Quarta-feira, 9 de Setembro de 2020
A preto e branco.

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Trabalhos de marinharia nos mastros do lugre-patacho “Gazela Primeiro”. Foto de Eduardo Lopes, 1951-53.



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Quarta-feira, 5 de Agosto de 2020
O Naufrágio do Salsinha - 15-11-1907.

«A morte é, infelizmente, às vezes, a senhora dos navegantes. Dos homens, diz-se que "há os vivos, os mortos, e os que andam no Mar". Se este dito popular for verdadeiro (e é...), difícil deve ser andar lá no Mar, alguma vez, muito tempo, em longas viagens (de que se espera voltar um dia), mas certamente muito mais difícil - mais heróico, mais duro, mais sobre-humano (quotidianamente heróico, duro e sobre-humano...) - deve ser andar lá sempre, dia após dia, todos os dias, durante a vida inteira. Cada dia, no intervalo das noites dormidas na praia, onde sempre ecoa, noite após noite, todas as noites, "a voz imensa, o lamento eterno...". Viver, assim, é viver quotidianamente, dia após dia, entre o Mar e a vida.

Os pescadores do litoral português são os verdadeiros "heróis do mar" num país que, infelizmente, sempre mais e mais os foi esquecendo e desprezando, e sempre mais e mais os foi abandonando (na maior provação e pobreza), ao mesmo tempo que, nesse mesmo país, sempre mais e mais foram sendo oficiadas as bizantinas e académicas liturgias de "comemoração dos Descobrimentos" e de glorificação das míticas "grandezas imperiais do Passado" (grandezas que, na verdade, nunca existiram). Um país pobre (em que os pescadores sempre foram os mais pobres dos pobres) cujas elites sempre dissiparam improdutivamente a riqueza em celebrações sumptuários e em retóricas bizantinas, e que, por isso mesmo, continuou tão pobre como sempre.
Um país em que, infelizmente, tudo o que autenticamente tem a ver com o Mar e com a Herança Marítima - e aí incluem-se sobretudo os barcos e os homens (a arquitectura naval tradicional e a experiência humana acumulada) - sempre foi sendo cada vez mais e mais abandonado, e assim votado à decadência, à extinção, à miséria e à emigração. E, no entanto, seria tão importante (e tão interessante) estudá-lo... desde Viana à Nazaré, desde Vila do Conde a Peniche, desde o Furadouro a Lavos, desde o Porto a Aveiro, desde Buarcos à Vieira, etc...
Devemos neste momento saudar a publicação de um novo livro - e, agora, um livro especialmente dedicado às matérias da História Marítima local - saído da pena do excelente investigador, competente, probo e honesto, que é Hermínio de Freitas Nunes. Esta é uma obra que, tal como as anteriores do mesmo Autor, fala por si mesma. Aqui fica agora bem patente uma rigorosa utilização da terminologia técnica adequada, um seguro domínio das fontes históricas, quer arquivísticas, quer narrativas, quer jornalísticas (fontes trabalhosamente compulsadas, seriadas e analisadas), bem como uma brilhante capacidade de síntese histórica (síntese breve, concisa, cronológica, compreensiva e problematizada). Neste mundo, as boas obras, na sua (aparente) simplicidade, falam sempre por si mesmas (e o inverso também é verdade). Muito além, e acima, de todos os pedantismos pseudo-intelectuais e de todos os folclores que aspirem ao academismo (e para isso usem palavras caras e conceitos abstractos).
Tomaram muitos centros de investigação académicos e universitários - e sobretudo no estado em que em Portugal infelizmente se encontram hoje em dia tantos Centros e Universidades... - contar entre os seus membros do corpo de docentes ou de investigadores alguém como o Autor deste livro... o mesmo Autor, de resto, que já antes havia produzido tantos e tão bons estudos de História Local, História Económica Social, História das Ideias e Mentalidades acerca das regiões de Leiria e da Marinha Grande (acerca do seu património industrial e cultural, dos seus movimentos operários, das suas igrejas, etc.).
Especialistas e eruditos locais como Hermínio de Freitas Nunes, mais do que como discentes, são sobretudo necessários, como docentes ou investigadores, em quaisquer escolas que de facto queiram sair de si próprias e ser capazes de estudar algo mais do que o seu próprio umbigo (e é também isso que distingue as escolas).
Que pode haver, de resto, mais interessante do que a história de homens verdadeiros - homens corajosos - que é a história dos pescadores...?
Esta é uma investigação original, de arquivo, dedicada ao levantamento e publicação da documentação referente ao maior de todos os naufrágios da Praia da Vieira: o trágico episódio de 1907 que deixou no desamparo dezenas de famílias dos mais pobres pescadores locais. Agora, o Autor deste livro reuniu, e incluiu no seu anexo documental, a documentação apropriada, nomeadamente a correspondência e as contas, quer das receitas obtidas pela comissão presidida pelo diligente padre José Ferreira de Lacerda, quer das despesas efectuadas pelo mesmo pároco da Vieira que se notabilizou no esforço para ajudar as famílias dos náufragos. E esta parece ser, também, infelizmente, uma história muito portuguesa, quando se conclui que uma parte do subsídio enviado pelo governo de então parece nunca ter chegado a ser efectivamente entregue à comissão de socorro às famílias. E, quanto ao valor angariado pelo sarau de gala de solidariedade que também foi promovido, constata-se que quase metade de tal valor serviu para pagar as respectivas despesas de tal gala, incluindo comidas e garrafas de vinho fino.
Hermínio de Freitas Nunes quis agora dedicar as páginas deste seu livro àqueles que verdadeiramente as mereciam: os pobres mas valentes pescadores da Vieira, que a fome obrigou a ir ao mar em pleno Novembro, no dia 15 desse mês de Inverno...
 
