Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2017
"Santa Maria Manuela" comprado por grupo Jerónimo Martins.

santa maria manuela lisboa

«O navio de treino de mar SANTA MARIA MANUELA foi vendido pela Pascoal & Filhos, por “motivações estratégicas e de contexto”, para o Grupo Jerónimo Martins, (Recheio Cash & Carry, S.A.), “com efeitos legais a partir de 11 de Novembro de 2016”, segundo o blogue oficial do MANUELA em nota assinada pelos responsáveis pela recuperação do navio em 2007- 2010, Aníbal Paião e João Vieira. O SANTA MARIA MANUELA deixou o cais da Gafanha da Nazaré onde atracava desde 2010, a 8 de Novembro último e entrou em Lisboa na manhã seguinte, permanecendo atracado em Cabo Ruivo, junto à EXPO 98, até 8 de Janeiro, quando saiu para Viana do Castelo, tendo permanecido em doca seca de 10 a 17 de Janeiro em reparação no estaleiro WestSea, em trabalhos de manutenção técnica e pintura, que decorreram com inteiro agrado do armador. Posta a hipótese de o registo do navio ser transferido para a Madeira, para já manteve-se o registo convencional, em Aveiro. O MANUELA mudou entretanto de sociedade classificadora, para o Germanischer Lloyd e a tem gestão técnica da Mutualista Açoreana, uma empresa da Bensaude Marítima, que assegura igualmente a agência no porto de Lisboa. O SANTA MARIA MANUELA foi construído em Lisboa pela CUF no estaleiro da Rocha do Conde de Óbidos em 1937, lado a lado com o seu irmão CREOULA, destinando-se à pesca do bacalhau no Atlântico Norte, propriedade da Empresa de Pesca de Viana, que o vendeu em Novembro de 1963 à Empresa de Pesca Ribau, de Aveiro, depois de a Parceria Geral de Pescarias ter sido sondada no sentido de ver se teria interesse na sua aquisição. O SANTA MARIA MANUELA pescou pela última vez em 1993, na NAFO, já com redes de emalhar, e foi abatido em Fevereiro de 1994, preservando-se o casco, em parte graças à sensibilidade do Capitão do Porto de Aveiro de então, Cte. Rodrigues Pereira, passando a pertencer à Fundação Santa Maria Manuela, constituída nesse mesmo ano com o objectivo de recuperar o seu traçado original, o que não se concretizou, acabando em 2007 cedido à Pascoal & Filhos, que promoveu a recuperação do MANUELA, o qual foi inaugurado, na sua forma actual, a 10 de Maio de 2010, num momento de grande significado para a Marinha Mercante portuguesa. Sob operação da Pascoal, o SANTA MARIA MANUELA desenvolveu intensa actividade, desde 2010, participando nas regatas da Sail Training Association, prestigiando Portugal no estrangeiro e sendo visitado por mais de 400 mil pessoas. Integrado no universo do Grupo Jerónimo Martins, o MANUELA deverá retomar a actividade já em 2017, reforçando a ligação dos novos proprietários ao mar»

via Revista de Marinha



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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017
A preto e branco.

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Um autêntico festival de navios, pescadores e marinheiros, durante a Benção dos Bacalhoeiros no rio Tejo dos anos 30. Era um verdadeiro evento nacional que juntava milhares de pessoas às famílias de pescadores que aqui se despediam deles.



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Terça-feira, 22 de Novembro de 2016
“Tempos de Pesca em Tempos de Guerra” - Póvoa de Varzim.

pesca guerra

 



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Quarta-feira, 28 de Setembro de 2016
“Tempos de Pesca em Tempos de Guerra” - Vila do Conde.

maria da gloria capa livro

Há cerca de 8 anos atrás, publiquei neste blogue um artigo sobre o lugre “Maria da Glória”, um dos muitos da Pesca do Bacalhau portuguesa. A história do naufrágio deste lugre foi uma das mais impressionantes que já investiguei e até hoje nunca esqueci a busca que fiz pelas fotos possíveis e existentes dos pescadores vítimas desse naufrágio. Jamais consegui esquecer essas fotos.

É com agrado que vejo um livro sobre esse episódio surgir, intitulado “Tempos de Pesca em Tempos de Guerra”, da autoria de Licínio Ferreira Amador.

Será apresentado já no próximo sábado, 1 de Outubro pelas 15 horas, no Centro de Memória de Vila do Conde. A não perder a oportunidade de poder aprender sobre este episódio dramático, onde humildes pescadores em tempo de guerra, de um país neutral, foram cruelmente enviados para um horrendo fim.

Agradeço ao amigo Reinaldo Delgado a notícia deste livro e sua apresentação em Vila do Conde.



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Quinta-feira, 9 de Junho de 2016
St. John´s, Terra Nova - 1967.

frota branca st. john´s terra nova 1967 3

Em pose para a fotografia, este provável pescador será mais um que se prepara para ir a terra (ou de lá regressa) para desfrutar das ruas de St. John´s e arredores, vestido a preceito por entre os bidões onde normalmente se armazenava o óleo de fígado do bacalhau bem como as “miudezas” dele aproveitadas, como as línguas ou “samos”. “Samos” eram a parte escura e mole na base mais grossa da espinha dorsal do bacalhau, autêntica iguaria da qual me recordo várias vezes lá por casa em miúdo, altura em que facilmente se compravam destas espinhas. Curiosamente, no prato limpava a espinha mas nunca quis os samos, pois aquilo parecia-me estranho. Hoje sei que aquela era na verdade a parte especial e lamento já não ser possível encontrá-las.

 
Foto, direitos reservados – second cello.


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Domingo, 22 de Novembro de 2015
O simbolismo piscatório, por Domingos Rebelo.

«A colecção de arte do Museu Marítimo de Ílhavo foi enriquecida com a entrega de um imponente óleo sobre tela do pintor Domingos Rebelo, alusivo às comunidades piscatórias e à pesca do bacalhau.

