Quinta-feira, 16 de Junho de 2011
Sobre barcos e seu futuro.


publicado por cachinare às 13:35
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Sexta-feira, 3 de Junho de 2011
1.º Encontro Internacional de Embarcações Tradicionais de Vila Praia de Âncora.

 

«Já está praticamente tudo preparado para a Festa do Mar e da Sardinha, o certame gastronómico que já se tornou tradição no concelho de Caminha. Este ano a festa decorre de 17 a 26 de Junho, na zona envolvente do Portinho em Vila Praia de Âncora.

A festa que consagra Vila Praia de Âncora como terra de pescadores, de bons cozinheiros e melhores anfitriões já está preparada para animar o Alto Minho. Para além da habitual zona de restauração, onde se podem provar os melhores pratos de sardinha, há muita animação à mistura e inclusive algumas novidades.

Pela primeira vez, a edição 2011 da Festa do Mar e da Sardinha vai promover um Encontro Internacional de Embarcações Tradicionais de Vila Praia de Âncora. É mais uma atracção que deverá conquistar a atenção de todos os visitantes. Esta iniciativa vai ficar patente no Parque Dr. Ramos Pereira. A organização é da Câmara Municipal de Caminha e da Associação Barcos do Norte.

De resto, a tradição mantém-se: boa comida e ambiente alegre. Também não vai faltar a já habitual exposição. O tema deste ano é "Homens de Fé". A mostra é da responsabilidade de Carlos Castro e Carlos Vilasboas e retrata, através da manifestação religiosa, a identidade cultural da vila piscatória de Vila Praia de Ancora, nos momentos de fé vividos na procissão naval de Nossa Senhora da Ínsua, que se realiza desde 1959, e na procissão religiosa em honra da padroeira das gentes do mar - Nossa Senhora da Bonança.

As datas já estão lançadas, de 17 a 26 de Junho Vila Praia de Âncora proporciona a melhor sardinha do mundo no local mais emblemático e tradicional.»

 

via Lancha Poveira do Alto + Caminha Município

foto via Celestino Ribeiro



publicado por cachinare às 11:46
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Terça-feira, 24 de Maio de 2011
A nova página oficial da Lancha Poveira do Alto.

 

«Cada comunidade humana gerou ao longo do tempo as suas próprias materialidades, que hoje identificam os lugares ribeirinhos, organizados, quase sempre, entre a Igreja paroquial e a borda de água. Os modos de vestir, a gastronomia, a arquitectura, as suas tecnologias e ferramentas, os seus barcos e artes de pesca, o seu linguarejar entrecruzado de gestos, a sua religiosidade e fé, os ritos de namoro, de casamento e do luto, a maneira como transmitem os conhecimentos pela oralidade e pela experimentação, ou seja, as formas de pensar, fazer, usar e sentir de cada comunidade, seja piscatória, marinheira ou agropiscatória dão ao território ribeirinho, fluvial ou atlântico uma autenticidade rara.

No norte de Portugal, quando percorremos a Beira-mar, são poucas as comunidades costeiras que guardam em si, tão marcadamente, as materialidades da sua identidade quanto mais esse outro lado, emocional, imaginário, intangível. A excepção faz-se na Afurada, nas Caxinas e na Póvoa de Varzim, comunidades que ganham por direito próprio um lugar na paisagem marítima nortenha, uma paisagem emissora de imagens, de memórias e emoções, uma paisagem que faz a ponte entre o material e o imaterial.»

 

Boletim Cultural Póvoa de Varzim - MAGALHÃES, Ivone Baptista; BAPTISTA, João Paulo, MULHERES DO MAR DA PÓVOA – 42 (2008), p. 515-537

 

No próximo dia 31 de Maio, Dia do Pescador, será apresentada oficialmente na Póvoa de Varzim a nova página da Lancha Poveira do Alto, a embarcação que desde início dos anos 90 representa o passado piscatório do município e uma vasta cultura que se estendia a todo o Norte do país e não só.

Finalmente um dos maiores ícones da comunidade poveira passa a navegar na internet, numa página própria que já está activa e onde se encontra imenso material informativo relativo a todo o seu historial e actividades.

São muito raros casos semelhantes no país, onde uma embarcação tradicional tem página própria. Tal denota não só o carinho das gentes e do município por ela, mas também a vontade de a divulgar ao máximo, pois só assim toda a cultura em redor dela suscitará novas vontades e acções para reavivar o passado marítimo tradicional.

 

Aqui fica a Página oficial da Lancha Poveira do Alto

 

 

No passado fim-de-semana de 14 e 15 de Maio a lancha esteve presente em Valbom, Gondomar, no 3.º aniversário da Associação para o Desenvolvimento Integrado da Cidade de Valbom (ADICV).

Valbom foi outra comunidade de pescadores onde embarcações do tipo da lancha foram correntes, sendo famosa a presença no rio Douro das grandes lanchas valboeiras. Todo o programa de como decorreu o evento pode ser visto aqui.

 

Foto em Valbom, via Manuel Costa.



publicado por cachinare às 09:44
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Quinta-feira, 28 de Abril de 2011
X Encontro de Embarcações Tradicionais da Galiza – Carril 2011.

 

«Os Encontros de Embarcacións Tradicionais de Galicia é a actividade máis senlleira organizada pola Federación Galega pola Cultura Marítima e Fluvial (FGCMF). En 2011 chegarán a  súa décima edición. Os Encontros constitúen a gran festa da cultura do mar de Galicia.

Cada dous anos reúnense nunha vila mariñeira galega embarcacións tradicionais e tripulacións chegadas de toda a comunidade e doutros portos peninsulares e europeos para celebraren unha gran xuntanza festiva, de exhibición e reivindicación do patrimonio marítimo.

O primeiro Encontro celebrouse en Ribeira (1993), aos que lle seguiron Coruxo (1995), O Grove (1997), Rianxo (1999), Poio (2001), Illa de Arousa (2003), Cambados (2005), Ferrol (2007) e Muros (2009), ata chegar a este décimo que terá lugar en Carril en 2011.
As actividades de lecer acompañanse durante estes días de xornadas técnicas sobre distintas facetas e posibilidades do patrimonio, así como obradoiros, exposicións e un sinfín de actividades en torno ao mar e a súa cultura.»

 

via site oficial do X Encontro – Carril 2011

 

O maior encontro deste tipo e tema na Península Ibérica tem este ano de 2011 lugar em Carril, Galiza. A região de maior sucesso em toda a península na recuperação, preservação e dinamização desta cultura marítima sem preço e que se deve preservar a todo o custo. O “País de Marinheiros” que é (foi) Portugal é riquíssimo neste campo... mas muito poucos se interessam realmente por recuperá-lo a sério. É tudo uma questão de... Cultura.



publicado por cachinare às 08:42
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Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011
A catraia dos Fangueiros contra a catraia dos Farias... .

 

  

«O 3º Encontro de Embarcações Tradicionais organizado pelo Ecomuseu Municipal do Seixal (de 22-26 de Maio, 2009) reuniu na baía do Seixal 48 embarcações e 194 tripulantes: 32 embarcações tradicionais do estuário do Tejo (com 147 marinheiros), 4 barcos do Norte de Portugal (com 20 marinheiros) e 12 barcos da Galiza (com 27 marinheiros).

