Segunda-feira, 21 de Novembro de 2016
A preto e branco.

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O lugre-patacho “Neptune” em preparativos para a largada num qualquer porto francês de inícios do século XX. O facto de estar de partida é denunciado pelo seu casco tão branco e aprimorado, algo impossível depois de meses de alto mar e faina.



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Quarta-feira, 2 de Setembro de 2015
A longevidade do “Joseph Roty II”.

O arrastão-fábrica “Joseph Roty II” é um ex-bacalhoeiro que faz parte de um trio de arrastões construídos em 1974, nos estaleiros de Gdynia na Polónia, e sobre os quais escrevi anteriormente; o “Victor Pleven” e o “Capitaine Pleven II. São navios de grandes dimensões, com cerca de 91 metros de comprimento, 15 de largura e 6 de pontal, deslocando uma tonelagem bruta de 2.436 t e atingindo uma média de 16 nós de velocidade.

Construídos para o armador Comapêche (hoje denominada Companhia das Pescas de Saint-Malo), após a interdição das pescas em 1992, o seu armador manteria do trio somente o “Joseph Roty II” em actividade. O navio foi então convertido para a produção de base de surimi (pasta branca de peixe), andando à pesca do merlúcio (badejo) no Atlântico Norte.
Em 2004 sofreu remodelações para modernizar os seus equipamentos de produção e recebeu as cores (azul) da renomeada antiga Comapêche.
 
A foto mostra o navio em Agosto de 2007, atracado em Saint-Malo. Outras fotos em Bateaux de Saint-Malo.


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Quarta-feira, 18 de Março de 2015
A preto e branco.

 

O lugre-patacho francês “Côte d´Emeraude”, do porto de St. Malo, parte para a Terranova. Um dos bacalhoeiros mais conhecidos do seu tempo.



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Terça-feira, 10 de Março de 2015
A preto e branco.

 

O lugre-patacho francês “Littoral”, do porto de Fécamp, parte para a Terranova.



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Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2015
A preto e branco.

 

A escuna francesa “Bonne Tante”, do porto de Granville, parte para a Terranova.



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Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2014
A preto e branco.

 

 

Uma fotografia de 1949 onde se vê um pescador norueguês nas Ilhas Lofoten, Noruega, a exibir dois dos maiores bacalhaus da apanha do dia. Para mim, um dos mais belos cenários do mundo, pois literalmente é um arquipélago de montanhas que brotam do mar, é também um grande e antigo local de pesca de bacalhau. Hoje em dia o muito publicitado entre nós “Bacalhau da Noruega” é também daqui que vem.



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Quarta-feira, 19 de Março de 2014
O “Saint-Simon” – França.

O “Saint-Simon” foi um lugre construído em 1899 em Saint-Malo, Bretanha para o armador Simon Duhamel Père de Fécamp, com 42,33 metros de comprimento e 9,16 de largura, em tudo semelhante ao da 1ª foto. Aparelhado para a Grande Faina do bacalhau (o “ouro branco”) somente em 1914, o lugre figurava entre a grande frota de navios armados em Fécamp para a Terra Nova. Entre 1915-1918, é comissionado para a cabotagem internacional devido à I Guerra Mundial e voltando mais tarde à pesca do bacalhau, faria a última campanha em 1925 junto com o conhecido “Marité” (que fazia a sua 2ª), lugre esse sobre o qual escrevi anteriormente um artigo e que ainda hoje navega totalmente restaurado. O “Saint-Simon” era practicamente igual ao “Marité”, diferindo apenas no mastro central. O ano de 1926 seria trágico para o “Saint-Simon”. Em Abril desse ano enfrenta um forte temporal e sofre danos consideráveis e à chegada a Cherbourg, o veleiro é rebocado por um vapor Inglês. Outubro desse mesmo ano seria fatal para a embarcação. Transportando cerca de 500 toneladas de sal vindo de Sevilha, Espanha com rumo a Fécamp, para a indústria da conserva de peixe, à chegada a 11 de Outubro verifica-se a ausência de piloto na barra e ventos de grande força impedem-no de entrar. O vento aumenta para cerca de 100 km/h e o navio iça velas rumo a Dungueness para se abrigar. Devido à força de mar, o veleiro cede, começando a meter cada vez mais água e o Capitão apercebe-se que na impossibilidade de alcançar Fécamp, terá de rumar a Dieppe, em condição de excesso de carga, pouco manobrável e com tripulação reduzida. Pelas 13:30 ao largo de Sant-Valéry-en-Caux tenta chegar a Ailly, mas pelas 17:00 as condições a bordo tornam-se insuportáveis e inicia-se então o abandono do navio. O Capitão incendeia o lugre de modo a não causar danos à navegação local e a tripulação, dentro de um dóri e de uma chalupa é recolhida por um navio de Dieppe, o “Roco 803”. Perdia-se assim o “Saint-Simon” a 11 de Outubro de 1926, sem se perder nenhuma vida dos 13 membros da tripulação.

