Quinta-feira, 17 de Maio de 2012
A odisseia dos homens do ‘Creoula’.

 

«Há 75 anos, o bacalhoeiro integrou a frota nacional. Histórias do tempo em que a pesca era um assunto de fortuna ou de morte.

Quando ia para o mar, nunca dizia adeus. Sabia que podia não voltar. Podia morrer afogado, não encontrar o navio e perder--se no meio da neblina, ceder ao sono e ao cansaço na proa do dóri [bote] e deixar-se cair, mas dizia ‘até logo’ de todas as vezes que se despedia à porta de casa e embarcava no ‘Creoula’ a caminho dos bancos da Terra Nova e da Gronelândia, para mais seis meses de campanha na pesca do bacalhau.

José Santos Leites, natural de Caxinas, Vila do Conde, era contramestre no lugre de quatro mastros que durante 36 anos foi bacalhoeiro abençoado pelo regime do Estado Novo, num tempo em que a sina de muitos homens passava pela pesca e a das mulheres pela oração. "Iam à Nossa Senhora das Boas Novas pedir que a santa protegesse os maridos na pesca do bacalhau enquanto eles, no meio do oceano, passavam medos, solidão e fome, uma barbárie", recorda Rosa Maria, filha do caxineiro que começou como pescador no ‘Creoula’, no início da década de quarenta, e anos depois chegou a contramestre por ser "um pescador de primeira linha" [os que apanhavam mais peixe e que no fim da viagem recebiam o ‘mérito’]. José já cá não está para contar as histórias que o mar teceu, mas foi a idade que o levou, não a pesca.

"Ele contava que na altura da II Guerra Mundial tinham medo de serem atacados no meio do oceano, principalmente na Gronelândia, tinham o fantasmas das coisas que pairavam no mar." O medo não era em vão: o ‘Delães’ e o ‘Maria da Glória’, também lugres bacalhoeiros, foram bombardeados no meio do Atlântico em 1942 por submarinos alemães em tempo de guerra mundial.

 

 

VIDA DURA

O ‘Creoula’ provou pela primeira vez a água há 75 anos, numa cerimónia presidida pelo chefe de Estado, o general Carmona, ao mesmo tempo que o ‘Santa Maria Manuela’, seu gémeo em constituição e plano, mas a sua faina não foi sempre a mesma. Em 1973 fez a última campanha como bacalhoeiro e em 1979 foi comprado à Parceria-Geral de Pescarias pela Secretaria de Estado das Pescas que, vendo o casco conservado, o transformou em Navio de Treino de Mar. Mas o tempo do bacalhau – nos melhores anos chegou a carregar mais de 12 800 quintais [768 toneladas], mais do que a sua capacidade máxima – ficou para sempre entranhado nas redes daqueles que o viveram.

"Não há vida pior do que a de um pescador do bacalhau! Todos os anos um homem vem para este inferno no engodo de juntar uns patacos, a ver se fica em terra para sempre, se não volta mais (…) Volta mais um ano, mais outro, mais outro… Até cair de podre. Até que o mar o leve", escreveu Bernardo Santareno em ‘O Lugre’, homenagem aos pescadores "daquelas águas onde o dia nunca acaba e o sol brilha no meio da noite". O escritor acompanhou, enquanto médico, campanhas na pesca do bacalhau, o que influenciou a sua obra feita de histórias de mar.

 

 

José Picoito, natural da Fuseta, Olhão, entrou no ‘Creoula’ pela mão do pai, pescador e salgador que ali fez tantas campanhas quantas as que o navio conheceu. "Quem não queria ir à tropa fugia para o bacalhau, era a forma de escapar. Livrei-me dessa vida aos 27 anos, depois de oito campanhas de pesca." Em 1961, quando a guerra estalava em Angola, José batalhava no mar, uma dureza diferente.

"Dormíamos no rancho, dois em cada beliche. Havia beliches em cima, ao meio eem baixo. Tambémera aí que comíamos o jantar. Para nos lavarmos davam-nos uma caneca de água fria; aproveitávamos quando íamos a St. John’s buscar isco, ou quando tínhamos de atracar por causa dos ciclones, para nos lavarmos numa ribeira", lembra. "O navio tinha de poupar água doce para a comida por isso era racionada", explica Fernando Oliveira, quatro campanhas a bordo do ‘Creoula’ e 60 anos de idade.

"Arriava-se os botes por volta das cinco da manhã e depois era cada um por si, uma vida ingrata. Nesse tempo, da pesca à linha, o jantar era sempre bacalhau: umas vezes frito, outras vezes cozido, estava sempre na ementa. Vivíamos a pescá-lo e a comê-lo", conta o caxineiro que começou na infância à pesca da faneca com o avô e só aos 18 se virou para o bacalhau. "Nessa altura era um dos verdes", os estreantes. A primeira vez no dóri foi "terrível. Tinha mais medo do nevoeiro do que do mar, o nevoeiro era uma doença".

Por isso, optou por nunca se distanciar dos outros botes durante a jornada solitária no meio do nada. "Preferia apanhar menos peixe e não me perder ou acabar afogado, por isso nunca fui dos melhores. Por isso também nunca ganhei mais do que quatro ou cinco contos por campanha. Os homens de primeira linha – que tinham um motor para o dóri cedido pela companhia – chegavam a tirar mais 15 ou 20 contos, conseguiam comprar carros de 50 contos e muitos abateram as dívidas da casa assim."

Fernando era nessa altura solteiro, mas quem já tinha aliança entregava à mulher o dinheiro – conta Joaquim Sousa – mal poisava pé em terra.

"Houve um ano – lembra António São Marcos, agora comandante do ‘Santa Maria Manuela’ – que os comandantes dos navios foram condecorados com o Grau de Cavaleiro e alguns dos primeiras linhas com o Grau de Oficial da Ordem do Mérito Industrial", tal era a sua importância para o regime.

 

 

JORNADA LONGA

O retorno dos dóris ao navio era às sete, oito da noite. Uma jornada que podia durar 15 horas. "Para regressarmos chamavam-nos com umas sirenes, mas às vezes não ouvíamos. O almoço era comido no dóri, normalmente uma fatia de fiambre ou marmelada e uma conserva de atum ou sardinha", recorda Afonso Silva, de 58 anos, cuja primeira viagem no ‘Creoula’ foi também a última do bacalhoeiro português.

