Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2009
Mais um “round” pelo ex-Argus.

 

«Nos meses sombrios do Outono de 1951, as montras dos principais livreiros de Londres e Nova Iorque exibiam um novo livro do mais afamado “escritor marítimo” da época: The Quest of the Schooner Argus (A Campanha do Argus), de Alan Villiers. Através do título, só os leitores mais afeiçoados às relíquias da vela podiam supor que a narrativa fosse dedicada a um navio bacalhoeiro português. Já o subtítulo tornava mais precisos o tema e o género: A Voyage to the Banks and Greenland (Uma Viagem aos Bancos e Gronelândia) e remetia para uma crónica de viagem, um género clássico da literatura marítima universal.
O Argus era um lugre belo e imponente, de quatro mastros, à semelhança dos veleiros que o autor australiano mais apreciava. Navio de casco de aço, provido de motor auxiliar, podia carregar oitocentas toneladas de bacalhau. O novo Argus – porque antes dele outro houvera, que fizera a sua última viagem em 1938, sendo depois convertido no Ana Maria pela firma portuense Veloso, Pinheiro e C.ª Lda. – foi construído na Holanda em 1939 e armado nesse mesmo ano pela Parceria Geral de Pescarias, do Barreiro, propriedade da família Bensaúde.
Ano após ano, o Argus fez-se ao Atlântico para “trazer à pátria o pão dos mares”. Cumpriria a sua derradeira campanha de pesca nos bancos da Terra Nova e da Gronelândia em 1970. Devido à crónica de Alan Villiers, o Argus tornou-se o mais conhecido navio bacalhoeiro português no estrangeiro. Com carinho e retórica, o autor chamava-lhe o “Queen Elisabeth” da frota bacalhoeira portuguesa.
Em 1974, ano em que caiu a ditadura e findou a pesca do bacalhau por “navios de linha”, o Argus foi comprado pela empresa canadiana White Fleet Cruise Ships, que acabou por vendê-lo a uma companhia de “navios históricos” para fins turísticos, com sede em Miami nos E.U.A.. Reconstruído e adaptado a navio de passageiros, passava a chamar-se Polynesia II.»
 
por Álvaro Garrido – Historiador e Director do Museu Marítimo de Ílhavo – Ílhavo, Abril de 2005.
excerto da introdução d´”A Campanha do Argus” – 2ª edição Cavalo de Ferro, 2006.
 
 
Em 1950, nos preparativos para a largada da frota de Belém, escrevia assim Alan Villiers:
 
«Era uma luminosa manhã de Março e o Argus estava ancorado com um grupo de lugres em Belém, nesse ancoradouro ao pé da torre de onde haviam partido tantos navegadores portugueses notáveis. Era um navio lindo, gracioso, de aço, com quatro mastros de linhas gloriosas e belas.
Imponente, de casco firme e aparelho robusto, proa veloz como um veleiro de regatas oceânicas. Aquele belo lugre branco, um bacalhoeiro? Parecia difícil de acreditar. Estava parado com cerca de uma dúzia de navios semelhantes em volta, de três e quatro nastros, alguns de madeira, outros de aço. As colinas verdes de Lisboa formavam um belo pano de fundo para a frota, pousada levemente sobre as águas douradas do Tejo nessa manhã luminosa em que o paquete Andes me trouxe de Inglaterra.»
 
excerto d´”A Campanha do Argus” – 2ª edição Cavalo de Ferro, 2006.
 
As fotos acima apresentadas (da autoria de Tim), mostram o estado actual deste mítico navio em 03.12.2008, apresado em Aruba por dificuldades financeiras do armador. Os leilões repetem-se e o próximo será agora em Janeiro. Segundo o apurado, o montante inicial de licitação são agora de 405.000$ dólares, cerca de 60.000 contos.
As oportunidades como esta irão acabar-se e o fim do ex-Argus adivinha-se ser o desmantelamento.
É história e fama portuguesa em demasia para acabar desmantelada... .
 
Álbum completo do ex-Argus (Polynesia II) em Aruba – 03.12.2008


publicado por cachinare às 19:26
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