Este livro é uma lição de História: por isso é tão inspirador, e tão emocionante. Fazemos votos de que a sua leitura, para os futuros leitores, seja tão motivadora quanto o foi agora para o signatário deste prefácio (o qual, de resto, desde há muito quer andar cada vez mais distante da História oficial e dos respectivos historiadores, e próximo dos pescadores).
É para isto que, na verdade, deve servir a História autêntica. Por isso, é não só um prazer, mas também uma honra, prefaciar uma obra como esta.
Hermínio de Freitas Nunes é um verdadeiro historiador que, agora, para além do estudo da tragédia de 1907, nos dá também o levantamento e a publicação dos documentos anteriores do Arquivo Distrital de Leiria e da Capitania da Nazaré referentes às companhas, aos barcos e aos pescadores da Vieira, com a reconstituição de tais companhas e dos homens que as integravam. A partir de agora, já lhes sabemos os nomes e a cor dos olhos. Ficámos, para sempre, a conhecer os barcos e os homens da Vieira ao longo do século XIX, desde as suas mais antigas referências.
Há alguns meses, durante as VI Jornadas Culturais da Gandara, na Praia de Mira, em Março de 2008 (onde a comunicação apresentada por Hermínio de Freitas Nunes já constituiu uma versão preliminar deste estudo, e foi uma das comunicações mais valiosas e apreciadas), o signatário deste prefácio, na sua própria comunicação, havia reiterado a sua expressão de que o Barco do Mar do litoral centro de Portugal é "o mais belo barco do Mundo"... (e, na mesma ocasião, o nosso Amigo Professor Fernando Alonso Romero, o druida da memória da Galiza, pela sua parte, chamou-lhe "a embarcação mais interessante da Europa"). Não são excessivas essas apreciações quando aplicados ao também chamado Saveiro, Varino, Barco da Arte, ou "Meia-Lua", do Furadouro à Torreira, da Vagueira a Mira, de Lavos à Vieira. Agora, o competente investigador e erudito local que é o nosso Amigo Hermínio de Freitas Nunes adopta essa nossa designação de "o mais belo barco do Mundo", nesta obra em que deixa para o Futuro uma investigação histórica criteriosa e um estudo fundamental, no que diz respeito à Praia da Vieira e aos litorais de Leiria, desse belo barco e dos homens corajosos que outrora o tripularam.
Esses homens do século XIX e dos inícios do século XX morreram (como todos os homens vão morrer um dia), e as suas casas e os seus barcos apodreceram ou arderam (como tudo vai apodrecer ou arder um dia). Mas lá continua, ao som da voz imensa, o barco descendente dos seus barcos... tripulado pelos descendentes desses mesmos homens...
Um historiador, agora - passados hoje cento e um anos... -, ajudou a que tudo isso sobreviva para o Futuro. É para isto que serve a História.»
 