Os pescadores iam remando por ali, experimentando "com a zagaia até encontrar peixe. Quando isso acontecia largávamos os trolleys e esperávamos pelo menos uma hora até recolher as linhas"; uma sequência repetida até encher o bote. "Na fase da força do peixe quase não descansávamos. E quem apanhava vigia nesses dias nem dormia", diz Fernando sobre um "cansaço tão grande que às vezes se adormecia em cima da proa do bote, correndo o risco de cair". "Por isso, quando chegávamos ao navio descarregávamos o peixe e íamos logo jantar, tal era a fome. Só depois, pela noite dentro, é que arranjávamos o peixe", recorda Afonso.

 

 

Passavam-se horas de volta do bacalhau, uma sequência de procedimentos que tinham de ser feitos, desde o troteiro, ao garfeiro, ao salgador. António São Marcos lembra a azáfama a bordo e a sua função, "uma espécie de dona de casa do navio. De manhã, quando os homens saiam nos dóris, ficava a bordo a orientar a baldeação do navio, que era lavar os restos do trabalho da noite. Depois era alisar o sal e preparar o porão para a pesca desse dia. À noite, quando os homens voltavam, supervisionava o processamento do pescado", recorda António São Marcos.

"Só não aproveitávamos a parte óssea, do crânio, de resto aproveitávamos tudo, nada se estragava", lembra Fernando.

Nos dias em que "no conjunto de todos os dóris se pescava mais de 200 quintais [12 toneladas], o capitão punha música para acompanhar o trabalho de salgar e escalar o bacalhau. Eram normalmente discos de fado, mas às vezes também baladas", recorda o algarvio José. Joaquim Sousa, 72 anos, viu-se a caminho da terra prometida noutro bacalhoeiro, mas ouviu do pai, com 29 viagens no ‘Creoula’, as histórias que depois sentiu na pele.

 

 

"O meu pai tinha seis filhos, por isso aguentou todos aqueles anos esta vida dura, sem água, sem luz, uma solidão imensa. Era um alívio chegar a terra depois de tanto tempo a ver o mar. Mas enquanto o meu pai não se afastava muito dos outros botes, eu arriscava mais. Tive dias de andar onze milhas para apanhar o navio. Às tantas já não se via nada: víamos um pássaro e achávamos que estávamos a ver o navio, já era a cabeça a baralhar". No mar, como na guerra, "cada homem é um tubarão, havia uma rivalidade terrível entre os pescadores que apanhavam mais peixe. Essa foi uma herança maldita que veio de outro tempo, mais antigo".

 

A FÉ NA HORA DO MEDO

‘Levantai-vos rapaziada, filhos da Virgem Maria/ Vai um homem para o leme e dois para a vigia’ era o último verso dos Louvados, que todos os dias os pescadores repetiam antes da descida dos botes para mais uma jornada de pesca à linha. Diz o ditado ‘Se queres aprender a orar, entra no mar’ e era à fé que os pescadores se agarravam. "Eu sentava-me na escada que ia dar ao rancho e era dos que orava mais alto. Com a morte ali tão perto, era preciso agarrarmo-nos à esperança de que voltaríamos", lembra Fernando Oliveira.

 

‘Vamos arriar com Deus’ ordenava o capitão. As crenças estavam tão presentes nos homens do mar que "o bote número 13 ninguém queria", recorda José Picoito sobre o sorteio feito na viagem de ida. "Era o número do azar e os pescadores tinham muito medo de não regressar." José, hoje com 70 anos, perdeu colegas. "Eram da Nazaré e nunca mais os vimos. O navio esperou, esperou, mas não vieram." Joaquim também ouviu do pai essas histórias. "Foram engolidos pelo mar e não mais apareceram." "Não era uma vida fácil para ninguém, desde o comandante ao moço", lembra António São Marcos, que tinha então 22 anos. "Mas guardo muitas e boas recordações dessa viagem. Tenho uma memória romântica daquela campanha que fiz no ‘Creoula’, apesar das poucas condições que havia foi uma viagem memorável."

Para os pescadores os momentos felizes daquela época teciam-se menos das linhas de pesca e mais das discotecas de St. John’s. "Tínhamos uma roupa guardada para quando íamos a terra dançar. Aí esquecíamos tudo", lembra Afonso Silva, que se deixou tentar "pelas canadianas" que encontrava. José também teve uma namorada ou outra. "Mas amor a sério foi em terra, em Portugal."»

 

por Marta Martins Silva – CORREIO DA MANHÃ – 13-5-2012.

foto 3 - Capt. Harry Stone.

fotos 4,5 - António São Marcos.



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Sexta-feira, 4 de Maio de 2012
1.º Encontro de Pescadores Bacalhoeiros.

 

No próximo dia 26 de Maio irá decorrer num restaurante da Praia de Mira, um primeiro encontro a nível nacional de antigos Pescadores Bacalhoeiros.

Estará disponível uma sala para projecção de filmes e fotos das mais variadas embarcações da Pesca do Bacalhau.
O convite, é dirigido a pais, filhos, esposas e amigos simpatizantes. Os bilhetes estão à venda até dia 24 de Maio.

Esta, é uma excelente iniciativa que deveria repetir-se a partir de agora noutras zonas do país, pois do Minho ao Algarve saíam centenas de homens para o Atlântico Norte todos os anos.



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Sexta-feira, 27 de Abril de 2012
Memórias de…Pesca do Bacalhau - Vila Chã, Vila do Conde.

 

«Realiza-se no sábado, dia 28 de Abril pelas 21 horas, no novo “Memórias de uma Terra”, em Vila Chã, Vila do Conde, a primeira do que se pretende que seja um ciclo de palestras em torno do tema da Pesca. Esta, com a designação “Memórias de…Pesca do Bacalhau” contará com Felisberto Costa, o “Feliz”, antigo e conhecido pescador de Vila Chã.»

 

texto – blog Opera Associação Cultural.

 

Núcleo Expositivo “Memórias de uma Terra”

Travessa do Sol

4485-743 -Vila Chã, Vila do Conde.

Telf. 229 285 607



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Terça-feira, 10 de Abril de 2012
A preto e branco.

 

Num olhar repentino até parece que são duas embarcações de recreio e os seus tripulantes desfrutam da vela, mas são “apenas” dois dóris portugueses na pesca do bacalhau do Atlântico Norte. É provável que o fotógrafo se encontre noutro navio e estes dóris a ele venham trazer alguma missiva, vinda do lugre de quatro mastros ao longe, um dos conhecidos “cisnes brancos” de 1937-39 construídos em aço. Os dóris não aparentam estar aparelhados para a pesca.



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Quinta-feira, 29 de Março de 2012
“O Creoula” – Livro-Álbum.