Neste Encontro participaram também 10 embarcações de apoio, com 36 tripulantes, além de 14 elementos da organização.
Embarcaram ainda e participaram nas várias actividades de navegação, a bordo das embarcações tradicionais das autarquias do estuário do Tejo – desfile, regata e passeios com navegação em frota – 377 pessoas. Nas actividades do 3º Encontro de Embarcações Tradicionais na Baía do Seixal contaram-se assim 621 participações no rio.
Complementarmente, realizaram-se, junto ao cais do Seixal, os ateliês Aprender a fazer… Nós de marinheiro e Pintura tradicional de barcos do Tejo, com 126 participantes, sendo estes maioritariamente crianças.
Ao longo dos cinco dias de actividades foi ressaltada a opinião de que o Encontro de Embarcações Tradicionais na Baía do Seixal já assumiu um importante lugar no calendário de iniciativas culturais no estuário do Tejo, contribuindo para a protecção e a valorização do património marítimo e fluvial, em particular das embarcações tradicionais, enquanto recursos de desenvolvimento, divulgando-os nos âmbitos nacional e internacional. Assim, foi reafirmado, pelos diversos parceiros e associações integrados na dinamização do Encontro, o propósito de contribuir para a sua continuidade e consolidação, quer quanto a embarcações e tripulantes no rio, quer quanto a participantes e diversidade de iniciativas em terra, particularmente de forma a envolver as comunidades locais.»
 
in EcoMuseu Municipal do Seixal – Organização.
 
As 3 fotos acima, são da autoria de Eduardo Goody, a quem devemos um belo e vasto álbum fotográfico deste evento, que na sua 3ª edição, já apresenta excelentes resultados a vários níveis.
Reparem como a catraia sardinheira de Esposende “Santa Maria dos Anjos” navega. É isto que quero voltar a ver a ser feito pelos caxineiros, poveiros, vileiros e demais comunidades que têm estes barcos no seu passado, desde Setúbal a Vila Praia de Âncora. Bolinam que é uma maravilha e o desenho de barco e vela içada no horizonte.... as fotos não precisam de palavras.
O dia virá em que vou ver... a catraia azul-branca dos Fangueiros, contra a catraia verde-rubro dos Cambolas, contra a catraia amarela-negro dos Maranhas, contra a catraia vermelha-branca dos Farias... em disputa, partida da barra da Póvoa, viragem na foz do Ave e meta no regresso à barra poveira. E à espera está a catraia dos Piões, vencedora da regata anterior, que aguarda com outras 2, o adversário restante para a grande Final, a 14 de Agosto. Aos fins de semana, pelo menos, é vê-las bolinar ao longo da costa em puro recreio, vira para a Vila, vira para a Póvoa... a varar no areal ao fim do dia, ou de regresso “à garagem” lá de casa até ao próximo fim-de-semana.
E depois... a meio do Verão, surgem de surpresa na foz de Vila do Conde os 2 batéis de Buarcos e os 3 de Matosinhos, para pernoitar e no dia seguinte, rumar à Póvoa para se juntar às 5 lanchas (2 delas grandes) e 1 batel (o 1.º da Póvoa, lançado à água há 2 meses), com rumo à Guarda, na Galiza.
Um dia... poderá será assim.
 
Eduardo Goody – álbum 3º Encontro Seixal, 2009.



publicado por cachinare às 08:54
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Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010
Arte xávega... em Kerala - Índia.

 

São várias as comunidades piscatórias em Portugal onde a pesca pelo método da arte xávega ainda vai resistindo hoje com os seus barcos típicos, mas já só com os de menor dimensão, a dois remos e com motor adaptado (já os vi também com 4 rodas!). As imagens aqui mostradas, à primeira vista trazem logo à memória a Costa Nova, Mira ou Vieira de Leiria, entre outras comunidades. Mas de imediato se percebe que a tez de pele mais escura dos pescadores ou os remos utilizados na embarcação, fazem estas imagens pertencer a outro país.

São pois imagens de pescadores e barcos típicos do estado de Kerala, na costa do malabar, Sul da Índia. Foi em Calecute, neste estado, que Vasco da Gama completou a sua rota de descoberta do caminho marítimo para a Índia em 1498 e a presença portuguesa daí em diante faz pensar numa possível ligação entre as semelhanças na arte da pesca. Não encontrei quaisquer referências à antiguidade da xávega em Kerala ou às suas origens, mas a fisionomia dos barcos é extremamente semelhante aos barcos de mar da xávega em Portugal.
O processo de pesca inicia-se de igual modo com os pescadores “de terra” a auxiliar e a empurrar o barco através da rebentação. O barco é governado depois a remos e com o auxílio de dois outros remos a servir de leme à popa (foto 2) segue o seu rumo. Após o lançar contínuo da rede em círculo, regressam à praia com a outra ponta da mesma e inicia-se o alar das redes, todo esse trabalho manual.
 
 
Embora em Portugal se associe esta arte de pesca às juntas de bois que na praia puxavam as redes para terra, bem como os enormes barcos, essas mesmas juntas de bois foram uma “inovação” de finais do séc. XVIII, pois antes eram os homens que levavam a cabo todo o pesado trabalho do alar de rede e barco. Outro detalhe interessante na construção destes barcos indianos, é o facto das pranchas parecerem ser “cosidas” umas às outras para reforço, pois a estrutura do cavername não será suficiente. Um tipo de construção antiquíssimo.
Hoje em dia esta pesca tradicional está também ela em risco de desaparecer (ninguém escapa), devido a diversos factores. Um deles foi o tsunami que em Dezembro de 2004 devastou diversas regiões costeiras do oceano Índico e alterou por completo ecossistemas marinhos. O resultado hoje em dia é o muito pouco peixe que estes pescadores apanham nas suas redes. Para além disso, cada vez mais as autoridades locais e governamentais favorecem a pesca industrial, a qual cada vez mais (e rapidamente) aniquila os stocks de peixe, muito dele descartado por não ter valor comercial. O resultado, para estes pescadores e para muitos outros no mundo é a pobreza e respectivo abandono das suas artes tradicionais para sobreviver.

 

É sem dúvida peculiar a semelhança destes pescadores com os de Portugal, mais ainda pelo facto da presença portuguesa no passado da região levantar questões interessantes. Helena Afonso é uma portuguesa que trabalhando numa companhia aérea há 30 anos, sempre se interessou por outras culturas e abaixo deixo o link para uma colecção de fotos da sua autoria em 2007, onde se pode presenciar todo o processo da faina destes pescadores, tão longe de Portugal na distância, mas tão perto na sua arte e barcos... na Índia. Será coincidência? Eu não acredito em coincidências.
 
Arte xávega em Kerala, por Helena Afonso.
Foto 1 – Sarah Leen – National Geographic Society.
Foto 2 – Helena Afonso, 2007.
Foto 3 – Nick Melidonis.
Foto 4 – Philip Plisson.


publicado por cachinare às 08:07
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Quarta-feira, 8 de Setembro de 2010
II Encontro de Embarcações Tradicionais Rio Lima 2010.



Um Encontro que terá um convidado de peso atracado em Viana, o lugre bacalhoeiro "Santa Maria Manuela".

 

Antes da abertura oficial - Recepção às embarcações e Tripulações, sexta feira dia 17 de Setembro durante a tarde na Marina de Viana, junto à Ponte Eifell.

