Domingo, 25 de Janeiro de 2015
O naufrágio do “Veronese” em filme – 1913.

«Muito além do imaginável, o naufrágio do paquete VERONESE chocou o país de norte a sul. As mensagens chegadas ao governo civil do Porto, endereçadas ao Dr. Albano de Magalhães, então seu distinto governador, exprimiam o sentimento geral da população, em função do trágico acontecimento. Com origem em Lisboa, logo que foi dado a conhecer o sinistro, este foi um dos primeiros telegramas recebidos: Peço a V.Exa. que se apresse a significar aos sobreviventes da catástrofe do VERONESE a mágoa do governo e a disposição em que tem estado de acudir a tão grande desgraça, na medida do possível. (ass.) Alfredo Costa, Presidente do Governo.

Decorrem cem anos sobre o naufrágio, ocorrido a 16 de Janeiro de 1913, que ninguém esquece, sobrevivendo às diferentes décadas pela informação oral que passa de avós para pais, de pais para filhos e de filhos para netos. Alguém da família esteve lá, lembrando casos, histórias, relatos sobre os sobreviventes, sobre os feridos, sobre aqueles menos bafejados pela sorte, abandonados ao infortúnio de uma morte prematura.

veronese a navegar

A população unida encontrou-se na praia da Boa Nova, ligeiramente a norte do local onde se encontra actualmente o farol de Leça da Palmeira, pouco depois do navio ter encalhado sobre as pedras do baixo do “Lenho”, a pouco mais de 250 metros de terra, mas simultaneamente num espaço distante para ser ultrapassado, por força da desmedida violência do mar.

A mobilização para dar apoio aos náufragos foi geral e espontânea. Foram colocados médicos e enfermeiros numa tenda, para atendimento urgente sobre as areias da praia, no posto da Guarda-fiscal ali próximo e na capela do oratório da Boa Nova, assistidos pelas esposas dos mais destacados membros da sociedade de Matosinhos e do Porto.

Estiveram presentes diversas associações de bombeiros, de Matosinhos-Leça, do Porto, de Vila Nova de Gaia e de Vila do Conde. A Marinha fez-se representar em presença contínua pelos mais variados oficiais destacados nas localidades vizinhas, marinhagem e polícia marítima, pelo comando e por um largo grupo de alunos da Escola de Alunos Marinheiros, além do rebocador BÉRRIO, enviado às pressas de Lisboa para Leixões, para atender sempre que o seu serviço se justificasse.

Tomaram igualmente parte nas operações de salvamento forças da P.S.P., da Guarda Republicana e da Guarda Fiscal. E foram também posicionados os salva-vidas PORTO, de Leixões, sobre o comando do patrão Aveiro e o CEGO DO MAIO, vindo da Póvoa de Varzim, com o seu arrais, o patrão Lagoa, transportado pela via-férrea, livre de encargos, que só puderam intervir ao terceiro dia, quando o mar o permitiu, e mesmo assim foram responsáveis por 103 salvamentos. E povo, muito povo que só abrandou de entusiasmo altruísta para prosseguir com os trabalhos, quando o último náufrago, o capitão Charles Turner, abandonou o seu navio. Verdadeiros heróis, que o governo da nação honrou, conferindo-lhes significativas homenagens.

patrão lagoa cabo mar povoa varzim

Face à impossibilidade de qualquer embarcação se aproximar do navio naufragado, houve necessidade de recorrer ao lançamento de foguetões de terra para bordo, com o objectivo de permitir estabelecer cabos de vai-vem. Na primeira série de disparos, só o décimo nono foguetão chegou ao navio, conseguindo vencer a distância e as condições adversas de tempo, motivadas por vento forte e contrário, quando já se instalava o desespero no espírito de todos quantos presenciavam a azáfama inglória dos bombeiros socorristas. E durante três dias e três noites, foram tantos os foguetões utilizados, cujos cabos rebentavam a espaços ao roçar na penedia, que o reposicionamento fez esgotar a quantidade total do equipamento disponível na cidade. Nestas circunstâncias,  alguns dos presentes, exímios nadadores,  disponibilizaram-se, pondo em risco as suas próprias vidas, para levar para bordo um cabo salvador, que ajudasse  à montagem do vai-vem. Ofertas negadas ao grupo dos mais ousados, levados apenas por gestos de extrema abnegação, na firme convicção de que era de evitar aumentar o número de vítimas no sinistro. Entretanto, também do navio preparavam a descida de um escaler, ainda preso aos turcos, carregando um amontoado de gente. Foram também persuadidos a aguardar por outra forma de salvamento, pois que a embarcação ao ser lançada ao mar, seria de pronto projetada contra os rochedos, despedaçando-se de seguida.

