Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007
Caxinas de antigamente 3/3.
Eis uma última quadra de fotos das Caxinas “que já lá vão”. A primeira foto é uma das minhas favoritas, pois fiz praia muitas vezes durante o Verão exactamente neste sítio e olhar para esta foto é pôr-me a sobrepor as imagens da memória com ela. Há 15 anos atrás já não existiam estes barcos pela praia fora e nunca imaginei que esta praia onde jogava eu futebol foi como esta foto ou seguinte mais abaixo onde se vê o portinho apinhado de gente, tudo cheio de movimento piscatório... e nenhuns banhistas, que hoje em dia e desde há vários anos invadem tudo. Por um lado é bom, pois trazem dinheiro à comunidade, mas por outro são também sinal de que a vida destas fotos já não é possível... ou é? Este passado Outubro, fiz 3.500 km de carro desde a Polónia até às Caxinas e foi xactamente em frente a este portinho que parei o carro antes de saudar a família. Foi aqui que pús os pés no chão pela primeira vez e de imediato fui até à areia todo contente. Do que se vê na foto, restava na praia uma caíca pequenota, penso que “só para enfeite” da praia, a recordar como era dantes e quando vejo o tempo de hoje e o turismo tão presente nas Caxinas, penso porque não se usam destes barcos tradicionais em prol dos turistas? Muitos pagariam para ir dar uma volta numa destas caícas e a tradição não morria ou caía no esquecimento. Lembro-me de uma altura em que se podia dar umas voltas de “gaivota”, daquelas a pedal, mas eu prefiro os barcos a remos. Dava-se trabalho aos estaleiros de Vila do Conde, construíam-se umas 10 ou 20 caícas que passariam a dormir de barriga para as estrelas como as suas antepassadas, para no Verão carregarem com turistas. Mais uma vez gostava eu que o que escrevo saísse desta página e fosse tornado realidade, mas na vida não basta gostar.
Numa outra foto, indica serem os anos 60 e as redes a virem dos barcos para cima e por fim na quarta está o “tio Manel” todo repimpado a arranjar o seu peixe ali junto à água sem querer saber dos turistas (ou simples caxineiros). É mesmo destes que eu gosto. Recorda-me o quanto gostava eu de arranjar o peixe lá de casa e as saudades que tenho disso. Sempre que tinha oportunidade e a mãe deixava, lá ia eu para o canto do quintal com duas bacias, uma cheia de peixe e outra de água, mais a faca bem afiada antes na pia da roupa, para ir arranjando os diferentes peixes. Como o pai é pescador e a mãe pescadeira, sempre houve em casa imenso peixe, de todos os tipos e tamanhos e por isso aprendi muito. Queria lá saber do cheiro nas mãos depois! Para um puto de 10 anos, alguns dos peixes eram um autêntico quebra-cabeças, pois havia os cheios de dentes como o peixe-sapo ou os que “lixavam” (não é palavrão) as mãos, como cações e raias. Havia os “escorregadios”, os “grandes demais para mãos ainda pequenas” os pirraus todos coloridos, raros e bem gostosos, enfim, era uma festa. Cá por Cracóvia não há festas destas... e as Caxinas estão longe, muito longe.
Tal como um colega intitulado “dolphin” comentou (e agradeço) há dias sobre algumas memórias de criança que aqui tenho transcrito, foram sem dúvida anos mágicos que gostaria de reviver ou de ver miúdos a fazerem o mesmo hoje. Daquele modo hoje é impossível, pois em 20 anos as Caxinas e o mundo mudaram muito. Que me perdoem o “cliché”, mas naquele tempo não havia computadores, telemóveis e pouca tv se via, excepto à noite. O tempo corria mais devagar. Não se tinha vergonha de andar descalço,  de levar o barco de lata debaixo do braço para ir brincar na praia, de jogar berlindes, caricas e pião em frente à porta, de correr feito doido pela rua fora com papagaios feitos de canas, pneus velhos de mota ou de lançar mini pára-quedas feitos de sacas de plástico do terraço da casa e que o vento levava sempre para o quintal de outro vizinho. O que temos hoje em dia transmite certos sinais que me fazem sentir mais pobre, ou melhor, afortunado por ter tido a “sorte” de nascer “naquele tempo”, em que a “civilização, limpeza e modernidade” ainda não tinham estragado certas coisas das quais pude usufruir. Digo por vezes que nesse tempo a mente de uma criança ainda era livre. Hoje, de tal duvido.


publicado por cachinare às 12:31
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito

Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007
Caxinas de antigamente 2/3.
Eis uma 2ª tranche de fotos sobre um modo de vida já ido das praias das Caxinas, embora algo de artesanal ainda se pesque no meio e para lá daqueles rochedos. Na primeira foto, as rochas que ali se veem foram alguns anos mais tarde “alongadas” com pedra e existe hoje ali um pontão simples, só de pedras. Gosto bastante da segunda foto, com as mulheres a atar as redes em expressão enigmática e pensativa, enquanto o puto brinca por perto. Como era fenomenal passar as tardes quentes ali na praia ao lado da mãe, da avó ou da tia, com as vozes, a areia carregada de pequenos e inspiradores à criatividade pedaços de coisas que o mar trouxe, conchas, bóias velhas, tábuas das caixas do peixe com pregos vivos e ferrugentos. Eram estas tábuas as minhas favoritas para atirar à água e ver como deslizavam nela, aprendendo e percebendo como navegam os barcos a sério. Anos mais tarde na escola aprendi que chama-se a isso hidrodinâmica e aquilo fascinava-me. Fi-los depois em chapa, com latas de ananás ou latas de tinta de cinco litros, ensinado pelo meu pai, que me mostrou pela primeira vez, tinha eu uns 5 anos, com um simples martelo e faca de mesa velha, como se corta a lata e que é importante dar-lhe quilha e leme atrás. Tenho a certeza que muitos assim fez ele quando era puto, nos anos 50. Depois com betume tapa-se no fundo, os buraquinhos na chapa da proa e da ré, de seguida dois furos, um de cada lado è proa e passa-se o cordel para puxar o orgulhoso navio a cortar a água. Sonhei durante anos que a lata do lixo lá de casa, que era uma lata de gasóleo dos barcos, aí de 50 litros ficasse velha para de imediato eu a rapinar e fazer um barco mesmo grande, que talvez aguentasse comigo ali nas águas calminhas da praia do Fieiro. Tal nunca aconteceu, porque a lata aguentou mais do que devia e eu cresci. Ainda assim fiz muitos destes barquinhos de latas, pois o leme partia-se depois de umas 10-15 dobradelas e era preciso um barco novo. Quando a mãe não ia tratar do peixe à lota e se ficava em casa, metia-se o barco na pia da roupa e passava-se o tempo a tentar medir quantos berlindes carregava o barco sem afundar. Era a minha escola favorita. Houve uma altura em que fiz barcos com garrafas de plástico ou garrafões de lexívia. Estes carregavam imenso berbigão e ameijoa no Fieiro, mas não eram bonitos como os de lata. Mais tarde descobri que os carrinhos a pilhas tinham motores e lampadinhas bem interessantes e então... começam os barcos de esferovite a motor, mas essa já é outra era. Fica para depois.
Na terceira foto, lá estão as mulheres já a dar tratamento ao peixe acabadinho de chegar e para venda. Vi isto na lota velha da Póvoa tantas e tantas vezes, pois era isto que a minha mãe fazia, tratando do peixe dos barcos que o traziam a terra nas “chalandras” (botes), onde depois as mulheres o tratavam e o tractor puxava para a lota. Andava eu por ali perto atrás dos cardumes de taínha e peixinhos minúsculos nas águas quentes e paradas. Um dia consegui apanhar um, meti-o dentro de um saco de plástico transparente com água do mar todo contente. Juntei-lhe um caranguejo pequenote e uma horita depois... não vou dizer o que o caranguejo fez ao peixito. Mais uma vez a escolinha da vida junto ao mar ensinava a lei da vida.
Por fim na quarta foto, dois velhos do mar, assustadores para os putos muitos deles e alguns pensava eu que eram feitos de cortiça daquela com que se faziam bóias para as redes, pois quando olhava para eles, a cara era tal e qual e quando falavam era voz rouca e seca. Ao mesmo tempo fascinavam-me tais figuras, pois sabia que o mar moldou-os assim e que passaram a ser criaturas dele, em corpo e em mente até ao fim da vida.


