«Há 75 anos, o bacalhoeiro integrou a frota nacional. Histórias do tempo em que a pesca era um assunto de fortuna ou de morte.
Quando ia para o mar, nunca dizia adeus. Sabia que podia não voltar. Podia morrer afogado, não encontrar o navio e perder--se no meio da neblina, ceder ao sono e ao cansaço na proa do dóri [bote] e deixar-se cair, mas dizia ‘até logo’ de todas as vezes que se despedia à porta de casa e embarcava no ‘Creoula’ a caminho dos bancos da Terra Nova e da Gronelândia, para mais seis meses de campanha na pesca do bacalhau.
José Santos Leites, natural de Caxinas, Vila do Conde, era contramestre no lugre de quatro mastros que durante 36 anos foi bacalhoeiro abençoado pelo regime do Estado Novo, num tempo em que a sina de muitos homens passava pela pesca e a das mulheres pela oração. "Iam à Nossa Senhora das Boas Novas pedir que a santa protegesse os maridos na pesca do bacalhau enquanto eles, no meio do oceano, passavam medos, solidão e fome, uma barbárie", recorda Rosa Maria, filha do caxineiro que começou como pescador no ‘Creoula’, no início da década de quarenta, e anos depois chegou a contramestre por ser "um pescador de primeira linha" [os que apanhavam mais peixe e que no fim da viagem recebiam o ‘mérito’]. José já cá não está para contar as histórias que o mar teceu, mas foi a idade que o levou, não a pesca.
"Ele contava que na altura da II Guerra Mundial tinham medo de serem atacados no meio do oceano, principalmente na Gronelândia, tinham o fantasmas das coisas que pairavam no mar." O medo não era em vão: o ‘Delães’ e o ‘Maria da Glória’, também lugres bacalhoeiros, foram bombardeados no meio do Atlântico em 1942 por submarinos alemães em tempo de guerra mundial.
VIDA DURA
O ‘Creoula’ provou pela primeira vez a água há 75 anos, numa cerimónia presidida pelo chefe de Estado, o general Carmona, ao mesmo tempo que o ‘Santa Maria Manuela’, seu gémeo em constituição e plano, mas a sua faina não foi sempre a mesma. Em 1973 fez a última campanha como bacalhoeiro e em 1979 foi comprado à Parceria-Geral de Pescarias pela Secretaria de Estado das Pescas que, vendo o casco conservado, o transformou em Navio de Treino de Mar. Mas o tempo do bacalhau – nos melhores anos chegou a carregar mais de 12 800 quintais [768 toneladas], mais do que a sua capacidade máxima – ficou para sempre entranhado nas redes daqueles que o viveram.
"Não há vida pior do que a de um pescador do bacalhau! Todos os anos um homem vem para este inferno no engodo de juntar uns patacos, a ver se fica em terra para sempre, se não volta mais (…) Volta mais um ano, mais outro, mais outro… Até cair de podre. Até que o mar o leve", escreveu Bernardo Santareno em ‘O Lugre’, homenagem aos pescadores "daquelas águas onde o dia nunca acaba e o sol brilha no meio da noite". O escritor acompanhou, enquanto médico, campanhas na pesca do bacalhau, o que influenciou a sua obra feita de histórias de mar.
José Picoito, natural da Fuseta, Olhão, entrou no ‘Creoula’ pela mão do pai, pescador e salgador que ali fez tantas campanhas quantas as que o navio conheceu. "Quem não queria ir à tropa fugia para o bacalhau, era a forma de escapar. Livrei-me dessa vida aos 27 anos, depois de oito campanhas de pesca." Em 1961, quando a guerra estalava em Angola, José batalhava no mar, uma dureza diferente.
"Dormíamos no rancho, dois em cada beliche. Havia beliches em cima, ao meio eem baixo. Tambémera aí que comíamos o jantar. Para nos lavarmos davam-nos uma caneca de água fria; aproveitávamos quando íamos a St. John’s buscar isco, ou quando tínhamos de atracar por causa dos ciclones, para nos lavarmos numa ribeira", lembra. "O navio tinha de poupar água doce para a comida por isso era racionada", explica Fernando Oliveira, quatro campanhas a bordo do ‘Creoula’ e 60 anos de idade.