Alfredo Pinheiro Marques
Director do Centro de Estudos do Mar - CEMAR
15 de Novembro de 2008
 
«Na sexta-feira do dia 15 de Novembro de 1907, a embarcação conhecida como “Salsinha”, da companha de Manuel da Silva Sapateiro, virou-se ao ser varrido por uma onda quando tentava sair do mar, provocando a morte de 13 pescadores e ferindo cerca de uma dezena.
A descrição do acidente marítimo é relatada por Francisco Oneto Nunes, na obra “Vieira de Leiria – A História, O Trabalho, A Cultura”, que lembra as palavras do escritor vieirense António Vitorino sobre o assunto. É referida a tensão “quando os homens dentro do barco se apercebem de que estão à beira do desastre, sempre seguidos na sua angústia por aqueles outros que estão em terra sem lhes poderem acudir”. 
Enquanto uns caíram ao mar com o impulso da onda e nadaram, outros ficaram presos no barco abalroado e morreram, fazendo com que este trágico acidente fosse perpetuado, pelos piores motivos, na memória da população de Vieira de Leiria.
Os funerais foram impressionantes manifestações de dor, as fábricas pararam, o comércio fechou e Vieira de Leiria tornou-se pequena para acolher todos quantos quiseram marcar presença nas cerimónias.
 
As 13 vítimas mortais do naufrágio foram:
 
António Mouco Letra Novo - 26 anos
António Rego - 33 anos
Epifânio Tomás - 60 anos
Joaquim Xarana - 37 anos
José Bonifácio - 20 anos
José da Silva Alfaiate - 46 anos
José Mouco - 36 anos
José Pinheiro - 55 anos
José Tocha – 25 anos
Luís Bonifácio - 60 anos
Manuel Botas Pedrosa - 25 anos
Manuel Rego - 19 anos
Reinaldo Lobo - 26 anos .»
 
in CyberJornal.
foto 2 – José Fernandes.
 
Como comentário, pego no pequeno parágrafo do prefácio: “Fazemos votos de que a sua leitura, para os futuros leitores, seja tão motivadora quanto o foi agora para o signatário deste prefácio (o qual, de resto, desde há muito quer andar cada vez mais distante da História oficial e dos respectivos historiadores, e próximo dos pescadores).”
Ao que parece, o Sr. Alfredo Pinheiro Marques viu há muito o que os “simples” pescadores e a sua cultura podem também ensinar à “modernidade intelectual”. Mas eu sou suspeito para elevar o valor do universo dos pescadores... pois sou filho..., neto..., bisneto... .


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Terça-feira, 28 de Julho de 2020
Aquele Portugal.

 

Um imponente barco varino no rio Tejo em trabalhos de descarga de produtos. Embarcações de linda proa curvada e altiva, terminando porventura no mais belo capelo de todas as embarcações tradicionais de Portugal, capelo esse também visto noutras embarcações da mesma raíz geográfica da Ria de Aveiro, como o Barco do Mar, o Moliceiro ou de volta ao Tejo, o Culé ou Barco d' Água Acima.



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Quarta-feira, 24 de Junho de 2020
Arte marítima.

Felix Cuadrado Lomas - Pescadores de Nazare 1971

“Pescadores de Nazaré, 1971” - Felix Cuadrado Lomas



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Segunda-feira, 1 de Junho de 2020
A preto e branco.

https://fotos.web.sapo.io/i/o98116d03/18266975_Vhv7p.jpeg

O lugre-patacho “Gazela Primeiro” a navegar. Foto de Eduardo Lopes, 1951-53.