A obra do pintor açoriano (1891-1971), propriedade do Ministério da Agricultura, Pescas e Florestas, foi entregue ao Museu Marítimo de Ílhavo, a título de depósito, pelo ministro da Agricultura, Costa Neves, no âmbito da VI Capítulo da Confraria Gastronómica do Bacalhau, que teve lugar no auditório do Museu no dia 23 de Janeiro. Consumou-se assim um projecto antigo da Associação dos Amigos do Museu.
Domingos Maria Xavier Rebelo foi discípulo de Jean-Paul Laurens, de Albert Laurens e de Naudin, em Paris. Viveu cerca de trinta anos nos Açores, onde se dedicou às composições de temas populares e religiosos. E foi como pintor de temas sacros e de murais que mais se evidenciou. Entre as suas obras evocativas do sagrado destacam-se o tríptico “Natal” e “S. Francisco de Assis”, além do painel (votivo) da capela do navio-hospital da frota bacalhoeira, “Gil Eannes”, com data de 1955.
Entre as pinturas murais de Domingos Rebelo destacam-se os seus grandes frescos do Salão Nobre do Palácio Nacional de S. Bento, relativos à época dos descobrimentos.
Nos anos cinquenta e sessenta a obra de Domingos Rebelo é marcadamente realista, de ostensiva monumentalidade no traço e no modo como retrata tipos humanos e sociais representativos de uma certa “identidade nacional”, ancorada na história. Desta faceta de pintor de regime, que afeiçoou a iconografia da sua obra ao discurso ideológico do Estado Novo, constitui exemplo maior a tela que agora se junta às colecções do MMI, denominada “Família Piscatória”, com data de 1955.
Além da sua exuberância estética e imponência de tons realistas, a obra que agora se expõe na Sala da Faina/Capitão Francisco Marques do MMI é a mais forte representação pictórica do período salazarista sobre um mundo marítimo harmonioso e protegido pela obra de assistência que o Estado terá proporcionado às comunidades piscatórias.
Numa expressão pictórica cromatizada, Domingos Rebelo sintetiza a obra de “ressurgimento” das pescas conduzida por Salazar e Tenreiro. A tela sugere a proximidade física do iceberg (metáfora de todos os perigos) às comunidades litorâneas, insinua a comunhão das famílias e das gerações. Não por acaso, este quadro foi o principal ícone da propaganda sobre a organização corporativa das pescas, em Portugal e no estrangeiro.
A sua integração e exposição no MMI permite enriquecer a colecção da Faina Maior e acrescentar ao actual discurso expositivo elementos de interpretação sobre a relação interessada do Estado Novo com a pesca do bacalhau.»

Álvaro Garrido - Director do MMI.
 
in Ílhavo | 25-JAN-2005 – Diário de Aveiro online.

 



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Quarta-feira, 7 de Outubro de 2015
Dóris de bronze.

 

No ainda “Lugar” das Caxinas existem muitas casas e muitas dessas casas são de pescadores, que o foram, que o são, ou que o voltarão a ser. Há quem tenha o bom gosto de mandar pintar em azulejo, à boa maneira portuguesa, o barco que pertenceu à família, o que lhes trouxe uma vida melhor. São muitos deles pinturas coloridas e outros, apenas no tradicional azul cobalto em memória dos tempos mais recuados ainda sem barcos a motor, o tempo da vela nas “cascas de noz” dos avós e bisavós.
O que não é comum é representar esse passado marítimo da família... em bronze. A imagem mostra uma dessas casas nas Caxinas, a 3 minutos do mar, onde preferiram guardar a memória não dos barcos locais mas sim dos “simples e frágeis” dóris da Grande Faina, a pesca do bacalhau. Por certo a memória nesta casa será muito grande, como o é pela comunidade fora (mas não exibido) e o apego destas gentes ao mar, misturado com o necessário sentido sacro-profano está bem representado no número do dóri, o 13.
Nos inícios de cada campanha bacalhoeira, a cada pescador era sorteado o seu dóri e respectivo número, acto que para muitos era da maior importância, pois a superstição faz parte da vida do mar, mesmo ainda hoje em dia quando achamos que “sabemos tudo”. Números que para uns seriam sinal de desastre, para outros eram tomados já como forte sinal de vitória contra as agruras daqueles mares e azares que viessem. A confiança era total e o “simples número” era comentado no decorrer dos dias conforme as surpresas que o mar, o capitão ou os camaradas traziam.


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Sábado, 4 de Julho de 2015
A preto e branco.

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A bordo do lugre-patacho “Gazela Primeiro”, Eduardo Lopes fotografa o lindíssimo lugre “Hortense” cerca de 1953.



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Segunda-feira, 6 de Abril de 2015
A preto e branco.

 

A Benção dos Bacalhoeiros a 24 de Abril de 1938, com um rebocador cheio de jovens em saudação.



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Terça-feira, 31 de Março de 2015
Navio Gil Eannes reabre com nova valência, o Centro de Mar.

gil eannes 2011 viana castelo

«Já foi hospital e centro de detenção de pescadores em alto mar. Esteve para ser transformado em sucata, foi reabilitado, reabriu como museu e pousada da juventude. E, agora, após nova intervenção, o Gil Eannes ganhou uma nova valência, o Centro de Interpretação Ambiental e de Documentação do Mar que é inagurada este domingo (16-11-2014), em que se celebra o Dia Nacional do Mar.

A abertura do Centro de Mar decorre depois de ter sido reabilitado e reconvertido um espaço do antigo navio-hospital Gil Eannes, construído nos Estaleiros Navais desta cidade, na década de 50 do século passado, para ali abrir a “porta de entrada” do Centro de Mar de Viana do Castelo. Uma empreitada orçada em mais de 550 mil euros, financiados pelo programa operacional regional,  ON.2 – O Novo Norte, e que implicou um conjunto de adaptações do navio para as novas funções complementares às que vinha assegurando enquanto museu mais dedicado ao seu histórico papel na pesca do bacalhau. 

gil eannes doca seca 2

Com as novas componentes – áreas para serviços do Centro de Mar, Centro Interpretativo Ambiental, que inclui um percurso museológico e interpretativo sobre a cultura marítima de Viana do Castelo, e Centro de Documentação Marítima – o Gil Eannes passa a estar dotado de equipamentos multimédia, um mini-auditório, a possibilidade de acesso a consultas de documentos, áreas de apoio ao empreendedorismo e economia náutica e diversas experiências audiovisuais interativas, explica em comunicado a Câmara de Viana do Castelo. Que pretende, com as actividades a realizar no navio, consolidar localmente uma Rede de Cultura e Vivência Marítimas.