"Arriava-se os botes por volta das cinco da manhã e depois era cada um por si, uma vida ingrata. Nesse tempo, da pesca à linha, o jantar era sempre bacalhau: umas vezes frito, outras vezes cozido, estava sempre na ementa. Vivíamos a pescá-lo e a comê-lo", conta o caxineiro que começou na infância à pesca da faneca com o avô e só aos 18 se virou para o bacalhau. "Nessa altura era um dos verdes", os estreantes. A primeira vez no dóri foi "terrível. Tinha mais medo do nevoeiro do que do mar, o nevoeiro era uma doença".
Por isso, optou por nunca se distanciar dos outros botes durante a jornada solitária no meio do nada. "Preferia apanhar menos peixe e não me perder ou acabar afogado, por isso nunca fui dos melhores. Por isso também nunca ganhei mais do que quatro ou cinco contos por campanha. Os homens de primeira linha – que tinham um motor para o dóri cedido pela companhia – chegavam a tirar mais 15 ou 20 contos, conseguiam comprar carros de 50 contos e muitos abateram as dívidas da casa assim."
Fernando era nessa altura solteiro, mas quem já tinha aliança entregava à mulher o dinheiro – conta Joaquim Sousa – mal poisava pé em terra.
"Houve um ano – lembra António São Marcos, agora comandante do ‘Santa Maria Manuela’ – que os comandantes dos navios foram condecorados com o Grau de Cavaleiro e alguns dos primeiras linhas com o Grau de Oficial da Ordem do Mérito Industrial", tal era a sua importância para o regime.
JORNADA LONGA
O retorno dos dóris ao navio era às sete, oito da noite. Uma jornada que podia durar 15 horas. "Para regressarmos chamavam-nos com umas sirenes, mas às vezes não ouvíamos. O almoço era comido no dóri, normalmente uma fatia de fiambre ou marmelada e uma conserva de atum ou sardinha", recorda Afonso Silva, de 58 anos, cuja primeira viagem no ‘Creoula’ foi também a última do bacalhoeiro português.
Os pescadores iam remando por ali, experimentando "com a zagaia até encontrar peixe. Quando isso acontecia largávamos os trolleys e esperávamos pelo menos uma hora até recolher as linhas"; uma sequência repetida até encher o bote. "Na fase da força do peixe quase não descansávamos. E quem apanhava vigia nesses dias nem dormia", diz Fernando sobre um "cansaço tão grande que às vezes se adormecia em cima da proa do bote, correndo o risco de cair". "Por isso, quando chegávamos ao navio descarregávamos o peixe e íamos logo jantar, tal era a fome. Só depois, pela noite dentro, é que arranjávamos o peixe", recorda Afonso.
Passavam-se horas de volta do bacalhau, uma sequência de procedimentos que tinham de ser feitos, desde o troteiro, ao garfeiro, ao salgador. António São Marcos lembra a azáfama a bordo e a sua função, "uma espécie de dona de casa do navio. De manhã, quando os homens saiam nos dóris, ficava a bordo a orientar a baldeação do navio, que era lavar os restos do trabalho da noite. Depois era alisar o sal e preparar o porão para a pesca desse dia. À noite, quando os homens voltavam, supervisionava o processamento do pescado", recorda António São Marcos.
"Só não aproveitávamos a parte óssea, do crânio, de resto aproveitávamos tudo, nada se estragava", lembra Fernando.
Nos dias em que "no conjunto de todos os dóris se pescava mais de 200 quintais [12 toneladas], o capitão punha música para acompanhar o trabalho de salgar e escalar o bacalhau. Eram normalmente discos de fado, mas às vezes também baladas", recorda o algarvio José. Joaquim Sousa, 72 anos, viu-se a caminho da terra prometida noutro bacalhoeiro, mas ouviu do pai, com 29 viagens no ‘Creoula’, as histórias que depois sentiu na pele.