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Sábado, 18 de Abril de 2020
Construtores Navais – Aprender com quem faz.

«A construção naval em madeira é, na Celebração da Cultura Costeira (EEAgrants) um tema partilhado por todos os territórios. Sendo um interesse trazido ao projecto pela Associação de Barcos do Norte – cuja problemática é a legislação sobre barcos tradicionais – a inventariação destes conhecimentos tem-se feito nas restantes áreas, porém mais intensamente na deste parceiro e na Cooperativa Porto de Abrigo (Açores).

 

Maria do Céu Baptista e Luís Martins
Coordenação do CCC 
 
O texto que se segue dá luz a uma fracção desta recolha – junto de construtores da ilha de São Miguel e de um mestre dos estaleiros Mónica de Vila do Conde – realçando em simultâneo um simbolismo do nosso programa de formação e estudo: são os protagonistas do património local que têm a voz na divulgação das suas tecnologias. Procuramos desocultar o testemunho silencioso, tal como achamos importante descobrir o ecossistema e a árvore por detrás do barco.
 
DA ÁRVORE E DE TODAS AS PEÇAS SE FAZEM O BARCO E O ARTESÃO
 
Uma árvore como a acácia corta-se ao cair da folha (Outono e Inverno). Na força da rebentação está muito viçosa e a madeira empena. Na secagem deve manter cerca de 15% da humidade, para ter alguma viscosidade. Faces demasiado húmidas quando juntas crespam e apodrecem em poucos meses. É nos solos pobres que aparecem as árvores de madeira mais dura. As que dão a madeira torta para as peças curvas crescem nas escarpas e nos espaços das grotas, enquanto na mata limpa se cortam as de fio direito para as restantes peças.
É costume fazer a analogia entre o barco e o corpo humano (coluna vertebral e vértebras). Talvez por isso se diga que a sua resistência começa na quilha e no cavername. Contudo, Paulino França e António Melo dizem que o importante é o conjunto, da cavilha ao forro, porque o objectivo do calafate é evitar que a água entre no barco – contribuindo para isso as peças todas (enquanto, por exemplo, a do tanoeiro, bem distinta, é impedir a saída do líquido.
Vê-se que a sabedoria popular não se constitui de ideias uniformes. Mas há mestres que são referências locais. Por exemplo, os actuais construtores de Rabo de Peixe (Açores) aprenderam todos com Manuel Cesta. Pai de José Francisco, foi também patrão de Gabriel Costa e José Pimenta, e de um pescador, Leonardo, que constrói e conserta embarcações. O primeiro herdou a oficina. José Pimenta fez em 1991, aos 17 anos, o primeiro barco quando trabalhava nela, e abriu o seu estaleiro em 2004. Gabriel Costa estabeleceu-se nos finais de 1980s, tendo frequentado o de mestre Cesta desde os 16 anos, onde se iniciou em tarefas que eles não queriam fazer, como pegar uma ferramenta, limpar os barcos por dentro, ir buscar uma enxó.
António Costa, carpinteiro dos estaleiros Mónica em Vila do Conde, começou a trabalhar com dez anos e aprendeu metendo-se aos poucos: ajudou numa e noutra acção, e diz que depende de cada um encaixar o que vê e lhe dizem. Fez o primeiro exame aos 18 anos para passar à 4ª categoria, num exame feito por mestres do Sindicato, onde apresentou as ferramentas que comprara para o ofício – formões, serrote, martelo, compasso, sutas e uma enxó – e respondeu à questão sobre como, de um rolo, tirar um tento e fazer a linha para alinhar uma peça para um barco. Visto já riscar cavernas com o filho do patrão, disse que andava a galibar – passar de umas grades para o desenho das cavernas, para depois fazer-se estas – e foi-lhe fácil dar a solução. Ao longo da carreira fez ainda exames até à 1a categoria.
Paulino França começou a trabalhar na construção naval em 1981 em estaleiros de Ponta Delgada. Primeiro na SOFOPEL, mais tarde na NAVEL. Para se entreter fez nessa época um barco no quarto onde morava em Vila Franca do Campo. À luz de um petromax. Foi mediante a declaração de uma destas firmas, dando-o como habilitado, que a Capitania lhe passou a carteira profissional de carpinteiro calafate. Em 2004 ergueu o barracão onde está o estaleiro para nele construir um barco de onze metros e trinta, trabalhando os calafates desse porto até então a céu aberto.
Em São Miguel a palavra estaleiro designa também o conjunto de toros que escoram o barco sob a quilha, chamando-se bancada a cada toro. De lado, à medida que a construção evolui, colocam-se uns puntaletes para as balizas não mexerem. Ao longo do costado e em filas paralelas fixam-se varetas de metal, a fim de desempolar o barco, isto é, para o forro ficar direito. Antes usavam-se fasquias, de pinho resinoso, que aguentavam o sol e não entortavam.
 