«Um bom modelo. Um bom fotógrafo. Um álbum excelente. Um cisne cruzando uma série de mares, ora recortando todas as suas “penas” – da giba à mezena, sobrepondo-se a uma ilha no horizonte ou às nuvens do céu, exibindo pacatez de pose com vida própria, ou dinamismo de instrução a abarcar um sem número de actividades, desde o rolar de pandeiros de cabo, no convés, à sorna de um descanso justificado. Tudo isto gravado pelos cliques atentos da máquina do skipper.

 
Era ele António Manuel Gonçalves, que começou por ser oficial de Marinha, onde contou cerca de 15.000 horas de navegação, mais de 90.000 milhas navegadas e 80 portos visitados nos mares de todos os oceanos, da Europa à América do Sul, da América do Norte ao Pacífico. Terminou a licenciatura em História, em 2001, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e apresenta-nos este álbum de fotografias sobre o navio “Creoula”, de Treino de Mar, que resultou, com os condicionamentos adequados, uma autêntica Obra de Arte.
Os instruendos, - denominação dada aos jovens que embarcam no “Creoula” – enquadrados pela guarnição do navio, que é por motivos óbvios, propositadamente reduzida, aparecem desempenhando todas as tarefas da vida de bordo, desde as de navegação e de quarto, até às inevitáveis de limpeza e da taifa, numa atmosfera de cooperação e entre-ajuda, que o autor/relator não deixou nunca de aproveitar para nos trazer como testemunho, envolvendo-a em Arte. 
 
O resultado foi este excelente Livro-Álbum, que a R. A. tem todo o orgulho em apresentar como testemunho.»
 
in “Revista da Armada” nr.367 – Agosto de 2003.


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Terça-feira, 20 de Março de 2012
Famílias de Ílhavo guardam há cem anos talheres do Titanic.

 

«Talheres de prata do Titanic, que estavam num móvel à deriva recolhido por um navio bacalhoeiro após o naufrágio, conservam-se no espólio de algumas famílias de Ílhavo, que há cem anos os repartiram entre si.

O "segredo" foi agora revelado num blogue por Ana Maria Lopes, antiga diretora do Museu Marítimo de Ílhavo e detentora de seis colheres de prata, que confirmou a origem junto da RMS Titanic e motivou já a deslocação a Ílhavo de uma cadeia de televisão francesa.

"Os talheres foram [encontrados no interior] de um móvel que flutuava um mês e meio após o naufrágio e que foi recolhido pelo veleiro "Trombetas", da Figueira da Foz, (foto 2) de que era capitão João Francisco Grilo, de Ílhavo. Quando chegou, entregou-os ao armador, que não se interessou muito, pelo que os repartiu por familiares e amigos", explica Ana Maria Lopes.

É essa a proveniência das seis colheres de sopa que lhe pertencem, que foram oferecidas ao seu avô e que veio a herdar, juntamente com o resto do recheio e a casa onde habita.

Desde os nove anos de idade que os talheres e a história a que estavam ligados lhe eram familiares, por conversas da sua avó, quando limpavam e arrumavam "as colheres do Titanic".

Há outros casos na vizinhança, com a mesma proveniência: "há mais algumas famílias com colheres, e também já vi garfos. Uma senhora que mora perto de mim e não quer ser divulgada tem 17 peças, entre colheres iguais a estas, de sobremesa e garfos, porque o marido era neto do que achou [o móvel]".

 

 

Durante praticamente um século, a existência dos talheres foi apenas do conhecimento restrito de familiares, embora houvesse rumores em Ílhavo sobre tais despojos.

"Quem os detinha não gostava de falar. Cada um tinha o que tinha na sua casa e acabou, embora se comentasse haver umas colheres do Titanic", explica.

Até que, Ana Maria Lopes, por força das suas funções no Museu, deu mais atenção às colheres "que sempre estiveram lá em casa" e começou a investigar.

"Vi que a história oral de Ílhavo tinha razão de ser, porque havia uma coincidência de datas e de rotas. Havia a memória de que os talheres tinham sido apanhados na ida dos navios para os pesqueiros, que era sempre por fins de abril e meados de maio, e o Titanic naufragou em 14 de abril de 1912", diz.

Depara-se com o registo do regresso - a 27 de outubro de 1912 - do "Trombetas" que, segundo a tradição oral, terá recolhido o móvel com os talheres, e do "Golfinho", de que era capitão o seu avô.

 

A localização do Titanic, no fundo do mar, trouxe novo entusiasmo e foi à primeira exposição de artefactos do navio, em 1994, no Museu de Greenwich, mas só na terceira exposição, em Lisboa (2009), é que viu "talheres exatamente iguais".

Seguiu-se um encontro na Costa Nova com Christopher Davino, da RMS Titanic, a quem mostrou as suas colheres e que as certificou. Eram de facto iguais, em prata maciça, com a estrela no cabo, símbolo da White Star Line, a punção da prata da época, e a indicação da Elkington Plate, uma joalharia inglesa famosa.

A "descoberta" levou já uma equipa da France3 afilmar três dias em Ílhavo para o programa "Thalassa". Agora, Ana Maria Lopes espera que o Museu de que foi diretora possa vir a receber uma exposição do Titanic.

"Será que alguma vez teremos uma exposição do espólio do Titanic em Ílhavo? Acho que a terra portuguesa mais indicada para receber uma exposição é Ílhavo, no Museu ou noutro espaço público", defende.»

 

@Lusa, via notícias sapo.



publicado por cachinare às 12:42
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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012
Dóri de rabo-cortado.

Foto tirada na zona do Seixal que mostra um antigo dóri da pesca ao bacalhau “todo artilhado”, como se costuma dizer nas lides automobilísticas. De um passado em que pescava nos mares frios do Norte com linhas-de-mão e de trol aqui parece andar com redes e a popa foi à vida, tendo-se perdido um terço do bote para lhe adaptar o motor fora-de-borda.
Por alturas de 1974 com a Revolução de Abril e o fim de inúmeros navios bacalhoeiros, devem ter sido às centenas os dóris que acabaram abandonados pelos principais portos de descarga, como no Barreiro, Figueira da Foz ou região de Aveiro. Muitos foram provavelmente aproveitados e ainda resistem alguns hoje em dia, como este registado no Barreiro e de nome “Florbela”(?). Com todo o respeito à senhora que lhe deu o nome, na pesca ao bacalhau eram muitos os espinhos e poucas as flores, mas ainda assim... bela foi essa epopeia de cerca de 100 anos, mistura de tragédia, sofrimento e muita bravura.
É uma pena que com o fim da pesca do bacalhau tenha também terminado a construção de dóris. Sendo Portugal um país de muita pesca costeira e de subsistência, a adaptação deste dóri é um bom exemplo do que também se poderia continuar a fazer. São por certo baratos, de fácil manejo e acima de tudo mantinham a memória acesa sobre o passado, embora agora numa forma adaptada, mas aquela proa e casco trincado não enganariam ninguém... é um bacalhoeiro.
Foto de lusobrandane.