"O meu pai tinha seis filhos, por isso aguentou todos aqueles anos esta vida dura, sem água, sem luz, uma solidão imensa. Era um alívio chegar a terra depois de tanto tempo a ver o mar. Mas enquanto o meu pai não se afastava muito dos outros botes, eu arriscava mais. Tive dias de andar onze milhas para apanhar o navio. Às tantas já não se via nada: víamos um pássaro e achávamos que estávamos a ver o navio, já era a cabeça a baralhar". No mar, como na guerra, "cada homem é um tubarão, havia uma rivalidade terrível entre os pescadores que apanhavam mais peixe. Essa foi uma herança maldita que veio de outro tempo, mais antigo".
A FÉ NA HORA DO MEDO
‘Levantai-vos rapaziada, filhos da Virgem Maria/ Vai um homem para o leme e dois para a vigia’ era o último verso dos Louvados, que todos os dias os pescadores repetiam antes da descida dos botes para mais uma jornada de pesca à linha. Diz o ditado ‘Se queres aprender a orar, entra no mar’ e era à fé que os pescadores se agarravam. "Eu sentava-me na escada que ia dar ao rancho e era dos que orava mais alto. Com a morte ali tão perto, era preciso agarrarmo-nos à esperança de que voltaríamos", lembra Fernando Oliveira.
‘Vamos arriar com Deus’ ordenava o capitão. As crenças estavam tão presentes nos homens do mar que "o bote número 13 ninguém queria", recorda José Picoito sobre o sorteio feito na viagem de ida. "Era o número do azar e os pescadores tinham muito medo de não regressar." José, hoje com 70 anos, perdeu colegas. "Eram da Nazaré e nunca mais os vimos. O navio esperou, esperou, mas não vieram." Joaquim também ouviu do pai essas histórias. "Foram engolidos pelo mar e não mais apareceram." "Não era uma vida fácil para ninguém, desde o comandante ao moço", lembra António São Marcos, que tinha então 22 anos. "Mas guardo muitas e boas recordações dessa viagem. Tenho uma memória romântica daquela campanha que fiz no ‘Creoula’, apesar das poucas condições que havia foi uma viagem memorável."
Para os pescadores os momentos felizes daquela época teciam-se menos das linhas de pesca e mais das discotecas de St. John’s. "Tínhamos uma roupa guardada para quando íamos a terra dançar. Aí esquecíamos tudo", lembra Afonso Silva, que se deixou tentar "pelas canadianas" que encontrava. José também teve uma namorada ou outra. "Mas amor a sério foi em terra, em Portugal."»
por Marta Martins Silva – CORREIO DA MANHÃ – 13-5-2012.
foto 3 - Capt. Harry Stone.
fotos 4,5 - António São Marcos.
No próximo dia 26 de Maio irá decorrer num restaurante da Praia de Mira, um primeiro encontro a nível nacional de antigos Pescadores Bacalhoeiros.
Estará disponível uma sala para projecção de filmes e fotos das mais variadas embarcações da Pesca do Bacalhau.
O convite, é dirigido a pais, filhos, esposas e amigos simpatizantes. Os bilhetes estão à venda até dia 24 de Maio.
Esta, é uma excelente iniciativa que deveria repetir-se a partir de agora noutras zonas do país, pois do Minho ao Algarve saíam centenas de homens para o Atlântico Norte todos os anos.
«Realiza-se no sábado, dia 28 de Abril pelas 21 horas, no novo “Memórias de uma Terra”, em Vila Chã, Vila do Conde, a primeira do que se pretende que seja um ciclo de palestras em torno do tema da Pesca. Esta, com a designação “Memórias de…Pesca do Bacalhau” contará com Felisberto Costa, o “Feliz”, antigo e conhecido pescador de Vila Chã.»
texto – blog Opera Associação Cultural.
Núcleo Expositivo “Memórias de uma Terra”
Travessa do Sol
4485-743 -Vila Chã, Vila do Conde.
