Terça-feira, 3 de Julho de 2007
Quem é o Caxineiro?
Mais ou menos uma semana após ter iniciado este blogue, reparo que já existem várias pessoas a olhar para ele, inclusivé outros “bloggers”, que sabem onde as Caxinas ficam no mapa e escrevem que se fartam sobre esta terra. São eles, os quais tenho vindo a seguir desde há algum tempo, mais uma forte razão para eu ter decidido também escrever e lutar de certa forma por esta “terrinha” que merece muito... mas muito mesmo... até um Brasão.
 
Sou do tempo em que as Caxinas ainda eram consideradas “terra de selvagens”, onde a vida de qualquer um não era fácil, muito menos a de um puto.
Vivendo eu mais propriamente na Poça da Barca, lá fui aos 6 anos para a Escola Primária, ali ao lado do Centro Paroquial. Tive a sorte de fazer os 4 anos na escola velha, aquele edificio enorme que me impressionava e do qual não me esqueço, com umas empregadas assustadoras a dar leite achocolatado da Agros à canalhada ali por volta das 10 da manhã de um panelão gigante. Ficava sempre a “augar” por uma segunda caneca (de plástico), pois melhor que o leite da Agros não havia, nem mesmo o directo da vaca da tia Rosa que a minha mãe ainda hoje compra. Vinha então a hora do recreio e a minha lata diária de sumo Compal servia sempre para um joguito de futebol. Só por uma vez uma testa ficou a sangrar... o que denota a qualidade do futebolista Caxineiro, mais que provada a nível Nacional. Havia também mesmo em frente na esquina, uma loja daquelas que vende de tudo onde compráva-mos cromos de futebol que eram umas mini-notas com as caras dos jogadores. Recordo-me bem dos jogadores do Portimonense. Curioso é que diziam ser a loja do “Daniel Badalhoco”, à boa maneira da má-língua Caxineira.
 
O que pretendo com esta breve memória, é trazer de novo à mente as Caxinas de inícios dos anos 80, todos os miúdos que faziam parte da minha turma, as feições dos meninos ricos e dos meninos pobres. Havia um grande número de miúdos mesmo do coração das Caxinas, da beira da praia, que pareciam feitos de areia e sal, nos quais se notava a rudeza da vida do mar, “cabelos de pinha” e as estrelas da turma na barracada e no "Não Satisfaz". Época de Carnaval... a preferida do Caxineiro e nunca faltava o “cheirinho” engarrafado, a pistola de fulminantes ou a careta de plástico.
Fui crescendo, passei para o Ciclo Preparatório e pouco mudou quanto à marca do carácter Caxineiro nas aulas, sempre centro das atenções e o resto do pessoal das freguesias e da Cidade a demarcarem-nos, uns como a melhor fonte de diversão nas aulas (tanto professor ganhou cabelos brancos...) e outros como um bando de escumalha que estava sempre a estragar a aula e a prejudicar o seu futuro pessoal de notas máximas e carreira universitária.
Ainda mais se notavam tais julgamentos mais tarde na Técnica, a José Régio. Por esta altura, a vida complicava-se e custava mais passar de ano, pois um Caxineiro nunca gostou de passar muito tempo “enjaulado” e a Técnica era uma razia no abandono escolar. Parecia que a praia e o mar chamavam continuamente, a pura simplicidade destes dois factores. Era isso que trazíamos de casa, muitos de nós, filhos “da pescaria”.
 
O meu pai é pescador, a minha mãe sempre trabalhou e trabalha ligada à pesca, os meus avós todos estavam ligados à pesca. Vi muito vizinho a não voltar mais porque naufragou mais um barco, muito grito no Fieiro pela noite dentro e o mar bravo de ondas de metros a tombar contra o cais Sul, a responder às mulheres que reclamavam a Deus.
A morte acompanhou de certo modo toda a minha vida, pois sentia-a no ar tantas vezes, tanto luto constante pelas ruas das Caxinas e quando uma mulher já recuperava de uma morte, outra ocupava o seu lugar e assim era, ano após ano. Hoje ainda vai acontecendo... Um homem sofre de muitas maneiras, e o sofrimento do Caxineiro ficou-me cravado para sempre, pois sou um deles.
 
