Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2022
Pelas palavras de Raúl Brandão.

«O poveiro não usa faca, mas é terrível e certeiro com pedras na mão. Ou porque lhe cortassem a caça, estragando-lhe as redes, ou porque andassem de rixa velha, havia às vezes no alto mar verdadeiros combates entre poveiros e sanjoaneiros. Os barcos avançavam uns para os outros à força de remo e a pedrada fervia. Os da Póvoa, que são, creio eu, os únicos pescadores que usam pedras em lugar de chumbeiras, levavam sempre a melhor. Às vezes chegavam à abordagem, de remos no ar, numa algazarra feroz, e havia feridos e até mortos.»

 
Raúl Brandão, 1921 – “Os Pescadores”.
 
É precisamente essa rivalidade que estas duas imagens demonstram no filme “Ala-Arriba”, onde as pedras são as armas de arremesso entre barcos, ao que parece neste caso, da mesma comunidade. Volta a ser evidente a importância do mar como território dividido e a respeitar entre hierarquias ou por pescadores de outras paragens. Ainda assim, o poveiro também ia pescar a outros mares, a Sul e a Norte e problemas “de invasão” semelhantes ocorriam.
Curiosamente, quando se descreve a estrutura social desta comunidade, por exemplo por Santos Graça, refere-se que era uma comunidade onde o crime era praticamente inexistente, o que denota sem dúvida como no mar a história era outra. De novo o mar se prova não só como o que dá sustento, mas também onde se acertam contas, fora das “confusões” e intromissões alheias em terra.


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Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2021
Aquele Portugal.

 

O Cais da Ribeira de Lisboa e a azáfama das mulheres na organização do peixe. Estas mulheres eram conhecidas por “varinas”, designação abreviada de “ovarina”, que os habitantes de Lisboa deram às mulheres oriundas de Ovar, vindas para a capital a partir da segunda metade do séc. XIX, e que vendiam peixe pelas ruas ou trabalhavam no Cais da Ribeira. O nome foi atribuído também às mulheres provenientes de uma área abrangente a Ovar, próxima daquela povoação litoral e de grande tradição piscatória, como Ílhavo, Aveiro ou a Murtosa.



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Segunda-feira, 9 de Agosto de 2021
Arte marítima.

Captures.JPG

But oh for the Touch of a Vanished Hand", 1888 - Walter Langley



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Domingo, 20 de Junho de 2021
A preto e branco.

https://fotos.web.sapo.io/i/ob314c619/18266973_1QLUV.jpeg

Belíssima imagem de lugres bacalhoeiros portugueses no porto de São João da Terranova. É possível apreciar os detalhes que estes navios de trabalho ostentavam, tanto nas suas popas, como nas proas. Vendo-se os painéis de popa do “Dom Deniz” e do “Gazela Primeiro”, a proa e beque são do lugre “Hortense”. Foto de Eduardo Lopes, 1951-53.



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Quinta-feira, 13 de Maio de 2021
O barco salva-vidas – Origens.

São várias as comunidades que se afirmam como o local onde o primeiro barco salva-vidas surgiu, incluindo Bamburgh (Inglaterra) com o trabalho levado a cabo pela Fundação do Lord Crowe no auxílio a pessoas envolvidas em naufrágios. Realmente, Bamburgh pode afirmar ter possuído o primeiro posto salva-vidas, erigido em 1786. Contudo, mesmo esta afirmação é precedida por Liverpool, onde uma minuta da câmara datada de 5 de Março de 1777 se refere a um barco estacionado em Formby “preparado para ir buscar quaisquer pessoas naufragadas nos bancos”, presumindo-se estes serem os bancos de areia na foz do rio Mersey.