Sábado, dia 18 – Abertura

10:00h – Abertura do Encontro.
Recepção às embarcações e tripulações, com entrega de documentação e credenciais (Secretariado na Marina de Viana Castelo).


11:00h – Abertura ao publico das exposições:

Exposição em seco na área ribeirinha de 5 embarcações tradicionais originais e emblemáticas do Norte de Portugal, no jardim junto à Biblioteca Municipal;

Exposição de fotografias antigas sobre Viana e a Srª da Agonia, a Festa marinheira, na Junta de Freguesia de Monserrate;

Exposição da colecção municipal de miniaturas navais de Viana do Castelo no Museu de Arte e Arqueologia;

Exposição do tapete de flores de sal no Museu de Arte e Arqueologia;


10:30h -12.00h – Navegação livre das embarcações participantes. (Rio Lima).

12.30 -17.00h – Exibição das embarcações acostadas ao publico em geral.

12:30-14:00h – Almoço das tripulações e demais convidados (Oferta da Autarquia, Local a designar).

15:00h – Arruada marinheira – Animação de Rua com o Festival de Gaitas de Foles promovido pela Autarquia na Praça da Liberdade, junto ao rio.

17.30h -Seminário “II Encontro de Embarcações Tradicionais Rio Lima 2010” – Conferência Internacional de Associações de Embarcações Tradicionais. Local: Museu de Arte e Arqueologia.

17.30h – Abertura do seminário com a Visita orientada pelo Autor da Exposição fotográfica, Dr. Manuel Gardete, intitulada “Barcos Tradicionais Portugueses – Navegações, instantes e devoções” (resulta de uma selecção de imagens realizadas entre 1992 e 2000 e apresenta algumas das mais emblemáticas embarcações Tradicionais do continente e dos Açores).

18.00h - Início dos trabalhos.


18.20h – “A Associação Portuguesa do Património Marítimo”, João Barbas, Presidente da Associação Portuguesa do Património Marítimo.

18.40h – “A Federação Galega pela Cultura Marítima e Fluvial ”, Vitor Fernandez, Presidente da FGCMF.

19.00h - “A Associação de Amigos da Ria e do Barco Moliceiro”, Manuel Oliveira, Presidente da Associação de Amigos da Ria e do Barco Moliceiro.

19.20h - “O Projecto Lancha Poveira do Alto” , Dr. Manuel Costa , Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.

19.40h – Debate e encerramento do seminário.

20.00h – Jantar nas “tasquinhas de ribeira” recriadas no recinto do Museu de Arte e Arqueologia.

21.30h – Filmografia de Homenagem - Átrio das “tasquinhas”do Museu.

Apresentação do filme Água Arriba – Histórias de homens e Barcos, a propósito dos barcos e dos barqueiros do rio Lima (Associação Ao Norte).

Apresentação do Documentário do Ao Norte sobre a Ribeira (a confirmar).

 

Domingo, 19 de Setembro

10:00h – Abertura das exposições (nos diversos espaços).

10:30h – 13:00h – Apresentação do Lanhezes embarcação replica navegante construída em 2010 e propriedade da Junta de Freguesia de Lanheses (estará no rio Lima, próximo do local da exposição das 5 embarcações, no Jardim junto à Biblioteca).

11.00h – Saída ao Rio Lima de todas as embarcações participantes para navegação livre.

14:00h – Almoço Convívio de encerramento e entrega de certificados de participação (oferta da Autarquia, local a designar).

16:00h – Despedida (Marina).

 

via blogue BARCOS do NORTE.



publicado por cachinare às 08:26
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Terça-feira, 22 de Junho de 2010
Incultura marítima.

OS NAVIOS DO INFANTE

E OS BARCOS DA COSTA DE PORTUGAL

  Artigo publicado no Diário de Notícias de 29 de Agosto de 1960

por Jaime Martins Barata

 

            «(...) O barco é uma das mais belas criações utilitárias do homem e para muitos, a mais bela. A sua forma, afinada, depurada, provada pela experiência, é eminentemente funcional, aproxime-se ela das formas dos peixes ou siga mais as das aves aquáticas. Será por tudo isso que a sua beleza é tão pura.

O barco deve ser amado por ele mesmo, mais ainda num país «todo ele marítimo» como o nosso, e também pelo que nele se retracta da vida milenária dos homens, com uma perenidade difícil de conceber-se através das máquinas modernas ainda sem tradição. Com esse amor, a arqueologia naval é uma coisa viva e não fossilizante. Antes de ser ocupação de cientistas medidores é campo de artistas, mais afeitos, por natureza, às subtilezas das linhas e das superfícies do que o observador comum, mesmo com grande erudição histórica, naval ou matemática. A ideia contrária, do predomínio do pormenor sobre o conjunto de pormenores, ideia ainda reinante nalguns lados, explica a existência em muitos museus navais (não é só no de Lisboa) de modelos que podem ter todas as coisas que devem ter, mas não as têm nas proporções e na expressão devidas e por isso soam a falso.

O arqueólogo naval, particularmente no capítulo da forma dos cascos, pode não ser marinheiro nem construtor; basta-lhe que os possa entender, na escala em que esse conhecimento interessa à sua formação humanística e artística, o mesmo é dizer universalista (e universitária, sem mal nenhum), que lhe é indispensável, e a uma paixão que não se inventa nem nunca poderá ser profissional. Alguns queridos amigos, velhos companheiros do liceu e das matemáticas da Faculdade, e agora em altos postos da Armada, dizem-me estarem absolutamente fora dos problemas do barco antigo, que em nada lhes interessam. Têm outros violinos de Ingres.

Acusam-se em geral os artistas de fantasiosos e tem-se mais confiança em provas fotográficas do que em desenhos ou pinturas documentais. Mas será legítimo duvidar-se da concordância universal tantas vezes verificada nos desenhos de vários artistas da mesma época? Será lógico duvidar-se da objectividade de pinturas como as de Rafael, Carpaccio, Van der Welde, Breughel, etc., que nos seus quadros teriam reproduzido tudo certo, das pessoas aos monumentos, alguns existentes ainda, e só errariam nos barcos? Certamente há pormenores que não se entendem bem em pequenos desenhos muito antigos porque são perfeitamente ilógicos aos olhos dum construtor actual. Mas o modelo de Mataró, feito em 1450 «certamente por mãos marinheiras», vem explicar alguns desses pormenores ilógicos e a dar razão aos desenhadores. O barco antigo, acima da linha de água, está quase sempre carregado de «erros» construtivos. Eram assim mesmo e este tema levar-nos-ia longe.

Na Exposição do Mundo Português viu-se a carta de Juan de la Cosa, do começo do séc. XVI, onde aparecem algumas das primeiras representações conhecidas de caravelas portuguesas, e uma de Mateus Prunes, de 1563, onde aparece uma caravela de três mastros, um deles arvorando uma vela altíssima.

Não podemos saber rigorosamente como era a caravela henriquina e por isso declinei o convite que me fizeram para reconstituir, em Lisboa, uma «rigorosa». Ninguém sabe. Todavia, o que se afirma comummente é que devemos desconfiar dos desenhos antigos porque neles se exagerava muito a guinda e o tosamento dos barcos, ou sejam a altura das velas e a curvatura dos cascos.