A inauguração inclui um concerto da Banda da Armada e uma homenagem a Ernâni Lopes, considerado o grande mentor deste projecto. “O Professor Ernâni Lopes foi um dos mais conceituados economistas da sua geração que defendeu a aposta no 'hypercluster do mar',  tendo o projecto do 'Centro de Mar' implementado pelo município de Viana do Castelo,  tido o seu apoio e a convicção que a economia do mar e o turismo são vetores essenciais para o desenvolvimento económico da região e do país”, recorda a autarquia.

gil eannes 1959

Há alguns anos que Viana do Castelo vem apontando o mar como uma oposta para o desenvolvimento local. E o “Centro de Mar”, assinala a autarquia liderada pelo socialista José Maria Costa, integra-se, “como projecto âncora no Cluster do Conhecimento e da Economia do Mar”, que inclui outros equipamentos de apoio  à náutica de recreio e aos desportos náuticos. Não por acaso, a primeira exposição desta nova vida do Gil Eannes chama-se, precisamente, “Um Mar de Oportunidades”, e explora algumas das áreas mais marcantes da relação de Viana do Castelo com o Atlântico.»

Por ABEL COENTRÃO in PUBLICO

Fotos em doca seca – Diamantino Rego



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Segunda-feira, 16 de Março de 2015
O navio-hospital "Gil Eannes" na Terra Nova, em 1928.

«No século XX existiram duas embarcações de bandeira portuguesa com a designação de “Gil Eannes” e a função de navio-hospital, ambas tendo prestado apoio às atividades de pesca do bacalhau, nas águas da Terra Nova, no Grande Banco e na Gronelândia. A sua função justificava-se uma vez que as embarcações pesqueiras portuguesas encontravam-se rotineiramente isoladas por vários meses naquelas águas. O primeiro navio a receber este nome foi o “Lahneck”, um navio do Império Alemão aprendido na sequência da entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial (1916), então transformado em cruzador auxiliar da Marinha Portuguesa. Posteriormente, em 1927 zarpou pela primeira vez para a Terra Nova, após ter sido adaptado para navio hospital em estaleiros nos Países Baixos.»

in Wikipédia

Este filme mostra pois o primeiro “Gil Eannes” no seu segundo ano de apoio à frota bacalhoeira portuguesa. Um documento de enorme valor, na história das pescas de Portugal.



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Sábado, 28 de Fevereiro de 2015
As Sepulturas Esquecidas.

«Depois de uma presença de séculos na região e do impulso dado pelo Estado Novo à chamada Faina Maior, está por fazer a história desses homens que foram deixados para trás em St. John’s, noutros portos da América do Norte e na Gronelândia. Dionísio Esteves, de Vila Praia de Âncora, Caminha, vai ser o “rosto” deles, graças a um filme que nos permite perceber onde foi enterrado há precisamente 48 anos.

A imagem é de 1966, de 6 de Maio. Num cemitério semiapagado pelo nevoeiro, homens apertados nos seus fatos e gravatas, de ar abatido, escutam orações num inglês que mal entendem, mas cuja cadência reconhecem. Alguns balbuciam as suas preces em português, como se Dionísio Esteves, o que ali está a ser enterrado, melhor fosse encomendado aos céus na sua língua materna. São de pescadores todos estes rostos captados num documentário, 1966 — O Navio Branco, que Hector Lemieux filmou para o National Film Board do Canadá. Nesse ano, o capitão Vitorino Ramalheira e a tripulação do Santa Maria Manuela recuperaram dois homens perdidos no nevoeiro. Mas viram morrer, num acidente de trabalho, o jovem de Vila Praia de Âncora, Caminha. 

Dionísio entrara como “verde” no Santa Maria Manuela em 1960. Segundo a lei, ao completar a sua sétima viagem consecutiva na Pesca do Bacalhau, livrava-se do serviço militar obrigatório e foi com esse espírito que, aos 26 anos, partiu de Lisboa, com a bênção de Salazar e da Igreja, naquela Primavera, num dos famosos veleiros do que ainda restava da chamada Frota Branca portuguesa. Assim baptizada desde que, para assinalar a neutralidade do país, se teve de pintar de branco os navios, na II Guerra. Dionísio ainda tentou levar o irmão Fernando com ele. Mas era duríssima a vida nos dóris, esses botes de um homem só, em que os portugueses da pesca à linha trabalhavam em troca de um salário dependente de quanto pescassem ao longo de seis meses, e o rapaz de 18 anos, já homem feito e com bastante experiência de mar, mas na costa portuguesa, achava-se novo para aquilo.

Vitorino Ramalheira mantém viva, aos 85 anos, a memória do temporal que apanharam, entre os Açores e o Canadá, no final de Abril desse ano. Dionísio ficou gravemente ferido quando, arrastado pelo mar no convés durante uma manobra, terá embatido num ferro. “Foi na esquina do tanque do óleo do bacalhau”, precisa Manuel Agonia Cancuja Marques, o Nia Cancuja, um dos pescadores de Caxinas e Poça da Barca, Vila do Conde, que trabalhavam naquele mesmo navio. O Gil Eannes estava ainda em Lisboa. Ramalheira ponderou voltar para trás, e deixar o homem nas Ilhas, mas desconfiou da qualidade dos cuidados que ali lhe poderiam ser prestados, explica à Revista 2, justificando, assim, a opção de seguir viagem para a Terra Nova. “E na verdade também nem tínhamos noção da gravidade dos ferimentos, que eram internos”, acrescenta o capitão.

“O navio andava pouco. Ainda não tinha motor auxiliar, demoramos uns três dias a chegar a St. John’s”, contabiliza Nia Cancuja. Acompanhado por um enfermeiro, Dionísio agoniava em silêncio, “no beliche, sem dar uma fala a ninguém” — diz o companheiro, já comovido pela memória — até acabar por morrer na véspera da chegada a terra, a 5 de Maio. “O que nos botava em choque era ter de passar por ele, e ele ali, morto.” No navio, estes tensos momentos de viagem foram poeticamente captados por Rex Tasker, que escreveu e produziu o documentário de Lemieux. “À noite chega o momento da chora” — the soup of sorrow, traduz livre e apropriadamente para inglês o narrador, voz a quebrar um plano silencioso na mesa do rancho. “Diz-se que quem a come voltará aos Bancos [da Terra Nova]. Dionísio não a comerá. Recém-casado, esmagado por uma onda, o seu corpo segue num caixão.”

837803Nesse dia 5 de Maio, o irmão de Dionísio, Fernando Esteves, acabara de chegar ao portinho de Âncora quando o mandaram de imediato para casa, no bairro dos pescadores, ali a poucos metros, aliviando-o do trabalho de descarga do peixe. Desconfiou. “Quando cheguei, já estava tudo aos gritos”, revive. Alguém os tinha vindo avisar da capitania, para onde eram enviados os telegramas. Cristina, a mulher de Dionísio, enviuvava em seis meses, já grávida de uma filha, Cândida, que nunca chegaria a conhecer o pai. França, para onde emigraram mais tarde, deixou-as mais longe daquela desgraça que vem nas letras pequenas de qualquer contrato de casamento com um pescador, numa cláusula dependente dos humores do mar. O cemitério católico de São João da Terra Nova, onde o tripulante do Santa Maria Manuela foi enterrado, está cheio destas histórias, várias delas portuguesas.

