingue das demais. Se nos tornamos como toda a gente, de que vamos orgulhar-nos? Nós temos a mania de que somos diferentes dos outros americanos, e somos, porque temos uma longa história que faz a diferença, porque somos muito pouco canadianos – os outros americanos acham-nos estranhos.
 
Essa questão identitária é um problema global. A questão hoje é a de tentar perceber de que modo vão sobreviver as diferentes culturas no mundo globalizado.
Sim, concordo, mas que cultura estamos entretanto a construir? Que mundo vai ser o dos nossos filhos e netos? Se a adversidade forma o carácter, que pessoas vão ser? Se as novas gerações não tiverem nada contra o que lutar, se não tiverem desafios, como poderão ter iniciativa? Como poderão ser capazes de improvisar? Conhecerão algum dia a satisfação de se verem capazes de se ultrapassarem e se surpreenderem a si mesmos? A geração de António cresceu a duvidar de tudo: do navio, do tempo, do mar, dos outros homens, a dureza da vida levava-os a duvidar sistematicamente de tudo, e daí os pescadores com quem me encontrei no outro dia duvidarem das minhas fotografias. António disse- me que pensa que há da parte deles uma espécie de cepticismo fundamental em relação a tudo.
 
Julgo que se trata de uma outra expressão para o medo, que no caso dos portugueses resulta também da nossa longa ditadura.
Talvez... Muita gente me fala da ditadura, os mais velhos sobretudo. Mas o vosso país surpreendeu-me, pensei que fosse mais rural, menos desenvolvido. Em 12 dias descobri por exemplo que vocês têm um sistema de telecomunicações muito mais sofisticado do que a nosso. Achei incrível poder comprar um telemóvel tão bom por tão pouco dinheiro. A rede de comboios também me surpreendeu, e a vossa nova arquitectura, um modernismo de que não estava à espera. Não  encontrei em Portugal o mundo que conhecia através da Frota Branca. Há uma coisa que achei estranha: não vejo sinais do mar na vossa cultura, como se o mar tivesse deixado de interessar-vos. E não estou a falar das praias, que vi apinhadas de gente.»
 
TIPOS PERFEITOS DA RAÇA
 
Nos Porões da Memória é a exposição (a terceira de uma série dedicada à memória da Faina Maior) que o Museu Marítimo de Ílhavo (MMI) acolhe até 30 de Novembro próximo. Inaugurada por ocasião do 72.º aniversário do MMI no passado dia 8 de Agosto, a mostra reúne um texto e um conjunto de 12 fotografias tiradas na Primavera de 1966 no porto de St. John’s da Terra Nova. Fotografias analógicas, a preto e branco, constituem belíssimas evocações de um tempo pretérito, porém bem vivo na memória de todos quantos andaram ao bacalhau nos bancos da Terra Nova – lugar distante e inóspito para onde o Estado Novo enviou os rapazes e homens de Portugal entre 1936 e 1974. São milhares os portugueses que passaram, ano após ano, pelo porto da capital de Newfoundland, ali deixando marcas que estas imagens revelam inesquecíveis, também para os naturais, para quem os portugueses eram, de entre todos os pescadores avistados no porto e pelas ruas de St. John’s, os mais amistosos, bravos e bonitos. «Tipos perfeitos da raça», chamou-lhes Bernardo Santareno, médico a bordo do mítico (e mitificado) Gil Eannes, o navio-hospital de apoio à Frota Branca.
 
in (transcrição) Notícias Magazine nr.903 – 13 de Setembro, 2009.
texto – Sarah Adamopoulos - Notícias Magazine.
 
foto 1 – por Rui Coutinho – Wayne Ralph em Lisboa - Notícias Magazine
foto 2 - lugre-motor “Dom Diniz”
foto 4 - por Wayne Ralph - pescador de Aveiro, 1966, St. John´s, Terranova
foto 5 - lugre-motor "Brites" - Direcção Geral de Turismo


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Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
Wayne Ralph nas Caxinas.

Nos Porões da Memória III - fotografia e texto de Wayne Ralph
8 de Agosto - 30 de Novembro de 2009