A forma de ser do Caxineiro é muito própria e é esta a razão mais forte pela qual quero ver as Caxinas pelo menos como Freguesia e com Brasão, um símbolo de identidade inquestionável a brandir “de peito feito”. Toda a gente dá imenso valor a símbolos, quer representem o seu clube de futebol, a sua religião, as suas marcas em objectos pessoais. Brevemente terão neste blogue um link para as Siglas Poveiras, prova disso na nossa cultura. Sim, porque de certo modo sinto muito mais proximidade à Póvoa de Varzim do que a Vila do Conde. Nunca me esqueço dum garfo que o meu pai levava para o mar no baú e que tinha no cabo a marca dos Fangueiros, - XIX - . Levava sempre este garfo, o que denota a força desta marca, como objecto preferido e superstição protectora.
 
Não me querendo desviar muito do mote deste post – tentar superficialmente dar uma imagem da gente das Caxinas - , remato com o Caxineiro de 2007, de uma terra à qual já nos referimos como “Caxinas city” (e eu com este blogue a pedir ao menos Freguesia). Sempre que volto lá nestes 5 anos noto diferenças estruturais, uma aqui, outra ali, mas as gentes não mudam. O Rio Ave F.C. continua a dominar as conversas de café, o relato soa todos os domingos na mão dos velhos e menos velhos, entre o baralho de cartas e a Super Bock. Os demais... basta abrir a porta do carro na fila interminável da marginal, direcção Vila ou Póvoa... e lá está o relato a estalar no sub-woofer. Então um dérbizito Rio Ave – Varzim... SAIAM DA FRENTE.
 
Terra de economia marcadamente piscatória, são evidentes as marcas do passado ainda vivas, por exemplo no facto de um pescador ganhar o que o mar dá, não ter contrato de trabalho, muitas vezes seguro, não descontar nos impostos, não ter férias, 13º ou 14º mês e fiquemos por aqui.
Denota-se um excêntrico “Novo-riquismo” em muito mestre de barco, sempre com um carro maior que os outros, casa com janelas e portas maiores que as outras, por vezes filhos e filhas mais estúpidos que os outros, mas tudo faz parte da hierarquia social.
Também há muita gente que gosta do “cochicho”, falar e analisar a vida dos outros diáriamente, escondendo-se por detrás da cortina a ver quem passa, o que veste e com quem vai. Autêntica espécie de Serviços Secretos Caxineiros (SSC), que ensinaria muito aqui perto aos Russos e mesmo aos Americanos. Já ouviram falar de pessoas que matam com um simples olhar? Também as temos nas Caxinas.
Quanto ao Caxineiro emigrante, gosta sempre de vir passar o Verão à praia das Caxinas, passeando o seu bólide comprado com seis meses de ordenado lá nas Alemanhas. Por vezes é alugado, mas ninguém sabe. Muito gel no cabelo espetado, ostenta uma ou duas argolas e um par de tatuagens. Na esplanada do barracão na praia, senta-se com os amigos a petiscar uns camarões da costa apanhados de manhã cedinho, o Sol a raiar e com a maré em sintonia com a Lua bazante. Maravilha, com umas cervejas a acompanhar e a mandar “bujardas” em alemão às turistas de Guimarães estendidas na areia, mesmo junto ao passeio. Mas que saudades!!
Futebol de praia, também não pode faltar, bem puxado, para uns bons mergulhos a refrescar o suor enquanto a bola está longe, depois de ter estourado contra os turistas. Quem chutou a bola à tolo? Ninguém, como de costume foi o vento e toda a gente assobia para o ar e começa a apanhar umas conchas. Esta Nortada é implacável. Vou nadar um bocado ali até à Inça e já venho. Como tenho jeito para a defesa, sempre joguei atrás e divertia-me ver o Caxineiro, jogador do Rio Ave e sempre avançado... a não passar pelo magriço e a começar as alcunhas, tipo Baresi.
 
No aspecto religioso, sem dúvida uma comunidade imensamente devota, como é apanágio em Portugal e particularmente nas comunidades piscatórias. É neste ponto que muitas vezes, principalmente quando era mais novo, perguntava a mim mesmo onde está o equilíbrio, pois via o cochicho e maldizer acutilante vir das mesmas pessoas que estavam todos os dias na Igreja “de volta do padre”. Com a idade lá fui obtendo as minhas respostas, mas sem dúvida é um aspecto fortíssimo em certas gentes das Caxinas.
 