Direito a uma campa.
Presença constante nos Grandes Bancos há vários séculos, muitos portugueses foram sendo enterrados na Terra Nova, principalmente em St. Jonh’s, e em outros portos da costa canadiana e da Gronelândia, como acontece aliás com marinheiros das muitas nações que frequentavam, em meados do século XX, aqueles mares. Em Mount Carmel, nos arrabaldes da capital provincial e cidade-abrigo da frota portuguesa, uma placa assinala por exemplo a vala comum de 11 dos 15 fogueiros lusos do SS Florizel, um ferry a vapor que se afundou a 24 de Fevereiro de 1918, quando iniciava mais uma ligação a Nova Iorque. Morreram 93 pessoas. Outros portugueses, muitos deles pescadores de bacalhau, foram sepultados no mesmo local, em número indeterminado, mas o passar dos anos, as intempéries e o abandono deixaram sem identificação as sepulturas, adornadas normalmente com uma frágil cruz em madeira.

cemiterio st johns dionisio esteves“Os cemitérios deles não são como os nossos. Aquilo é um campo”, descreve Fernando Esteves. Mas ainda assim, Dionísio e os que por lá foram enterrados ainda tiveram direito a uma campa. Outros foram levados pelo mar: que os engolia à socapa, ao abrigo da névoa que se abatia repentina sobre os dóris, ou que os arrastava borda fora dos lugres, como aconteceu no final da década de 50 com Armando Afonso do Águas Santas, outro pescador de Âncora, e um dos vários mortos na Faina Maior a quem o dramaturgo Bernardo Santareno dedicou o seu livro de crónicas marítimas, Nos Mares do Fim do Mundo. Escrita quando o autor viajou como médico da frota bacalhoeira, em 1957 e 1958, a obra, que foge ao registo épico das epopeias marítimas, concentra-se nos episódios quotidianos dos que viviam a bordo em condições absolutamente precárias, no limite do  “aceno da morte” e à mercê, muitas vezes, do seu “beijo gelado”.

Durante o Estado Novo, período em que a pesca do bacalhau foi submetida a uma organização corporativa que tudo controlava, sob a omnipresença de Henrique Tenreiro, um delegado-geral das Pescas com mais poderes do que os ministros do sector com quem conviveu, os pescadores, na verdade, contavam pouco. Percebeu-se isso logo em 1937. Nesse ano, milhares participaram numa greve em que contestavam as condições impostas pelo regime — por via do recém-criado Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau — que os obrigava a se inscreverem no mesmo navio da campanha anterior, o que acabava com a concorrência, entre armadores, pelos melhores pescadores e nivelava os salários para valores tabelados. A paralisação durou semanas, mas os homens acabaram mobilizados à força, após intervenção policial em várias comunidades. Alguns saíram directamente da prisão para os navios, conta o investigador Álvaro Garrido em O Estado Novo e a Campanha do Bacalhau.

837814Os navios eram, assim, uma extensão do país. Seguindo à boleia das palavras de Bernardo Santareno, nas viagens de seis meses da pesca à linha, os capitães exerciam uma disciplina férrea para conseguirem controlar os humores de dezenas de homens rudes, quase todos de proveniência humilde e com baixas qualificações, capazes de gestos extremos de solidariedade e, ao mesmo tempo, prontos para se pegarem por qualquer insignificância. Estes ansiavam por regressar a casa com o melhor salário possível, o que dependia dos conhecimentos de quem os comandava e teria de os levar aos melhores pesqueiros e, aí chegados, da sua sagacidade e destreza no manejo das linhas de múltiplos anzóis.

O objectivo era encher o porão com bacalhau antes de o Inverno se insinuar, gelando o próprio mar, no caso da Gronelândia. Submetidos a jornadas de trabalho que podiam, por vezes, passar as 20 horas, que o descanso só chegava depois de escalado e salgado o peixe, os pescadores acordavam às 4h, com uma oração, para se lançarem de novo ao mar pouco depois, naquelas “cascas de nozes” que tripulavam sozinhos. Os próprios assumem que nem sempre tinham cuidado. Muitos afastavam-se demais, arriscavam por vezes demais.

santareno mares fim mundo livro bacalhau“Como capitão, a minha maior preocupação era não perder nenhum homem. Tentava mantê-los por perto, que o tempo às vezes mudava rapidamente. Mas eles iam, como se nada fosse, contentes por poderem pescar. Eles eram um heróis. Quando era novo, também tinha aquela adrenalina e fazíamos as coisas naturalmente, mas agora, passados estes anos, digo-o: eles é que eram os heróis”, repete Vitorino Ramalheira, que passou metade da sua vida profissional à procura do bacalhau e que naquele ano de 66, como testemunhou Lemieux, chegou a temer pela vida de outros dois homens, que se perderam no nevoeiro.  

Perante estes riscos, não espanta que, até meados do século XX, em várias comunidades do litoral, as mulheres destes homens tivessem por hábito vestir-se de preto quando eles partiam, e cobrir com panos todo o mobiliário do lar, dormindo, com uma enxerga, no chão. Era como se toda a casa se enlutasse, solidária com as provações deles, por seis meses. Mais do que um mau pressentimento, era uma espera sofrida, por um regresso que nem sempre aconteceu.