Ainda assim existe um enorme caso de prioridade a ser dada à afirmação em nome do rio Tyne, no nordeste da Inglaterra. Pode não ser o posto salva-vidas mais antigo, mas como aplicada e efectiva solução ao problema de salvamento de vidas no mar e ao seu impacto no resto deste país e de outros, os Salva-Vidas do rio Tyne podem orgulhosamente reclamar o primeiro lugar.
O Tyne era um rio extremamente movimentado nos anos 1780s, com um registo de tonelagem (cerca de 106.000 t) apenas superado pelo do rio Tamisa. Em 1787 cerca de 5.000 navios circularam no rio, dos quais 4.400 faziam cabotagem costeira.
A foz do rio Tyne era assim descrita por um capitão daqueles dias: “...a entrada para o porto é muito estreita, com rochedos perigosos de um lado e um longo banco de areia do outro e um baixio a atravessá-lo, onde as ondas frequentemente são enormes...”.
Em 1789, um grupo de homens de negócios que trabalhavam na área marítima, especialmente no comércio do carvão, juntou-se e estableceu-se numa pequena elevação de terreno mesmo à entrada do rio. Um dos membros deste grupo era Nicholas Fairles, o qual por várias vezes havia sido contactado pela comunidade marítima local para que fizesse algo de modo a prestar auxílio às tripulações dos frequentes naufrágios na foz do rio.
A 14 de Março de 1789, o brigue “Adventure” naufragou no banco Herd, apenas a 45 metros da costa e 8 dos seus 13 tripulantes pereceram. Este triste drama foi presenciado por centenas de pessoas em ambos os lados da entrada do porto. Pouco podiam ajudar, e os “cobles” locais (foto 2), que lidavam bem com mar mexido, nessa ocasião pouco podiam contra a ondulação. O impacto deste naufrágio, junto com outros dois no mesmo dia e no mesmo banco de areia, foi catalisador na comunidade local, mas particularmente em Nicholas Fairles para que algo se fizesse contra os perigos da foz do rio. Fairles discutiu o assunto com colegas de negócios e um comité foi formado. Determinaram criar uma instituição para a “Preservação das Vidas de Naufrágios”, com Fairles à cabeça.
O comité colocou um anúncio no Newcastle Courant num sábado, 16 de Maio de 1789, oferecendo uma recompensa de 2 guinéus a quem apresentasse um plano (aprovado pelo comité) “de um barco capaz de levar 24 pessoas e julgado capaz de singrar através de mar muito vivo – a sua intenção é preservar as vidas de marinheiros de navios que dão à costa em fortes temporais e ventos”. A 10 de Junho, em reunião, várias propostas estavam na mesa, mas apenas 2 foram aceites. Uma vez que nenhuma das duas era inteiramente satisfatória, a decisão atrasou-se em cerca de 5 semanas, quando as propostas de William Wouldhave e Henry Gatehead foram reconsideradas. Como o prémio de 2 guinéus não era considerado “generoso”, mesmo naqueles dias, William Wouldhave mostrava-se ofendido por ter sido recompensado com apenas 1 guinéu, quase como consolação. Recusou então o dinheiro, afirmando que a sua proposta seria a melhor. Wouldhave realmente apresentara um desenho inovador que respondia à maioria das necessidades de um salva-vidas em mau tempo. Contudo, o comité considerou que necessitava de vários melhoramentos e assim optou pela proposta de Gatehead, procedendo este à construção indicada pelos patrocinadores.
Conhecido apenas como o “Original” as linhas desse barco podem ser vistas no plano (foto 1) contemporâneo. Características chave, são a quilha curva, a cintura externa em cortiça e os flutuadores internos também em cortiça. Embora a discussão se mantenha sobre de quem era o desenho realmente por trás do barco, a forma resultante foi considerada por profissionais locais como contendo características de três tipos de barcos separados: O topo/convés de um barco de pesca do Mar Báltico, proa e popa de um “yawl” da Noruega e o fundo do casco de um coble de Shields – com a quilha curvada. O barco na foto 3, esteve ao serviço em Redcar entre 1801-1880, salvando centenas de vidas. Foi preservado até hoje e pode-se notar a similaridade ao plano referido.
 