Telf. 229 285 607
Num olhar repentino até parece que são duas embarcações de recreio e os seus tripulantes desfrutam da vela, mas são “apenas” dois dóris portugueses na pesca do bacalhau do Atlântico Norte. É provável que o fotógrafo se encontre noutro navio e estes dóris a ele venham trazer alguma missiva, vinda do lugre de quatro mastros ao longe, um dos conhecidos “cisnes brancos” de 1937-39 construídos em aço. Os dóris não aparentam estar aparelhados para a pesca.
«Um bom modelo. Um bom fotógrafo. Um álbum excelente. Um cisne cruzando uma série de mares, ora recortando todas as suas “penas” – da giba à mezena, sobrepondo-se a uma ilha no horizonte ou às nuvens do céu, exibindo pacatez de pose com vida própria, ou dinamismo de instrução a abarcar um sem número de actividades, desde o rolar de pandeiros de cabo, no convés, à sorna de um descanso justificado. Tudo isto gravado pelos cliques atentos da máquina do skipper.
«Talheres de prata do Titanic, que estavam num móvel à deriva recolhido por um navio bacalhoeiro após o naufrágio, conservam-se no espólio de algumas famílias de Ílhavo, que há cem anos os repartiram entre si.
O "segredo" foi agora revelado num blogue por Ana Maria Lopes, antiga diretora do Museu Marítimo de Ílhavo e detentora de seis colheres de prata, que confirmou a origem junto da RMS Titanic e motivou já a deslocação a Ílhavo de uma cadeia de televisão francesa.
"Os talheres foram [encontrados no interior] de um móvel que flutuava um mês e meio após o naufrágio e que foi recolhido pelo veleiro "Trombetas", da Figueira da Foz, (foto 2) de que era capitão João Francisco Grilo, de Ílhavo. Quando chegou, entregou-os ao armador, que não se interessou muito, pelo que os repartiu por familiares e amigos", explica Ana Maria Lopes.
É essa a proveniência das seis colheres de sopa que lhe pertencem, que foram oferecidas ao seu avô e que veio a herdar, juntamente com o resto do recheio e a casa onde habita.
Desde os nove anos de idade que os talheres e a história a que estavam ligados lhe eram familiares, por conversas da sua avó, quando limpavam e arrumavam "as colheres do Titanic".
Há outros casos na vizinhança, com a mesma proveniência: "há mais algumas famílias com colheres, e também já vi garfos. Uma senhora que mora perto de mim e não quer ser divulgada tem 17 peças, entre colheres iguais a estas, de sobremesa e garfos, porque o marido era neto do que achou [o móvel]".
Durante praticamente um século, a existência dos talheres foi apenas do conhecimento restrito de familiares, embora houvesse rumores em Ílhavo sobre tais despojos.
"Quem os detinha não gostava de falar. Cada um tinha o que tinha na sua casa e acabou, embora se comentasse haver umas colheres do Titanic", explica.
Até que, Ana Maria Lopes, por força das suas funções no Museu, deu mais atenção às colheres "que sempre estiveram lá em casa" e começou a investigar.
"Vi que a história oral de Ílhavo tinha razão de ser, porque havia uma coincidência de datas e de rotas. Havia a memória de que os talheres tinham sido apanhados na ida dos navios para os pesqueiros, que era sempre por fins de abril e meados de maio, e o Titanic naufragou em 14 de abril de 1912", diz.
Depara-se com o registo do regresso - a 27 de outubro de 1912 - do "Trombetas" que, segundo a tradição oral, terá recolhido o móvel com os talheres, e do "Golfinho", de que era capitão o seu avô.
A localização do Titanic, no fundo do mar, trouxe novo entusiasmo e foi à primeira exposição de artefactos do navio, em 1994, no Museu de Greenwich, mas só na terceira exposição, em Lisboa (2009), é que viu "talheres exatamente iguais".
Seguiu-se um encontro na Costa Nova com Christopher Davino, da RMS Titanic, a quem mostrou as suas colheres e que as certificou. Eram de facto iguais, em prata maciça, com a estrela no cabo, símbolo da White Star Line, a punção da prata da época, e a indicação da Elkington Plate, uma joalharia inglesa famosa.