Casos há verdadeiramente chocantes: uma mãe que carrega dois filhos, perde um deles arrebatado pela violência das ondas; o cabo de vai-vem que se parte, deixando o náufrago à deriva, sem forças para lutar pela vida; congestões inoportunas; familiares que desaparecem, maridos que procuram pelas esposas, pais que tentam localizar os filhos, numa correria desenfreada pelos diversos postos de serviço, desesperados, inutilmente. Comum aos sobreviventes a exposição à dor, em rostos marejados de lagrimas sentidas pela inesperada quebra nos laços de sangue. Por cá encontraram sepultura, em campa rasa, espalhados por vários cemitérios, entretanto preparados para os receber.

A notícia fria do naufrágio caiu na cidade como um relâmpago; o jornal “O Comércio do Porto” de 17 de Janeiro de 1913 relatava assim o acidente: ...  na madrugada de ontem, o mar era alteroso; furiosos vagalhões quebravam de encontro aos molhes de Leixões e galgavam-nos, de lado a lado. Chovia torrencialmente e o vento era impetuoso. Seriam 4 horas, quando foi dado conta que em frente à doca pairava o paquete VERONESE, da Lamport & Holt Line. Este vapor de 11.000 e tantas toneladas, vindo consignado aos srs. Garland, Laidley & Cª., saíra no domingo de Liverpool e tocara ante-ontem em Vigo, onde embarcaram 119 passageiros, tendo já a bordo outros 20 embarcados em Inglaterra. Estava previsto ter entrado e saído ontem para o Rio de Janeiro, Santos, Montevideu e Buenos Aires. Pouco depois, pelas quatro horas e 20 minutos, reconheceu-se que o vapor batera de encontro à pedra denominada “Lenho”, vindo a encalhar sobre a penedia da costa, um pouco ao norte da capela da Boa Nova.

veronese leça 1913

Repetidos silvos de sirene de bordo, em sinal de pedido de socorro, davam dentro em breve, a conhecer, que uma catástrofe ocorrera no seio daquele mar proceloso. Trataram imediatamente de fazer prevenções e de preparar socorros. Ao romper da aurora, a despeito da névoa que pairou todo o dia sobre a costa, observou-se o VERONESE sobre os rochedos, adernado a estibordo, de proa para sueste e com a ré bastante erguida, tendo o mar levado os escaleres que estavam nesse lado e partindo o leme e a ponte da popa.

Era o prenúncio de uma morte anunciada. Mais um navio caía na ratoeira de uma costa mal iluminada e mal sinalizada, obrigado a enfrentar um mar traiçoeiro, calvário de gente indefesa cuja circunstância os levava a viajar ao encontro de um futuro melhor. Das 232 pessoas a bordo, 40 interromperam a viagem no mar da praia da Boa Nova; 5 pertenciam à equipagem do navio, que navegava com 93 tripulantes. Entre os sobreviventes, alguns deles  voltaram para casa, com as suas condições de vida alteradas, por terem perdido todos os bens. Os outros, contudo, continuaram a viagem num outro paquete, mantendo-se firmemente fiéis ao sonho sul-americano. Quanto à tripulação sobrevivente, certamente terá sido distribuída por outros navios da companhia, respondendo às necessidades de um tempo difícil e ao compreensível apelo que  só o mar transmite, ao encontro da luz de cada dia que desponta e a cada pôr-do-sol que os persegue.»

por Reinaldo Delgado, in REVISTA DE MARINHA

foto 1 - O “Veronese” a navegar - photoship.co.uk 


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publicado por cachinare às 00:14
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