Um grupo de mergulhadores amadores pertencentes à associação de pesquisa de naufrágios na Mancha Este, GRIEME (Groupe de Recherche et d´Identification des Épaves de Manche-est) localizava em 2004 o local do naufrágio deste antigo lugre da pesca do bacalhau. A descoberta teve grande repercussão nos media, o que ajudaria a descobrir muita da história da embarcação. Tendo sido destruído totalmente acima da linha de água pelo fogo, poucos eram os objectos a recuperar, mas entre eles, talvez o mais simbólico foi descoberto “disfarçado” pela crosta de 78 anos no fundo do mar: o sino de sinalização do navio, com 48 kg, altura de 52 cm e diâmetro de boca de 38 cm.
Todos os objectos recolhidos encontram-se hoje no Museu dos Pescadores da Terra Nova em Fécamp.
Este lugre assemelhava-se bastante ao lugre-patacho Português “Gazela Primeiro”, hoje pertença do Museu Marítimo se Philadelphia, E.U.A., que pescou na Terra Nova ao bacalhau cerca de 70 anos sem interrupção.
 
Site oficial do GRIEME (em Francês). – Inclúi fotos e vídeos sobre o “Saint-Simon”.


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Domingo, 21 de Julho de 2013
A preto e branco.

 

Uma imagem de Julho de 1913 em Pirate Cove, Alasca, com dois pescadores de bacalhau em dóris à espera de descarregar. Já em 1867 os norte-americanos pescavam comercialmente o bacalhau nestas águas. Os navios saiam de São Francisco para as Ilhas Shumagin e Sanak, ao largo da Península do Alasca e para as Ilhas Aleutas em busca do bacalhau. Para preservar o peixe, usavam sal e também se extraía o óleo do fígado.

Entre 1865 e 1900, uma média de 10 navios pescavam cada ano no Alasca. Lá, várias firmas estableceram bases de pesca, a primeira em Pirate Cove, na ilha de Popof, Ilhas Shumagin, em1876. A experiência de enlatar bacalhau não teve sucesso, pois o público americano não gostava do sabor e nas décadas seguintes, embora continuando a ser pescado, o bacalhau seria substituído pelo salmão.

Se no Atlântico os Portugueses eram tidos como os únicos que pescavam em dóris de um só homem, por esta foto se vê que no norte do Pacífico também o pescavam dessa forma.



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Terça-feira, 2 de Julho de 2013
Bússola de dóri dos Grandes Bancos.

 

Esta é uma bússola antiga utilizada pelos pescadores do bacalhau em dóris nos Grandes Bancos (e não só). Possúi a inscrição 2 & 37, o que assume-se ser a data de fabrico Fevereiro de 1937 e a origem é “made in USA”. A caixa em madeira onde tipicamente era guardada tem de dimensões 12 x 12 x 8 cm.
Cada dóri, entre outros vários objectos, levava uma bússola para auxílio nos frequentes nevoeiros dos mares de Norte ou temporais repentinos que podiam afastar um dóri várias milhas do lugre ou escuna.
Os pescadores Portugueses chamavam-lhe também “agulhão de dóri”. 
 
Fotos de trinitymarine.


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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012
A preto e branco.