Quando as más notícias chegam a casa.
Apesar de haver documentação de várias instituições envolvidas neste “desígnio nacional” que era o abastecimento do país com um dos seus alimentos favoritos e de melhor conservação, não se conhece com exactidão o número de baixas na frota portuguesa da pesca do bacalhau durante o Estado Novo. Álvaro Garrido, que é também programador do Museu Marítimo de Ílhavo (MMI), afirma que, da consulta de documentação do Grémio, se contam, em vários anos, três a cinco mortos por campanha. Mas explica que o nível de sinistralidade mortal até tem sido maior nos arrastões. Em todo o caso, o facto é que, se se conhecem bem os casos excepcionais, como o afundamento do Maria da Glória, por um submarino, na II Guerra, que matou 36 homens, a grande maioria deles da Fuzeta (Olhão), até hoje ninguém soube dizer quantos, quem eram e de onde partiram esses homens que ficaram nesses mares do Fim do Mundo até ao ocaso da pesca à linha, que coincidiu, em 1974, com o 25 de Abril.

hortense bacalhoeiro lugreA revolução pôs os homens em alvoroço. Depois de uma greve em que exigiam que o salário passasse a ser fixo e não dependente do que pescassem, nesse ano, dois dos três últimos navios com dóris, o Ilhavense e o São Jorge, foram ao fundo ao largo da Terra Nova. Muitos dos velhos navios à vela tinham sido abatidos assim, após incêndios alegadamente provocados a mando dos armadores, em que todos, como aconteceu nestes casos, saíam ilesos. E quis a ironia da história que o último exemplar deste tipo de pesca — que no Estado Novo se manteve em paralelo com tecnologias mais modernas e predatórias como o arrasto — se chamasse Novos Mares. Símbolo do fim de uma era, este atravessou o estreito de St. John’s a 24 de Julho de 1974, a caminho de Aveiro, onde foi adaptado para a pesca com redes. Nesse ano, as imagens de dezenas de homens espalhados pelo mar, cada um no seu bote, passou a ser uma memória. Ao mesmo tempo vibrante e triste, pela lembrança dos que por lá ficaram.  

Só na terra de Agonia Cancuja, as Caxinas, ainda hoje demasiadas vezes notícia pelos seus náufragos, contam-se em mais de uma dezena os nomes que a Revista 2 foi descobrindo, numa curta pesquisa, apenas em conversa com alguns pescadores. Várias famílias têm um antepassado que não regressou vivo de uma actividade que, muito dura, era ainda assim bem mais rentável do que a pesca local, feita então com barquinhos pouco maiores do que os dóris usados nos Grandes Bancos. Lugar de recrutamento de cerca de mil bacalhoeiros, esta zona, com a vizinha Póvoa de Varzim, foi uma fonte importante de mão-de-obra, mas foi apenas uma das muitas comunidades piscatórias de norte a sul e das ilhas que, ao longo de quatro décadas, entregaram cerca de 20 mil dos seus àquela vida. 

A cada casa, as más notícias podiam chegar, choque difícil de imaginar, com o navio. Foi isso, segundo Santareno, que aconteceu com a açoriana Rosa Bailão, que lançara foguetes para dar as boas-vindas ao marido, Jorge, que só depois percebeu que se perdera no mar. Mas normalmente elas corriam mais depressa, à velocidade de um telegrama. Em 1965, criança ainda, o caxineiro José Marafona soube pelas lágrimas da mãe — revê-a de papel na mão, grávida, 12 filhos — que o pai, José Gomes Marafona, não regressaria. O corpo, admite a família numa dúvida alimentada pela distância e pelo tempo que entretanto passou, terá sido sepultado na Gronelândia. Como o do ilhavense Manuel Gonçalves Bilelo, de cuja sepultura o Museu Marítimo de Ílhavo guarda uma fotografia tirada por um antigo comandante do Gil Eannes.

837810A história destes homens não será muito diferente da de outros que, até esse ano de 1966, eram levados para um porto próximo. Só depois de Dionísio Esteves, os corpos dos que morriam “começaram a ser trazidos de volta”, explica Fernando Esteves, facto confirmado por Vitorino Ramalheira. O Gil Eannes, que funcionava como navio-hospital mas também como capitania flutuante, “ainda não estava por perto quando se deu o acidente com o Dionísio. Tive de tomar uma decisão”, relembra este homem, natural de Ílhavo, descendente de uma linhagem de marinheiros e filho de outro famoso capitão de navios bacalhoeiros, João Ramalheira.   

Um dos amigos do capitão Vitorino Ramalheira, Francisco Teles Paião, comandava o Rio Antuã em 1962 quando, a 7 de Setembro, dois ou três dias antes da viagem de regresso para Portugal, perdeu o seu melhor pescador. Chama-se José Francisco Marques, Zé da Ferrucha, este caxineiro de 39 anos que viu o seu dóri carregado afundar sem que alguém lhe desse a mão. Foi no Mar da Barrinha, na costa oeste da Gronelândia, precisa o irmão Joaquim, 77 anos bem conservados, que não esconde que a ambição que elevara o Zé da Ferrucha à condição de “special” do Rio Antuã — atribuído a quem pescasse muito mais bacalhau do que os outros — pode bem ter sido o que levou à morte. A ele como a outros, levados ao fundo do mar por uma ganância estimulada pelo sistema de remuneração variável. “Nós contribuíamos para isso, ao afixar a tabela com a classificação de cada um, ao longo da viagem”, assume hoje o capitão Ramalheira. 

Naquele dia, como habitualmente, José Francisco Marques enchera o bote. Afastara-se dos outros, como muitas vezes fazia, e aparecera depois carregado ao pé do dóri do irmão, que ainda pescava. Foi seguindo viagem para o navio-mãe, a remos, quando o tempo virou, trazendo névoa e um vento que levantou a marola da água. Confiante, o caxineiro despachara a companhia de outro pescador que se aproximou dele, mais leve de carga. Seguia sozinho, quando, de longe, o irmão ouviu os gritos, três, cuja origem só percebeu quando, chegando ao Rio Antuã, viu que só o Zé da Ferrucha não estava ainda a bordo. De pouco valera a Joaquim aquele “Oxalá não seja do meu lado” que a sua cabeça inventara minutos antes, ao ouvir o socorro longínquo, no mar. E de pouco valera a José a sua destreza. Nos mares gélidos da Gronelândia, a morte chega rápida e ele, sabendo-o, amarrou um pulso ao balão dos seus aparelhos de pesca.

dori nevoeiro bacalhauFoi assim que o encontraram, ao Zé da Ferrucha — bacalhoeiro desde 1938 — naquele ano em que pela primeira vez, no Rio Antuã, não pescara com o dóri número 13, o do dia da Senhora de Fátima. Os barcos foram nessa viagem sorteados pelo capitão e calhou-lhe o 42. Anos antes, numa colecção de cromos sobre seres vivos que fez a delícia da criançada, este era o número do bacalhau, uma estampilha “marcada”, por ser difícil de encontrar. E ficou tão famosa aquela caderneta que, deste então, e como recorda o irmão, no jogo do loto, o 42 é cantado como “O Bacalhau”, nas Caxinas. Mas de nada valeu este aparente golpe de sorte ao exímio pescador. 

