Terça-feira, 9 de Setembro de 2014
Fáskrúðsfjörður e os “pescadores da Islândia”.

Fáskrúðsfjörður não é mais que um profundo e bonito fjord na costa Leste da Islândia. É também a principal estação de pesca ao bacalhau utilizada pelos pescadores Franceses durante as campanhas de pesca do passado neste país. Entre 1850 e 1914, nalgumas campanhas chegaram a ser cerca de 120 escunas e 5.000 marinheiros provenientes de Dunquerque, Paimpol ou Lorient a vir em trabalho de pesca nestas águas da Islândia. Vinham a terra com mercadorias para troca, como por exemplo vinho ou conhaque que trocavam por roupas e mantimentos frescos. Simples relações de trabalho ou amizade, formaram-se ligações entre os habitantes do fjord e os pescadores e hoje em dia a povoação guarda memórias dessa época.

Na faina os homens estavam munidos de linhas-de-mão e recebiam um pagamento proporcional à quantidade pescada, pelo menos 6.000 bacalhaus cada um por campanha. As condições de vida difíceis a bordo dos navios, a alimentação pouco variada e o clima adverso eram favoráveis a doenças, escorbuto, pneumonia e tuberculose, originando chagas e frieiras. Uma casa construída para os doentes deixou de ser suficiente por alturas de 1897 e vários navios-hospital começaram a suceder-se sobre as zonas de pesca.
O primeiro destes navios, o “Saint-Paul” encalharia trágicamente no estuário arenoso do rio Kúðafljót a 4 de Abril de 1899. Os seus 20 ocupantes foram todos socorridos e os destroços seriam vendidos em leilão, como era tradição nalguns naufrágios; madeiras, velas e cordames, medicamentos, louças, cobertores, rações de comida e barris de rum, conhaque ou vinho, 900 garrafas de vinho tinto. Este navio tornou-se uma mina para os camponeses das povoações vizinhas que estavam habituadas a naufrágios frequentes na zona até aos anos 1950s. Como a venda estava programada para durar 3 dias, foi decidido guardar para o fim os lotes de álcool, de modo a não apressar o seu consumo. Ao visitar o museu de Skógar, descobre-se por exemplo que a madeira do soalho de uma das salas de exposição provém precisamente do “Saint-Paul”.
Ao todo cerca de 400 escunas foram vítimas de naufrágios, tendo-se perdido 15 numa só ocasião de temporal, destroçadas pela costa Sul do país. Para chegar às águas calmas de Fáskrúðsfjörður, era necessário evitar os escolhos dos cabos bem como as ilhas Andey e Skrúður que lhe guardavam a entrada. Com a falta de botes de salvamento a bordo (para ganhar em tonelagem de carga), mais a incompetência de certos capitães adicionada ao alcoolismo eram igualmente as causas de desastres.
À entrada da povoação encontra-se um cemitério fechado onde repousam 49 marinheiros Franceses e Belgas, mas muitos outros ficaram sem sepultura.
O pequeno museu da vila engloba fotografias antigas, cartas e textos da vida dos pescadores, nas quais a rudeza do trabalho e do clima, assim como as saudades de casa são repetidamente evocadas. Numerosos objectos e vestimentas e mesmo um documentário televisivo permitem ao visitante mergulhar na atmosfera da época. A leitura de um diário de bordo datado de 1910 permite a percepção da actividade nos portos e nas estações baleeiras do início do séc. XX.


publicado por cachinare às 11:28
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