INOVAÇÃO, DIVERSIDADE E UNIDADE DA LINGUAGEM
 
Brincando com a filha na banheira onde tomava banho, José Pimenta diz que notou que o barquinho que lhe oferecera no aniversário se reflectia na água. Lembrou-se de encostar uma maquete a um espelho e observou que os pequenos defeitos no semi-casco ficavam mais nítidos. Todos os construtores com quem falámos aplicam esta técnica para verificar as linhas do costado, a curvatura da proa, as linhas de água. António Melo, que a define como um truque para ver os dois lados, já tinha observado o pai a usá-la como carpinteiro de uma empresa de atuneiros.
Todo o conhecimento vem por herança, e é inovado porque se procura. O velho Cesta fazia os barcos a gosto. Quer dizer que não os construía segundo um plano. Falava com os donos e, a partir dos moldes dos já construídos, introduzia as alterações combinadas. Os seus aprendizes assimilaram esta prática de trabalhar madeira, cortar, limpar, planar. O interesse de Gabriel Costa levou-o a observar mestre Aldeia (José Evangelista Aldeia, de Sesimbra), que em Ponta Delgada trabalhava de uma maneira muito diferente. José Evangelista, riscando em estrados, fazia linhas que ele não entendia. Aprendeu assim como é que se risca, como é que se faz. Diz que cada um deles lhe passou metade do que pretendia aprender. O resto descobriu em experiências que foi efectuando. Por sua vez Paulino França e António Melo dizem que a construção começa com o barco em geometria: o seu desenho no estrado, apoiado num cavalete, onde parece que não é o barco, mas é. Daqui passa-se para uma maquete, que consideram o verdadeiro barco, pois qualquer defeito que tenha passa ao ponto superior.
Construída a embarcação, mesmo Gabriel Costa, que não gosta muito do mar, embarca nela para verificar o seu comportamento: como navega e pára, o desempolamento das amuras, se ele se mete muito. Porque as entradas de água é que definem a qualidade da construção: deve levantar-se e ao mesmo tempo entrar na água e lançá-la para os lados. Se assentar ao meio, vai entrar na água da parte de trás e de proa levantada. Assim, em movimento bate como se andasse sobre uma superfície dura. Para evitar essas situações é preciso, diz, saber a prática e a teoria, isto é, o trabalho da madeira e o risco. Em consequência, não reconhece como construtores os profissionais da pesca que se dedicam à construção. Por exemplo, o Leonardo em Rabo de Peixe, antigo artesão no estaleiro de mestre Cesta, que faz e conserta embarcações para os mais chegados, alugando as ferramentas que precisa aos estaleiros em actividade.
Em qualquer caso um barco nasce com quilha, couce, cadaste – que a gente chama pá da luva – painel, roda de proa, contra-roda de proa, onde se vira o tabuado. Relativamente ao continente, diz António Melo que em São Miguel designam a primeira tábua por cinta, e no continente falca. O que nas ilhas chamam tábua do alefriz, no continente chamam resbordo. Às restantes tábuas – da cinta à tábua do alefriz – dá-se o nome de costado. Os outros termos são idênticos. Nas embarcações de boca aberta os dormentes são um reforço da embarcação, onde assentam as bancadas. Nos outros barcos os dormentes mantêm-se como reforço, e o convés assenta em vaus.
Através de entrevistas procuramos dar conta desta unidade e diversidade dos conhecimentos e práticas dos construtores navais. Julgamos que fica evidente a grande riqueza destas pessoas, que se predispõem a falar da sua profissão e de como se formaram no exercício dos trabalhos. Não sabemos se conseguimos dizer muita coisa em pouco espaço. Mas percebe-se por este pequeno exercício a imensa riqueza do saber do artesão naval.»
 