 

Uma pequena escuna de pesca ao bacalhau francesa chega ao seu porto de abrigo, Granville, vinda da Islândia, onde estas escunas de menor porte tradicionalmente pescavam.



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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012
“Anne Margrethe”.

A escuna “Anne Margrethe”, de 64 toneladas brutas, 22,43m de comprimento, 8,77m de boca e 2,75m de calado, foi construída e lançada à água em 1880-81 em Skaale, província de Hardanger na Noruega, pela mão do mestre naval Lars Knudtsen Skaale para um armador de Kristiansund. Esta comunidade era nos sécs. XVIII e XIX considerada como a capital do klippfisk (peixe seco) e possuía uma grande frota pesqueira, sendo o “Anne Margrethe” parte de cerca de duas centenas de embarcações que lá aportavam. Esta escuna navegava entre Kristiansund e as Ilhas Lofoten, de onde trazia peixe, normalmente bacalhau para a seca a Sul nas tradicionais armações, sendo depois exportado para a Europa e América do Sul.

Com o advento dos navios a vapor, que transportavam grandes quantidades de peixe para o Sul da Noruega, a grande frota de escunas começou a ser abatida durante os anos 20-30, numa altura em que o porto de Kristiansund era ainda uma “floresta de mastros”. A maioria dos navios seria queimada, outros desmantelados, mas alguns sobreviveram e continuam a navegar hoje. Em 1936 o “Anne Margrethe” foi adquirido por Jacob Grøneng e foi-lhe instalado um motor monocilíndrico “Union” de 50 cv. Em 1942, durante a ocupação Alemã, transportou areia para diversas construções ao longo da costa. Com o fim da guerra, a escuna trabalhou no comércio de arenque salgado para Helgeland e cabotagem de diversas mercadorias para o Norte da Noruega. Entre 1959-79 teve vários armadores até ser comprada e registada em Trondheim por um armador local. Completamente restaurada em 1989, possúi 5 cabines de 3 pessoas cada, num total de capacidade para 20 passageiros e com um novo motor diesel de 180 cv, navega mesmo sem vento.
Peixe salgado e seco era exportado das regiões da Noruega desde tempos imemoriais. A pesca tinha lugar em diferentes locais ao longo da costa, dependendo da concentração deste. Nos anos 1500-1600 exportava-se arenque de forma modesta e mais tarde surgiu o bacalhau, com níveis de exportação bastante elevados, atingindo o pico nos anos 1950s.
 
Site oficial do “Anne Margrethe”.


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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
A preto e branco.

 

A seca do bacalhau nas pequenas ilhas de St. Pierre e Miquelon, na Terra Nova, em inícios do séc. XX. Nesta altura esta indústria florescia nas ilhas, com uma vasta frota de dóris que apanhavam o bacalhau junto à costa, o qual era depois tratado e seco nas praias rochosas para futura exportação.



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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011
Uma carta de 1867.

Em 1988 foi apresentada no Museu de Dunquerque, no Norte da Bretanha, França, uma exposição consagrada aos pescadores do bacalhau na Islândia do séc. XIX. Por entre documentos, objectos e recordações encontrava-se uma carta dum pescador à sua esposa... .

 
«Querida esposa, ponho-me a escrever-te estas curtas palavras para te dizer que chegamos hoje a Grismoute, embora secalhar me consideres levado deste mundo depois de tanto tempo, mas Deus bem nos conservou a vida apesar de todos os grandes perigos aos quais estivemos expostos.
Digo-te querida esposa que tivemos a má-sorte de perder o nosso pobre navio a 9 de Setembro na Baía de Forestonne na Islândia e ainda pior doi que perdemos uma porção dos nossos efeitos e não pudemos salvar o que havia a bordo do navio, estando já o navio cheio de água quando o deixamos nas embarcações e em poucas horas ficou o navio desfeito pelas vagas.
Enfim querida esposa, é um grande azar de grande sofrimento, tendo grande dor por nada ganhar, mas embora nada podendo fazer, devemos agradecer a Deus por nos ter conservado a vida. Enfim, o principal é que ainda nos encontramos no mundo. Peço a Deus que a minha presente carta te encontre na mesma posição na qual me encontro, bem como a nossa criança e toda a família. O que desejo do mais profundo do meu coração é que Deus tenha piedade de nós. Espero que as nossas maiores dores estejam passadas e que dentro de 6 ou 7 dias estejamos em casa.
Nada mais tenho a dizer-te por agora e peço-te que abraces bem a nossa criança por mim. Cumprimentos à tua mãe, bem como à minha, aos nossos irmãos e irmãs e a toda a família de uma casa como da outra e a todos aqueles que se queiram informar de mim.
Querida esposa, acabo de te escrever e não de te amar e sou para toda a vida teu fiel esposo. 
Louis Dollet, 2 de Novembro de 1867»
 