José Francisco Marques deixou mulher e quatro filhos. Longe de casa, o seu corpo seguiu para o navio-hospital Gil Eannes, que o transportou para o porto da localidade de Holsteinsborg, actual Sisimiut, na Gronelândia, para ser enterrado. Este porto com pequeno hospital, de difícil entrada, segundo Santareno, tinha “fama de perigoso”, por causa de várias pedras que dificultavam a navegação. Mas foi bastante utilizado pela frota portuguesa.

A memória da Grande Pesca.
A perda do pai não demoveu Manuel Marques, então com 17 anos, da vontade de experimentar a pesca do bacalhau. E foi pela mão do tio Joaquim que, na Primavera de 1963, entrou naquele mesmo barco de onde José fora levado num caixão, sete meses antes. O capitão Francisco Teles Paião, que declinou um convite da Revista 2 para um depoimento sobre estes episódios, tê-lo-á recebido a bordo com uma amabilidade estranha ao relacionamento habitual, distante, entre oficiais e pescadores. “Ele era duro, mas tinha bom coração”, descreve o caxineiro, que, pelo Natal, mantém o hábito de contactar aquele homem de Ílhavo, outro descendente de uma linhagem de capitães cujo pai comandava então o Argus, um dos dois barcos — o outro é o Santa Maria Manuela — que Aníbal Paião, dono da Pascoal & Filhos, comprou recentemente, para o recuperar e manter, assim, na esfera da família, a memória da Grande Pesca.

santa maria manuela 19Como quase todos os bacalhoeiros, Manuel Marques também mantém fresca, como que conservada em sal, a sua memória daqueles anos. Principalmente do de 1967, em que um problema grave nos pulmões o obrigou a uma cirurgia em St. John’s e posterior convalescença no Gil Eannes, onde chegou a estar em isolamento. Já quase recuperado, soube que o navio-hospital, que então navegava ao largo da Gronelândia, ia passar por Holsteinsborg, e pediu que o deixassem ir a terra, para ver a sepultura do pai. Um grupo, que incluía entre outros Jaime Pontes, outro caxineiro, pescador no Avis, e Manuel Agonia Maio, da Poça da Barca, e tripulante do Dom Deniz, foi então enviado à pequena localidade. Jaime recorda bem que lhes deram tinta e madeira, para que, se fosse necessário, recuperassem as cruzes das sepulturas de portugueses — cerca de dez, doze, Manuel já não sabe precisar. Nos últimos anos, os filhos dele contactaram a paróquia de Sisimiut, de onde lhes disseram que as campas já não estavam identificadas.

Há dois anos, um canadiano com raízes nas pequenas ilhas francesas de Saint Pierre e Miquelon, no Sul da Terra Nova, foi contactado a partir de Portugal por um amigo, Pedro Pinto — antigo capitão de navios bacalhoeiros e actual coordenador de operações da Agência Europeia de Controlo das Pescas — e pelo comandante da corveta António Enes, da Marinha. De partida para mais uma acção de fiscalização nas águas da Organização das Pescas do Atlântico Noroeste (NAFO, em inglês), pretendiam ambos fazer uma cerimónia militar de homenagem aos portugueses e Jean-Pierre Andrieux, empresário e estudioso da nossa presença nesta região, pareceu-lhes o homem certo para a organizar.

A Andrieux, a parada e a deposição de flores, em Agosto de 2012, soube-lhe a pouco, mesmo que repetida anualmente, como acontece desde então. Há dezenas de anos que o canadiano acompanha os portugueses, fruto de uma amizade que nasceu nos inícios de 1980, à mesa dos oficiais do Vimeiro, que aportara em Saint Pierre. Foi ali que o empresário, dono de um hotel, e a mulher, Elisabeth, conheceram um dos seus grandes amigos, Francisco Paião, que comandava então esse outro navio. Ele é um de vários portugueses, quase todos da região de Aveiro, que fazem questão de visitar todos os anos, em longas férias que vêm repetindo há um quarto de século e que os trouxeram a Portugal em Março e Abril deste ano. Mas desta vez, para além da vontade de rever Paião, Ramalheira e outros, o casal trouxe na bagagem um propósito maior: o de garantir, este ano ainda, esperam, uma homenagem perene aos marinheiros de que tanto ouviram falar.

andrieux book“A memória daqueles pescadores tem de ser preservada”, insiste este canadiano de 66 anos que ouviu as histórias da Frota Branca nesses jantares em que provou o vinho verde e outros sabores que, terminada a moratória de pesca nos Grandes Bancos, voltaram em 2010 a atravessar o Atlântico com os (agora poucos) navios bacalhoeiros. No novo hotel que entretanto abriu em St. John’s, há colecções de peças pertencentes aos serviços de mesa de muitos dos antigos lugres e, na biblioteca, há uma miniatura à escala do Gazela Primeiro, mítico veleiro que, em 1969, fez a sua última viagem à pesca do bacalhau. Em sua casa, para além de bóias do Gil Eannes, guarda umas 40 mil fotografias de navios, centenas delas documentando a presença lusa nas águas da Terra Nova. “Isto representou uma mudança também na minha vida e na da minha família. Portugal passou a fazer parte de nós”, assume este homem que dedicou um dos volumes da sua obra Acidentes e Naufrágios na Terra Nova e Labrador ao período entre 1940-1980 e, especialmente, à Frota Branca.  

Conhecido o homem, percebe-se porque se meteu Andrieux, nos últimos anos, num esforço de angariação de fundos para construir um monumento aos portugueses enterrados em St. John’s. Em Outubro, organizou um jantar, com comida e música portuguesa, e os seus conterrâneos pagaram cem dólares (quase 66 euros) por cabeça para participar. Apesar de problemas pontuais, de alguma discriminação testemunhada por vários pescadores noutros tempos, passados estes anos, “é forte e boa a memória dos portugueses, principalmente do tempo da Frota Branca, nas décadas de 50 e 60, em que eles chegavam aos milhares à cidade”, nota o empresário. O ar humilde, as camisas de padrão axadrezado, os jogos de bola com que se entretinham no cais que os abrigava das tempestades nos Bancos e o ar de museu vivo daqueles veleiros, linhas de mastros a marcar o horizonte, criaram uma aura. “Que não foi esquecida”, acrescenta, justificando assim os 7500 dólares angariados.  