Museu Marítimo de Ílhavo
 
Esta exposição, a decorrer no Museu Marítimo de Ílhavo, é da autoria de um cidadão do Canadá, Wayne Ralph (jornalista e autor) que há 40 anos, como muitos outros em St. John´s, Terra Nova, sentia que tinha de registar em fotografia aquela enigmática Frota Branca de centenas de homens que vinham do outro lado do Atlântico e enchiam o porto com os seus navios. Estes navios e os homens dentro deles pareciam pertencer a outro tempo, em contraste com os menos dignos de admiração, ou registo, arrastões-fábrica de várias potências mundiais durante já essa década de 60.
Tive o prazer de ser contactado pelo Sr. Wayne Ralph há algumas semanas atrás, o qual me descreveu a emoção de vir 40 anos depois a Portugal apresentar as suas fotos dos nossos pescadores ao público que as originou, o português, e a vontade de encontrar e falar pessoalmente com algum daqueles pescadores das fotos era grande. Assim aconteceu e o único que encontrou (das suas fotos)... estava nas Caxinas.
Depois da sua estadia inicial em Ílhavo, onde conheceu com emoção esse pescador, António Maio e a sua família, foi nas Caxinas que a convite dessa mesma família Maio, viria a passar 3 dias na sua companhia. Aí, encontrou-se com outros pescadores do lugre-motor “Dom Diniz”, o principal que fotografou em 1966, e mostrando-lhes os negativos originais daquele tempo, as reacções foram efusivas e não mais o largaram “de mão”.
À boa maneira portuguesa, Wayne Ralph voltou ao Canadá sentindo que “tenho agora amigos e uma família a quem voltar no futuro. Sinto-me extremamente afortunado no meu desejo de encontrar alguns dos tripulantes do “Dom Diniz” 40 anos mais tarde.” Refere ainda que “através de Salvador Maio e sua irmã, senti quanto o seu pai, António Maio, se sentia feliz com todo este evento e por ver uma foto sua, de pescador com 17 anos, numa exibição e numa reportagem de uma revista nacional.”
Durante a sua estadia em Portugal, Wayne Ralph teve oportunidade de conhecer outros pontos da costa, nomeadamente a Foz do Douro, ou Lisboa, ficando com uma opinião geral da orla costeira que presenciou. Nesse periodo, várias vezes repetiu algo de muito preocupante, que a maioria dos portugueses deixou de ver: “Há uma coisa que achei estranha: não vejo sinais do mar na vossa cultura, como se o mar tivesse deixado de interessar-vos. E não estou a falar das praias, que vi apinhadas de gente.” in Notícias Magazine, 13-09-2009.
1974 foi um ponto de viragem e 1986, a machadada final nos assuntos do Mar em Portugal. O mar deixou de interessar a quem governa, “por interesses maiores”, e milhares tiveram que abandonar a vida do mar, pois assim o governo os forçou (e força). Wayne Ralph percebeu assim, que as suas fotos guardam afinal bem mais que uns pescadores sorridentes. Guardam o Portugal que ainda era do Mar e tinha muitas vertentes para ele viradas. Quase todas elas desapareceram, restando-nos apenas e ainda homens como o meu pai, ou o pai do Salvador Maio, como imagem e valor daquele Portugal marítimo.
 
fotos – Wayne Ralph / família Maio.
excerpto - Sarah Adamopoulos – Notícias Magazine.


publicado por cachinare às 08:15
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Quarta-feira, 2 de Setembro de 2009
Caxinas 1977.

 

«A especificidade de um lugar é impressionante, quando se torna totalmente diferente daquilo que o rodeia, de certa forma passando a ser autónomo, tendo costumes diferentes e um modo de falar particular. As características do “lugar” Caxinas impressionam, por estar metido entre duas cidades. Parece que se ergueu a partir da areia, para sempre marcado por alguma precaridade e enorme vontade de sobreviver.

Quando em 1977, José Manuel Sá filmou as Caxinas, provavelmente não percebeu o tesouro que passaria a guardar, por ele próprio revelar um testemunho desta gente que raramente deixa rasto, a não ser o sangue que lhes corre nas veias. Estas, são imagens preciosas que após mais de 30 anos relembram-nos aquelas faces, as ruas, as suas casas e a praia com uma claridade que se julgaria impossível de reavivar.
Lugares como as Caxinas, normalmente não vêm a sua história narrada, e este filme, pequeno como é, dá a todas as gerações futuras a dignidade da memória, a dignidade daqueles que vivem da dura vida da pesca, aprendendo da pior forma o que a vida e a morte significam.
O que José Manuel Sá nos mostra, é cinema na sua forma mais valorosa, aquela na qual se ressuscita a magia de imagem após imagem, evitando o esquecimento, evitando a indiferença.»
 
in festival CURTAS, Vila do Conde 2009.
 
Sem dúvida este filme valerá imenso pela raridade do que mostra. Nunca tinha ouvido falar dele antes e tenho pena de não estar em Vila do Conde para saber mais ou ter tido oportunidade de o ver no festival. Mesmo nem sabendo qual a sua duração, seria excelente que estivesse divulgado e “disponível” ao público, especialmente aos caxineiros.
Obrigado ao José Manuel Sá pelo registo, que ao que sei não é o único. Existe pelo menos um outro filme do realizador Ricardo Costa, das Caxinas em 1978, intitulado “E do Mar Nasceu”. Ao que ele me informou, o filme encontra-se guardado nos arquivos da Cinemateca Portuguesa, e não tem sido fácil “arranjar uma cópia”.
Tantas relíquias nestes arquivos, à espera de ver a luz do dia.
 
imagens – Festival CURTAS, 2009


publicado por cachinare às 08:07
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