Terça-feira, 13 de Janeiro de 2015
A estátua de Gaspar Côrte-Real.

«O porto abrigado de St. John´s ofereceu segurança a navios de muitas nações durante mais de quatro séculos. O conjunto colorido de navios estrangeiros atracados lado-a-lado aos dois e três ao longo do porto permite uma imagem fascinante, quando avisos de temporal nos Grandes Bancos interrompem a faina e trazem os navios para o abrigo deste porto estratégicamente localizado e protegido por terra.

Proeminentes entre eles encontram-se os robustos navios da Frota Branca de Portugal, que manda navios para os Grandes Bancos desde os primeiros anos registados na história da região. Os Portugueses partilham a hospitalidade de St. John´s com pescadores da França, Espanha, Noruega, Rússia, Alemanha e Inglaterra, desde a altura em que todas as nações de ambos os lados do Atlântico exploram a rica pesca dos Grandes Bancos, uma planície submarina que tem início a cerca de 50 milhas Este de Cape Race.
Quando Giovani Cabotto regressou da sua viagem de descoberta em 1497 ao serviço da coroa Inglesa, os seus relatos de abundância de bacalhau que se encontrava nas águas costeiras da Terra Nova levantaram um grande interesse nos comerciantes da pesca do Leste de Inglaterra. Estes persuadiram a Coroa a impor fortes leis anti-colonização que mantiveram possíveis colonos fora daquelas terras durante séculos após a descoberta. Apesar desta repressão manter afastados colonos da Inglaterra, nada podiam fazer para evitar que outros países tirassem partido da rica pesca dos Grandes Bancos. Os séculos XV e XVI viram o início da exploração Portuguesa, apoiada pelo engenho marítimo que levou numerosos navegadores aventureiros desde Portugal até muitos dos distantes lugares do mundo. Alguns dos seus nomes são por demais conhecidos – Henrique o Navegador, Magalhães e Vasco da Gama – de imediato reconhecidos por alguém minimamente letrado. Outros nomes são menos familiares excepto para sérios estudantes de história.
Os irmãos Gaspar e Miguel Côrte-Real efectuaram ousadas viagens em busca da elusiva Passagem de Noroeste em pequenas caravelas da Ordem de Cristo nos anos 1501-1502. Miguel perdeu-se no Mar do Norte enquanto procurava pelo seu irmão Gaspar, creditado por alguns historiadores por explorações desde as costas da Gronelândia até à Nova Inglaterra. Dois outros Portugueses, Álvares Fagundes e Estêvão Gomes (este ao serviço de Espanha) navegaram, respectivamente, o Golfo de S. Lourenço e a Baía de Fundy antes de 1525, mais de uma década antes das bem documentadas viagens de Jacques Cartier.
Em reconhecimento da contribuição dada pelos irmãos Côrte-Real, o Rei de Portugal concedeu aos seus descendentes “Real e actual posse daquelas terras e ilhas” descobertas por Gaspar durante as expedições, financiadas e levadas a cabo por esta família dos Açores, num tremendo custo material e físico. Fagundes, em 1520, solicitou e foi-lhe concedido aval das terras que pudesse descobrir “dentro da esfera de influência Portuguesa”. Alguns dos nomes que ele deu a pontos descobertos na parte Oeste da Terra Nova foram mais tarde alterados para a nomenclatura Inglesa e Francesa.
Foi referido por alguns historiadores que os Portugueses foram os primeiros a explorar os leitos de pesca dos Grandes Bancos, em finais do séc. XV. A suportar esta teoria existe documentação sobre impostos especias sobre as pescarias de bacalhau, por Rei D. Manuel de Portugal em 1506. Durante cerca de um século ou mais, depois de descoberta, a Terra Nova tornou-se conhecida na Europa como “Terra dos Bacalhaus”. É assim identificada num mapa de 1569 pelo conhecido Gerardus Mercator, que marcou o Labrador como “Terra Corte Realis”.
Alguns dos locais de colonização mais antiga e histórica da Ilha da Terra Nova ainda mantêm nomes de origem Portuguesa, uma vez que muitos dos cartógrafos do séc. XVI eram Portugueses e foram os primeiros a dar nomes aos maiores cabos, baías, portos e ilhas das costas Leste e sudeste da Terra Nova. Tão cedo quanto 1502, um mapa Português identifica o que é agora a Terra Nova como “Terra do Rei de Portugal”.