Adaptado do texto de Jeff Morris – Cullercoats Lifeboat Station.
Imagens, da mesma fonte.

 



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Quarta-feira, 7 de Abril de 2021
Restauro da escuna bacalhoeira “Theresa E. Connor”.

Em Maio de 2008 escrevi já sobre esta típica escuna de pesca com dóris canadiana. Sendo actualmente  o navio-bandeira do Museu das Pescas do Atlântico, em Lunenburg, Nova Escócia, entrou em Janeiro de 2009 em novos trabalhos de restauro nos estaleiros especializados Snyder´s, de Dayspring, Nova Escócia.

Os trabalhos nesta escuna de 70 anos, focam-se principalmente na substituição de algumas cavernas e pranchado exterior, tanto a bombordo como estibordo e as duas fotos acima são parte de uma vasta colecção que pode ser acompanhada no link abaixo, do site oficial dos estaleiros, à medida que os trabalhos avançam desde Janeiro.
Um belíssimo barco de pesca histórico, sem dúvida.
 
Fotos em Snyder´s Shipyard.


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Terça-feira, 6 de Abril de 2021
Aquele Portugal.

 

Foto kodachrome de W. Robert Moore publicada na revista National Geographic nos anos 30, com dois pescadores da Nazaré junto a um dos seus barcos, o do candil.



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Sábado, 28 de Novembro de 2020
Arte marítima.

Edward Seago - evening on the tagus

Uma aguarela muito simples mas extraordinária de navios bacalhoeiros portugueses no rio Tejo ancorados.

“Evening on the Tagus” - Edward Seago



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Quarta-feira, 9 de Setembro de 2020
A preto e branco.

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Trabalhos de marinharia nos mastros do lugre-patacho “Gazela Primeiro”. Foto de Eduardo Lopes, 1951-53.



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Quarta-feira, 5 de Agosto de 2020
O Naufrágio do Salsinha - 15-11-1907.

«A morte é, infelizmente, às vezes, a senhora dos navegantes. Dos homens, diz-se que "há os vivos, os mortos, e os que andam no Mar". Se este dito popular for verdadeiro (e é...), difícil deve ser andar lá no Mar, alguma vez, muito tempo, em longas viagens (de que se espera voltar um dia), mas certamente muito mais difícil - mais heróico, mais duro, mais sobre-humano (quotidianamente heróico, duro e sobre-humano...) - deve ser andar lá sempre, dia após dia, todos os dias, durante a vida inteira. Cada dia, no intervalo das noites dormidas na praia, onde sempre ecoa, noite após noite, todas as noites, "a voz imensa, o lamento eterno...". Viver, assim, é viver quotidianamente, dia após dia, entre o Mar e a vida.