A "descoberta" levou já uma equipa da France3 afilmar três dias em Ílhavo para o programa "Thalassa". Agora, Ana Maria Lopes espera que o Museu de que foi diretora possa vir a receber uma exposição do Titanic.
"Será que alguma vez teremos uma exposição do espólio do Titanic em Ílhavo? Acho que a terra portuguesa mais indicada para receber uma exposição é Ílhavo, no Museu ou noutro espaço público", defende.»
@Lusa, via notícias sapo.
«Passaram-se os factos que vamos narrar no mês de Março de 1917.
«O estudo ou a simples evocação da pesca do bacalhau constitui forma legitima de narrar e de procurar compreender uma aventura humana nas suas múltiplas dimensões: espaços, homens e cultura material, vida económica e dinâmicas empresariais, organização social, formas de regulação institucional e política ensaiadas pelo Estado, representações estéticas e ideológicas. As imagens estilizadas, oscilando entre o tom épico e o drama, persistem densamente povoadas de representações ideológicas tecidas pelo Estado Novo em torno de um dos mais tangíveis programas de "ressugimento económico" do regime, ícone do sistema corporativo e da pretensa capacidade de Salazar em promover o reencontro da Nação com o mar. Não cabe à História estilhaçar essa memória ora romântica ora verosímil, mais forjada ou mais espontânea, mas apenas descrever as suas representações e interpretá-las; eventualmente tomando a memória, ela própria, como objecto de estudo a examinar e desconstruir.»
A Benção dos Bacalhoeiros em 1936 no rio Tejo. Prepara-se a frota para mais uma campanha, quase toda à vela e sem motor auxiliar.
imagem – Centro Português de Fotografia / jornal O Século
«Sobre o colega da Escola de Pesca de Lisboa, o Flores, nunca o encontrei em St. John's, como encontrei outro colega açoreano do mesmo curso. Mas sabia que o Flores havia embarcado no "Neptuno" e que um dia a descarregar à borda do navio, o bote foi ao fundo e ele ainda tentou agarrar-se ao casco escorregadio. Com o peso das botas e da roupa de oleado, o balanço transversal violento do navio no mar ondulado da Terra Nova, foi rápido e fatal. Desapareceu para sempre da vista de todos, afundando-se nas águas escuras.
Era um jovem brincalhão e bem disposto, natural de Rabo de Peixe, uma freguesia bastante pobre. Ele, como outros, procurava um futuro melhor.»
Palavras do amigo Celestino Ribeiro, antigo pescador bacalhoeiro de Vila Praia de Âncora.
Ficha de José “Flores” Laranja – Museu Marítimo de Ílhavo.
Dionísio Cândido Quintas Esteves foi um pescador como tantos outros que fez parte da epopeia da pesca ao bacalhau na Terranova e Gronelândia. Natural de Vila Praia de Âncora, com 26 anos de idade e casado, ficou imortalizado em 1966 no filme de Hector Lemieux “O Navio Branco”, por ter falecido a bordo. Como me confirmou o meu tio e Celestino Ribeiro, pescadores a bordo também nesse ano, "Uma tempestade obrigou a uma manobra da vela da bujarrona e uma vaga dupla abateu-se impiedosamente sobre a tripulação. O Dionísio, marinheiro de quarto, ficou entalado contra o mordente do guincho. Dali a três dias de sofrimento horrível, deixou-nos e fomos sepultá-lo a St. John's.". Dionísio fazia o seu 6.º ano a bordo de um bacalhoeiro.
É possível ver na parte final do filme de Lemieux a tripulação a dirigir-se a St. John´s na Terranova para sepultar este pescador. Tal como outros pescadores da frota falecidos durante décadas, foi sepultado no cemitério do Monte Carmelo, em St. John´s, ao que parece sem lápide de identificação.