A foto é já de inícios do séc. XX, mostrando a tripulação de uma escuna francesa de pesca ao bacalhau na Islândia, próximo a Reykjavik.


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Sexta-feira, 26 de Agosto de 2011
Como os arrastões-fábrica dizimaram o bacalhau da Terra Nova.
Há 500 anos, o explorador John Cabot regressava das águas em volta do que agora chamamos Terra Nova e reportava que o bacalhau era tanto que se podia apanhar com simples cestos à borda dos navios. Cabot tinha "descoberto" (algo muito discutível) um recurso que mudaria a Inglaterra para sempre, a base de um comércio marítimo que daria àquela pequena ilha-reino a riqueza, artes e capacidade de construção naval que a tornaria num império global. Ele havia descoberto os maiores Bancos de pesca que o mundo jamais conhecera, águas tão cheias de vida que uma vasta extensão do Novo-Mundo foi colonizada somente para recolher tamanho prémio.
Um século após Cabot, capitães de pesca Ingleses ainda reportavam baixios de bacalhau “tão espessos ao pé da costa que mal se consegue remar através deles”. Havia bacalhaus de 1,8, a 2 metros de comprimento a pesar tanto como 90 quilos. Havia grandes bancos de ostras, tão grandes como sapatos. Com a maré baixa, crianças eram mandadas para a beira-mar para a apanha de lagostas de 5 a 10 quilos. As corridas da desova do arenque, lula e capelim era tão colossal que deixava boquiabertos abservadores durante 4 séculos. Hoje, o peixe da Terra Nova desapareceu.
Das 10 províncias do Canadá, o território conjunto da Terra Nova e Labrador é o menos acessível. A maioria da sua população de meio milhão vivem na grande ilha da Terra Nova, uma massa de terra de 39.500 milhas quadradas que consiste em costas rochosas, colinas selvagens e montes de pinheiros. No Inverno a ilha é bafejada por ventos do Ártico e em inícios do Verão icebergues passam pela costa vindos da Gronelândia. O Labrador, 3 vezes maior que a Terra Nova, contém apenas uns poucos milhares de habitantes, pois é demasiado frio, descampado e virado a Norte para suportar maior população. Mesmo no Verão, uma viagem de Boston para St. John´s, a capital, leva 16 horas de carro e 14 de ferry.
Tal como a maioria da Terra Nova, a península de Burin a Sul foi fundada com base na pesca. Existem provas da presença de pescadores Bascos como estação de pesca de Verão por alturas dos anos 1500s. Pescadores Franceses podem ter começado a viver lá por alturas dos 1640s, embora a maioria tenha abandonado a área quando o território foi cedido à Inglaterra nos inícios do séc. XVIII. No auge da pesca nos Grandes Bancos com escunas, as comunidades de Burin estavam cheias de vida e enormes mansões Vitorianas foram construídas na cidade de Grand Bank. Durante a era industrial mecanizada de arrastões, a península estava no centro do processamento de peixe com fábricas de trabalho contínuo em Fortune, Marystown, St. Lawrence e Grand Bank. A maioria da população de 29.000 habitantes na península ou pescava ou trabalhava nas fábricas ou nos estaleiros navais de construção de arrastões que alimentavam as sempre famintas linhas de produção. Estas fábricas forneciam os filetes de peixe para a McDonald´s e ainda o faz hoje, mas o peixe usado agora é importado da Europa.
A razão para tal é o facto dos grandes aglomerados de bacalhau do Norte terem sido “limpados” por grandes redes de arrasto e o Governo encerrou a maior faina do mundo por falta de peixe – um ridículo exemplo de fechar a porta do estábulo quando o cavalo já fugiu. Em 1996, a península de Burin registou a maior taxa de desemprego do país durante meses e 30% da população não tinha trabalho.
Até 1949, a Terra Nova foi uma colónia Inglesa e ainda hoje se sente que é um posto longínquo da Europa do Norte. Muita da sua história está ligada à Inglaterra e Irlanda por laços de família, comércio e política. Com o desenvolvimento das tecnologias de congelação em inícios da II Guerra Mundial, os E.U.A. tornaram-se o maior mercado para o bacalhau da Terra Nova, mas o contacto com o Canadá era muito pouco. Não é por acaso que St. John´s está localizada no extremo Leste da ilha, metida entre montes numa baía virada para a Inglaterra, algures para além dum perpétuo muro de nevoeiro. De St. John´s, Londres fica mais perto que Calgary e a Irlanda mais perto que Winnipeg.