Os pescadores do litoral português são os verdadeiros "heróis do mar" num país que, infelizmente, sempre mais e mais os foi esquecendo e desprezando, e sempre mais e mais os foi abandonando (na maior provação e pobreza), ao mesmo tempo que, nesse mesmo país, sempre mais e mais foram sendo oficiadas as bizantinas e académicas liturgias de "comemoração dos Descobrimentos" e de glorificação das míticas "grandezas imperiais do Passado" (grandezas que, na verdade, nunca existiram). Um país pobre (em que os pescadores sempre foram os mais pobres dos pobres) cujas elites sempre dissiparam improdutivamente a riqueza em celebrações sumptuários e em retóricas bizantinas, e que, por isso mesmo, continuou tão pobre como sempre.
Um país em que, infelizmente, tudo o que autenticamente tem a ver com o Mar e com a Herança Marítima - e aí incluem-se sobretudo os barcos e os homens (a arquitectura naval tradicional e a experiência humana acumulada) - sempre foi sendo cada vez mais e mais abandonado, e assim votado à decadência, à extinção, à miséria e à emigração. E, no entanto, seria tão importante (e tão interessante) estudá-lo... desde Viana à Nazaré, desde Vila do Conde a Peniche, desde o Furadouro a Lavos, desde o Porto a Aveiro, desde Buarcos à Vieira, etc...
Devemos neste momento saudar a publicação de um novo livro - e, agora, um livro especialmente dedicado às matérias da História Marítima local - saído da pena do excelente investigador, competente, probo e honesto, que é Hermínio de Freitas Nunes. Esta é uma obra que, tal como as anteriores do mesmo Autor, fala por si mesma. Aqui fica agora bem patente uma rigorosa utilização da terminologia técnica adequada, um seguro domínio das fontes históricas, quer arquivísticas, quer narrativas, quer jornalísticas (fontes trabalhosamente compulsadas, seriadas e analisadas), bem como uma brilhante capacidade de síntese histórica (síntese breve, concisa, cronológica, compreensiva e problematizada). Neste mundo, as boas obras, na sua (aparente) simplicidade, falam sempre por si mesmas (e o inverso também é verdade). Muito além, e acima, de todos os pedantismos pseudo-intelectuais e de todos os folclores que aspirem ao academismo (e para isso usem palavras caras e conceitos abstractos).
Tomaram muitos centros de investigação académicos e universitários - e sobretudo no estado em que em Portugal infelizmente se encontram hoje em dia tantos Centros e Universidades... - contar entre os seus membros do corpo de docentes ou de investigadores alguém como o Autor deste livro... o mesmo Autor, de resto, que já antes havia produzido tantos e tão bons estudos de História Local, História Económica Social, História das Ideias e Mentalidades acerca das regiões de Leiria e da Marinha Grande (acerca do seu património industrial e cultural, dos seus movimentos operários, das suas igrejas, etc.).
Especialistas e eruditos locais como Hermínio de Freitas Nunes, mais do que como discentes, são sobretudo necessários, como docentes ou investigadores, em quaisquer escolas que de facto queiram sair de si próprias e ser capazes de estudar algo mais do que o seu próprio umbigo (e é também isso que distingue as escolas).
Que pode haver, de resto, mais interessante do que a história de homens verdadeiros - homens corajosos - que é a história dos pescadores...?
Esta é uma investigação original, de arquivo, dedicada ao levantamento e publicação da documentação referente ao maior de todos os naufrágios da Praia da Vieira: o trágico episódio de 1907 que deixou no desamparo dezenas de famílias dos mais pobres pescadores locais. Agora, o Autor deste livro reuniu, e incluiu no seu anexo documental, a documentação apropriada, nomeadamente a correspondência e as contas, quer das receitas obtidas pela comissão presidida pelo diligente padre José Ferreira de Lacerda, quer das despesas efectuadas pelo mesmo pároco da Vieira que se notabilizou no esforço para ajudar as famílias dos náufragos. E esta parece ser, também, infelizmente, uma história muito portuguesa, quando se conclui que uma parte do subsídio enviado pelo governo de então parece nunca ter chegado a ser efectivamente entregue à comissão de socorro às famílias. E, quanto ao valor angariado pelo sarau de gala de solidariedade que também foi promovido, constata-se que quase metade de tal valor serviu para pagar as respectivas despesas de tal gala, incluindo comidas e garrafas de vinho fino.
Hermínio de Freitas Nunes quis agora dedicar as páginas deste seu livro àqueles que verdadeiramente as mereciam: os pobres mas valentes pescadores da Vieira, que a fome obrigou a ir ao mar em pleno Novembro, no dia 15 desse mês de Inverno...
 