45 anos depois, um emigrante português nos E.U.A., Sidónio Patrício (na foto), autor do já conhecido site Patricioclan, onde se exibe o filme de 1966, resolveu dirigir-se a St. John´s em busca do local de descanso de Dionísio Esteves. É pois a foto acima que regista esse momento em Março deste ano, local que Sidónio conseguiu identificar comparando com imagens do filme e onde colocou uma singela foto e texto identificativo do desafortunado pescador.
Um enorme agradecimento a Sidónio Patrício pela quase anónima iniciativa de relembrar este pescador “sem lápide”, um de muitos que ficou sepultado longe de Portugal e das suas famílias, os quais não merecem de modo algum o esquecimento, mais ainda pela epopeia na qual estavam inseridos, cuja dureza os tornou heróis e exemplo para muitos.
Nos Porões da Memória V
fotografia de Mário Ruivo
19 de Março 2011 - 26 de Junho 2011
«Nos Porões da Memória guardam-se, muitas vezes, imagens improváveis do tempo mítico da pesca do bacalhau por homens e navios portugueses. Ao registo épico erigido pela propaganda do Estado Novo, que logo nos anos trinta construiu e divulgou uma memória oficial da “grande pesca” eminentemente historicista, aditou-se o olhar de estrangeiros, escasso em número e pouco dissidente no modo de ver. Mais realistas e diversos foram os registos de imagem dos próprios pescadores e oficiais, memórias sem rasto que o Museu tem procurado identificar e expor com a finalidade de pluralizar a memória da pesca do bacalhau. Neste infindável arquivo de discursos sobre a mítica “faina maior” são pouco conhecidas as imagens construídas por cientistas portugueses e estrangeiros que, no âmbito das suas tarefas de observação e registo de aspectos comportamentais das populações do bacalhau do Atlântico, fotografaram e filmaram a faina dos pescadores portugueses, construindo imagens que hoje podemosconsiderar documentais. É o caso deste magnífico conjunto de fotografias de Mário Ruivo, extraordinário biólogo e cidadão do mar, que no final da década de cinquenta do século passado conviveu com as tripulações portuguesas de bacalhoeiros na concretização dos planos de amostragem dirigidos pelo Instituto de Biologia Marítima em cooperação com a Comissão Consultiva Nacional da ICNAF (International Comission for the Northwest Atlantic Fisheries), organismo multilateral de gestão das pescarias da Terra Nova, Labrador, Nova Escócia e Gronelândia criado em 1948, em pleno início da Guerra Fria. Este pequeno álbum de imagens conjuga-se com a publicação pelo Museu de um escrito inédito de Mário Ruivo e do piloto de navios A. Nunes de Oliveira, um escrito de mar que relata como poucos as técnicas de pesca do bacalhau com artes de anzol. Cabe ao Museu Marítimo de Ílhavo agradecer ao autor este contributo singular para o projecto do Museu, cuja missão cultural consiste na reconstrução de memórias da vida marítima e na promoção de uma cidadania do mar feita a diversas vozes.»
Álvaro Garrido - (Consultor do Museu Marítimo de Ílhavo)
via Museu Marítimo de Ílhavo online.
Em breve estes três veteranos pescadores no rio Tejo, eventualmente saltarão para bordo do seu bacalhoeiro, disfrutando das últimas horas em terra firme antes de cerca de 6 meses de alto mar e dura faina. Interessante notar os garrafões ao lado, um típico foquim, um provável saco de roupa. O navio branco em grande plano é o “Milena”.
imagem – Centro Português de Fotografia / jornal O Século
Aparelhos e Métodos de Pesca à Linha usados na Frota Bacalhoeira Portuguesa
Apresentação de livro | 19 de Março | 17h
autoria de Mário Ruivo e António Nunes de Oliveira
edição Câmara Municipal de Ílhavo/Museu Marítimo de Ílhavo
«A pesca do bacalhau à linha com dóris de um só homem foi uma saga de heroísmos cruéis. O projecto cultural do Museu Marítimo de Ílhavo e a investigação empenhada em conhecer este “fenómeno total” têm permitido revolver uma memória que, em certos meios, teima em persistir fechada e mítica, conservadoramente épica. Porque se trata de um documento inédito, escrito em finais dos anos cinquenta do século XX, optámos por não alterar o original, quer na grafia, quer nos desenhos e fotografias. Por razões diversas, esta improvável aliança determinada por compromissos externos que a organização corporativa das pescas acabou por assumir para defender a política de abastecimento de bacalhau resultou num escrito a duas mãos que não chegou a ser publicado. Fazê-lo agora significa partilhar um documento de admirável realismo científico que exprime como poucos a íntima ligação dos aspectos humanos, técnicos e científicos da “grande pesca” por homens e navios portugueses no Atlântico Norte.»