A colonização da Terra Nova e na verdade de muita da América do Norte foi uma consequência da busca pelo bacalhau. Bacalhau bem seco e salgado durava por longos periodos, algo de muito importante antes da moderna refrigeração, sendo relativamente leve e fácil de transportar. Desde o advento das pescas no Novo Mundo em inícios do séc XIV, que havia um mercado insaciável por bacalhau salgado na Europa. Era de longe uma fonte mais barata de proteínas que bife, porco ou cordeiro e a única fonte permitida de proteínas aos Católicos durante 166 dias de cada ano. Rentável, transportável e facilmente comercializado, o bacalhau rivalizaria com o ouro da América do Sul e acúcar das Caraíbas.
Contudo a história da destruição do bacalhau começa quando a era colonial da Terra Nova termina. Nos primeiros 4 séculos após Cabot, os habitantes da Terra Nova tinham pouco trabalho em encontrar e apanhar bacalhau. Pareciam ser eternos no seu número. Estes grandes e robustos peixes foram feitos para durar, sendo adaptáveis, omnívoros e bastante fecundos (uma grande fêmea produz 9 milhões de ovos numa única desova). O bacalhau do Atlântico sobreviveu na sua presente forma durante 10 milhões de anos, passando idades do gelo e aquecimentos globais que alteraram o nível dos mares em 90 metros. Vivem 20 ou mais anos e os seus ovos adaptam-se bem ao frio ou ao calor e com a riqueza de várias gerações ao mesmo tempo, o seu sucesso sempre foi garantido... até surgir a pesca industrializada.
O bacalhau pertence a uma família de peixe conhecida como “peixe do fundo”, assim denominada porque normalmente habita junto do fundo do mar ao longo da placa continental. Outras espécies das mesmas áreas são o eglefim, alabote, abrótea, e solha. Todas estas espécies foram intensamente pescadas e muitas partilham o mesmo fim do “primo” bacalhau. No entanto o bacalhau era o mais numeroso, valioso e importante. O bacalhau não vive apenas em cardumes mas sim em distintas populações reprodutoras. Cada qual movimenta-se como grandes “manadas” para se reproduzir e alimentar e raramente se mistura com outras. O bacalhau do Norte habita as costas geladas do Labrador e nordeste da Terra Nova. Outro grupo desova nos ricos em nutrientes Grandes Bancos, uma vasta série de montes submersos em águas pouco profundas ao largo da Terra Nova. Existem outras populações distintas no Golfo de St. Lawrence e nos Bancos de St. Pierre, perto de Burin; outras massas estão ao longo da Nova Escócia e no Banco de Georges ao largo da Nova Inglaterra. Estes últimos vivem em águas um pouco mais quentes e são maiores e mais “mexidos” que os do Norte. Outros grupos de bacalhau povoam as costas da Islândia e Europa.
Os pescadores beneficiam do facto do bacalhau se agrupar em grandes números. Na desova, congregam-se em massas de centenas de milhões de peixes. O peixe do Norte e Grandes Bancos enchia as correntes oceânicas com triliões de ovos o que tornava possível a sua pesca com linhas de mão (trol) e em décadas mais recentes a apanha de grupos inteiros com enormes redes içadas por arrastões do tamanho de pequenos transatlânticos. Mas durante vários séculos eram as migrações do bacalhau que determinavam quanto havia à mesa. Curiosamente, um dos alimentos do bacalhau, o capelim, desova na mesma zona e ambos migram depois para mais próximo da costa. O bacalhau na verdade come de tudo o que consiga meter à boca, o que os tornou versáteis por natureza, comendo desde mexilhões a caranguejos, lagostas, lulas e até outros jovens bacalhaus. Tal também tornava o isco de pesca fácil aos pescadores. Podem facilmente ser alados com um pedaço de chumbo, pedaços de “hot-dog” ou mesmo copos de plástico. Uma vez mordido o isco, não oferecem resistência até entrarem no bote.