Apesar das várias concessões nominais de terra aos primeiros exploradores Portugueses, não parecem haver dados sobre qualquer tentativa organizada de domínio territorial ou ambições por via militar ou força naval, ou sequer colonização planeada. Juntamente com algumas das outras potências marítimas, Portugal continuou a enviar frotas de pesca para os Grandes Bancos numa base sasonal.
O principal porto, St. John´s, tornou-se familiar para gerações sucessivas de marinheiros e pescadores de vários países do mundo e durante mais de quatro séculos manteve a sua identidade. De Maio a Outubro de cada ano, os navios da Frota Branca de Portugal deram um tom e charme único ao porto de St. John´s. Até aos anos 50, estes navios eram da aspecto típico das escunas de pesca dos Bancos, com o convés cheio de pilhas de coloridos dóris de madeira.
O aspecto mais marcante da longa associação entre Portugal e a Terra Nova tem sido a completa ausência de qualquer fricção séria que alterasse a relação de amizade partilhada por muitos dos milhares de pescadores e população residente de St. John´s. É um tributo único aos enrugados, homens de trabalho da frota Portuguesa, quando tantos milhares deles faziam a sua “invasão” pacífica da capital da província da Terra Nova em intervalos frequentes durante os meses de Verão e mantinham uma reputação inabalável por bom comportamento, o que os manteve como elevados e muito benvindos visitantes.
Por duas ocasiões nas últimas décadas, a relação especial entre a Terra Nova e Portugal recebeu reconhecimento público. Em 1955, a Catedral Católico-Romana de St. John´s celebrou o seu centenário e foi elevada a Basílica. Ponto alto das celebrações foi uma parada de vários milhares de pescadores Portugueses que marcharam pela cidade desde a baixa até à Basílica e lá depositaram uma oferta, na forma de uma estátua de N.Srª de Fátima. De novo, em 1965, juntaram-se em grande número para a inauguração cerimonial de uma enorme estátua de bronze de Gaspar Côrte-Real, erigida no proeminente local de Prince Philip Drive, adjacente ao Edifício da Confederação, sede do Governo da Província.
A estátua assenta numa grande plataforma, na qual se lê: “Gaspar Côrte-Real, Navegador Português. Alcançou a “Terra Nova” no séc. XV no início da era das grandes descobertas. – Da Organização das Pescas Portuguesa como expressão de gratitude em nome dos Pescadores Portugueses dos Grandes Bancos, pela hospitaleira amizade a eles sempre retribuída pelo povo da Terra Nova – Maio de 1965.”»
 
Traduzido do artigo de D.H. Wheeler em “Historic Newfoundland and Labrador”. 19ª edição 1988.
 
A estátua de Gaspar Côrte-Real manteve os olhos fixos no Edifício da Confederação durante mais de 50 anos, apenas com uma interrupção. A obra do escultor Martins Correia teve alguma falta de sorte em 1999 quando um carro falhou a curva e embateu no pedestal que suporta a confiante pose em bronze. A estátua em si não sofreu danos, mas a sua base ficou danificada. Nesse mesmo ano seria restaurada por um especialista em bronze.
Foto 1 da autoria de gdraskoy.

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publicado por cachinare às 19:09
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1 comentário:
De Jaime Pião a 14 de Janeiro de 2015 às 10:55
Estátua de Gaspar Corte Real inaugurada em 1965 em Santo Jones. .Fomos convidados os pescadores de vários Navios Bacalhoeiros entre eles o Aviz onde eu pessoalmente e companheiros estivemos presentes na inauguração da Estátua de Gaspar Corte Real ,lembro-me bem que os Capitães queriam que nós pescadores fosse-mos a pé ,mas a rapaziada bateu o pé e então alguém nos facilitou uns autocarros ,até que era bem longe ,enfim foram tempos que o tempo não apaga !


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