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Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011
Amarrado ao passado.

 

Há quem diga que Portugal é um país de poetas e esta foto mostra um pequeno e singelo exemplo dessa afirmação. É um velho, muito velho dóri da pesca ao bacalhau, do tempo em que pescadores Portugueses deixavam família e pátria durante 6 meses e labutavam nos mares traiçoeiros do Atlântico Norte, fosse na Gronelândia, fosse na Terra Nova, fosse nos baixios das Virgin Rocks, a ver o fiel amigo a nadar a 3 metros da superfície. Era dentro dum destes dóris que cada pescador lá ia sózinho para longe do navio, pois as companhias nesta faina só atrapalhavam as contas e sabia melhor ver quem pescava mais ao final do dia, para uma boa conversa depois durante a salga e sopa-da-chora.
Esta foto foi tirada no Seixal, local onde muitos bacalhoeiros arribavam em final de campanha e onde muitos acabariam os seus dias, decrépitos do esplendor de outrora como o “Capitão Ferreira” que ainda lá se pode encontrar. Parece ser um dóri muito antigo, cuja cor original seria o vermelho e esta era a cor dos dóris do “Creoula”, “Gazela Primeiro” e “Hortense”, todos da mesma companhia. Poderá ter pertencido a um destes lugres todos eles muito antigos e lá longe no tempo antigo da vela, os dóris eram mais pequenos, daí as 3 pranchas laterias na construção em vez das mais comuns 4
 
Foto de lusobrandane.


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Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011
U-155 e o naufrágio do iate “Rio Ave” - 25/03/1917.

«Passaram-se os factos que vamos narrar no mês de Março de 1917.