via Museu Marítimo de Ílhavo - Nota Informativa nº 3 | 10 Março 2011
«Ano de 1949. A 13 de Março desse ano estreava no cinema S. Luís o filme português “Heróis do Mar”,de Fernando Garcia. O filme era inspirado na obra “Os Grandes Trabalhadores do Mar”, de Jorge Simões. Produzido pela Cineditora, teve na pessoa de Vasco Morgado um dos grandes responsáveis pela sua realização, participando também como actor.
O filme aborda a vida e as aventuras de um grupo de homens que dedicavam a sua vida à faina perigosa e insegura da pesca do bacalhau. Pode-se por isso dizer que o grande protagonista deste filme é o mar das imensas e longínquas águas da Terra Nova e Groenlândia. Um tema bastante aliciante para o povo português, pois não podemos esquecer a nossa tradição marítima, já que estivemos voltados para o mar durante séculos. O filme ganharia nesse ano de 49 o grande prémio SNI para “Melhor Filme”».
Texto e imagens adaptados de Paulo Borges blogue.
Este é um filme que pela capa a vermelho, existirá em versão VHS ou mesmo DVD. Caso alguém me possa confirmar a sua existência à venda, agradeço. Até hoje nunca o encontrei.
A Epopeia do Bacalhau
Apresentação de livro | 19 de Março | 17h
edição CTT - Correios de Portugal
autoria de Álvaro Garrido e David Lopes Ramos
prefácio de Mário Ruivo
«Álvaro Garrido traça a evolução histórica da pesca do bacalhau, descrevendo as vicissitudes dessa actividade, os perigos, os métodos de pesca, a vida a bordo e a importância do bacalhau na economia portuguesa. David Lopes Ramos reflecte sobre a importância deste peixe nos hábitos alimentares dos portugueses apresentando as receitas clássicas do bacalhau. Trata-se de uma edição profusamente ilustrada, sobretudo com iconografia do acervo do Museu Marítimo de Ílhavo. De tiragem numerada e limitada a 5.000 exemplares, contém 6 selos com o valor facial de €3,45 da emissão filatélica Pesca do Bacalhau de 2000.
Edição bilingue.»
via Museu Marítimo de Ílhavo - Nota Informativa nº 3 | 10 Março 2011
Já anteriormente escrevi um pouco sobre esta obra aquando de um artigo intitulado “António ´Bacalhau´”, um dos famosos pescadores do bacalhau que quando não andava na faina era um dos melhores futebolistas das ilhas.
a nova fanequeira de vila chã(37)
ala-arriba(37)
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aquele portugal(27)
argus(25)
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pesca portuguesa(36)
póvoa de varzim(56)
relatos da lancha poveira "fé em deus"(2)
veleiros(11)
vila do conde(50)
A Frota Bacalhoeira Portuguesa.