Por isso um meu amigo, entendido técnico, procurava demonstrar-me a injusteza de certo modelo de caravela, exibido na Exposição de Belém em 1940, de grosso casco e pequenas velas. Mas ao sairmos do pavilhão onde estava o modelo os meus olhos deslumbrados viram correr, sobre as águas agitadas do Tejo. com vento muito fresco, a vela esguia duma canoa que demandava a barra. Apontei-a ao meu amigo. Era a ressurreição da caravela desenhada na carta! As razões que ele me deu para me provar que a caravela não podia ser assim, têm um adjectivo que eu acho delicioso; eram "perfunctórias".

Numas águas como as do século XVI, sob um céu como o do século XVI, um barco de madeira como os desse tempo, com vela semelhante às de então, «nas proporções que viramos pouco antes no desenho de Mateus Prunes», tripulados por homens como os daqueles anos, a fazer o que eles faziam, pelos mesmos meios, e com os mesmos fins, era mentira. A congeminação académica que se corporizara na múmia exposta era a verdade.

Não se pode vencer esta cegueira.

A costa portuguesa, tendo sido, no decorrer de dezenas de séculos, ponto de confluência equilibrada de duas correntes de civilização, a do Norte e a do Mediterrâneo, e depois a do Extremo Oriente, arquivou nos seus barcos o melhor do que lhe veio de todas aquelas origens. Dizia Quirino da Fonseca ser a costa portuguesa a mais rica de tipos de barcos de pesca em toda a Europa, e eu creio-o bem. Muitos desses tipos ligaram-se, pouco ou muito, mas outros mantiveram vida isolada.

É curioso ver, ainda agora, como os mestres de machado, alguns deles quase iletrados, talham e dispõem as madeiras com formas consagradas mas nunca repetidas com rigor matemático, e sem planos ou papéis. E como, ao lado de barcos como o rabelo e o rabão, de que fazem primeiro o fundo, depois o costado e só no fim as cavernas, constróem outros, começando peia quilha e pelas cavernas e terminando pelo forro. Como conclusão impressiona fundamente ver no Douro um barco rabão, de claras formas orientais, todo ele em curvas maravilhosas, subtis e moles, encostado a uma barca poveira, de linhas hirtas e secas, de manifesta influência nórdica. É como se víssemos um árabe ao lado dum saxão. Isto passa-se em Portugal e não se passa já nas costas de Espanha ou da França ou da Itália, pelo menos no que eu conheço.

O conhecido modelo de prata mesopotâmico de Ur, de há uns 8000 anos e agora num museu inglês, é perfeitamente semelhante aos barcos de mar da Costa Nova ou da Torreira. Não sabemos de outros iguais nas costas europeias. Medite-se no que isto quer dizer.

A muleta de pesca era um barco inconfundível. Uma canoa da picada, um batel da Nazaré, ainda há pouco eram barcos vivos, genuinamente portugueses, tripulados por portugueses e tão ligadas à caravela que quase a podiam representar agora. Mas «eram»; com infinita pena o dizemos. Eram, porque todos estes barcos maravilhosos desapareceram em nossos dias e sem deixar rasto, diante do motor vitorioso.

Que nos fica a lembra-los? No nosso Museu de Marinha não conheço, neste sector, mais do que umas reduzidas miniaturas sem categoria para um museu e para a sua missão.

Em S. Jacinto o cadáver dum barco corno o de Ur embranquece ao sol e à brisa, no areal salino. Ninguém o quer. Pela costa acima dizem-me haver apenas catorze barcos daqueles, com uma vida triste, e que não serão substituídos, porque a sardinha fugiu, a xávega é penosa e não compensa. Irão fazer companhia ao de S. Jacinto. E depois? Depois, como em Setúbal, Sesimbra e Nazaré, nada.

Entretanto, segundo sei pelos Drs. Alberto Souto e Vale Guimarães, por sugestão dum pintor espanhol, um museu da América comprou cá e levou para lá um daqueles barcos incomparáveis, «os mais belos do mundo».

Assim, quando os nossos filhos quiserem saber como eram os nossos barcos, já sabem, pelo menos, onde podem ir ver um deles.

No lindo cenário das Ataracenas, Barcelona mostra alguns dos seus barcos de pesca reais, dos que andaram no mar.

A Holanda dispensa por ora esse museu. Os seus verdadeiros museus desses barcos são os canais, com inúmeras embarcações antigas, amorosamente conservadas e servindo de «casas de campo itinerantes».

Entre nós vimos há pouco num jornal do Porto que uma família de Póvoa de Varzim, de apelido Fome Negra, oferecera ao museu da sua terra uma barca local, com todos os seus pertences, vendo o desaparecer absoluto dum tipo secular e famoso. Mas este lindo gesto ficará, talvez, isolado.

As nossas instâncias oficiais ainda não deram um passo, que seja do nosso conhecimento, no sentido de salvar algumas daquelas espécies únicas e moribundas. Não temos o direito de nos queixar da incúria dos nossos avós quando numa viragem da civilização tão evidente e fulgurante como aquela a que assistimos deixamos perder os tesouros que eles nos deixaram — e irremediavelmente.

Faz-nos falta um museu constituído por exemplares reais dos nossos barcos tão variados, abrigados em telheiros (o barco sufoca entre paredes) onde a forma total das querenas, insuspeitada por muitos, pudesse ser admirada como as estatuas antigas. O seu custo seria irrisório e o seu valor, como propaganda portuguesa, como interesse turístico e cultural, seria no futuro de grandeza imprevisível agora. Artistas novos, de preferencia escultores, deveriam estudar e ordenar as peças.

Ver-se-ia então como a beleza das formas de alguns destes barcos suportava com vantagem o confronto com os lindíssimos bergantins que, felizmente, se conservam, se nos abstrairmos da riqueza ornamental destes.

Esse museu faz falta a Portugal. Anexo ao Museu de Marinha ou separado, nas condições do Museu dos Coches, que também nada tem que ver com o Ministério das Comunicações.

Um barco a motor de agora pode ser belíssimo nas linhas sóbrias que a decoração moderna explora; estão nesse caso de acordo a maquina e a concepção estética com ela nascida ou pelo menos sua contemporânea.

Repare-se, entretanto, na fealdade das traineiras, alheias de todo àquelas concepções estéticas «e feitas precisamente pelos mesmos homens» que fazem os maravilhosos saveiros, varinos, moliceiros, etc., e compreender-se-á o desacordo entre o Diesel e os velhos barcos à vela ou a remos. Aquele vai vencer tudo, fatal como o destino. Acudamos nós a estes, enquanto é tempo: enquanto temos alguns a conservar e temos quem saiba repetir os que faltam.»

 

Propositadamente, deixei este artigo sem qualquer imagem de barcos a ilustrá-lo, para que se perceba que passados 50 anos, esta belíssima faceta portuguesa praticamente morreu, excepto, talvez na região de Lisboa. Mais grave é ver tentativas ténues de recuperar algo do que se perdeu, mas pouco ou nada disso vinga e dá frutos cada vez mais, como deveria. Pior que isso, é a quase total "imcompreensão do barco" por parte das novas gerações e o desprezo da maioria das altas patentes e responsáveis pelo mar no nosso país, "pelo antigo".

Portugal de mar tão tristonho este que temos... .



publicado por cachinare às 11:36
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Terça-feira, 18 de Maio de 2010
VIII Encontro de Embarcações Tradicionais de Vila do Conde.