O porto de Ponta Delgada tinha então, naqueles momentos trágicos da guerra, um movimento extraordinário. Aviões norte-americanos voavam sobre a cidade e vinham, até ao largo, reconhecer os navios e vapores que pretendiam demandar a barra. Um submarino da mesma nacionalidade estava de vigia à entrada do porto artificial e, encostada ao monitor “Tonopah” que içava o pavilhão do contra-almirante que ali tinha a sua base, encontrava-se a “Ibo”, a pequenina canhoneira portuguesa que orgulhosamente içava o pavilhão do almirante português, sob o peso do qual parecia ajoujada. Era a outro navio da esquadra portuguesa no mar dos Açores, ao velho “Vasco da Gama”, que pertencia o pavilhão de almirante, mas que ausente, em fabrico no porto da Horta, o cedera ao pequenino barco de guerra que sob o comando do então capitão de fragata Correia da Silva (Paço d´Arcos), tão importantes serviços prestou.
Todo este aspecto bélico era de molde a infundir confiança aos onze tripulantes do iate “Rio Ave” que logo ao dealbar começou a preparar para a largada, e ao princípio da tarde do dia 22 se fêz ao mar, com destino a Lisboa... ou onde a Deus aprouvesse que aportassem os seus tripulantes.
O Sol escondia-se no horizonte. O “Rio Ave” corria ligeiro impelido por vento de feição. A quietude a bordo era enorme, nada mais se ouvindo do que o assobiar do vento no cordeame e, de meia em meia hora, as pancadas metálicas da sineta, indicando tempo que passava. Era o único sinal da presença do homem na imensidade do mar. Com as velas todas em cima e um luar espelhado, que nas águas punha reflexos estranhos, aquele silêncio impressionava.
A bordo dum navio de vela e dum pequeno navio a que faltavam todos os confortos da navegação moderna – onde a vida é mais dura e a rota mais difícil – como em nenhuma outra parte, uma estreita solidariedade une os homens e, mais do que em qualquer outro lugar, eles se sentem irmãos.
O capitão, embuçado num velho capote, velava em silêncio, perscrutando o horizonte. O timoneiro, atento, não desprendia os olhos da agulha, enquanto à proa, o vigía, encadeado pela fosforência da vaga, procurava ver mais além. O restante da tripulação dormia. Tendo por únicos companheiros o céu imenso e o mar sem fim, aquelas noites a bordo convidavam a pensar na fragilidade das coisas humanas.
Passou a primeira noite da viagem e a aurora veio incutir novos ânimos. Assim, calmamente, decorreram três dias, até que dois tiros de canhão vieram interromper uma viagem iniciada sob tão bons auspícios.
Ao meio-dia as observações tinham indicado que 365 milhas já tinham sido percorridas, desde que o barco deixara Ponta Delgada. Entre os tripulantes reinava a melhor disposição; o navio não afrouxava na corrida e a tarefa de bordo seguia o seu curso normal. A sineta de bordo acabara de anunciar as três horas da tarde dum dia lindo.
Nesse instante o vigia assinalava a presença dum vulto estranho cujos contornos ainda se não definiam bem, visíveis por ante-a-ré da amura de estibordo. Alguns marinheiros precipitaram-se para a câmara em busca de binóculos – mas estes já não chegaram a prestar qualquer serviço. Dois tiros de peça disparados sobre o “Rio Ave”, anunciavam que se tratava dum submarino alemão.
A bordo do “Rio Ave” – acima de tudo, marinheiros portugueses de antes quebrar que torcer – pensou-se, ainda, em resistir, fugindo com o navio, mas em breve se verificou a inutilidade de tal esforço, pois o inimigo surgira por sotavento, anulando de ante-mão qualquer tentativa de resistência. Só restava um recurso: - abandonar o barco.
Mas a tentativa de fuga – e de tentativa não passou – demorou alguns minutos, embora poucos, e tanto bastou para que do submarino voltassem a alvejar o iate com mais nove tiros que quasi por completo o desmantelaram.
Já debaixo de fogo vivo, foi lançado ao mar um pequeno bote, pois que nem baleeira havia a bordo, e nele foram empilhados os onze homens da tripulação que imediatamente armou os remos. O comandante do submarino, falando com grande facilidade o português, intimou o comandante do “Rio Ave” a entregar-lhe a documentação de bordo, e depois fez à tripulação o costumado interrogatório a que esta respondeu como lhe convinha – subtraindo à curiosidade do interrogador a veracidade das informações.
Foi grande a admiração de todos os tripulantes quando um oficial alemão os informou de que seguiriam para a Alemanha, a bordo do submarino, como prisioneiros de guerra. Os tripulantes do minúsculo “Rio Ave” tornados prisioneiros de guerra quando é certo que entre todos se não encontrava uma só pistola por mais civil e apaisanada que fosse – era caso para causar surpresas.
Formulado o pedido do capitão português para que o deixassem seguir em busca de socorros ou da morte, consentiu o oficial inimigo em que partissem. Perguntou, ainda, se a bordo havia água ou mantimentos, e como a resposta fosse negativa deu as suas ordens e o submarino começou a navegar para o iate abandonado, levando o bote a reboque, com o nobre intuito de recolher alguns mantimentos para os náufragos. Apesar de inimigo – era marinheiro.
Com a grande agitação do mar, o submarino navegava com precaução, para evitar que o bote se enchesse de água. Mas como o iate já ia longe, levado pela corrente, tiveram que desistir do nobre intento, e então, do submarino, cortaram o cabo de reboque. Do barco de guerra alemão dispararam seguidamente 19 tiros de canhão sobre o “Rio Ave”, que começou a afundar-se lentamente.
Depois a noite começou a cair silenciosa, trágica, negra, enorme. Daqueles onze homens nem um só albergava esperanças de fazer as 360 milhas que os separava de terra, as quais tinham que percorrer sem água nem comida, sem forças para dar combate aos elementos, sem energia para remar, sequer.
Aqueles homens entenderam ser seu dever de marinheiros lutar até ao fim com a morte e vencê-la – se para isso não lhes faltasse as forças. Foi nesse momento que o comandante mostrou todo o seu valor, encontrando palavras de esperança e de alegria – de alegria!... – para dirigir aos seus subordinados. Deve ficar aqui arquivado o nome desse homem que tão duramente sentiu a guerra e tão heróicamente se comportou. Chamava-se ele, o comandante, Joaquim Manuel Machado e tinha como piloto Manuel Celestino da Maia, experimentado e culto marinheiro; o contra-mestre era Angelo dos Santos Paula e faziam ainda parte da tripulação João Labrincha, João Saramago, João Maria Almendral e mais quatro marinheiros cujo nome se perdeu na névoa do passado, além do cozinheiro José Marquês que, quando lhe recordavam essas horas de tragédia, tinha sempre o comentário seguinte:
 - “Perdi a única oportunidade de visitar a Alemanha com passagens e hotel pago...”.
O vento impelia o frágil batel para a costa, enquanto o capitão e o piloto, melhores técnicos de navegação, vacilavam entre a certeza duma morte inevitável e a esperança duma salvação possível. Assim se passaram três dias, e ao fim do último uma calamidade veio aumentar a tragédia: o vento acalmou completamente. Só o remo podia dar movimento ao bote de salvação – e a remos continuou daí para diante a viagem.
O silêncio que reinava a bordo era impressionante. Os náufragos tinham entrado no último dia duma vida infernal, e os seus semblantes marcavam bem o horror da tragédia que estavam vivendo, capítulo novo da lenda da “Nau Catrineta” – onde nem sola havia para deitar de molho. Dir-se-iam espectros vogando à mercê da fantasia caprichosa dum deus cruel e deshumano, e somente os remos, mergulhando na grande massa líquida com uma regularidade de autómatos, indicavam que a bordo a vida se não apagara de todo. Para aumentar a desdita que já era grande, o vento ameaçava rondar para SW e isso era a certeza de que seriam impelidos para mais longe de terra – morte certa e sem glória.
A situação era dolorosa, inconcebível, trágica. As forças totalmente esgotadas, os cérebros toldados pelo delírio da febre, natural em quem não comia havia sete dias, tornavam a vida daquelas vítimas da guerra  - pobres derrotados sem combate – num pavoroso e alucinante quadro de desespero.
Até que um grito a todos veio despertar daquele entorpecimento de espírito tão vizinho da morte, e que parecia ter tomado todos os tripulantes do frágil barquinho. Esse grito, que enche de júbilo todos os corações, que é uma alvorada de esperanças e promessas para os felizes viajantes duma cabina de luxo, era para aqueles onze homens, que tantas vezes tinham sentido a morte junto de si, como que uma benção de Deus enviada das alturas. – Terra”... Terra”... – palavra que em si encerrava a certeza da vida para quem dela há muito tempo descria. Aquela palavra nunca fora pronunciada com tanta alegria e emoção. Ela era, nesse momento, fiadora da salvação das onze vidas.
A embarcação era agora impelida por uma força mais vibrante, e naqueles semblantes cadavéricos, olhos em chama, brilhava uma alegria nova. Era domingo de Páscoa!
Às 18 horas os náufragos tocavam terra, onde galhardamente os recebeu a população. Tinham aportado na praia da Vila Baleeira, em Porto Santo, onde encontraram os náufragos da chalupa “Beira Alta” que, vítimas duma tragédia semelhante, ali tinham aportado também. Passados dias embarcaram no caça-minas “Augusto Castilho” já do comando do heróico Carvalho Araújo, que os conduziu ao continente.»
In “Ao Serviço da Pátria”, Costa Júnior.
 
O iate “Rio Ave” foi afundado pelo submarino Alemão U-155. Curiosamente com o nome do rio da cidade onde nasci, Vila do Conde, este iate foi construído nos estaleiros de Fão em 1904 para a Parceria de Pescas Portuense. Numa altura em que Portugal tentava fazer renascer a pesca do bacalhau, foram várias as pequenas escunas como o “Rio Ave” que iam para a Terra Nova. Começou as campanhas longínquas em 1910 e durante os meses de Outubro a Março trabalhava no comércio. Em tempo de pesca a tripulação rondava os 30 homens, enquanto que na cabotagem os 11, tal como se verificava na altura do afundamento.
A 1ª foto aqui mostrada não é o “Rio Ave” (que arvorava 2 mastros) mas sim o “Helvetia”, uma escuna Americana em patrulha em 1918 cuja função era atrair submarinos Alemães à superfície. A foto é tirada de um submarino Americano. Coloco-a aqui por mostrar a semelhança do que se terá passado com o “Rio Ave”.
A foto 2 mostra o tipo de submarino que afundou o “Rio Ave”, do tipo U-151 e a foto 3 é o próprio U-155 no rio Tamisa em Londres em 1919, pois fora capturado a 24.11.1918 e depois exibido em vários portos britânicos. Seria desmantelado em 1922 em Morecambe. Estava ao serviço há um mês quando afundou o “Rio Ave” e todo o episódio se assemelha muito ao de 1942, com o lugre “Maria da Glória” sobre o qual já escrevi.
Aconselho a visita ao blog http://naviosenavegadores.blogspot.com onde se pode ler o artigo na base deste, o qual contém também duas fotos do “Rio Ave”.


publicado por cachinare às 20:01
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Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011
“A Pesca do Bacalhau – História e Memória”.