publicado por cachinare às 13:27
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito

Quinta-feira, 22 de Novembro de 2007
Caxinas de antigamente 1/3.
Este “Lugar das Caxinas” que nem direito a ser freguesia tem, é apenas a maior comunidade piscatória do Norte de Portugal, no entanto os muitos turistas que a visitam hoje em dia, pouca ideia fazem do que era antigamente, pois a traça das “caícas” na praia e as dunas já não estão lá. O que está é muito preto (alcatrão) e linhas sem curvas ou enfeites, vulgo “arquitectura moderna”. Mas como gosto de escrever sobre o antigo, cá ficam algumas fotos de caxineiros antigos, uma delas com a praia inundada de caícas (autênticas cascas de noz) e a maré bem baza. Ali naquelas pedras não faltava rico mexilhão e navalheiras. As duas fotos de cima mostram alguns caxineiros que atravessavam o Atlântico em busca do bacalhau. A sua importância para a comunidade era tal que tinham direito a foto de grupo, homens de todas as idades, verdes e mestres, geração após geração continuando imensos caxineiros na Faina Maior. Veem-se também homens a bordo de um lugre, o qual me é impossível identificar, no entanto penso que estas fotos reportarão aos anos 20 ou 30. Por fim a foto dum bota-abaixo, o orgulhoso Tulipa Negra, com um dos possíveis mestres mortinho por meter as redes ao mar.


publicado por cachinare às 09:18
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007
“Custa-me ver o mar”.
Aponto primeiro que tudo o aspecto da foto, de jornal , de tez velha e gasta, quase desinteressante e que não capta o olhar, pois é exactamente este o aspecto do caso do “Luz do Sameiro” para os senhores doutores, ministros, comandantes e demais afilhados que andam com o assunto em mãos desde há dez meses. E estavam eles tão bem sentados. O barquito até é tão pequenino que lhes deve chatear imenso ainda andar-se a falar do assunto. Ainda se fosse um transatlântico ou um grande arrastão espanhol, agora este barquito... que chatice, pá. Lá se vão os objectivos de contenção do Estado só em indeminizações. 60 milhões já pagos pela câmara de Lisboa, de dívidas em dois meses? “Tá-se bem”. E isto foram só dívidas inferiores a 10.000 Eur... “Cala-te boca!”, como diz a minha mãe tantas vezes.
Já muito e muita gente escreveu sobre o assunto do naufrágio e nos últimos tempos acabava eu sempre por não querer escrever sobre isso, pois sou apenas mais um Caxineiro que já está habituado a muitas mortes desnecessárias no mar desde que nasci. Mas há também dias em que mais uma ou outra notícia sobre o andamento do caso acaba por revoltar tanto que há que disparar alguma revolta contra algum sítio e por isso cá está ela no blog.
Ainda ouvi ontem que o relatório vindo das “altas instâncias” refere-se ao caso como algo de tão menor importância e até retirando quaisquer culpas a quem tem a obrigação de salvar, que me faz pensar uma vez mais sobre o passado. Refiro-me ao passado porque quando as pessoas eram tratadas da forma que eram por monarcas ou mais recentemente pelo ditador Salazar, todos compreendiam que eram tempos difíceis, passava-se fome e a sociedade era dividida em classes. Tirando os coitados da classe baixa, vivia-se numa sociedade minada por interesses a conseguir a qualquer custo, ou em tempos de ditadura, com um controle doentio a muitos níveis, mas quem sou eu para falar disso se nunca vivi nesses tempos... tive a “sorte” de nascer em 75. Pelos vistos eram tempos de diferença abismal comparando com o nosso... ou será que não? Eram tempos em que quem estava no topo muitas vezes pouco ou nada olhava para baixo e se olhava fazia-o com altivez.. Enfim, é melhor não exagerar nisto. O que me confunde é que em tempos correntes, supostamente tão “socialistas” (não sei o que isso significa) não faltam os casos em que até se sente este “desprezo”, esta falta de contacto entre quem está no poleiro e os que têm as mãos calejadas pelo peso e salitre das redes, a cara queimada e enrugada pela brasa do Sol e pelos invernos, o cheiro ao peixe entranhado quando chegam ao fim-de-semana a casa com o baú, uma das imagens mais marcantes que tenho do meu pai em anos passados, era eu puto. Que me perdoem os que trabalham a terra, mas sou gente do mar e é sobre eles que sei falar. A vida, bem sei, não é difícil só para os do mar... mas a morte não está tão presente nos da lavoura, que mal ou bem, dormem no seu cortelho e poderão temer algumas agruras do tempo nas colheitas, ou doença no gado, um tractor que se vira... pouco mais. No mar é diferente, muito diferente. É estar à mercê do poder daquela imensidão de água, do tempo e de sabedoria antiga, pois as máquinas não sabem tudo.
Ora “Custa-me ver o mar” é expressão pertencente ao homem dono do "Luz do Sameiro", que para sua felicidade ou infelicidade não andava ao mar e acabou por ver amigos e um filho morrerem da forma que toda a gente já sabe, a 20 metros da praia enquanto outros assistiam. O artigo, li-o no DN, (cá está o link) e só deixo aqui a parte final, para que se tente interiorizar o que é viver o dia-a-dia com tragédias destas, ainda mais quando familiares próximos nos deixam de tamanhas formas e não se respeita a dôr de quem fica:
 