Os Caxineiros são conhecidos um pouco por todo o país, não só pelo jogador de futebol com o seu sotaque característico quando fala à televisão após o jogo, mas também pela sua raça (força Paulinho), pelo “comer da relva” (Mestre André) ou pelo moderno mediatismo da nossa Selecção (Postiga – O novo Príncipe de Bel-Air Caxinas). 2010, Fábio Coentrão é o senhor que se segue.
 
Óbviamente que há muito mais a descrever, mas termino o post como está e o futuro trará mais posts. Não sei se a quem não é das Caxinas, esta descrição dará a real imagem desta gente, que secalhar é igual a toda a gente, mas também tem características muito próprias e como disse... devem ser melhor reconhecidas, porque há muito para além de estradas asfaltadas e árvores nos passeios.
 

Refiro-me a uma identidade reconhecida e estilizada.



publicado por cachinare às 12:52
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Terça-feira, 26 de Junho de 2007
Ligeira apresentação.

Antes de mais, uma ligeira apresentação.

Com 32 anos recentemente feitos, saí de Portugal em 03/2003, não por força da vida, como tantas das gentes das Caxinas, mas porque surgiu a oportunidade de ver como são as coisas "lá fora" e no momento me pareceu excelente ideia. Nesse mês de Março cheguei a Londres e tendo eu estudado Contabilidade, na ingenuidade de quem chega a tamanha e enorme cidade, ainda tentei durante um mês um emprego no mesmo ramo.

Obviamente nada surgiu e um mês mais tarde estava a trabalhar no ramo da restauração, algo que nunca esperaria fazer na vida, não por o considerar como "trabalho menor", - não sou apologista destas classificações de trabalhos mais ou menos importantes -  mas quase pela surpresa de tão grande oferta de trabalho nesta área.

De 7 anos de escritório, por vezes com momentos verdadeiramente vegetativos, passei para o rebuliço de uma cidade que não pára nunca, onde se dão encontrões em todo o tipo de raças, credos e línguas nas ruas, nos autocarros, no trabalho... único.

Practicamente durante dois anos e meio trabalhei a fazer mil e uma sandes e a tirar mil e um cafés por dia e embora exaustivo... adorei.

O que aprendi fora do escritório, as gentes que conheci, de tão diferentes países e continentes, os amigos que manti não têm preço. Acima de tudo, aprendi muito mais sobre a vida e o que realmente interessa. O horizonte expandiu-se sempre mais e mais.

Durante esse tempo conheci a mulher que será minha esposa dentro de dois meses e por sentir que estava na altura de virar a página do livro, disse-lhe: "Vamo-nos embora para o teu país. Se chegamos a Londres de mãos vazias e quase a nú... e saímos daqui de peito cheio de tanto, havemos sempre de ganhar onde quer que estejamos". Dois meses mais tarde chegamos à Polónia, Cracóvia.

Novamente sem trabalho ou sítio para ficar e ela, com os estudos para acabar, outra vez a cidade nos surpreende e nos agarra. Não faltavam ofertas no meu primeiro ramo e embora trouxesse um segundo de Londres, voltei ao escritório.

Hoje são quase cinco anos fora das Caxinas, ali entre Vila e Póvoa, no Norte... em Portugal e não há dia que passe em que não esteja lá em mente, com os pés enterrados na areia ali entre o Caximar e o Senhor dos Navegantes.

 

Acreditem; a apresentação realmente foi ligeira.



publicado por cachinare às 09:33
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Segunda-feira, 25 de Junho de 2007
Dar início a algo.

       Dou início hoje, 25.06.2007 a algo cuja vontade já vem desde há muito e que por via das novas tecnologias, é muito mais possível ao "comum cidadão" de hoje do que alguma vez foi anteriormente. Refiro-me à ferramenta que nos possibilita expôr a alta voz e visível a todos o que nos vai por dentro: um blogue.

 

Pois este blogue, o primeiro, foca um ponto que pode parecer simples e óbvio a algumas gentes desta terra (e não só), mas pressinto complicado... e muito: a elevação do Lugar das Caxinas a Freguesia.

 

Hoje ficar-me-ei apenas por esta breve apresentação e acima de tudo, intenção. Há muito a pesquisar, muito a ordenar de tantas coisas que vão na cabeça de um homem desde há tanto tempo e não se atiram de qualquer maneira ao meio da rua. Tentarei estruturar o blogue o melhor possível e procurarei ser assíduo.

 

Pelas gentes da minha terra.



publicado por cachinare às 14:59
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