Este livro é uma lição de História: por isso é tão inspirador, e tão emocionante. Fazemos votos de que a sua leitura, para os futuros leitores, seja tão motivadora quanto o foi agora para o signatário deste prefácio (o qual, de resto, desde há muito quer andar cada vez mais distante da História oficial e dos respectivos historiadores, e próximo dos pescadores).
É para isto que, na verdade, deve servir a História autêntica. Por isso, é não só um prazer, mas também uma honra, prefaciar uma obra como esta.
Hermínio de Freitas Nunes é um verdadeiro historiador que, agora, para além do estudo da tragédia de 1907, nos dá também o levantamento e a publicação dos documentos anteriores do Arquivo Distrital de Leiria e da Capitania da Nazaré referentes às companhas, aos barcos e aos pescadores da Vieira, com a reconstituição de tais companhas e dos homens que as integravam. A partir de agora, já lhes sabemos os nomes e a cor dos olhos. Ficámos, para sempre, a conhecer os barcos e os homens da Vieira ao longo do século XIX, desde as suas mais antigas referências.
Há alguns meses, durante as VI Jornadas Culturais da Gandara, na Praia de Mira, em Março de 2008 (onde a comunicação apresentada por Hermínio de Freitas Nunes já constituiu uma versão preliminar deste estudo, e foi uma das comunicações mais valiosas e apreciadas), o signatário deste prefácio, na sua própria comunicação, havia reiterado a sua expressão de que o Barco do Mar do litoral centro de Portugal é "o mais belo barco do Mundo"... (e, na mesma ocasião, o nosso Amigo Professor Fernando Alonso Romero, o druida da memória da Galiza, pela sua parte, chamou-lhe "a embarcação mais interessante da Europa"). Não são excessivas essas apreciações quando aplicados ao também chamado Saveiro, Varino, Barco da Arte, ou "Meia-Lua", do Furadouro à Torreira, da Vagueira a Mira, de Lavos à Vieira. Agora, o competente investigador e erudito local que é o nosso Amigo Hermínio de Freitas Nunes adopta essa nossa designação de "o mais belo barco do Mundo", nesta obra em que deixa para o Futuro uma investigação histórica criteriosa e um estudo fundamental, no que diz respeito à Praia da Vieira e aos litorais de Leiria, desse belo barco e dos homens corajosos que outrora o tripularam.
Esses homens do século XIX e dos inícios do século XX morreram (como todos os homens vão morrer um dia), e as suas casas e os seus barcos apodreceram ou arderam (como tudo vai apodrecer ou arder um dia). Mas lá continua, ao som da voz imensa, o barco descendente dos seus barcos... tripulado pelos descendentes desses mesmos homens...
Um historiador, agora - passados hoje cento e um anos... -, ajudou a que tudo isso sobreviva para o Futuro. É para isto que serve a História.»
 
Alfredo Pinheiro Marques
Director do Centro de Estudos do Mar - CEMAR
15 de Novembro de 2008
 
«Na sexta-feira do dia 15 de Novembro de 1907, a embarcação conhecida como “Salsinha”, da companha de Manuel da Silva Sapateiro, virou-se ao ser varrido por uma onda quando tentava sair do mar, provocando a morte de 13 pescadores e ferindo cerca de uma dezena.
A descrição do acidente marítimo é relatada por Francisco Oneto Nunes, na obra “Vieira de Leiria – A História, O Trabalho, A Cultura”, que lembra as palavras do escritor vieirense António Vitorino sobre o assunto. É referida a tensão “quando os homens dentro do barco se apercebem de que estão à beira do desastre, sempre seguidos na sua angústia por aqueles outros que estão em terra sem lhes poderem acudir”. 
Enquanto uns caíram ao mar com o impulso da onda e nadaram, outros ficaram presos no barco abalroado e morreram, fazendo com que este trágico acidente fosse perpetuado, pelos piores motivos, na memória da população de Vieira de Leiria.
Os funerais foram impressionantes manifestações de dor, as fábricas pararam, o comércio fechou e Vieira de Leiria tornou-se pequena para acolher todos quantos quiseram marcar presença nas cerimónias.
 