A estátua, cujo desenho ainda está a ser pensado, vai ser construída nos próximos meses em Portugal e viajará para a Terra Nova como aqueles que vai homenagear: num navio bacalhoeiro. No cemitério de Mount Carmel, será uma marca perene junto de sepulturas sem nomes. “É triste não estarem identificados”, lamenta o empresário que escreveu sobre contrabandistas de álcool durante a lei seca, sobre as ilhas Francesas onde nasceu, sobre os Grandes Bancos de pesca e que, no ano passado, publicou The White Fleet — An History of the Portuguese Handliners. É o seu contributo para a história de uma saga que inspirou grandes obras como A Campanha do Argus, de Alan Villiers (livro de 1951, que acaba de ter a sua terceira reedição, uma parceria da Cavalo de Ferro com o MMI), e que apaixonou também o cinema, como se pode ver em Captain Corageous (1937), filme a partir da obra homónima de Rudyard Kipling que valeu a Spencer Tracy um Óscar de melhor actor pelo papel de Manuel, um pescador português.

captains courageousA atracção da Sétima Arte pelos veleiros portugueses foi imensa. Villiers filmou (e fotografou) uma das viagens do mítico Argus, um veleiro construído no século XIX, e, entre vários outros, George Sluizer gravou em 1967 para a National Geographic o documentário The Lonely Dorymen, passado nos navios José Alberto e Vila do Conde. Mas a película de Lemieux, filmada um ano antes a bordo do Santa Maria Manuela, acabou por ter outro significado, ao deixar para a posteridade uma imagem do lugar onde foi enterrado Dionísio Esteves, o que o retirou do anonimato a que o tempo o votara. Graças ao plano do cemitério, a homenagem aos portugueses vai ter um rosto, o do jovem bacalhoeiro de Vila Praia de Âncora que morreu há 48 anos.

O pai de Dionísio também andara nos Grandes Bancos. E Fernando acabou por ir para lá em 1967, num arrastão, escapando aos trabalhos árduos da pesca à linha e, como era benesse da legislação desde 1927, livrando-se do serviço militar. Escolheu esse outro mar para fugir ao Ultramar, onde a morte espreitava no mato. Andou por ali mais do que os sete anos que a lei equivalia à tropa, marcou o corpo com cicatrizes, perdeu o baço, mas pôde visitar o irmão, uma vez. De outras que tentou, “a neve no monte”, recorda, impedia-o de perceber onde estaria enterrado. E depois a vida levou-o para outros mares, os de África, onde correu o mapa até ao cabo da Boa Esperança, antes de se fixar de novo na pesca costeira, na terra natal.

Reformado, Fernando Esteves acalenta agora a esperança noutra viagem, que o leve a ver de novo a sepultura do irmão. Em Março deste ano, Jean-Pierre Andrieux esteve com ex-bacalhoeiros em Caminha, a convite da câmara local — que assim lhe agradeceu o gesto em memória de Dionísio — e fez questão de o convidar a participar na homenagem que está a organizar. O canadiano garante que se arranjará maneira de custear a deslocação deste homem. Conheceram-se num almoço que terminou com um bolo, um doce em forma de bacalhau salgado-seco, e no qual não faltou, a abrir, a chora, uma sopa de bacalhau antes servida no rancho da proa dos navios e hoje transformada em iguaria gourmet. Se for verdade o que diziam os antigos, ao comê-la, Fernando talvez tenha garantido o seu bilhete de regresso à Terra Nova. 

Ao meu bisavô Abel, que em 1910 já andava pela Terra Nova e que para lá levou meia dúzia de filhos, tendo perdido um deles no mar, nessas viagens. À Cândida, que não conheço e que nunca conheceu o pai, Dionísio Esteves. Ao meu pai, Abel, que, como a maioria, felizmente, teve a sorte de ir e voltar.»

por Abel Coentrão, in PÚBLICO.

fotos – MUSEU MARÍTIMO DE ÍLHAVO – Sidónio, pescador da CalhetaMichel Floch

1Navegando_perto_de_St.PierreTal como o autor do artigo, Abel Coentrão, refere e dedica aos seus familiares, de igual modo o dedico à memória do meu bisavô paterno José Fangueiro Novo Junior, bacalhoeiro entre 1927-1959 a bordo dos lugres “Palmirinha”, “Terra Nova”, “Rio Lima”, “Santa Maria Manuela”, entre outros, ao meu avô paterno Manuel de Agonia Fangueiro, bacalhoeiro entre 1946-1960 a bordo dos lugres “Rio Lima” e “Santa Maria Manuela” e ao meu pai, António Fangueiro”, bacalhoeiro entre 1967-1974” no navio-motor “Novos Mares”, o último navio português da pesca à linha, ambos nesta última foto.

A todos os heróis do mar de Portugal.



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Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2015
A preto e branco.

 

A festa da Benção dos Bacalhoeiros de 24 de Abril de 1938, no rio Tejo. Um tempo em que Portugal não precisava da passagem da Tall Ships Racing pelas suas costas para poder admirar veleiros. A frota bacalhoeira era já nesta altura composta por inúmeros e belíssimos veleiros, a maior parte deles construídos em Portugal. O lugre-motor que se vê ao centro da foto foi uma das excepções, pois trata-se do “José Alberto”, da praça da Figueira da Foz.

Este lugre bacalhoeiro de casco de aço foi construído em 1923 na Dinamarca, no estaleiro H.C. Christensen, de Warstre. Foi baptizado pelo seu primeiro proprietário com o nome de "Caroline” e navegou como cargueiro até 1935, ano em que foi adquirido pelos armadores portugueses da Sociedade de Pesca Oceano Lda, da Figueira da Foz, armando-o para a pesca do bacalhau.



publicado por cachinare às 17:56
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Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2014
Português construiu veleiros que recuperam o traço dos antigos lugres bacalhoeiros portugueses.

sean paquito IV lisboa

 

«João Paquito esteve emigrado na África do Sul e construiu os seus barcos com as suas próprias mãos. O maior, e mais especial de todos, tem 38 metros.

O “Sean Paquito IV” até podia ser um veleiro igual a tantos outros, não fosse a história e a paixão de quem o construiu com as suas próprias mãos. De facto, este barco de 38 metros de comprimento distingue-se entre os muitos veleiros que as reconhecidas marcas de construção naval vão lançando para o mercado pela evocação, assumida, dos antigos lugres bacalhoeiros portugueses. E por ser um barco feito por um homem só. Um português que emigrou para a África do Sul e que acabou por se lançar no mundo da construção naval como autodidacta.

Tudo começou em 1971, por ocasião de uma travessia de veleiros entre Capetown e o Rio de Janeiro. "Vendo tantos barcos a fazer a travessia, qualquer coisa em mim me disse que eu também tinha de ter um. Mas como tinha de trabalhar para sustentar a família, entendi que a melhor maneira seria comprar livros de construção naval, observar outros, e construir eu o meu barco", relata João Paquito.