«O estudo ou a simples evocação da pesca do bacalhau constitui forma legitima de narrar e de procurar compreender uma aventura humana nas suas múltiplas dimensões: espaços, homens e cultura material, vida económica e dinâmicas empresariais, organização social, formas de regulação institucional e política ensaiadas pelo Estado, representações estéticas e ideológicas. As imagens estilizadas, oscilando entre o tom épico e o drama, persistem densamente povoadas de representações ideológicas tecidas pelo Estado Novo em torno de um dos mais tangíveis programas de "ressugimento económico" do regime, ícone do sistema corporativo e da pretensa capacidade de Salazar em promover o reencontro da Nação com o mar. Não cabe à História estilhaçar essa memória ora romântica ora verosímil, mais forjada ou mais espontânea, mas apenas descrever as suas representações e interpretá-las; eventualmente tomando a memória, ela própria, como objecto de estudo a examinar e desconstruir.»

 
in ceis20.uc.pt
 
Esta é outra obra de grande interesse neste tema, coordenada por Álvaro Garrido (actual director do Museu Marítimo de Ílhavo) e composta por capítulos de vários escritores. Foi editada em 2001 e eis o seu índice:
 
- Introdução – Álvaro Garrido.
 
- A Caminho do Noroeste – Joaquim Romero Magalhães.
 
- A pesca do bacalhau entre os séculos XV e XVIII – Consuela Varela.
 
- O porto de Aveiro e as pescarias na época moderna – Inês Amorim.
 
- Linhas Gerais da evolução da pesca do bacalhau na Figueira da Foz – Rui Cascão.
 
- Viana na história da pesca do bacalhau – Ivone Batista.
 
- O Estado Novo e a pesca do bacalhau: economia, política e ideologia – Álvaro Garrido.
 
- As casas dos pescadores revisitadas – Manuel de Lucena.
 
- Os usos da fotografia no Jornal do Pescador e o lançamento das escolas de pesca – Luís Martins.
 
- Bernardo Santareno e o destino trágico dos homens da “grande pesca” – Ana Paula Medeiros.
 
- O Creoula: a pesca do bacalhau no crepúsculo da navegação à vela – Francisco Marques.
 
- Gazela Primeiro – O navio e a sua gente – António Marques da Silva.
 
- Gafanha em dia de festa: O bota-abaixo do São Jorge – Ana Maria Lopes.
 
- Os estaleiros Mónica e a renovação da frota bacalhoeira Portuguesa, 1934 - 1948 – A. Vitor Nunes de Carvalho.
 
- A influência da pesca do bacalhau na construção naval em Portugal – A. Duarte Silva.
 
- As secas de bacalhau, ontem e hoje – Fernando Chagas Duarte.
 
- Entre a soberania e o património comum: o direito do mar em transformação – José Manuela Pureza.
 
- Ciência e gestão dos recursos haliêuticos na segunda metade do século XX – o bacalhau no atlântico Norte: um caso paradigma – Mário Ruivo.


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Domingo, 10 de Julho de 2011
A preto e branco.

 

A Benção dos Bacalhoeiros em 1936 no rio Tejo. Prepara-se a frota para mais uma campanha, quase toda à vela e sem motor auxiliar.

 

imagem – Centro Português de Fotografia / jornal O Século



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Domingo, 19 de Junho de 2011
Mais um dos desafortunados da Faina Maior.

 

«Sobre o colega da Escola de Pesca de Lisboa, o Flores, nunca o encontrei em St. John's, como encontrei outro colega açoreano do mesmo curso. Mas sabia que o Flores havia embarcado no "Neptuno" e que um dia a descarregar à borda do navio, o bote foi ao fundo e ele ainda tentou agarrar-se ao casco escorregadio.  Com o peso das botas e da roupa de oleado, o balanço transversal violento do navio no mar ondulado da Terra Nova, foi rápido e fatal. Desapareceu para sempre da vista de todos, afundando-se nas águas escuras.

Era um jovem brincalhão e bem disposto, natural de Rabo de Peixe, uma freguesia bastante pobre. Ele, como outros, procurava um futuro melhor.»

 

Palavras do amigo Celestino Ribeiro, antigo pescador bacalhoeiro de Vila Praia de Âncora.

 

Ficha de José “Flores” Laranja – Museu Marítimo de Ílhavo.



publicado por cachinare às 22:10
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Sábado, 28 de Maio de 2011
Dionísio Esteves, relembrado 45 anos depois.

 

Dionísio Cândido Quintas Esteves foi um pescador como tantos outros que fez parte da epopeia da pesca ao bacalhau na Terranova e Gronelândia. Natural de Vila Praia de Âncora, com 26 anos de idade e casado, ficou imortalizado em 1966 no filme de Hector Lemieux “O Navio Branco”, por ter falecido a bordo. Como me confirmou o meu tio e Celestino Ribeiro, pescadores a bordo também nesse ano, "Uma tempestade obrigou a uma manobra da vela da bujarrona e uma vaga dupla abateu-se impiedosamente sobre a tripulação. O Dionísio, marinheiro de quarto, ficou entalado contra o mordente do guincho. Dali a três dias de sofrimento horrível, deixou-nos e fomos sepultá-lo a St. John's.". Dionísio fazia o seu 6.º ano a bordo de um bacalhoeiro.

É possível ver na parte final do filme de Lemieux a tripulação a dirigir-se a St. John´s na Terranova para sepultar este pescador. Tal como outros pescadores da frota falecidos durante décadas, foi sepultado no cemitério do Monte Carmelo, em St. John´s, ao que parece sem lápide de identificação.

45 anos depois, um emigrante português nos E.U.A., Sidónio Patrício (na foto), autor do já conhecido site Patricioclan, onde se exibe o filme de 1966, resolveu dirigir-se a St. John´s em busca do local de descanso de Dionísio Esteves. É pois a foto acima que regista esse momento em Março deste ano, local que Sidónio conseguiu identificar comparando com imagens do filme e onde colocou uma singela foto e texto identificativo do desafortunado pescador.