in site oficial Mútua dos Pescadores.
Foto 1 – José Branco Carvalho
Foto 2 – graminho piratealx
Foto 3 – construção de um barco Rabelo - Sinalvideo – A Cidade Surpreendente


publicado por cachinare às 10:44
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Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020
Aquele Portugal.

 

Matosinhos de 1967, com as suas mulheres do mar e embarcações do tipo das bateiras, muito usadas até então no auxílio de descarga da sardinha desde as traineiras até ao areal.



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Terça-feira, 4 de Fevereiro de 2020
Arte marítima.

Edwin Thomas Roberts - Naval Manoeuvres

“Manobras Navais”, típicas de marinheiros que viajam de porto em porto. Esta, na velha Inglaterra.

“Naval Manoeuvres” - Edwin Thomas Roberts



publicado por cachinare às 18:26
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Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2019
A preto e branco.

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Em 1940, foi elaborada em Portugal uma exposição sobre o mundo português da altura, contendo alguns dos mais relevantes locais, tradições e figuras nacionais.

O pescador poveiro foi também uma das figuras escolhidas. Seria interessante saber quem é este "lanchão" nas fotos.

in "A Exposição do Mundo Português de 1940 sob a objetiva do fotógrafo Casimiro dos Santos Vinagre."

 


publicado por cachinare às 18:35
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Quarta-feira, 4 de Dezembro de 2019
As companhas poveiras de Lourenço Marques - Moçambique.

«A maioria desses lobos do mar reside e trabalha em Lourenço Marques. Durante os breves dias que estive na grandiosa capital de Moçambique procurei, por isso, encontrá-los e trocar com eles algumas impressões.