“(...) Manuel Maio foi progredindo na pesca. De permeio, 13 anos embarcado na Alemanha, regresso a Caxinas, e mar, mar com o filho mais novo, então em barco próprio. "O meu Inácio era muito bom, nunca negava peixe a quem lho pedisse. Era o menino querido da mãe, coitada, ela perdeu o rumo do Norte." E com ela, conta, "as cinco viúvas". Agora? "O que vai ser destas famílias? Será que o dinheiro do seguro dá para educar os filhos? No meu caso, continuo a tradição, todos os sábados reúno a família para uma sardinhada, a ver se encaramos a vida de outra maneira, mas... quantas e quantas vezes fujo de casa para não ver a minha mulher desfeita em lágrimas. Mar, nunca mais! Tenho direito ao descanso. E quero cuidar dos filhos do meu Inácio, duas meninas de 14 e 18 anos e um rapaz de oito. Aqui há tempos foram à arrecadação que tenho para ali e, na brincadeira, abriram as portas das gaiolas de pássaros. Foi quando me deu vontade de rir."
in Diário de Notícias online, Sábado, 3 de Novembro de 2007.


publicado por cachinare às 12:31
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007
As cassetes.
Foi há 3 semanas atrás que finalmente chegou a hora de visitar de novo Portugal e as cassetes mais o gravador foram comigo tal como planeado, para sacar tudo o que pudesse ao meu pai sobre as suas 8 campanhas ao bacalhau. Comigo foi também um álbum fotográfico com inúmeras fotos de lugres e navios, uma espécie de antologia da Pesca do Bacalhau. Confesso que a maior parte das fotos e muitos dos comentários para preparar este álbum de 202 páginas foram obtidos no blog "noseomar", ao qual novamente tenho de pedir desculpas pela ousadia, mas a verdade é só uma: este é o mais completo sítio na internet sobre a Faina Maior e o meu pai merecia ver isto, ter isto em casa, pois internet não é coisa dos seus horizontes.
Foi a primeira coisa que fui buscar ao saco, logo no dia da chegada, no fim do jantar. Pús-lhe o calhamaço à frente, disfarçado em papel de embrulho de Natal, pois não tinha outro à mão em Cracóvia e foi até ao dia da partida a preparar tanta foto. De gravador já a rodar ao meu lado, esperei em silêncio sorridente que desembrulhasse aquilo e na cozinha mãe e irmão (e esposa, que já sabia do que se tratava) opinavam sobre o que seria.
Mal viu a capa com um grande bacalhau e a foto do Novos Mares a sair de St. John´s, mudou-se ao meu pai a expressão que tinha na cara, pois nunca esperaria aquilo. Maior ainda foi o espanto quando na 2ª página viu a ficha do Grémio dos Armadores relativa ao meu avô, seu pai, impressa a cores em A4. De imediato a minha mãe comentou com imensa surpresa que ninguém na famíla possuía tal documento e de imediato começaram a folhear o album pausadamente. Estando tudo em sequência desde os navios mais antigos até aos de meados de 70, já no princípio me perguntavam se tinha fotos do Novos Mares, mas eu mantive o silêncio, pois tais estavam mais para o fim. Folha a folha lá iam saindo comentários de memórias sobre lugres e navios dos quais se lembrava de ainda ver a pescar e para meu regozijo, tudo a gravar. Assim foi durante hora e meia, pois pescador de terra também tem de se levantar cedo e o trabalho das redes obriga a descanso disciplinado.
Muita coisa foi dita e contada pela primeira vez desde que conheço o meu pai, coisas que nunca imaginei e pelas quais passou naqueles 8 anos de bacalhau para livrar a tropa. Uma 2ª cassete foi gravada uns dias depois, essa sim já com perguntas ordenadas, desde o dia em que se saía de casa com o saco às costas e se apanhava o autocarro para Lisboa onde o navio já esperava os pescadores para a campanha, até ao fim de tudo seis meses mais tarde, na verdade até Agosto de 1974, data do regresso de St. John´s a Portugal mais cedo, nesse ano da Revolução.
O meu tempo de estadia em Portugal foi escasso, mas tive a sorte e oportunidade de entrevistar ainda um compadre do meu pai, também das Caxinas e amigo seu desde pelo menos 1972. Para ser breve, as 8 campanhas do meu pai comparadas com as 9 dele, foram um “mar-chão”, pois na verdade o meu pai nunca teve problemas de maior no Novos Mares nem nunca soube o que foi naufragar. O seu amigo pelo contrário, viu a morte à frente por 4 vezes nos 5 navios em que andou. No Coimbra, naufragou, no São Jacinto, naufragou , no Luiza Ribau, acidente com dóri e noutro ano naufragou, fez a campanha de 1974 com o meu pai no Novos Mares e uma última no Conceição Vilarinho. Gravei com ele hora e meia da sua experiência e houve momentos em que percebi nalgumas expressões de verdadeiro terror porquê que o mar marca tanto um homem...
Depois deste trabalho, tenho pregadas na memória as fotos dos pedaços do Novos Mares (que se podem ver no blog "noseomar") que andam espalhados por Ílhavo e percebo que 4 anos sem interrupção da vida do meu pai foram passados dentro daquelas tábuas, contando que naqueles 8 anos, cada campanha eram 6 meses.
Brevemente começarei a passar todo o áudio à forma escrita e a partir daí decidirei o que fazer a este material. Gostava um dia de ver editado um livro com as memórias dos pescadores bacalhoeiros das Caxinas, mas estando eu tão longe deste “Lugar” não vai ser fácil elaborar tal obra. As Caxinas merecem tal documento, pois como o meu pai contou, quando por volta de Abril, Maio começavam as campanhas... “a Caxina ficava vazia de homens, só se viam mulheres e canalha pelas ruas”. Além disso, quantas terras de Portugal têm ruas e travessas com o nome “Mares da Gronelândia”? Não sei, mas pelo menos as Caxinas têm-nas.
 