As 13 vítimas mortais do naufrágio foram:
 
António Mouco Letra Novo - 26 anos
António Rego - 33 anos
Epifânio Tomás - 60 anos
Joaquim Xarana - 37 anos
José Bonifácio - 20 anos
José da Silva Alfaiate - 46 anos
José Mouco - 36 anos
José Pinheiro - 55 anos
José Tocha – 25 anos
Luís Bonifácio - 60 anos
Manuel Botas Pedrosa - 25 anos
Manuel Rego - 19 anos
Reinaldo Lobo - 26 anos .»
 
in CyberJornal.
foto 2 – José Fernandes.
 
Como comentário, pego no pequeno parágrafo do prefácio: “Fazemos votos de que a sua leitura, para os futuros leitores, seja tão motivadora quanto o foi agora para o signatário deste prefácio (o qual, de resto, desde há muito quer andar cada vez mais distante da História oficial e dos respectivos historiadores, e próximo dos pescadores).”
Ao que parece, o Sr. Alfredo Pinheiro Marques viu há muito o que os “simples” pescadores e a sua cultura podem também ensinar à “modernidade intelectual”. Mas eu sou suspeito para elevar o valor do universo dos pescadores... pois sou filho..., neto..., bisneto... .


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Terça-feira, 28 de Julho de 2020
Aquele Portugal.

 

Um imponente barco varino no rio Tejo em trabalhos de descarga de produtos. Embarcações de linda proa curvada e altiva, terminando porventura no mais belo capelo de todas as embarcações tradicionais de Portugal, capelo esse também visto noutras embarcações da mesma raíz geográfica da Ria de Aveiro, como o Barco do Mar, o Moliceiro ou de volta ao Tejo, o Culé ou Barco d' Água Acima.



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Quarta-feira, 24 de Junho de 2020
Arte marítima.

Felix Cuadrado Lomas - Pescadores de Nazare 1971

“Pescadores de Nazaré, 1971” - Felix Cuadrado Lomas



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Segunda-feira, 1 de Junho de 2020
A preto e branco.

https://fotos.web.sapo.io/i/o98116d03/18266975_Vhv7p.jpeg

O lugre-patacho “Gazela Primeiro” a navegar. Foto de Eduardo Lopes, 1951-53.



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Sábado, 18 de Abril de 2020
Construtores Navais – Aprender com quem faz.

«A construção naval em madeira é, na Celebração da Cultura Costeira (EEAgrants) um tema partilhado por todos os territórios. Sendo um interesse trazido ao projecto pela Associação de Barcos do Norte – cuja problemática é a legislação sobre barcos tradicionais – a inventariação destes conhecimentos tem-se feito nas restantes áreas, porém mais intensamente na deste parceiro e na Cooperativa Porto de Abrigo (Açores).

 

Maria do Céu Baptista e Luís Martins
Coordenação do CCC 
 
O texto que se segue dá luz a uma fracção desta recolha – junto de construtores da ilha de São Miguel e de um mestre dos estaleiros Mónica de Vila do Conde – realçando em simultâneo um simbolismo do nosso programa de formação e estudo: são os protagonistas do património local que têm a voz na divulgação das suas tecnologias. Procuramos desocultar o testemunho silencioso, tal como achamos importante descobrir o ecossistema e a árvore por detrás do barco.
 