 

«A Associação de Ex-Marinheiros da Armada de Vila do Conde e a Comissão de Festas de S. João de Vila do Conde organizam de 18 a 20 de Junho o VIII Encontro de Embarcações Tradicionais de Vila do Conde que conta abaixo com o programa completo. Os interessados em participar com os seus barcos devem preencher a ficha de inscrição e enviá-la por email ou carta antes de 31 de Maio.»

 

via FGCMF – Federação Galega pela Cultura Marítima e Fluvial

 

Mais um ano se passou e cá temos mais um Encontro em Vila do Conde. Curiosamente, quem publicita aos 4 ventos da internet este evento, é a Federação Galega (!) É no mínimo curioso que o blog (acima) desta associação, não faz qualquer referência ao Encontro e deixa-me a perguntar qual o real papel dos barcos e artes tradicionais nesta associação, se é central ou lateral.

Uma vez que vivo a 3.500 km de distância, os argumentos que tenho são quase nenhuns para criticar seja o que for. Apenas o programa e a boa-vontade de amigos que me enviaram fotos do evento anterior, me permitem perceber um pouco o que realmente se passsa nestes 3 dias.

Talvez esteja lá, mas no programa não vejo referência ao incentivo e apoio local à construção de novas embarcações, demonstração e ensino das artes tradicionais da vela e da pesca, cursos de construção naval tradicional, como se faz manutenção e recuperação dos barcos, etc.

E os estaleiros do outro lado do rio, que papel terão no evento em promoção do barco tradicional? E as dezenas de pescadores reformados das Caxinas que tudo sabem sobre o assunto? No mapa, Caxinas e Poça da Barca também costumam ser Vila do Conde.

Bons ventos à associação e que muitos e variados barcos compareçam.

 

PROGRAMA 2010

 

18 DE JUNHO – SEXTA-FEIRA

17H00 Recepção às embarcações e entrega de acreditações às tripulações.

Entrega do “kit” de recepção.

Amarração e mostra das embarcações

 

19 DE JUNHO – SÁBADO

09H00 Recepção às embarcações e entrega de acreditações às tripulações.

Entrega do “kit” de recepção.

Amarração e mostra das embarcações.

11H00 Navegação livre, das embarcações tradicionais, no estuário do Rio Ave.

14H00 Almoço das tripulações na sede do Rancho da Praça.

16H00 Mostra das embarcações no Rio Ave (frente Praça da República)

Visita ao Centro de Memória das tripulações.

18H00 Navegação livre, das embarcações tradicionais, no estuário do Rio Ave.

21H30 Jantar das tripulações na sede do Rancho da Praça.

23H00 Animação cultural.

 

20 DE JUNHO – DOMINGO

10H30 Exibição e navegação, das embarcações no estuário do Rio Ave.

13h30 Almoço das tripulações e convidados de honra na sede do Rancho da Praça.

Entrega de medalhas e diplomas às associações e clubes participantes.

Encerramento do VIII Encontro de Embarcações Tradicionais.



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Quinta-feira, 6 de Maio de 2010
“A bandeira azul não quer barcos” - Catalunha

 

«O governo municipal de Sant Pol de Mar (Catalunha) renunciou à bandeira azul que recebeu como símbolo de qualidade das suas praias. A razão é que a Associação de Educação Ambiental e do Consumidor (ADEAC), o órgão que atribúi a bandeira azul, solicitou à autarquia a retirada dos barcos de pesca, símbolo maior das festividades desta praia, por incomodarem e ocuparem muito espaço no areal. E a cidade de Sant Pol disse que "aqui, vai-se festejar e dançar", e não vai ser uma agência com sede em Madrid quem define o modelo que as pessoas querem. A população já disse que quer continuar a viver do modo tradicional e portanto, não concorda com os argumentos vindos da ADEAC, retirando elementos das nossas praias, característicos da vida da vila e do património dos barcos de pesca locais. Apesar da retirada da bandeira, Sant Pol decidiu optar por outra certificação de qualidade, ISO 14001, para comprovar as boas praias e água, demonstrando que esta é perfeitamente compatível com a presença de barcos.
Há muito tempo que, em geral, somos considerados uma sociedade que vive do e para o mar e que, ao contrário de outros países, nós não sabemos apreciar o nosso património marítimo, defendê-lo e preservá-lo. Tirando uns quantos "românticos" apostados em restaurar alguns barcos antigos pondo-os de novo a navegar, e tímidos protestos quando a tradicional cabana de um pescador foi demolida, tal como um estaleiro naval histórico, ou tentaram “limpar” um bairro inteiro à beira-mar, a maior parte da sociedade não se dá “ao trabalho". Portanto, decisões como a da cidade de Sant Pol de Mar, recusando-se a retirar os barcos da praia pela bandeira azul, tem um valor enorme e me faz-me pensar que talvez nem tudo esteja perdido.

 


Não há tantos anos atrás, os barcos de pesca estavam presentes em muitas praias de Maresme (Catalunha) e no resto do país, e os barcos e os pescadores conviviam bem com os banhistas. Isto não é algo agora inventado, mas faz parte da vida, carácter, e génese de muitas cidades costeiras. Também não sei se eles (ADEAC) sabem que, no caso de Sant Pol, a presença de barcos na praia faz parte de um projeto de recuperação do património marítimo local, incluindo o restauro da casa de máquinas e a construção do sardinal (barco típico da sardinha) “Sant Pau”. Através destes elementos, a associação A Tot Drap periodicamente organiza actividades de praia que mostram os aspectos locais do passado marítimo, e das pessoas que constituem uma cultura singular e independendente.
Certamente que não agradou ao sector hoteleiro de Sant Pol de Mar o facto da Câmara Municipal ter renunciado à bandeira azul. Ou talvez sim. Pode ter começado a perceber que o sol e a areia, - modelo de turismo que tornou as praias do país em solários - começa a ser ultrapassado, e o turismo de "baixo custo" em massa já não permite Agostos lucrativos. É altura de um novo modelo de compromisso com o turismo, o turismo de qualidade, além da qualidade das infra-estruturas e serviços nos locais visitados, que também se sinta a oferta cultural própria destes locais e a capacidade de viver experiências únicas. Nesse sentido, penso que a herança marítima, adequadamente gerida, pode ser um elemento muito importante dentro dessa dinâmica de um novo turismo, isto para aquelas cidades costeiras que consigam e saibam preservar o seu passado marítimo.

 


Sant Pol de Mar, não é a única cidade que tem barcos na praia. Calella de Palafrugell tem, Badalona tem, Cadaques também... . Há muito tempo que Sitges também quer voltar a ter barcos de pesca na praia. Sei porém, que a pesca como se fazia anteriormente nas praias não é compatível com os usos actuais deste espaço e que não se pretende converter as praias em estacionamentos de barcos, meio vazios, mas sim aqueles que respeitem certas características, e especialmente que se movam e realizem actividades.
É a decisão da cidade de Sant Pol de Mar em se recusar a retirar os barcos da praia, perdendo a bandeira azul, que me faz pensar que talvez comece a haver uma sensibilidade na sociedade para o património marítimo e as formas de se relacionar com os aspectos do mar, parte da essência das comunidades de pescadores. (…)»

 

adaptado do artigo de Joan Sol – blog El Mar es el Camí - Catalunha

Um artigo PERFEITO, que se enquadra TOTALMENTE na realidade túristica da maior parte da costa portuguesa, de onde os barcos tradicionais e toda a cultura em volta deles foi erradicada, como ervas daninhas, em prol da bandeira azul que tudo limpou.