Antes de terminar, inclúo esta nota referente a uma história publicada recentemente no blog "maolmar" sobre o naufrágio do São Jorge por um homem que fazia parte da tripulação. A narrativa é muito bem escrita e acaba também por estar ligada ao meu pai, pois o Novos Mares e o São Jorge eram os dois últimos navios a deixar St. John´s rumo a Portugal em 1974 e aquando do incêndio no São Jorge, foi o Novos Mares quem valeu àqueles homens. Tal como vários outros lugres e navios, também o Novos Mares para mim e outros se tornou mítico, pois foi o único navio de pesca à linha que “sobreviveu” e pelas fotos... morreu.


publicado por cachinare às 11:42
link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 4 de Outubro de 2007
A “Inça” das Caxinas.
Imagem bonita e singular, pois mostra parte da praia das Caxinas, denominada “Inça” ou “Portinho” onde fui tantas vezes para disfrutar desta quase piscina de mar natural. Não, nunca me atirei de cima do cruzeiro que existe em cima destas pedras, o símbolo das Caxinas, como tantos putos o faziam e ainda fazem, pois se chegasse a casa com a cabeça partida, a mãe partia-me o resto.  Sempre foi o meu sítio favorito para nadar, mesmo com o fundo de pedra e mais ao largo mexilhão e ouriços a cortar os pés. É para mim uma foto singular porque reporta aos anos 60 ou 70 e tendo eu nascido em 75 não me recordo de ver já esta faina. O máximo que me recordo é de ver um par destas “caícas” de barriga para o ar na areia, nada mais, pois no presente só se vêm umas “chalandras” ou “chatas”, também de papo chato ao Sol. Devo referir que esta imagem está catalogada como um “postal de Vila do Conde” com o título “Pescadores das Caxinas, 1960s”. No site http://caxinas.com.sapo.pt/ descobri a mesma foto a preto e branco, com o título “Varar o Barco, Caxinas 1970”. Aconselho a visita a este site, pois apresenta uma boa colecção de fotos antigas.
 
Aqui fica a saudade entre tantas, de ir dar uns mergulhos à “Inça”.


publicado por cachinare às 14:37
link do post | comentar | favorito

Sábado, 29 de Setembro de 2007
Mar.
Caro amigo Blue Moon I,
Agradeço o elogio sobre os Fangueiros serem “tesos para o mar”. Não é por eu ser um deles, mas concordo que é gente que cresceu no salgado da vida como diz.
Eu sou filho e neto de Fangueiros e pela parte da mãe de Marques, portanto sempre foram gentes do mar. Da parte do pai são todos das Caxinas e da mãe da Póvoa de Varzim. Eu fui “forçado” a estudar, para não seguir “essa vida de cão” como sempre disse minha mãe e lá o conseguiu. Sempre fui empregado de escritório, hoje emigrado na Polónia, mas a falta do mar corrói-me pois cresci e vivi abraçado a ele durante 27 anos e custa muito estar longe dele... Acredite que não fui feito para estar na jaula dum escritório.
O meu avô, M. Agonia Fangueiro fez 15 campanhas ao bacalhau de 1946 a 1960, 6 no lugre Rio Lima e 9 no Santa Maria Manuela. Suspeito que esteve envolvido no naufrágio em 51 do Rio Lima, mas terei de falar com o meu pai sobre isso, pois o meu avô faleceu há uns meses. Pela parte do meu pai, fez 8 ou 9 campanhas no N-M Novos Mares e também suspeito que em 1974, na sua última campanha ele terá feito pois parte da última viagem dum navio de pesca à linha com dóris na nossa História.
Digo que suspeito sobre estas coisas porque na verdade nunca conversei muito com o meu pai sobre os tempos do bacalhau. Desde que deixei Portugal há 5 anos, as saudades fazem com que um homem “acorde” para aspectos da vida que anteriormente eram apenas óbvios e por tal mantinham-se por explorar. Lembro-me muito bem duma arca enorme que tínhamos em casa (hoje já não existe) e de ver lá dentro botas enormes nas quais às vezes me punha dentro quando era puto, roupas de oleado amarelas, meias grossas com buracos que também gostava de calçar, montes de estralhos... todo o material do bacalhau do meu pai. Quando eu tinha uns 10-15 anos penso que foi tudo para o lixo, pois era necessário espaço em casa para outras coisas. Hoje dói-me pensar nisto, que se foi tudo. Mas ainda hoje o meu pai quando muito raramente tem de ir ao mar (trabalha nas redes em terra desde há bastantes anos), leva consigo um ou dois estralhos, para matar a saudade daqueles tempos e muitas vezes eu fui com ele ao sábado à tarde para o cais Sul, na marina da Póvoa, pescar umas marachombas e uns lulões nas pedras com pulga e bicha. Que saudades de encher a garrafa de cerveja Cristal cheia de pulgas para depois ir às ranhosas. Nunca apanhei nenhum lulão e pensava que o meu pai devia ser mágico, pois ao meu lado apanhava sempre ele os lulões. Hoje percebo que ele sabia das manhas do mar, sabia e sabe falar com ele e eu nem “verde” era. Odiava o facto da tarde passar tão depressa e termos de ir para casa ao anoitecer e já pensava na próxima vez que voltariamos.
Estarei em Portugal finalmente muito em breve por um par de semanas e terei comigo gravador, papel e caneta prontos para puxar tudo o que possa do meu pai sobre as suas histórias de mar. O resultado disso surgirá neste blog no futuro.
Antes de terminar, caso nunca tenha passado por ele, aconselho que entre neste link do blog ZIGURATE. Durante uma pausa no trabalho, passei os olhos calmamente pelas 8 partes desta história sobre mar e homens e tive momentos em que me deu um nó na garganta e me arderam as vistas, pois estar longe do mar é como estar morto para muitos homens. Cada vez mais me convenço que sou um desses homens...


publicado por cachinare às 14:04
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Sexta-feira, 20 de Julho de 2007
Inesperada semelhança a Norte.

Regressei há um par de dias atrás de umas férias.

Foi só uma semana, mas pareceu-me ter sido um mês... e isso talvez porque não estava à espera de encontrar... o que encontrei.

Ora estando eu na Polónia já há cerca de dois anos, em Cracóvia bem cá no Sul do país, longe do mar aberto e da frescura do mar na cara, enfim tão diferente “das minhas” Caxinas, desde há muito que tinha curiosidade em ver como é o mar da Polónia, lá no Norte, o Báltico.