filme Uma Aventura na Pesca do Bacalhau
documentário "A Pesca do Bacalhau" - 4 partes
filme 1952 - n/m "Alan Villiers" - Estaleiros Navais de Viana do Castelo
filme 1956 - n/m "São Jorge", construção e bota-abaixo
filme 1957 - l/m "Oliveirense"
filme 1958 - Bacalhoeiros em Viana do Castelo
filme 1964 - n/m "Novos Mares", chegada à Gafanha
filme 1967 - "Os Solitários Pescadores-dos-Dóris"
filmes 1977 a 1991 - Nos Grandes Bancos da Terra Nova
filme 1981 - "Terra Nova, Mar Velho"
História / Filmes de referência à Pesca do Bacalhau
Confraria Gastronómica do Bacalhau - Ílhavo
Lugre-patacho "Gazela Primeiro"
Lugre "Cruz de Malta" ex-"Laura"
Lugre "Altair" - "Vega" - "Vaz"
Lugre "Estrella do Mar - "Apollo" - "Ernani"
Lugres "Altair" "Espozende" "Andorinha" "S. Paio" "Cabo da Roca"
Lugres "Silvina" "Ernani" "Laura"
Lugres "Sotto Mayor" "São Gabriel"
Lugre-motor "Creoula" - Revista da Armada
Lugre-motor "Santa Maria Manuela" - Renasce
NTM Creoula em St.John´s, Agosto 1998
A Campanha do "Argus" - Alan Villiers
Lugre-motor "Argus" / "Polynesia II"
Lugre-motor "Primeiro Navegante"
Lugre-motor "Santa Maria Manuela"
Lugres-motor "Maria das Flores" "Maria Frederico"
A Inspiração dos Cisnes 1 (Inglês)
A Inspiração dos Cisnes 2 (Inglês)
A Inspiração dos Cisnes 3 (Inglês)
Navio-mãe "Gil Eannes" - 1959-71 Capitão Mário C. F. Esteves 1
Navio-mãe "Gil Eannes" - 1959-71 Capitão Mário C. F. Esteves 2
Navio-mãe "Gil Eannes" - 1959-71 Capitão Mário C. F. Esteves 3
Navio-mãe "Gil Eannes" - Fundação
Navio-motor "Capitão Ferreira"
Navios-motor "Capitão Ferreira" "Santa Maria Madalena" "Inácio Cunha" "Elisabeth" "São Ruy"
Navio-motor "Pedro de Barcelos" ("Labrador" em 1988)
Arrastão "Santa Maria Madalena" 1
Arrastão "Santa Maria Madalena" 2
Arrastão "Leone II" ex-"São Ruy"
Arrastão "Álvaro Martins Homem"
Arrastão "Argus" ex-"Álvaro Martins Homem" 1
Arrastão "Argus" ex-"Álvaro Martins Homem" 2
Arrastão-clássico "Santo André"
Arrastões-popa "Praia da Santa Cruz" "Praia da Comenda"
Arrastão-popa "Inácio Cunha" hoje "Joana Princesa"
Arrastão-popa "Cidade de Aveiro"
Estaleiros de Viana do Castelo
# Quando o "Cutty Sark" foi o português "Ferreira"
# Quando o "Thermopylae" foi o português "Pedro Nunes"
# Quando o "Thomas Stephens" foi o português "Pêro de Alenquer"
# Quando o "Hawaiian Isles"/"Star of Greenland"/"Abraham Rydberg III" foi o português "Foz do Douro"
filmes - Mares e Rios de Portugal.
Catraia Fanequeira de Vila Chã, Vila do Conde
Maria do Mar - Nazaré, anos 30 - 9 partes
Tia Desterra - Póvoa de Varzim - 12 contos
Douro, Faina Fluvial - 1931 - 2 partes
Pescadores da Afurada, anos 60 - 2 partes
Palheiros de Mira - Onde os Bois Lavram o Mar - 1959
Lagoa de Santo André - 3 partes
Douro, Descida do Rio - 2 partes
Algarve, Atum na Costa - 2 partes
Estaleiros Navais de Viana do Castelo - 65 anos
A "Cumpanha".
Modelos de Navios de Prisioneiros de Guerra-POWs Bone Ship Models
A Lancha Poveira - Póvoa de Varzim
Museu Dr. Joaquim Manso - Nazaré
Bate Estacas - Barcos Tradicionais
Indigenous Boats - Barcos Indígenas
Carreteras, oceanos... - Galiza
Embarcações Tradicionais da Ria de Aveiro
COREMA - Associação de Defesa do Património
Singradura da Relinga - Galiza
O Piloto Prático do Douro e Leixões
Olivença é Portuguesa.