Um enorme agradecimento a Sidónio Patrício pela quase anónima iniciativa de relembrar este pescador “sem lápide”, um de muitos que ficou sepultado longe de Portugal e das suas famílias, os quais não merecem de modo algum o esquecimento, mais ainda pela epopeia na qual estavam inseridos, cuja dureza os tornou heróis e exemplo para muitos.

 

foto de Sidónio Patrício.



publicado por cachinare às 12:19
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Quinta-feira, 7 de Abril de 2011
Nos Porões da Memória V.

  

Nos Porões da Memória V

fotografia de Mário Ruivo
19 de Março 2011 - 26 de Junho 2011


«Nos Porões da Memória guardam-se, muitas vezes, imagens improváveis do tempo mítico da pesca do bacalhau por homens e navios portugueses. Ao registo épico erigido pela propaganda do Estado Novo, que logo nos anos trinta construiu e divulgou uma memória oficial da “grande pesca” eminentemente historicista, aditou-se o olhar de estrangeiros, escasso em número e pouco dissidente no modo de ver. Mais realistas e diversos foram os registos de imagem dos próprios pescadores e oficiais, memórias sem rasto que o Museu tem procurado identificar e expor com a finalidade de pluralizar a memória da pesca do bacalhau. Neste infindável arquivo de discursos sobre a mítica “faina maior” são pouco conhecidas as imagens construídas por cientistas portugueses e estrangeiros que, no âmbito das suas tarefas de observação e registo de aspectos comportamentais das populações do bacalhau do Atlântico, fotografaram e filmaram a faina dos pescadores portugueses, construindo imagens que hoje podemosconsiderar documentais. É o caso deste magnífico conjunto de fotografias de Mário Ruivo, extraordinário biólogo e cidadão do mar, que no final da década de cinquenta do século passado conviveu com as tripulações portuguesas de bacalhoeiros na concretização dos planos de amostragem dirigidos pelo Instituto de Biologia Marítima em cooperação com a Comissão Consultiva Nacional da ICNAF (International Comission for the Northwest Atlantic Fisheries), organismo multilateral de gestão das pescarias da Terra Nova, Labrador, Nova Escócia e Gronelândia criado em 1948, em pleno início da Guerra Fria. Este pequeno álbum de imagens conjuga-se com a publicação pelo Museu de um escrito inédito de Mário Ruivo e do piloto de navios A. Nunes de Oliveira, um escrito de mar que relata como poucos as técnicas de pesca do bacalhau com artes de anzol. Cabe ao Museu Marítimo de Ílhavo agradecer ao autor este contributo singular para o projecto do Museu, cuja missão cultural consiste na reconstrução de memórias da vida marítima e na promoção de uma cidadania do mar feita a diversas vozes.» 

Álvaro Garrido - (Consultor do Museu Marítimo de Ílhavo)

 

via Museu Marítimo de Ílhavo online.



publicado por cachinare às 08:16
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Segunda-feira, 21 de Março de 2011
A preto e branco.

 

Em breve estes três veteranos pescadores no rio Tejo, eventualmente saltarão para bordo do seu bacalhoeiro, disfrutando das últimas horas em terra firme antes de cerca de 6 meses de alto mar e dura faina. Interessante notar os garrafões ao lado, um típico foquim, um provável saco de roupa. O navio branco em grande plano é o “Milena”.

 

imagem – Centro Português de Fotografia / jornal O Século



publicado por cachinare às 08:21
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Quarta-feira, 16 de Março de 2011
"Aparelhos e Métodos de Pesca à Linha usados na Frota Bacalhoeira Portuguesa".

 

 

Aparelhos e Métodos de Pesca à Linha usados na Frota Bacalhoeira Portuguesa

 Apresentação de livro | 19 de Março | 17h

 

autoria de Mário Ruivo e António Nunes de Oliveira

 edição Câmara Municipal de Ílhavo/Museu Marítimo de Ílhavo

 

«A pesca do bacalhau à linha com dóris de um só homem foi uma saga de heroísmos cruéis. O projecto cultural do Museu Marítimo de Ílhavo e a investigação empenhada em conhecer este “fenómeno total” têm permitido revolver uma memória que, em certos meios, teima em persistir fechada e mítica, conservadoramente épica. Porque se trata de um documento inédito, escrito em finais dos anos cinquenta do século XX, optámos por não alterar o original, quer na grafia, quer nos desenhos e fotografias. Por razões diversas, esta improvável aliança determinada por compromissos externos que a organização corporativa das pescas acabou por assumir para defender a política de abastecimento de bacalhau resultou num escrito a duas mãos que não chegou a ser publicado. Fazê-lo agora significa partilhar um documento de admirável realismo científico que exprime como poucos a íntima ligação dos aspectos humanos, técnicos e científicos da “grande pesca” por homens e navios portugueses no Atlântico Norte.»

 

via Museu Marítimo de Ílhavo - Nota Informativa nº 3 | 10 Março 2011

 

 



publicado por cachinare às 08:07
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Segunda-feira, 14 de Março de 2011
A preto e branco.

 

«Ano de 1949. A 13 de Março desse ano estreava no cinema S. Luís o filme português “Heróis do Mar”,de Fernando Garcia. O filme era inspirado na obra “Os Grandes Trabalhadores do Mar”, de Jorge Simões. Produzido pela Cineditora, teve na pessoa de Vasco Morgado um dos grandes responsáveis pela sua realização, participando também como actor.

O filme aborda a vida e as aventuras de um grupo de homens que dedicavam a sua vida à faina perigosa e insegura da pesca do bacalhau. Pode-se por isso dizer que o grande protagonista deste filme é o mar das imensas e longínquas águas da Terra Nova e Groenlândia. Um tema bastante aliciante para o povo português, pois não podemos esquecer a nossa tradição marítima, já que estivemos voltados para o mar durante séculos. O filme ganharia nesse ano de 49 o grande prémio SNI para “Melhor Filme”».

 

Texto e imagens adaptados de Paulo Borges blogue.

 

Este é um filme que pela capa a vermelho, existirá em versão VHS ou mesmo DVD. Caso alguém me possa confirmar a sua existência à venda, agradeço. Até hoje nunca o encontrei.



publicado por cachinare às 08:12
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Quinta-feira, 10 de Março de 2011
"A Epopeia do Bacalhau".