Sendo este ano de 2007 bastante atarefado em matéria de férias, proporcionou-se então uma semana nos princípios de Julho. Com a minha batata (máquina digital) no bolso, um monte de cartões SD e pilhas (recarregáveis), metemo-nos no comboio logo na sexta à noite para ir de encontro a dois casais amigos que já estavam há uma semana de férias na região dos lagos, a Mazuria no nordeste, numa pequena terra chamada Gizycko, perto da fronteira com Kaliningrado, enclave Russo no Báltico. - (aconselho a abertura de uma janela com o mapa da Polónia, pois ajudará a perceber a particularidade do sítio onde estive.) – A Mazuria é uma região onde milhares afluem todos os anos para velejar nos grandes lagos, região selvagem e muito aprazível com centenas de iates e pequenos veleiros sobre a qual desde há muito me falam por aqui e que deveria experimentar o “prazer de velejar”. Sendo eu filho de pescador... sem dúvida seria interessante e confesso que a única vez que pús os pés num barco a sério, tinha eu uns 11 anos e foi só ir de um cais para outro ali na lota da Póvoa num barco de pesca para o qual a minha mãe trabalhava.

Chegamos aos lagos pelas oito da manhã, costas retorcidas pela noite a dormir sentado ou em posições quase de equilibrista no meio da cabine cheia do comboio e de carro, os tais amigos esperavam-nos. Lá fomos para onde o veleiro estava e passamos essa noite no barco, mas de velejar nada, pois o tempo era de autêntico Inverno, chuva e frio já há mais de cinco dias seguidos, para enorme frustração de todos. Como tal, só pude “cheirar” como seria, mas não saímos do porto e na manhã seguinte partimos então todos de carro para o ponto central das minhas férias, a Península de Hel, na costa central.

Uma vez que autoestradas na Polónia ainda são practicamente uma miragem, a viagem foi algo lenta, uns 300 km por território ao qual entre 1525-1947 se denominava por Prússia e antes disso dominado pela Ordem Teutónica. A influência alemã é enorme e muito antiga por estas bandas.

Se já procuraram no mapa onde esta Península de Hel fica, por certo reparam que é algo bastante estreito e extenso, 36 km. Ora pensava eu que ia encontrar uma estrada, uma fina faixa de mato ou floresta ao lado e respectiva praia. Enganei-me. À medida que avançava-mos ganha mais alguma largura e só do lado da baía se vê água, pois do outro lá está a floresta mas com casas, lojas, parques de campismo para os Kitesurfers e Windsurfers e gente por todo o lado.

A nossa estadia foi numa casa privada, fui pela primeira vez na vida “banhista” a 1.500 paus por pessoa por noite. Espero que ainda se lembrem dos escudos, pois eu escrevi bem: 1.500 paus. A localidade chama-se Jastarnia, no centro da península e é uma pequena terra de pescadores, com o seu porto, casas típicas e igreja recheada de artefactos e pinturas alusivas à pesca e um púlpito em forma de barco, com velas, cordame e ondas; o mais lindo que já vi. A parte de cima da casa, com quatro quartos, ficou por nossa conta, enquanto na parte de baixo vivia normalmente o casal de pescadores, ele com 77 e já reformado e a senhora nos seus 65. Quintal enorme, com mais anexos, área para o churrasco, enfim... algo já a recordar as Caxinas. Gente bastante simpática, por estas bandas falam Polaco, mas a sua língua é outra, denominada Kashube, uma mistura maioritária de Polaco, com Alemão e algumas palavras de Sueco. O sotaque é tão diferente e soa tanto a escandinavo que os Polacos não entendem esta língua. Brincando com coisas sérias, é como mandar uma excursão de Caxineiros a Lisboa e manter o nosso forte sotaque e línguagem da pesca. Não é bem o mesmo caso, mas fica a comparação, pois dizem que o sotaque do Porto é o que mais se diferencia em Portugal do “correcto Português”, mas quatro pescadores Caxineiros a jogar à Sueca com a sua Super Bock ao lado e as respectivas mulheres a “cochichar” na cozinha enquanto arranjam o peixe... não estou certo se um lisboeta ou mesmo um portuense entenderia tudo. Mais uma prova da forte identidade das gentes do mar.

Os dias foram passando, o tempo não estava o mais solarengo, mas deu para dois dias de praia. Uma das minhas maiores curiosidades era sem dúvida sentir a areia do Báltico nos pés e dar uns mergulhos na sua “gelada” água. Pois Caxineiros da minha terra... a areia é finíssima mas estranhamente não se cola ao corpo como a nossa e sai com a maior das facilidades. Areal enorme ao longo de toda a península, sem qualquer rocha ou penedo, lembra o Lugar de Areia ou Ofir, com a floresta por trás. Quanto à água, Caxineiro que se preze quando põe os pés na praia tem de dar ao menos um mergulho, nem que gele os quilhos (bom dia aos púdicos!). Após medir a temperatura à água com um molha-pés, sobe à areia e de corrida desenfreada (qual Zé-dos-Congros) aí vai chapa. Meia hora depois ainda estava na água... sem frio, mas com a cabeça a andar à roda de tanto mergulhar, afinal já há cinco anos que não passo o Verão nas Caxinas nem sei o que é banho-de-mar. As saudades daquilo eram tantas que me custou imenso sair da água mas a maior curiosidade... é que pús água à boca... e não se sente qualquer sal. Nas Caxinas, entra água pelo nariz ou bebe-se alguma, ai senhor que é sempre a cuspir; ali, não se passa nada, é quase como nadar na piscina. Fantástico. Apesar de tudo isto, o nosso Atlântico é muito mais rico em vida e só a nossa água fria podia ser diferente. Fui o único a disfrutar do mar. Ninguém dos colegas tem prazer naquilo, o que denota as diferenças nas origens. De início pensaram que eu era maluco por ir para a água. Tenho-lhes dito que um dia têm de passar férias nas Caxinas, disfrutar da nossa praia. Seria lindo, com uma boa Nortada, uns mergulhos por arrasto e rolar de seguida na areia tipo panado no pão-ralado... se voltarem um dia é pelas navalheiras e o arroz de marisco!