DA ÁRVORE E DE TODAS AS PEÇAS SE FAZEM O BARCO E O ARTESÃO
 
Uma árvore como a acácia corta-se ao cair da folha (Outono e Inverno). Na força da rebentação está muito viçosa e a madeira empena. Na secagem deve manter cerca de 15% da humidade, para ter alguma viscosidade. Faces demasiado húmidas quando juntas crespam e apodrecem em poucos meses. É nos solos pobres que aparecem as árvores de madeira mais dura. As que dão a madeira torta para as peças curvas crescem nas escarpas e nos espaços das grotas, enquanto na mata limpa se cortam as de fio direito para as restantes peças.
É costume fazer a analogia entre o barco e o corpo humano (coluna vertebral e vértebras). Talvez por isso se diga que a sua resistência começa na quilha e no cavername. Contudo, Paulino França e António Melo dizem que o importante é o conjunto, da cavilha ao forro, porque o objectivo do calafate é evitar que a água entre no barco – contribuindo para isso as peças todas (enquanto, por exemplo, a do tanoeiro, bem distinta, é impedir a saída do líquido.
Vê-se que a sabedoria popular não se constitui de ideias uniformes. Mas há mestres que são referências locais. Por exemplo, os actuais construtores de Rabo de Peixe (Açores) aprenderam todos com Manuel Cesta. Pai de José Francisco, foi também patrão de Gabriel Costa e José Pimenta, e de um pescador, Leonardo, que constrói e conserta embarcações. O primeiro herdou a oficina. José Pimenta fez em 1991, aos 17 anos, o primeiro barco quando trabalhava nela, e abriu o seu estaleiro em 2004. Gabriel Costa estabeleceu-se nos finais de 1980s, tendo frequentado o de mestre Cesta desde os 16 anos, onde se iniciou em tarefas que eles não queriam fazer, como pegar uma ferramenta, limpar os barcos por dentro, ir buscar uma enxó.
António Costa, carpinteiro dos estaleiros Mónica em Vila do Conde, começou a trabalhar com dez anos e aprendeu metendo-se aos poucos: ajudou numa e noutra acção, e diz que depende de cada um encaixar o que vê e lhe dizem. Fez o primeiro exame aos 18 anos para passar à 4ª categoria, num exame feito por mestres do Sindicato, onde apresentou as ferramentas que comprara para o ofício – formões, serrote, martelo, compasso, sutas e uma enxó – e respondeu à questão sobre como, de um rolo, tirar um tento e fazer a linha para alinhar uma peça para um barco. Visto já riscar cavernas com o filho do patrão, disse que andava a galibar – passar de umas grades para o desenho das cavernas, para depois fazer-se estas – e foi-lhe fácil dar a solução. Ao longo da carreira fez ainda exames até à 1a categoria.
Paulino França começou a trabalhar na construção naval em 1981 em estaleiros de Ponta Delgada. Primeiro na SOFOPEL, mais tarde na NAVEL. Para se entreter fez nessa época um barco no quarto onde morava em Vila Franca do Campo. À luz de um petromax. Foi mediante a declaração de uma destas firmas, dando-o como habilitado, que a Capitania lhe passou a carteira profissional de carpinteiro calafate. Em 2004 ergueu o barracão onde está o estaleiro para nele construir um barco de onze metros e trinta, trabalhando os calafates desse porto até então a céu aberto.
Em São Miguel a palavra estaleiro designa também o conjunto de toros que escoram o barco sob a quilha, chamando-se bancada a cada toro. De lado, à medida que a construção evolui, colocam-se uns puntaletes para as balizas não mexerem. Ao longo do costado e em filas paralelas fixam-se varetas de metal, a fim de desempolar o barco, isto é, para o forro ficar direito. Antes usavam-se fasquias, de pinho resinoso, que aguentavam o sol e não entortavam.
 