As 3 imagens a ilustrar o texto, representam Portugal ainda há poucas décadas atrás, respectivamente, Póvoa de Varzim, Costa da Caparica e Quarteira. A coexistência entre pescadores, barcos e banhistas é mais que evidente nessas imagens.

Sant Pol de Mar, é uma autarquia com visão, respeito pela sua gente e Solanum(s) lycopersicum(s).



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Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010
Morreu ou renasceu?

 

Descobri esta imagem há tempos atrás, e que me perdoe o autor, mas perdi-lhe o rasto desde que a guardei. A foto terá uns dois ou três anos e sempre que a revejo, receio pelo que terá acontecido a este barco, ou se ainda existe. Encontrava-se aqui, na margem Sul do Rio Ave, em Vila do Conde, junto aos actuais estaleiros navais.
O “receio” deve-se ao facto de ser um tipo de barco de transição, de alturas dos anos 50, quando a vela deixava de ser utilizada e se começavam a re-desenhar os barcos de pesca para lhes instalar motores fixos a bordo. Nota-se perfeitamente a semelhança de linhas com os velhos barcos de “boca aberta” (sem convés geral), com cadaste (ré), roda de proa e respectivos capelos, e apesar de já com motor, ainda o uso de leme com cana, tradicionalmente fixo por fora no cadaste. A grande inovação está no convés por todo o barco, com porão e casa do motor.
Mediante as enormes dificuldades que temos em Portugal com a nossa herança e cultura costeira, quase tudo já desapareceu nos últimos 30 anos por força de políticas “Bruxelianas” e seus cegos seguidores em terras Lusas, Galaicas e Algarvias, gostaria de acreditar que este barco não acabou num monte de lenha, mais um entre os milhares de outros.
Pode ser que o facto de se encontrar a seco, junto dos estaleiros, indicasse um bom augúrio.
 
Quiçá os conterrâneos comentadores
Albino Gomes ou Jaime Pião,
me saberão dizer um pouco mais
sobre esta embarcação.


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Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010
A preto e branco.

 

A “Companha” como Sistema Social”, é o título deste estudo de Knut Weibust, para o Museu Marítimo da Noruega, em 1958. Fica a dúvida se o estudo se centra somente na arte-xávega representada na foto da capa, ou vai mais além. É habitual as comunidades piscatórias terem sido estudadas pelo seu sistema social, hierarquias e formas de suporte. Normalmente vistas como “fechadas”, o comportamento dentro delas sempre se demarcou pelas diferenças ao resto do país. Numa estrutura social onde o sucesso de pesca farta era irmão do fracasso da invernia, ou destruição do peixe jovem, levada a cabo pela pesca de arrasto, o crime era quase inexistente e a fome mitigada internamente.
Aspectos sem dúvida dignos de estudo aprofundado.


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Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010
Barcos Tradicionais - Taxas portuárias 90% mais baratas.

Portos de Galicia reduce un 90% as taxas para embarcacións tradicionais.

 

Como xa anunciara recentemente, Portos de Galicia rebaixa as taxas para as embarcacións tradicionais. Onte 30 de decembro publicouse no DOG a Lei de Orzamentos de Galicia para o 2010 que modifica a Lei 6/2003 de Taxas, etc. introducindo unha bonificación das taxas portuarias para as embarcacións tradicionais do 90%. Transcribimos a redacción final do artigo:
e) ´Nas concesións ou autorizacións de dominio público portuario outorgadas a entidades náuticas ou culturais sen ánimo de lucro para actividades de ensinanza da náutica deportiva ou de conservación ou recuperación de embarcacións tradicionais terá unha bonificación do 90% no que se refire exclusivamente a estas actividades, sempre que non sexan obxecto de explotación económica´.
Esta é unha excelente noticia pola que levamos traballando e agardando moito tempo.”

Comentário - , 01/01/2010 - 14:17.
Felicidades. Este año ha de ser, de una vez por todas, el año en el que las embarcaciones tradicionales tengan por fin el reconocimiento debido y el apoyo legal que merecen. No peco de exagerado, ni mucho menos, si os digo que este paso que habéis conseguido en Galicia es un paso histórico. El primero del año y que os ha costado años conseguirlo. Pero el primero, y estoy convencido que no será el único. Gracias a todos vosotros por tantos años de trabajo.
Josep-Anton

Comentário - , 03/01/2010 - 14:12.
Parabéns!
No entanto, acho que para além deste primeiro passo, agora dado pelas autoridades marítimas, deveriam era dar um outro (talvez na mesma percentagem de 90%), como subsídio a quantos com as suas Tradicionais Embarcações, preservam todo o magnífico património desse povo marinheiro.
Viva a Cultura Costeira
Albino Gomes
Vila do Conde
 
Cometo a ousadia de transcrever o artigo recente da Federação Galega pela Cultura Marítima e Fluvial, pois a batalha por eles ganha neste aspecto merece-o. É a partir de agora 90% mais barato ter um barco tradicional na Galiza, em taxas portuárias. Relembro por exemplo que (ao que sei), se eu pretender ter uma típica catraia poveira, até 6 metros de comprimento, amarrada na marina da Póvoa de Varzim, terei de pagar 575 Euros por ano. 90% mais barato seriam apenas 57,50 Euros/ano. Tendo a lancha do alto “Fé em Deus” cerca de 12 metros... pagará actualmente 2.100 Euros/ano, suponho. Esta diferença significa muito quando alguém decide mandar construír um barco típico da sua terra, o qual promove e muito a sua comunidade, directa ou indirectamente, algo que os munícipios teimam em não perceber e apoiar.
A Galiza continua a lutar e a ultrapassar dificuldades no reavivar da sua Cultura Costeira, mas o Norte de Portugal, antigo Sul da região galaica, de igual cultura e língua, não lhe segue o exemplo. Que a nova catraia em construção em Vila do Conde já aqui noticiada e revelada pelo amigo Albino Gomes (autor do 2.º comentário), ajude mais um bocadinho a abrir os olhos de população e autarquias, mas muito poucos são os “remadores” que vamos tendo.
E já agora, venham notícias da catraia.


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Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009
Matosinhos - O Grande Naufrágio de 1947.