Aí ao quarto dia de estadia, sempre com o tempo a prometer chuva, fomos ao extremo da península, a Hel. Fãs dos AC/DC já devem estar aí a cantarolar uma certa música, pois foi o que eu fiz ainda muito antes de iniciar estas férias. Hel é outro porto piscatório, onde a península é mais larga e há mais para ver. Um velhote estava a fumar peixe mesmo à entrada do porto. Sendo peixe fumado para nós algo estranho, nada de confusões com cigarros ou “charros” pois é algo extremamente saboroso. Sou grande adepto do peixe fumado e por todo o país se encontra. Vários barcos de pescadores ganham umas massas ao fim-de-semana a levar os turistas a dar umas voltas pela baía. Turistas são aos milhares, pois por estas bandas tudo cheira a típico pescador, para onde quer que se olhe, montes de tendas de recordações alusivas ao mar e pesca, restaurantes do mais rústico e tradicional que já vi, sopa de peixe deliciosa... enfim. Outra grande curiosidade foi ver miúdos e graúdos a brincar com cisnes na praia, cisnes de verdade, não insufláveis tipo bóia. Como há tão pouco sal na água... deve parecer-lhes um belo lago e lá andam eles ao sabor das mini-ondas! Foi então que decidimos visitar o museu de pescas local... e é aqui neste ponto que se centra parte deste post, pois foi lá que me deparei com algo inesperado. Lembram-se das marcas Poveiras, que muito pescador da nossa terra traz dos seus antepassados? Pois em Hel também as têm, pelas mesmas razões e para o mesmo uso, marcar os seus pertences e não só. Chamam-lhes “merki” e há certas semelhanças nalgumas com as nossas. Curiosamente, já quando estive em Bergen na Noruega há 3 anos atrás, descobri lá o mesmo tipo de marcas das gentes do mar. Não me vou alargar neste tema, pois o post já vai longo e fica mais um ponto em comum entre Caxinas e Hel. Os barcos são semelhantes aos nossos mas mantêm muito mais as características escandinavas no modo de construção, com pranchado sobreposto.

No regresso a Jastarnia deu para explorar uma bateria anti-aérea Polaca da II Guerra Mundial, impressionante e um bunker abandonado. Esta península resistiu bastante tempo à afronta alemã no início da guerra e de facto as suas gentes presenciaram os primeiros disparos do navio de guerra alemão Schleswig-Holstein a 1 de Setembro de 1939 a Westerplatte, uma parte de Gdansk (Danzig) e que deu início à guerra.

Ainda antes de chegar a Jastarnia, existe Jurata, parte mais rica da península e onde há poucos meses houve uma cimeira que inluíu o presidente Americano. Não faltavam os slogans por todo o lado dirigidos a ele com “Bush, welcome to Hel(l)”.

Noutro dia levantámo-nos às seis da manhã para ir comprar peixe fresco e mais barato no porto de pesca. Lá compramos uns quatro quilos de solha para grelhar a um pequeno barco com quatro pescadores acabados de chegar do mar e a tirar o peixe das redes a conversar em “Kashube”. Com eles estava um miúdo que não tinha mais de 13 anos e que nos vendeu o peixe todo por 500 paus. Peixe é o prato forte por todo o lado, frito ou grelhado, com umas batatas e saladas, mas o custo chega quase ao nível de Portugal e a variedade gastronómica não é grande.

Deu também um dia para atravessar a baía de barco e visitar Gdynia, sendo o seu porto a “casa” de um belo e enorme veleiro, o Dar Pomorza, semelhente à nossa Sagres e um navio de guerra da II Guerra. Gdansk mesmo ao lado é uma cidade a visitar, riquíssima cidade, parte da Liga Hanseática, deslumbrante. Puck é outra pequena cidade mais dentro da baía, onde comi um bacalhau frito com baratas noutro tão tradicional restaurante de pescadores. Parecia que estava num filme épico, mas sem efeitos especiais, com redes, bóias de vidro e coloridas, cabeças de peixe embalsamadas, cores vivas em tudo. Tudo mantido tal como era no século XIX.

 

O dia do regresso chegou e nunca mais esquecerei esta península, por muito motivos. Fartei-me de contemplar as semelhanças com as Caxinas, não na arquitectura, mas no significado do mar no homem, como o molda de forma tão semelhante em dois pontos geográficos tão distantes. Gostaria de ver nas Caxinas velhas casas de pescadores em madeira transformadas em restaurantes rústicos e que põem o turista de boca aberta nos detalhes, mas tal não é possível, pois a nossa terra não é tão antiga e além disso se havia algo a aproveitar do antigo, tal já não existe. Pode-se sempre transportar o conceito da casa de Hel para as Caxinas e criar um restaurante de sucesso garantido. Arquitectura de Hel + gastronomia das Caxinas... quem quer investir?

Outra marca forte que me fica é o facto de estes locais serem reconhecidos pela sua identidade, pelos seus costumes, linguagem, possuem o seu Brasão que se vê por todo o lado em bandeiras nas casas, nas t-shirts dos turistas, canecas e tudo mais. O governo central interessa-se, o governo regional ainda mais e as gentes com quem falei estavam muito contentes com este reconhecimento, em ostentar o seu brasão.

 

Como gostaria de ver as gentes das Caxinas com este orgulho representado e não só “falado”. De vez em quando mandam-se uns berros à Câmara porque as coisas não vão bem, mas sempre senti que Vila do Conde olha para as gentes das Caxinas como gente de pouca instrução, a quem se dá umas bandeiras e t-shirts durante as eleições, uns beijos e abraços às mulheres na rua nas desenfreadas campanhas eleitorais e chega para ganhar os votos. Sim, porque são 15.000 habitantes, mais que no resto de Vila do Conde com os seus 10.000 e o pescador muitas vezes, não obstante a sua rudeza, se sente inferior, porque “não teve a escola toda”, ou porque fala diferente do “Sr. Engenheiro” e como tal encolhe-se, porque quase parece que o que o “Sr. Engenheiro” diz e promete, é LEI. O que o pescador se devia lembrar é que ele próprio é o “Sr. Engenheiro” no que respeita a mar e à faina e que se trocarem as posições... qual é a diferença?

Já que as pescas são o que são em Portugal, de imagem decrépita e com apoios quase por favor, aos menos permita-se que tão únicas gentes, que tratam a Morte por Tú e não dormem descansados no quente da sua casa durante anos das suas vidas, tenham uma bandeira para hastear bem alto, frente ao mar e em todo o lado, nas t-shirts dos miúdos ou nas varandas das casas, em vez de bandeiras e autocolantes de partidos que na verdade significam o quê, que o presidente lhe deu um beijo ou um aperto de mão durante as eleições?

 

Os pescadores de Hel e Jastarnia falam alto, tom grosseiro como os nossos, têm as rugas da faina como os nossos e têm voz, com o seu Brasão... ao contrário dos nossos.