Em 1951, um estranho navio (não o da foto ao lado) de bandeira Inglesa chegou aos Grandes Bancos. Era enorme, com 85 metros de comprimento e 2.600 toneladas brutas, 4 vezes maior que um grande arrastão-lateral. Esta super-estrutura de altos pisos e numerosas portas parecia um navio de passageiros, mas o seu convés confirmava ser um navio de pesca. Mastros colossais suportavam cabos e equipamento em escalas jamais vistas. A sua popa apresentava uma rampa gigante do convés ao mar, tal como navios baleeiros usam para arrastar baleias de 190 toneladas. Mas esta rampa destinava-se às enormes redes que apanhariam enormes cardumes de bacalhau e tudo o que estivesse com ele. A chegada do “Fairtry” marcou o início do fim para a pesca do bacalhau do Atlântico e na verdade para muitas das fainas no mundo. Este era o primeiro arrastão-fábrica-congelador, uma embarcação de vários milhões de dólares equipada com todas as inovações do pós-guerra. Debaixo do convés havia uma fábrica de processamento com máquinas automáticas de filetes, refeições de peixe e um enorme conjunto de armazéns frigoríficos. Podia pescar sem parar 7 dias por semana, semanas sem fim, içando redes durante terríveis temporais de Inverno que facilmente deitariam abaixo a Estátua da Liberdade. Com radar, sonar, detectores-de-peixe e ecogramas, podia detectar e capturar cardumes inteiros de peixe com uma eficácia assustadora.
Os navios começaram a aumentar de tamanho. Chegariam às 8.000 toneladas, arrastando redes com bocas de 1.060 metros. Numa hora podiam alar 200 toneladas de peixe, duas vezes mais do que um navio do séc. XVI apanhava numa campanha inteira. Re-tripulado e abastecido por navios de longo-curso, os navios podiam perseguir peixe por todo o mundo durante meses e meses, sem visitarem nenhum porto ou avistar terra. Arrastando em águas internacionais, estavam fora da jurisdição de nações e em 1970, a União Soviética possuía 400 arrastões-fábrica no alto mar. O Japão tinha 125, Espanha 75, a Alemanha (RFA) 50, França e Inglaterra 40 e dúzias mais eram operados por nações do Bloco de Leste. Todos eles arrastavam os Bancos de George da Nova Inglaterra, os stocks da África do Sul, Alaska e Mar de Bering, o krill (camarão) do Antártico e a maioria do bacalhau do Norte na Terra Nova e Labrador. Estavam literalmente a “rapar” o mar.
Em 1968, a apanha de bacalhau atingiu as 810.000 toneladas, quase 3 vezes mais do que em qualquer ano anterior ao “Fairtry”. Então, apesar de maiores esforços, redes maiores, detectores de peixe melhores e maiores fábricas a bordo, as apanhas decaíram. Dois cientistas de pesca Canadianos calcularam que cerca de 8 milhões de toneladas de bacalhau foram apanhadas entre a chegada de Cabot e 1750, um periodo que compreende entre 25 a 40 gerações de bacalhau. Os arrastões-fábrica atingiram as mesmas tonelads em apenas 15 anos, o periodo de 1 geração de bacalhau. Os arrastões estavam a apanhar peixe muitas vezes mais rapidamente do que a Natureza podia repor, não só bacalhau, mas também a solha, alabote e eglefim foram dizimados.
Em 1977 o Canadá seguiu a Islândia em unilateralmente estender as suas águas territoriais das 12 para as 200 milhas. Arrastões-fábrica estrangeiros foram expulsos dos Bancos excepto numa pequena extensão chamada “o Rabo” para lá das 200 milhas. Mas nesta altura já os stocks estavam tão destruídos que a maior parte dos navios já andava noutros mares. Ainda assim a decisão foi bem recebida e os Bancos passariam a ser usados em benefício dos Canadianos. Porém, num perfeito exemplo de vista curta, o Canadá iniciou a construção de uma frota de arrastões própria. A pesca estrangeira havia destruído a ecologia das pescas do Atlântico noroeste e o Governo Canadiano continuou para acabar com o pouco que restava.
A expansão da indústria doméstica criara um imperativo económico de que mais peixe tinha de ser apanhado. Stocks pouco explorados passavam a ser o alvo para manter as fábricas e enquanto a frota era construída, sociedades com arrastões estrangeiros foram feitas para a pesca nos Bancos; os arrastões fariam parte da descarga nas fábricas da Terra Nova e o resto levariam para casa. O colapso dos Bancos estava mesmo ao pé da porta.
Donald Paul, um pescador costeiro de Burin a trabalhar desde 1974 e dono de um pequeno barco comenta: “Naquela altura quando comecei havia imenso peixe. Diria que quando comecei a notar algo diferente foi em 1978. Em anos normais pescávamos 90 toneladas de bacalhau, mas nesse ano foi apenas 32. A partir daí nunca mais deu peixe.”