«O dia 1 de Dezembro de 1947 nasceu encoberto e sombrio embora não chovesse nem houvesse grande vento. As traineiras começaram a chegar mas o peixe que traziam era escasso. A meio da manhã, no entanto, entra em Leixões uma traineira carregada de sardinha. Os mestres das embarcações, perspectivando sucesso, decidiram então chamar as suas tripulações e mandar aprovisionar os seus barcos para outra saída.
Durante a tarde, com bom tempo, saíram de Leixões 103 traineiras para a faina. Rumaram a Sul, em direcção ao mar da Figueira da Foz.
Passadas algumas horas, subitamente, o tempo muda. As embarcações vêem-se envolvidas num imenso temporal. As ondas cavam abismos no mar e elevam-se, qual montanhas, ameaçando destruir a frota. O vento roda para NW e o ar arrefece cada vez mais. Cai a noite, escura, sem lua visível. Nuvens carregadas de chuva tapam o céu. Os ventos manifestam-se em rajadas ciclónicas. O mar brame cavernosamente, como que exigindo o sacrifício de inocentes. Os motores e máquinas das traineiras são esforçados ao máximo, em busca de porto de abrigo.
Já noite, com a luz da manhã ainda longe, em terra, sentem-se murmúrios, soluços incontidos, pessoas a correr em direcção ao areal da praia nova, em Matosinhos. São as mulheres e os filhos, os pais, a família em busca dos seus. Sabiam que algo ia mal. Era grande a angústia e o desespero.
Na cabeça do molhe sul do porto de Leixões as pessoas apinham-se na esperança de ver entrar as traineiras. Ao longe vislumbram-se luzes de navegação; eram barcos que procuram conseguir encontrar um caminho para chegar a bom porto.
Começam a chegar, com muitas dificuldades, as primeiras traineiras que se conseguem salvar. As notícias não são boas.
Foram avistadas 4 traineiras a navegar muito perto da costa, entre a Aguda e o Senhor da Pedra (Vila Nova de Gaia), em situação aflitiva. Eram a “D.Manuel”, a “Rosa Faustino”, a “São Salvador” e a “Maria Miguel”. Alguns mestres de traineiras, com as suas sirenes, com sinais, até com gritos, tentaram orientá-los para conseguirem sair daquele perigoso local, mas a violência do temporal impediu-os de serem bem sucedidos.
O ambiente estava envolto num pesado e sinistro luto. As pessoas gritam sem se verem umas às outras, e correm, desnorteadas, de um lado para outro, sem objectivo definido.
Decorrido algum tempo chegam as fatídicas notícias: as 4 traineiras em dificuldade naufragaram. Em outras, homens caíram ao mar, desaparecendo para sempre.
Faleceram 152 tripulantes.
Pais, filhos, irmãos foram assim subtraídos à sua família, levando a dor e a desolação a centenas de lares humildes de pescadores, deixando 71 viúvas e 152 órfãos.
O luto instalou-se em Matosinhos, em Espinho, na Murtosa, na Póvoa de Varzim e em Vila do Conde.»

 
Por Nuno Marques Garrido – MarForum, 21 de Maio de 2007.
 
 
«Assinalando 60 anos passados sobre a trágica madrugada de 1 para 2 de Dezembro de 1947 vai a Câmara Municipal de Matosinhos e a Junta de Freguesia proceder ao lançamento de um livro, na Capela de Santo Amaro, da autoria do Prof. A. Cunha e Silva e de Belmiro Galego, no próximo dia 2 de Dezembro pelas 10horas da manhã. Este livro é o fruto de uma aturada investigação de um Leceiro e de um Matosinhense, dedicados à sua terra, à sua gente e ao seu património; que percorrendo várias bibliotecas e inúmeros jornais e revistas coligiram e dão a conhecer, os relatos feitos na época dessa medonha madrugada em que o mar tão repentinamente se levantou e levou 152 pescadores, que no regresso da sua faina já não chegaram ao seio dos seus familiares que, como de costume, os esperavam na praia. Foi na realidade uma negra e sinistra madrugada essa a de 2 de Dezembro de 1947, em que naufragaram entre Aguda e Leixões quatro traineiras: a “D. Manuel”, a “S. Salvador”, a “Maria Miguel” e a “Rosa Faustino”, tendo perecido 152 homens sem a menor hipótese de que alguém lhes valesse.
As traineiras da praça de Matosinhos haviam saído para o mar, como habitualmente, às dezenas, apesar de haver vários prenúncios de temporal, pois para os pescadores o espectro da fome sempre se sobrepôs ao medo e sempre fez com que esses valentes e ousados lobos do mar galgassem as ondas saindo a barra, para quantas vezes não mais voltarem!
Há casos fantásticos, como o daqueles três homens que no reboliço da traineira “D. Manuel”, com o espectro da morte à sua frente, foram arrojados à praia do Cabedelo, procurando ajuda numa das pobres casas aí existentes; ou aqueles dois outros que depois de terem sido roubados de bordo com outros dois camaradas, foram de novo lançados para dentro da traineira, e um dos que o mar não devolveu, mantendo-se agarrado a uma tábua, teve a sorte de por ele passar uma traineira que lhe lançou uma bóia, a qual enfiando-se-lhe milagrosamente pela cabeça, o salvou, ou ainda aquele outro que a bordo da traineira “Rosa Faustino”, passando com terra à vista, se lançou ao mar nadando até à exaustão sendo recolhido das ondas, salvando-se com outros dois arrojados à praia pelo mar!
Deste modo, de quatro companhas das quatro traineiras afundadas, apenas se salvaram seis camaradas em tão horrorosa tragédia marítima que enlutou não só a costa nortenha mas praticamente toda, de norte a sul, não havendo memória de catástrofe maior, a qual, para além daqueles que levou, deixou também muitas viúvas e órfãos mergulhados na dor e na desolação.
O livro “O Naufrágio de 1947” será assim um elevado preito de homenagem da Câmara Municipal, da Junta de Freguesia, dos autores, mas não só, pois será também o reconhecimento por todos aqueles que assistirem ao lançamento, que recordarão muitos daqueles que se sacrificaram pela elevação e desenvolvimento desta nobre cidade de Matosinhos – Leça.»
 
Eng.º Rocha dos Santos
in "A Voz de Leça" - Ano LIV - Número 8 - Novembro de 2007
 
Esta obra intitulada “Naufrágio de 1947 – Toda a Saudade é um Cais de Pedra”, já editada há cerca de ano e meio, é um dos melhores exemplos à memória de quem sofreu com esta tragédia até aos dias de hoje. Este foi o maior naufrágio de que os pescadores têm memória, o qual marcaria a vida dos pescadores e das comunidades piscatórias de todo o país, em especial do Norte. A sua aquisição é quase óbvia para quem se interessa pelo mar e por quem teimosamente nele se mete... merecendo sempre a nossa admiração e estatuto superior ao que têm hoje.
Este naufrágio ficou na memória pelo terrível número de homens que pereceram, tal como o também conhecido naufrágio à entrada da Póvoa de Varzim em 27 de Fevereiro de 1892, perecendo 105 pescadores em 8 embarcações. No entanto, poderia encher-se uma biblioteca inteira com as centenas de naufrágios de que já ninguém fala. São em especial esses “esquecidos” que mais merecem investigação e memória representativa, no imenso universo piscatório.


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Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
“Octávio Lixa Filgueiras: Arquitecto de Culturas Marítimas”.

Octávio Lixa Filgueiras:

Arquitecto de Culturas Marítimas
 
Apresentação de Livro
28 de Novembro | 18h00
Museu Marítimo de Ílhavo
 
coordenação. Álvaro Garrido e Francisco Alves
edição. Âncora Editora
 
«A publicação dos textos apresentados no Colóquio Internacional Octávio Lixa Filgueiras: Arquitecto de Culturas Marítimas põe em evidência a renovação e vitalidade dos estudos dedicados aos temas do património marítimo e da cultura marítima em geral.
Este livro reúne um conjunto de ensaios de evocação da obra ímpar do arquitecto e etnógrafo naval Octávio Lixa Filgueiras (1922-1996). De carácter inédito e pluridisciplinar, os textos interessam a museólogos, arquitectos, historiadores, antropólogos e a todos os cultores do património marítimo.»
 