 

Podem ver aqui meia-dúzia de fotos.



publicado por cachinare às 08:50
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Terça-feira, 3 de Julho de 2007
Quem é o Caxineiro?
Mais ou menos uma semana após ter iniciado este blogue, reparo que já existem várias pessoas a olhar para ele, inclusivé outros “bloggers”, que sabem onde as Caxinas ficam no mapa e escrevem que se fartam sobre esta terra. São eles, os quais tenho vindo a seguir desde há algum tempo, mais uma forte razão para eu ter decidido também escrever e lutar de certa forma por esta “terrinha” que merece muito... mas muito mesmo... até um Brasão.
 
Sou do tempo em que as Caxinas ainda eram consideradas “terra de selvagens”, onde a vida de qualquer um não era fácil, muito menos a de um puto.
Vivendo eu mais propriamente na Poça da Barca, lá fui aos 6 anos para a Escola Primária, ali ao lado do Centro Paroquial. Tive a sorte de fazer os 4 anos na escola velha, aquele edificio enorme que me impressionava e do qual não me esqueço, com umas empregadas assustadoras a dar leite achocolatado da Agros à canalhada ali por volta das 10 da manhã de um panelão gigante. Ficava sempre a “augar” por uma segunda caneca (de plástico), pois melhor que o leite da Agros não havia, nem mesmo o directo da vaca da tia Rosa que a minha mãe ainda hoje compra. Vinha então a hora do recreio e a minha lata diária de sumo Compal servia sempre para um joguito de futebol. Só por uma vez uma testa ficou a sangrar... o que denota a qualidade do futebolista Caxineiro, mais que provada a nível Nacional. Havia também mesmo em frente na esquina, uma loja daquelas que vende de tudo onde compráva-mos cromos de futebol que eram umas mini-notas com as caras dos jogadores. Recordo-me bem dos jogadores do Portimonense. Curioso é que diziam ser a loja do “Daniel Badalhoco”, à boa maneira da má-língua Caxineira.
 
O que pretendo com esta breve memória, é trazer de novo à mente as Caxinas de inícios dos anos 80, todos os miúdos que faziam parte da minha turma, as feições dos meninos ricos e dos meninos pobres. Havia um grande número de miúdos mesmo do coração das Caxinas, da beira da praia, que pareciam feitos de areia e sal, nos quais se notava a rudeza da vida do mar, “cabelos de pinha” e as estrelas da turma na barracada e no "Não Satisfaz". Época de Carnaval... a preferida do Caxineiro e nunca faltava o “cheirinho” engarrafado, a pistola de fulminantes ou a careta de plástico.
Fui crescendo, passei para o Ciclo Preparatório e pouco mudou quanto à marca do carácter Caxineiro nas aulas, sempre centro das atenções e o resto do pessoal das freguesias e da Cidade a demarcarem-nos, uns como a melhor fonte de diversão nas aulas (tanto professor ganhou cabelos brancos...) e outros como um bando de escumalha que estava sempre a estragar a aula e a prejudicar o seu futuro pessoal de notas máximas e carreira universitária.
Ainda mais se notavam tais julgamentos mais tarde na Técnica, a José Régio. Por esta altura, a vida complicava-se e custava mais passar de ano, pois um Caxineiro nunca gostou de passar muito tempo “enjaulado” e a Técnica era uma razia no abandono escolar. Parecia que a praia e o mar chamavam continuamente, a pura simplicidade destes dois factores. Era isso que trazíamos de casa, muitos de nós, filhos “da pescaria”.
 
O meu pai é pescador, a minha mãe sempre trabalhou e trabalha ligada à pesca, os meus avós todos estavam ligados à pesca. Vi muito vizinho a não voltar mais porque naufragou mais um barco, muito grito no Fieiro pela noite dentro e o mar bravo de ondas de metros a tombar contra o cais Sul, a responder às mulheres que reclamavam a Deus.
A morte acompanhou de certo modo toda a minha vida, pois sentia-a no ar tantas vezes, tanto luto constante pelas ruas das Caxinas e quando uma mulher já recuperava de uma morte, outra ocupava o seu lugar e assim era, ano após ano. Hoje ainda vai acontecendo... Um homem sofre de muitas maneiras, e o sofrimento do Caxineiro ficou-me cravado para sempre, pois sou um deles.
 
A forma de ser do Caxineiro é muito própria e é esta a razão mais forte pela qual quero ver as Caxinas pelo menos como Freguesia e com Brasão, um símbolo de identidade inquestionável a brandir “de peito feito”. Toda a gente dá imenso valor a símbolos, quer representem o seu clube de futebol, a sua religião, as suas marcas em objectos pessoais. Brevemente terão neste blogue um link para as Siglas Poveiras, prova disso na nossa cultura. Sim, porque de certo modo sinto muito mais proximidade à Póvoa de Varzim do que a Vila do Conde. Nunca me esqueço dum garfo que o meu pai levava para o mar no baú e que tinha no cabo a marca dos Fangueiros, - XIX - . Levava sempre este garfo, o que denota a força desta marca, como objecto preferido e superstição protectora.
 
Não me querendo desviar muito do mote deste post – tentar superficialmente dar uma imagem da gente das Caxinas - , remato com o Caxineiro de 2007, de uma terra à qual já nos referimos como “Caxinas city” (e eu com este blogue a pedir ao menos Freguesia). Sempre que volto lá nestes 5 anos noto diferenças estruturais, uma aqui, outra ali, mas as gentes não mudam. O Rio Ave F.C. continua a dominar as conversas de café, o relato soa todos os domingos na mão dos velhos e menos velhos, entre o baralho de cartas e a Super Bock. Os demais... basta abrir a porta do carro na fila interminável da marginal, direcção Vila ou Póvoa... e lá está o relato a estalar no sub-woofer. Então um dérbizito Rio Ave – Varzim... SAIAM DA FRENTE.
 