 

A Epopeia do Bacalhau

Apresentação de livro | 19 de Março | 17h

 

edição CTT - Correios de Portugal

autoria de Álvaro Garrido e David Lopes Ramos

prefácio de Mário Ruivo

 

«Álvaro Garrido traça a evolução histórica da pesca do bacalhau, descrevendo as vicissitudes dessa actividade, os perigos, os métodos de pesca, a vida a bordo e a importância do bacalhau na economia portuguesa. David Lopes Ramos reflecte sobre a importância deste peixe nos hábitos alimentares dos portugueses apresentando as receitas clássicas do bacalhau. Trata-se de uma edição profusamente ilustrada, sobretudo com iconografia do acervo do Museu Marítimo de Ílhavo. De tiragem numerada e limitada a 5.000 exemplares, contém 6 selos com o valor facial de €3,45 da emissão filatélica Pesca do Bacalhau de 2000.

Edição bilingue.»

via Museu Marítimo de Ílhavo - Nota Informativa nº 3 | 10 Março 2011

 

 



publicado por cachinare às 21:23
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Sexta-feira, 4 de Março de 2011
“Os Açorianos e a Pesca Longínqua nos Bancos da Terra Nova e Gronelândia”.

Já anteriormente escrevi um pouco sobre esta obra aquando de um artigo intitulado “António ´Bacalhau´”, um dos famosos pescadores do bacalhau que quando não andava na faina era um dos melhores futebolistas das ilhas.

Aqui fica um artigo específico dedicado à obra, que sem dúvida será muito interessante no universo marítimo Português da pesca do bacalhau.
 
«“O Homem e o Mar – Os Açorianos e a Pesca Longínqua nos Bancos da Terra Nova e Gronelândia” é o título do último livro do florentino João Gomes Vieira e que, de certa forma, conclúi uma trilogia iniciada em “O Homem e o Mar – Embarcações dos Açores” (2002) e continuada com “O Homem e o Mar – Artistas Portugueses do Marfim e do Osso dos Cetáceos – Açores e Madeira. Vidas e Obras” (2003). Tal como aqueles, também este é um livro sem precedentes entre nós em termos de abordagem temática. Esta é também uma edição bilingue (português e inglês), apresentando-se, tal como as outras, profusamente ilustrada e com inexcedível qualidade gráfica, saltando à vista a riqueza iconográfica da obra.
Estudioso dinâmico e apaixonado pela historiografia e etnografia marítima, João Gomes Vieira disponibiliza dados que são fundamentais para o conhecimento da participação dos açorianos na pesca do bacalhau nos mares gélidos, brumosos e tempestuosos da Terra Nova e Gronelândia, procedendo a uma minuciosa inventariação de todo um património que os novos tempos vão atirando para o esquecimento. Bem documentado e informado, fá-lo criteriosa e meticulosamente, num trabalho de pesquisa a requerer aturado esforço.
A pesca do bacalhau terá começado a interessar aos portugueses na viragem do século XV para o século XVI. Por ser peixe fácil de conservar impôs-se com facilidade nos hábitos alimentares dos lusitanos. Os açorianos destacam-se, desde cedo, na pesca à linha nos navios bacalhoeiros. Aliás, tudo leva a crer que pescavam na Terra Nova desde os tempos dos Cortes-Reais e a certeza de que o faziam a partir de 1500, havendo a considerar este dado histórico inapelável: os bacalhoeiros, nas suas viagens de regresso a Portugal, faziam escala nos Açores. A partir de 1880 há registos consistentes que dão testemunho de um número considerável de açorianos a trabalharem nos bancos da Terra Nova e Gronelândia. O contributo insular foi de tal forma importante que, nas últimas décadas do século XIX, toda a frota bacalhoeira portuguesa se encontrava na posse de armadores dos Açores, ainda que operando a partir da Figueira da Foz e de Lisboa. Recorde-se que, mais tarde, a frota bacalhoeira portuguesa chegou a atingir a meia centena de navios (no ano de 1936). Estes são apenas alguns dados a partir dos quais João Gomes Vieira lança olhares históricos à frota bacalhoeira portuguesa, tecendo considerações sobre as duras condições de vida a bordo dos navios bacalhoeiros, a faina piscatória (seus métodos, processos e técnicas), a lavagem e seca do bacalhau, a história das empresas bacalhoeiras, dando a conhecer inventários, registos, números, documentos, glossário, notícias de jornais, biografias, depoimentos, testemunhos e memórias de armadores, capitães e pescadores.
Mas este é essencialmente um livro de navios e navegações, de borrascas e calmarias, de chegadas e partidas – símbolo maior da errância açoriana. Por isso o autor presta justíssima homenagem aos lugres Creoula e Argus (deles traçando minucioso historial), mas também a outros: Júlia (I, II, III e IV), Gazela I, Oliveirense, Labrador, Gamo e Nossa Senhora dos Anjos, havendo ainda a considerar a escuna Hortense e o iate bacalhoeiro Autonómico Açoreano.
Saudemos este livro e o seu autor que, de forma contínua e continuada, vem investigando o património do mar.»
 
por Victor Rui Dores – Núcleo Cultural da Horta, boletim n.14 – 2005
 
 


publicado por cachinare às 08:52
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Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011
O cais do Ginjal-Cacilhas.
O cais do Ginjal, na margem Sul do Tejo era um dos locais frequentados por vários navios bacalhoeiros antes da partida para a Terra Nova e Gronelândia, por alturas de Abril para os da pesca à linha e duas vezes por ano em Fevereiro e Agosto para os arrastões. Depois da habitual Benção dos navios em Belém, dirigiam-se ao Ginjal ou à Banática no Monte da Caparica para abastecerem por exemplo de isco ou gelo. A afluência de familiares dos pescadores que partiam era bastante grande, com pessoas vindas um pouco de vários pontos da costa Portuguesa para a despedida, segundo alguns jornais da época, muitas delas nos seus trajes tradicionais das comunidades piscatórias. Era também motivo de orgulho para muitos a partida para a Grande Faina e por tal vinham nos seus melhores trajes.
Na memória ficam navios como o “Sam Tiago”, “Elisabeth” e “Gronelândia” da pesca à linha ou os arrastões “Álvaro Martins Homem”, “Pedro de Barcelos” ou “David Melgueiro”, atracados habitualmente nestes locais e bem conhecidos da população.
Hoje o Ginjal mostra a degradação das muitas empresas navais que lá funcionaram, tal como fábricas de conservas de peixe, abastecimento de gelo e armazéns de isco, cuja memória se vai apagando.
É apenas mais um exemplo dos muitos da degradação de locais que outrora estavam cheios de cor e vida. Sinais dos tempos, o fim do bacalhau da Terra Nova e “falta de dinheiro” (ou capacidade cultural) de autarcas para revitalizar sábiamente locais cheios de história e simbolismo.
A foto é da autoria de Guilherme Cardoso – Blog o-pharol.


publicado por cachinare às 08:21
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