Na cidade toda a gente conhece a “casa dos poveiros”, à rua Engenheiro Lapa, atrás da Capitania. Os meus conterrâneos são populares e o edifício, por seu turno, é dos mais antigos da povoação. Trata-se duma velha moradia, alta e de paredes caiadas de amarelo, colocada próximo da imponente sede do jornal “Notícias”.
Felizmente que se encontravam em casa bastantes poveiros quando lá fui. Seria meio-dia. No cimo da escada, um pescador fazia a barba ao outro, já idoso. Declarei a minha identidade e o fim ao que vinha – para os cumprimentar e conversarmos um bocado. Logo a “operação” terminou e se aproximaram mais caras sorridentes, que reflectiam almas francas em corpos fortes e rudes.
Cerca duma hora estivemos em alegre convívio, e estes sessenta minutos representam, sem dúvida, um dos mais perduráveis momentos da minha sugestiva excursão.
Vivem em Lourenço Marques perto de 60 pescadores poveiros, distribuídos igualmente por três “companhas”, cada uma com a sua traineira: a “Luz Divina”, a “Esperança” e a “Gabriel Teixeira” (nome do actual e querido Governador Geral da Colónia), de que são os verdadeiros donos, labutam eles quase diáriamente. E após três ou quatro anos de ausência vão até à Póvoa descansar os corpos, ver as famílias, enquanto os navios sofrem as indispensáveis reparações. Por tal motivo, uma companha tinha partido para o Continente havia dias, no “Pátria”. Mas em breve outra chegaria para a substituir.
Remonta a 1921 o ano em que os poveiros começaram a vir pescar para as costas de Lourenço Marques, e alguns lobos do mar desse primeiro grupo ainda por cá mourejam, tendo ido, no entanto, várias ocasiões à terra natal.
Como marítimos, os poveiros gozam na cidade de grande consideração, conforme me disseram várias pessoas. São os únicos pescadores que se atrevem a saír a barra e a colher, no mar alto, o pargo e outros peixes. Depois dos poveiros estão os gregos, os quais porém, nunca se aventuram a ultrapassar a baía.
A sua vida decorre ordinariamente nas traineiras. Quando as demoras em terra têm maior duração, vão até casa, autêntica república democrática, onde não existem distinções e onde, durante um mês, cada um se encarrega, sucessivamente, duma tarefa: este, das compras, aquele, da cozinha, outro, do peixe, etc.. O mestre comanda a faina de bordo e toma a seu cargo as contas. É igual para todos a simplicidade dos quartos, apenas com as camas, as arcas, uma mesa, e mil objectos pendurados nas paredes, de vigas a descoberto. Uns aos outros de ajudam nos seus trabalhos e dificuldades. Segundo contaram, o “Porquinho”, conhecido fígaro do bairro da Lapa da Póvoa de Varzim, pensou um dia em establecer-se em Lourenço Marques, a fim de pôr o seu ofício à disposição dos pescadores residentes na capital. Desistiu, contudo, ao saber que eles estavam habituados a cortar o cabelo e a fazer a barba recíprocamente, conforme, aliás, eu observei!
Perguntei-lhes se não gostariam de ter em Lourenço Marques um bairro só para pescadores da Póvoa, uma vez que eram tantos. Tal oferta já lhes havia sido feita – responderam – com a condição de trazerem as famílias para a África. Mas eles parece preferirem viver sózinhos, em camaradagem. “A vida passa-se quase toda a bordo; não vale a pena”. Além disso “a mulher está velha...” – disseram-me, explicando-se. Os novos, porém, acalentam esse sonho, como depreendi de algumas das suas frases. Seria na verdade interessante e compensadora uma realização desse género.
Para já os meus conterrâneos contam com o carinho do público, que os admira e respeita, e com a gentileza das autoridades da Capitania, muito suas amigas e atenciosas. E a assistência médica, gratuíta, agrada completamente.
Quanto ao amor pela terra-mãe, conserva-se bem vivo nos seus espíritos, o mesmo sucedendo no que respeita às tradições folclóricas da Póvoa. O traje usado na praia de Varzim mantem-se no porto de Lourenço Marques; a mesma camisa axadrezada, o boné de pala e a boina, as calças enfiadas nas botas de borracha ou descidas até aos socos. Nas paredes dos quartos, ao lado de fotografias de entes queridos, vi igualmente gravuras das imagens veneradas na igreja da Lapa. Por coincidência, no dia seguinte ao da minha visita, 25 de Setembro, festejava-se na Póvoa o Senhor dos Aflitos. Pois a data não foi esquecida entre os pescadores varzinenses de Lourenço Marques, realizando na traineira “Esperança” um almoço de arromba, precedido de cerimónias religiosas num dos templos da capital.
 
do Boletim Geral das Colónias nº 301 – Vol. XXVI, 1950, pags. 177,178
publicado no Diário do Norte, Porto, por Flávio Gonçalves.
 
As fotos que coloquei a ilustrar foram o primeiro passo para ter chegado a este artigo de Flávio Gonçalves. Curiosamente, estes barcos são da Ilha de Moçambique, muito longe de Maputo, onde este texto se centra. Imediatamente estes barcos revelam o passado poveiro em Moçambique, na forma como alguns deles estão pintados. O nome pintado ao centro de uma larga lista, bordeada por duas linhas finas de outra côr a todo o comprimento do barco, e o restante do barco ainda noutra côr, é tipicamente poveiro, desde pelo menos inícios do séc. XX.
A não ser que poveiros também se tenham fixado na Ilha de Moçambique, que fica a 600 km de Maputo, (o texto de facto inicia-se com “A maioria desses lobos do mar reside e trabalha em Lourenço Marques.”) este modo de decoração poveira denota a profunda influência (e seu modo de pescar) que os poveiros da antiga Lourenço Marques terão deixado na população piscatória nativa.
Sendo as costas de Moçambique influenciadas por comerciantes árabes longo tempo antes da presença portuguesa no séc. XVI, essa vertente está também muito presente na maioria dos barcos moçambicanos de hoje e nas suas velas, puramente latinas, mas repare-se no detalhe da vela da primeira foto... ligeiramente cortada junto da proa. Algo também típico dos barcos poveiros e suas velas de pendão de amurar à proa.
Mais uma vez se comprova que através dos barcos, sua tipologia e características também se chega às andanças dos homens, neste caso nas ex-colónias portuguesas e Brasil, Goa, Angola, etc, têm ainda muito desse passado a navegar.