O choque deu-se em 1988 quando a última tecnologia de pesquisa revelou que muitos dos bancos de peixe do fundo estavam em colapso. O stock do bacalhau do Norte, o mais importante, estava no pior estado. Cientistas das pescas concluiram que as quotas teriam de ficar pela metade e os políticos estavam incrédulos. As quotas propostas causariam o caos económico por todo o Canadá de Leste. Então os políticos diminuiram as quotas... em 10%. Mais dados preocupantes surgiam e confirmavam que as reservas estavam em sérios problemas e que os pescadores andavam a apanhar apenas 60% de bacalhau crescido durante vários anos. Fábricas encerraram e 2.000 pessoas ficaram sem trabalho. O Canadá libertou 584 milhões de dólares para assistência e os pescadores tentaram de tudo, mas apenas conseguiram pescar 122.000 das 190.000 toneladas de quota em 1991. O stock estava em queda livre.
Quando as pesquisas ao peixe em 1992 foram publicadas, os políticos finalmente perceberam que independentemente das quotas que haviam estipulado, a Natureza havia-se pronunciado: não haveria mais peixe para alimentar as fábricas e famílias do Canadá Atlântico. O peso médio da população de bacalhau crescido era um mero 1,1% dos seus níveis históricos nos anos 60. Em 1992 o Governo finalmente fechou os Bancos para recuperação dos stocks, mas nessa altura era já demasiado tarde.
Mesmo se deixado em paz, o bacalhau do Norte poderá nunca mais recuperar. Tecnologia industrial e ganância humana poderão ter dizimado este rijo peixe de tal modo que não mais se poderão adaptar ao seu nicho ecológico. O desastre poderá ser irreversível, pois quando se altera por completo um ecossistema, as regras do jogo são outras. Surgem cada vez mais provas que os arrastões poderão não só terem “limpado” todo o peixe, mas também ter destruído todo o fundo marinho no qual o peixe vivia. Em finais dos anos 90, cientistas marinhos apresentaram provas de que os equipamentos de pesca modernos causam distúrbios físicos e ecológicos massivos. A placa continental, a mais rica e onde a maioria da pesca decorria, não é um mar de lama sem vida. Rochas, e inúmeras formações dão-lhe estrutura onde o jovem bacalhau e outros peixes se escondem de predadores e encontram inúmero alimento. Os modernos arrastões do fundo destroem estas estruturas como ceifeiras gigantes, arrastando o leito marinho por bacalhau e solha, com redes abertas por um par de “portas” metálicas que pesam toneladas. O extremo da rede contém um cabo grosso que pesa cerca de 300 quilos, o qual mantém a rede junto ao fundo. Muitas redes, arrastam consigo correntes que assustam camarão e peixe de modo a que entrem na rede. A destruição e distúrbio do fundo é tal que as espécies levam anos a recuperar, por vezes décadas. Num artigo de 1998, dois cientistas afirmavam que esta destruição é equivalente à das florestas tropicais, excepto que no mar ocupa uma extensão física 150 vezes maior. A recuperação dos Bancos e de toda a estrutura do fundo poderá levar décadas, sem pesca. Por outro lado a destruição do anterior ecossistema, levou a que outras espécies o ocupassem, como raias e tubarões, necrófagos como caranguejos e lagostas e os seus números são já avassaladores. O bacalhau crescido outrora alimentava-se destas espécies, mas o actual não o consegue fazer. Existem também provas que o grande aumento destas espécies necrófagas foi originado pelas grandes quandidades de peixe morto atirado ao mar, ou “descartado” pelos arrastões por não terem interesse comercial.
Ainda assim não é certo que o Canadá tenha aprendido com os erros cometidos com o bacalhau. A pesca simplesmente virou-se para outras espécies que sofrem agora a pressão da economia. Após vários anos de pesca intensiva, as descargas de peixe menos valioso como arenque, enguia e raia decaíu no seu todo na Terra Nova e Canadá Atlântico. Uma das espécies base de todo o ecossistema, o capelim, é agora o alvo de grande pesca. Na última década, os pescadores da Terra Nova foram incapazes de cumprir as quotas e o Governo continua a afirmar que os stocks estão saudáveis. As comunidades por toda a Província temem que mais uma vez os modelos do Governo estejam errados.
Jack May, poeta e responsável pelo farol de Twillingate, algumas milhas a Oeste da Ilha do Fogo na Terra Nova não é optimista quanto ao regresso do bacalhau. “Quer-me parecer que não conseguimos ver o todo do problema. Vemos um pedaço de camarão no sistema e corremos como loucos atrás dele e depois de o apanharmos todo dizemos com o dinheiro na mão que cá está uma pesca de milhões. Mas só será assim se soubermos olhar 10 anos para a frente e perceber as regras da Mãe-Natureza que determinam quanto podemos tirar. Nós não establecemos as regras. Só podemos adaptarmo-nos a elas”.
 