Álvaro Garrido
 
Tal como refere Álvaro Garrido, esta obra interessará a todos os que estudam e procuram perceber e  transmitir, em especial, a cultura do Mar. O Arq.º Lixa Filgueiras publicou inúmeros estudos, artigos e alguns livros sobre embarcações tradicionais portuguesas, demonstrando que “o barco” tem papel central da definição das diferentes comunidades marítimas, fluviais ou lagunares. Perceber as origens e arquitectura de um barco, é desvendar os movimentos do homem e as suas necessidades de sobrevivência. Um desses barcos, sobre o qual se debruçou várias vezes, foi o afamado Barco Poveiro (denominação que várias vezes provoca discussão por sub-entender-se que foi “inventado” por poveiros. Não se trata de ter sido “inventado”, mas sim “fortemente / amplamente usado” nesta comunidade). Publicou um livro sobre o estudo deste mesmo barco em 1966, reeditado em 1995. Como tal, também a ele lhe deve muito a Póvoa de Varzim e será de esperar que o pelouro da Cultura do concelho se associe a este lançamento.


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Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
O projecto DORNA.

«As muletas podem voltar ao Tejo. Hoje desaparecidas, foram as principais embarcações utilizadas até ao início do século XX na pesca do arrasto efectuada ao largo da costa da Caparica. Tal como as muletas, há outros tipos de barcos tradicionais portugueses que poderão ter uma segunda vida, ao abrigo do Projecto Dorna, promovido pela Associação das Indústrias Marítimas (AIM). Este projecto está a desenvolver a marca BATE - Barco Atlântico Tradicional Europeu, que certificará a qualidade da sua construção, desde o tipo de madeira utilizada, até à técnica utilizada no seu fabrico, que seguirá os melhores padrões da carpintaria naval.

Filipe Duarte, director técnico da AIM, refere que o projecto Dorna está bastante avançado, sendo liderado pela Diputación Provincial de A Coruña. Além da portuguesa AIM, o DORNA integra ainda o Colégio Oficial de Arquitectos de Galicia, a Agencia de Desarollo Comarcal OARSOALDEA, o Causeway Coast Maritime Heritage Group e a GALGAEL - ambas instituições do Reino Unido -, e a Conselleria de Pesca espanhola.
O objectivo deste projecto é recuperar a construção naval tradicional, que está a desaparecer em toda a Europa, conservando um património histórico cuja manutenção só é viável se a indústria naval tradicional for modernizada de forma inteligente. Este objectivo só é concretizado se forem cruzadas diversas valências, entre as quais a formação profissional, o desporto, o turismo e a actividade comercial, além da perspectiva didáctica e cultural.
Para o efeito, a AIM refere que estão a ser efectuados planos directores de recuperação das infra-estruturas dos estaleiros tradicionais portugueses e de levantamento das embarcações tradicionais do espaço atlântico. Outro vector fundamental deste projecto é a criação de uma plataforma de comércio electrónico que facilitará o acesso dos estaleiros tradicionais aos mercados que têm apetência pelas embarcações de madeira típicas.
Já foram identificados os principais estaleiros que podem ser incluídos no projecto DORNA, entre os quais a Socrenaval, de Vila Nova de Gaia, onde se continuam a construir barcos rabelos. Tal como os moliceiros construídos na zona de Ílhavo, perto de Aveiro. "Aliás, o próprio presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, Ribau Esteves, tem sido um estusiasta deste projecto", refere Filipe Duarte, comentando que "esta zona, da área de influência da ria de Aveiro, beneficia da experiência do museu marítimo local".
Mas haverá muitos outros estaleiros navais tradicionais susceptíveis de serem integrados neste projecto, tais como o Réplica Fiel, no Seixal, embora a iniciativa dos accionistas e donos dos estaleiros seja determinante, porque serão eles que terão de candidatar as suas unidades ao processo de modernização que posteriomente as transformará em Museus Vivos.
Finalmente, haverá uma componente turística, fundamental neste projecto, porque contribuirá para a sua rentabilização. Na realidade, estas embarcações são emblemáticas e servem de ex-libris regionais. A ideia é integrar os barcos típicos portugueses nos pacotes turísticos promovidos pelas agências de viagens, de forma a disponibilizar viagens costeiras com uma componente cultural regional. "Mas o projecto Dorna não se fica por aqui, porque foram previstas muitas outras iniciativas, como seminários, eventos transnacionais, exposições e workshops", adianta Filipe Duarte.»
 
in jornal EXPRESSO – 28/04/2009 – J.F. Palma-Ferreira.
 
Embora pareça que esta maravilhosa ideia de reconstruír barcos tradicionais “construtivamente” tenha agora “caído do céu”, já alguns países e regiões o fazem com grande sucesso desde há vários anos, por iniciativa das próprias comunidades. Em Portugal infelizmente, a iniciativa própria custa sempre muito a desenvolver-se e quando surge, os obstáculos legislativos e financeiros não permitem o avanço. Mesmo quando organizações estrangeiras “injectam” o seu interesse no nosso património a ver se lhe pegamos... nem assim muitas vezes a coisa vai.
Veremos então se vai ser desta, que o património de cultura costeira portuguesa vai começar a renascer, sim, “começar” porque o projecto é a nível nacional e estas coisas levam pelo menos um par de décadas a arranjar interessados, a instalar-se e a multiplicar-se. Acima de tudo, o que mais custa é criar a organização.
Ainda assim, pergunto: e se eu quiser abandonar o escritório e pôr mãos-à-obra a construir barcos tradicionais da minha terra? De quem e que tipos de apoios poderei ter?
Ao saber agora do arranque deste projecto DORNA, ainda mais acredito que as visões que tenho da cultura costeira (como muitos as têm), em especial na minha terra, se podem tornar realidade a tempo dos “velhos” homens do mar ainda as (re)verem. Verem catraias de novo a ser construídas à moda antiga junto à praia na Favita, em simples barracões, as velas a serem cortadas e cosidas, o cheiro do breu a ferver e acima de tudo, ver depois os barcos “vivos”, usados pelos seus filhos e netos em regatas organizadas, e todo o rol de eventos que a DORNA refrere e não são novidade. A praia das Caxinas voltava ao seu “novo” passado, o areal teria de novo barcos e barracões de aprestos, praticava-se e ensinava-se vela tradicional, até se voltava a ir à pesca “para turista ver”. Enfim... as visões são muitas, mas por vezes só quando uma organização ou “senhor estrangeiro” nos vem mostrar o valor disto (como aconteceu na Galiza há 30 anos, com o sueco Staffan Morling), é que lhe daremos razão.
Houve um tempo, em que os Portugueses foram pioneiros nos assuntos do Mar. Punham-se à proa do navio, e não à popa.
Agradeço ao amigo Albino Gomes o comentário de há dias sobre o excelente trabalho de campo  que tem vindo a ser feito. Presumo que se refere a este projecto DORNA. Acreditemos que este projecto de uma vez por todas vai impulsionar e dinamizar a nossa cultura costeira e que vai apoiar quem realmente quer trabalhar em prol dela.
 
foto 1 – Construção de um bote polbeiro em Bueu, Galiza.
foto 2 – Catraias nas Caxinas – in Octávio Lixa Filgueiras – “O Barco Poveiro”.


publicado por cachinare às 18:38
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