publicado por cachinare às 21:31
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Domingo, 17 de Novembro de 2019
Aquele Portugal.

 

Na Nazaré e no Portugal da altura, desde tenra idade que se “tratava de vida”, pois a vida não se construía a crédito e era preciso dominar o modo de sobrevivência local o mais cedo possível. Assim se constituíam famílias, se erguiam casas e se tornavam empreendedores.



publicado por cachinare às 18:06
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Sexta-feira, 25 de Outubro de 2019
Arte marítima.

Almada Negreiros-GMAlcantara 8

 As grandes chaminés das motoras de pesca a vapor das primeiras décadas do século XX.

“Gare Marítima de Alcântara, painel” - Almada Negreiros



publicado por cachinare às 22:03
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Quinta-feira, 3 de Outubro de 2019
A preto e branco.

Benção 1938

O ano é 1938 e os navios… lugres bacalhoeiros no rio Tejo a aguardar a partida para a Atlântico norte. Sempre de admirar os detalhes de decoração que todo o tipo de embarcações destes tempos recebia. O cuidado e brio de quem as construía e manobrava, muito diferente dos grosseiros gostos modernos onde praticamente nada se decora.



publicado por cachinare às 12:28
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Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019
Setúbal, nascida do rio e do mar.

 

Este selo comemorativo da cidade de Setúbal, estatuto recebido de D. Pedro V em 1860, inclúi todos os elementos do seu brasão de armas, e nele se denota o papel central do mar na sua existência. É um dos portos de pesca portugueses onde julgo ainda ser possível olhar para o passado, com vários barcos de pesca de pequeno porte e característicos das décadas de 60, 70 e 80. As águas de Setúbal estão pintadas por muitas e vivas cores dos seus barcos, algo que muitos outros portos perderam.


publicado por cachinare às 18:54
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Quarta-feira, 4 de Setembro de 2019
Aquele Portugal.

 

 

«A "seca do peixe" é realizada diariamente por um grupo de peixeiras da Nazaré, num "estindarte" (estendal) localizado na praia, ao Sul. Tradicionalmente, assegurava o sustento das famílias quando o peixe escasseava, mas também permitia conservá-lo para ser vendido nos mercados da região, o que ainda hoje acontece. Antigamente, as peixeiras recorriam a esta prática quando o pescado era em excesso mas, actualmente, realizam-na ao longo de todo o ano, comprando o peixe miúdo directamente na lota ou aos intermediários. Na Nazaré, distinguem-se duas formas de secagem, com preparação e consumo diferente: o peixe seco e o peixe enjoado. Depois de amanhado e salgado, o peixe é “estendido" em paneiros, tabuleiros rectangulares de rede e vigas de madeira, onde permanece cerca de dois a três dias ou apenas três a quatro horas (para o peixe enjoado). As espécies mais utilizadas são o carapau, os batuques ("verdinhos"), a petinga, o cação e ainda o polvo.»

 

via MATRIZNET



publicado por cachinare às 22:14
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Sexta-feira, 21 de Junho de 2019
Arte marítima.

Arthur E. Grimshaw - Hull Docks by Night

O porto de Hull à noite, em Inglaterra.

“Hull Docks by Night” - Arthur E. Grimshaw



publicado por cachinare às 16:36
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