Nessa altura, este emigrante era "soldador e serralheiro de profissão", experiência que até lhe facilitou a tarefa de concretizar o seu sonho. "O problema maior eram os meus amigos a dizer que eu nunca acabaria o barco", recorda. O destino acabou por confirmar que os seus amigos não tinham razão, pois João Paquito construiu não apenas um, mas seis barcos "cada vez de maiores dimensões". "Apenas eu, com a ajuda de dois empregados que limpavam e me davam as ferramentas de que eu precisava", atesta. A intervenção dos técnicos qualificados só ocorria na fase final, com "o arquitecto e os engenheiros que faziam o teste de flutuação e inclinação", refere ainda João Paquito.

 

sapphire ex sean paquito IV

 

A sua opção recaiu sempre por construir réplicas dos antigos bacalhoeiros portugueses, acima de tudo pela "beleza e linha destes barcos" cujo imaginário nos conduz "àquela era em que os homens tinham uma enorme coragem. Estes barcos eram realmente a bóia de salvação para as suas vidas naqueles mares", evoca.

O mais especial de todos os barcos que construiu foi, de facto, o “Sean Paquito IV”, que concluiu em 2009, ainda na África do Sul. João Paquito confessa que este veleiro "é o culminar de todos os outros" ao nível das especificidades técnicas e também da acomodação.

Depois de regressar a Portugal, o destino trocou-lhe as voltas - além dos seus 70 anos já convidarem à reforma, João Paquito e a família tiveram também de enfrentar o acidente e a consequente necessidade de cuidados especiais do seu filho -, obrigando-o a passar o “Sean Paquito IV”

adaptado do artigo de Maria José Santana – PÚBLICO

Na segunda foto é possível ver o “Sean Paquito IV” já com novo dono e novo arranjo, bem como um novo nome, “Sapphire”.

foto 1 – Vitor Guerra.

foto 2 - CNI.



publicado por cachinare às 08:47
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Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2014
George Sluizer, 1932-2014. Morreu o realizador de “Os Solitários Homens-dos-Dóris”.

george sluizer solitarios homens dos doris portuga

«Para os portugueses, o realizador holandês George Sluizer, falecido no passado dia 20 de Setembro em Amesterdão aos 82 anos de idade, será mais recordado como realizador da adaptação ao cinema de Jangada de Pedra de José Saramago (2002).

Fora de Portugal, a memória de Sluizer está indelevelmente ligada àquele que foi o último filme protagonizado por River Phoenix, Dark Blood, inacabado durante 20 anos devido à trágica morte do actor em Los Angeles em 1993, e que o cineasta holandês finalmente completou em 2013, “enquanto ainda podia fazê-lo”, como disse ao apresentá-lo no Festival de Berlim nesse ano.

O ponto alto da carreira de George Sluizer, nascido em Paris em 1932, reside contudo num dos mais aclamados filmes europeus da década de 1980: O Homem que Queria Saber (1988), adaptação do romance policial de Tim Krabbé sobre um homem cuja noiva desaparece durante uma viagem e que, três anos depois, é contactado pelo responsável. Um conto macabro com uma notável interpretação do actor francês Bernard-Pierre Donnadieu no papel do vilão, O Homem que Queria Saber tornou-se num êxito crítico e público internacional que levou Sluizer a Hollywood, onde dirigiu em 1993 uma mal recebida remake com Jeff Bridges, Kiefer Sutherland e Sandra Bullock, A Desaparecida.

Foi nessa altura que o cineasta encetou Dark Blood, rodado nos EUA com um elenco que incluia igualmente Jonathan Pryce e Judy Davis, mas que ficaria por terminar devido à morte de River Phoenix a meio da rodagem. Com o material filmado bloqueado por questões de direitos durante as duas décadas que se seguiriam – e com Sluizer a entrar em posse das bobines de modo mais ou menos esquivo para impedir que fossem destruídas –, foi só em 2013 que o cineasta apresentou a montagem possível do filme, numa altura em que já se encontrava fisicamente muito frágil na sequência de um aneurisma sofrido em 2007. A interrupção do filme acabaria por efectivamente travar a carreira americana do cineasta.

Aluno de cinema em Paris, onde estudou com Jean Renoir e Alain Resnais, Sluizer alternou inicialmente documentários e encomendas para a televisão holandesa antes de se estrear na longa-metragem de ficção em 1972 com João e a Faca, rodado no Brasil. Deve-se-lhe igualmente a adaptação para cinema do romance de Bruce Chatwin Utz.

Durante a II Guerra Mundial a família saiu da Holanda, vivendo durante algum tempo em Portugal – país onde captou imagens para vários documentários para a televisão holandesa e rodaria dois filmes, a comédia Mortinho por Chegar a Casa (1996), co-dirigida com Carlos da Silva, e A Jangada de Pedra (2002). Envolvido desde sempre na defesa da causa palestiniana - o que o levou inclusive a ser acusado pelo governo israelita de “libelo de sangue” por ter acusado Ariel Sharon de matar palestinianos à queima-roupa em 1982 – Sluizer realizou igualmente uma série de documentários sobre famílias palestinianas impossibilitadas de regressar à sua terra natal, o último dos quais, Homeland, foi estreado em 2010.»

 

por Jorge Mourinha - PUBLICO

foto - MOVIESCENE

 

Foi de igual modo George Sluizer quem realizou o mais conhecido internacionalmente documentário sobre a pesca do bacalhau pelos Portugueses. Essa obra seria exibida pela conceituada National Geographic Society – CBS, em 1967, intitulando-se “The Lonely Dorymen” – “Os Solitários Homens-dos-Dóris”. Aqui fica, mais uma vez, esse documentário, legendado em português.

 



publicado por cachinare às 22:47
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Quarta-feira, 26 de Novembro de 2014
A preto e branco.

 

O navio-motor “Vila do Conde” foi construído na Gafanha da Nazaré em 1955, para a pesca do bacalhau à linha com dóris, e esta foto se não for desse mesmo ano andará muito perto, pois mostra-nos um cortejo na cidade de Vila do Conde. Um dos carros alegóricos leva uma réplica à escala do “Vila do Conde” e os miúdos dentro dele representam um dia de faina, com dóris já a bordo e outro mantido junto à amura a descarregar o bacalhau. Uma extraordinária alegoria aos bravos pescadores do bacalhau portugueses.



publicado por cachinare às 21:49
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