Traduzido de emagazine.com


publicado por cachinare às 00:11
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Terça-feira, 16 de Agosto de 2011
A preto e branco.

 

Uma ilustração publicada no periódico “Trompete de Nordland” (Noruega) em 1892, por Thorolf Holmboe. Nela pode-se notar os típicos barcos de pesca da altura, de vela quadrada, que pescavam o bacalhau bem junto da costa e abaixo a forma habitual como era depois processado o peixe, a secar pendurado em varas. Este era o método tradicional na Escandinávia, apenas de secagem, pois sal não faz parte daquelas regiões.



publicado por cachinare às 09:55
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Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2011
“Côte d’Émeraude”.
O navio “Côte d´Émeraude” foi construído em 1925 nos estaleiros de Craipeau em Saint-Malo, Norte da Bretanha na França. Era um navio de 380 toneladas, com 42,55 metros de comprimento, 9,70 de largura máxima e 4,40 de calado. Ficou conhecido pela pesca ao bacalhau que efectuou nos Bancos da Terra Nova, sendo embarcações desenhadas para as longas travessias do Atlântico. Este navio foi um dos últimos a ser construído para a Grande Pesca à vela e Cancale era o seu porto de abrigo habitual.
De notar a forma como eram transportados os dóris, empilhados com o fundo virado para cima, bem diferente da forma dos bacalhoeiros Portugueses.
É possível adquirir via internet uma monografia sobre o navio, a qual inclúi os planos para a construção à escala de 1/75, bem como várias imagens antigas. Aqui fica o link.


publicado por cachinare às 08:28
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