Terra de economia marcadamente piscatória, são evidentes as marcas do passado ainda vivas, por exemplo no facto de um pescador ganhar o que o mar dá, não ter contrato de trabalho, muitas vezes seguro, não descontar nos impostos, não ter férias, 13º ou 14º mês e fiquemos por aqui.
Denota-se um excêntrico “Novo-riquismo” em muito mestre de barco, sempre com um carro maior que os outros, casa com janelas e portas maiores que as outras, por vezes filhos e filhas mais estúpidos que os outros, mas tudo faz parte da hierarquia social.
Também há muita gente que gosta do “cochicho”, falar e analisar a vida dos outros diáriamente, escondendo-se por detrás da cortina a ver quem passa, o que veste e com quem vai. Autêntica espécie de Serviços Secretos Caxineiros (SSC), que ensinaria muito aqui perto aos Russos e mesmo aos Americanos. Já ouviram falar de pessoas que matam com um simples olhar? Também as temos nas Caxinas.
Quanto ao Caxineiro emigrante, gosta sempre de vir passar o Verão à praia das Caxinas, passeando o seu bólide comprado com seis meses de ordenado lá nas Alemanhas. Por vezes é alugado, mas ninguém sabe. Muito gel no cabelo espetado, ostenta uma ou duas argolas e um par de tatuagens. Na esplanada do barracão na praia, senta-se com os amigos a petiscar uns camarões da costa apanhados de manhã cedinho, o Sol a raiar e com a maré em sintonia com a Lua bazante. Maravilha, com umas cervejas a acompanhar e a mandar “bujardas” em alemão às turistas de Guimarães estendidas na areia, mesmo junto ao passeio. Mas que saudades!!
Futebol de praia, também não pode faltar, bem puxado, para uns bons mergulhos a refrescar o suor enquanto a bola está longe, depois de ter estourado contra os turistas. Quem chutou a bola à tolo? Ninguém, como de costume foi o vento e toda a gente assobia para o ar e começa a apanhar umas conchas. Esta Nortada é implacável. Vou nadar um bocado ali até à Inça e já venho. Como tenho jeito para a defesa, sempre joguei atrás e divertia-me ver o Caxineiro, jogador do Rio Ave e sempre avançado... a não passar pelo magriço e a começar as alcunhas, tipo Baresi.
 
No aspecto religioso, sem dúvida uma comunidade imensamente devota, como é apanágio em Portugal e particularmente nas comunidades piscatórias. É neste ponto que muitas vezes, principalmente quando era mais novo, perguntava a mim mesmo onde está o equilíbrio, pois via o cochicho e maldizer acutilante vir das mesmas pessoas que estavam todos os dias na Igreja “de volta do padre”. Com a idade lá fui obtendo as minhas respostas, mas sem dúvida é um aspecto fortíssimo em certas gentes das Caxinas.
 
Os Caxineiros são conhecidos um pouco por todo o país, não só pelo jogador de futebol com o seu sotaque característico quando fala à televisão após o jogo, mas também pela sua raça (força Paulinho), pelo “comer da relva” (Mestre André) ou pelo moderno mediatismo da nossa Selecção (Postiga – O novo Príncipe de Bel-Air Caxinas). 2010, Fábio Coentrão é o senhor que se segue.
 
Óbviamente que há muito mais a descrever, mas termino o post como está e o futuro trará mais posts. Não sei se a quem não é das Caxinas, esta descrição dará a real imagem desta gente, que secalhar é igual a toda a gente, mas também tem características muito próprias e como disse... devem ser melhor reconhecidas, porque há muito para além de estradas asfaltadas e árvores nos passeios.
 

Refiro-me a uma identidade reconhecida e estilizada.



publicado por cachinare às 12:52
link do post | comentar | ver comentários (11) | favorito

Terça-feira, 26 de Junho de 2007
Ligeira apresentação.

Antes de mais, uma ligeira apresentação.

Com 32 anos recentemente feitos, saí de Portugal em 03/2003, não por força da vida, como tantas das gentes das Caxinas, mas porque surgiu a oportunidade de ver como são as coisas "lá fora" e no momento me pareceu excelente ideia. Nesse mês de Março cheguei a Londres e tendo eu estudado Contabilidade, na ingenuidade de quem chega a tamanha e enorme cidade, ainda tentei durante um mês um emprego no mesmo ramo.

Obviamente nada surgiu e um mês mais tarde estava a trabalhar no ramo da restauração, algo que nunca esperaria fazer na vida, não por o considerar como "trabalho menor", - não sou apologista destas classificações de trabalhos mais ou menos importantes -  mas quase pela surpresa de tão grande oferta de trabalho nesta área.

De 7 anos de escritório, por vezes com momentos verdadeiramente vegetativos, passei para o rebuliço de uma cidade que não pára nunca, onde se dão encontrões em todo o tipo de raças, credos e línguas nas ruas, nos autocarros, no trabalho... único.

Practicamente durante dois anos e meio trabalhei a fazer mil e uma sandes e a tirar mil e um cafés por dia e embora exaustivo... adorei.

O que aprendi fora do escritório, as gentes que conheci, de tão diferentes países e continentes, os amigos que manti não têm preço. Acima de tudo, aprendi muito mais sobre a vida e o que realmente interessa. O horizonte expandiu-se sempre mais e mais.

Durante esse tempo conheci a mulher que será minha esposa dentro de dois meses e por sentir que estava na altura de virar a página do livro, disse-lhe: "Vamo-nos embora para o teu país. Se chegamos a Londres de mãos vazias e quase a nú... e saímos daqui de peito cheio de tanto, havemos sempre de ganhar onde quer que estejamos". Dois meses mais tarde chegamos à Polónia, Cracóvia.

Novamente sem trabalho ou sítio para ficar e ela, com os estudos para acabar, outra vez a cidade nos surpreende e nos agarra. Não faltavam ofertas no meu primeiro ramo e embora trouxesse um segundo de Londres, voltei ao escritório.

Hoje são quase cinco anos fora das Caxinas, ali entre Vila e Póvoa, no Norte... em Portugal e não há dia que passe em que não esteja lá em mente, com os pés enterrados na areia ali entre o Caximar e o Senhor dos Navegantes.

 

Acreditem; a apresentação realmente foi ligeira.



publicado por cachinare às 09:33
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito

mais sobre mim
subscrever feeds
últ. comentários
Conforme já referi algures, no próximo Sábado, 23 ...
Na verdade, típico é os nossos vizinhos da Póvoa ...
Belo quadro pintado ,dois botes um a vela e outro ...
Outros tempos ,diria mesmo meus tempos de rapaz ,o...
Pois ,nesse estado bem bebido até a sua sombra ele...
Ver está foto, salta-me muitas saudades de ouvir m...
Pescador da Nazaré ,homem do antigamente ,com traj...
Uma das formidáveis pinturas de Almada Negreiros, ...
sou de Nazare gostava de saber o meu estorial de 1...
....................COMEMORAÇÕES DO DIA DA MARINHA...

culturmar

tags

a nova fanequeira de vila chã

ala-arriba

alan villiers

apresentação

aquele portugal

argus

arte marítima

bacalhoeiros canadianos-americanos

bacalhoeiros estrangeiros

bacalhoeiros portugueses

barcos tradicionais

caxinas

cultura costeira

diversos

fotos soltas

galiza

jornal mare - matosinhos

memórias

modelismo naval

multimédia

museus do mar

pesca portuguesa

póvoa de varzim

relatos da lancha poveira "fé em deus"

santa maria manuela

veleiros

vila do conde

todas as tags

Vídeos
links
arquivos