INOVAÇÃO, DIVERSIDADE E UNIDADE DA LINGUAGEM
 
Brincando com a filha na banheira onde tomava banho, José Pimenta diz que notou que o barquinho que lhe oferecera no aniversário se reflectia na água. Lembrou-se de encostar uma maquete a um espelho e observou que os pequenos defeitos no semi-casco ficavam mais nítidos. Todos os construtores com quem falámos aplicam esta técnica para verificar as linhas do costado, a curvatura da proa, as linhas de água. António Melo, que a define como um truque para ver os dois lados, já tinha observado o pai a usá-la como carpinteiro de uma empresa de atuneiros.
Todo o conhecimento vem por herança, e é inovado porque se procura. O velho Cesta fazia os barcos a gosto. Quer dizer que não os construía segundo um plano. Falava com os donos e, a partir dos moldes dos já construídos, introduzia as alterações combinadas. Os seus aprendizes assimilaram esta prática de trabalhar madeira, cortar, limpar, planar. O interesse de Gabriel Costa levou-o a observar mestre Aldeia (José Evangelista Aldeia, de Sesimbra), que em Ponta Delgada trabalhava de uma maneira muito diferente. José Evangelista, riscando em estrados, fazia linhas que ele não entendia. Aprendeu assim como é que se risca, como é que se faz. Diz que cada um deles lhe passou metade do que pretendia aprender. O resto descobriu em experiências que foi efectuando. Por sua vez Paulino França e António Melo dizem que a construção começa com o barco em geometria: o seu desenho no estrado, apoiado num cavalete, onde parece que não é o barco, mas é. Daqui passa-se para uma maquete, que consideram o verdadeiro barco, pois qualquer defeito que tenha passa ao ponto superior.
Construída a embarcação, mesmo Gabriel Costa, que não gosta muito do mar, embarca nela para verificar o seu comportamento: como navega e pára, o desempolamento das amuras, se ele se mete muito. Porque as entradas de água é que definem a qualidade da construção: deve levantar-se e ao mesmo tempo entrar na água e lançá-la para os lados. Se assentar ao meio, vai entrar na água da parte de trás e de proa levantada. Assim, em movimento bate como se andasse sobre uma superfície dura. Para evitar essas situações é preciso, diz, saber a prática e a teoria, isto é, o trabalho da madeira e o risco. Em consequência, não reconhece como construtores os profissionais da pesca que se dedicam à construção. Por exemplo, o Leonardo em Rabo de Peixe, antigo artesão no estaleiro de mestre Cesta, que faz e conserta embarcações para os mais chegados, alugando as ferramentas que precisa aos estaleiros em actividade.
Em qualquer caso um barco nasce com quilha, couce, cadaste – que a gente chama pá da luva – painel, roda de proa, contra-roda de proa, onde se vira o tabuado. Relativamente ao continente, diz António Melo que em São Miguel designam a primeira tábua por cinta, e no continente falca. O que nas ilhas chamam tábua do alefriz, no continente chamam resbordo. Às restantes tábuas – da cinta à tábua do alefriz – dá-se o nome de costado. Os outros termos são idênticos. Nas embarcações de boca aberta os dormentes são um reforço da embarcação, onde assentam as bancadas. Nos outros barcos os dormentes mantêm-se como reforço, e o convés assenta em vaus.
Através de entrevistas procuramos dar conta desta unidade e diversidade dos conhecimentos e práticas dos construtores navais. Julgamos que fica evidente a grande riqueza destas pessoas, que se predispõem a falar da sua profissão e de como se formaram no exercício dos trabalhos. Não sabemos se conseguimos dizer muita coisa em pouco espaço. Mas percebe-se por este pequeno exercício a imensa riqueza do saber do artesão naval.»
 
in site oficial Mútua dos Pescadores.
Foto 1 – José Branco Carvalho
Foto 2 – graminho piratealx
Foto 3 – construção de um barco Rabelo - Sinalvideo – A Cidade Surpreendente


publicado por cachinare às 10:44
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Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020
Aquele Portugal.

 

Matosinhos de 1967, com as suas mulheres do mar e embarcações do tipo das bateiras, muito usadas até então no auxílio de descarga da sardinha desde as traineiras até ao areal.



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Terça-feira, 4 de Fevereiro de 2020
Arte marítima.

Edwin Thomas Roberts - Naval Manoeuvres

“Manobras Navais”, típicas de marinheiros que viajam de porto em porto. Esta, na velha Inglaterra.

“Naval Manoeuvres” - Edwin Thomas Roberts



publicado por cachinare às 18:26
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