Quarta-feira, 4 de Dezembro de 2019
As companhas poveiras de Lourenço Marques - Moçambique.

«A maioria desses lobos do mar reside e trabalha em Lourenço Marques. Durante os breves dias que estive na grandiosa capital de Moçambique procurei, por isso, encontrá-los e trocar com eles algumas impressões.

Na cidade toda a gente conhece a “casa dos poveiros”, à rua Engenheiro Lapa, atrás da Capitania. Os meus conterrâneos são populares e o edifício, por seu turno, é dos mais antigos da povoação. Trata-se duma velha moradia, alta e de paredes caiadas de amarelo, colocada próximo da imponente sede do jornal “Notícias”.
Felizmente que se encontravam em casa bastantes poveiros quando lá fui. Seria meio-dia. No cimo da escada, um pescador fazia a barba ao outro, já idoso. Declarei a minha identidade e o fim ao que vinha – para os cumprimentar e conversarmos um bocado. Logo a “operação” terminou e se aproximaram mais caras sorridentes, que reflectiam almas francas em corpos fortes e rudes.
Cerca duma hora estivemos em alegre convívio, e estes sessenta minutos representam, sem dúvida, um dos mais perduráveis momentos da minha sugestiva excursão.
Vivem em Lourenço Marques perto de 60 pescadores poveiros, distribuídos igualmente por três “companhas”, cada uma com a sua traineira: a “Luz Divina”, a “Esperança” e a “Gabriel Teixeira” (nome do actual e querido Governador Geral da Colónia), de que são os verdadeiros donos, labutam eles quase diáriamente. E após três ou quatro anos de ausência vão até à Póvoa descansar os corpos, ver as famílias, enquanto os navios sofrem as indispensáveis reparações. Por tal motivo, uma companha tinha partido para o Continente havia dias, no “Pátria”. Mas em breve outra chegaria para a substituir.
Remonta a 1921 o ano em que os poveiros começaram a vir pescar para as costas de Lourenço Marques, e alguns lobos do mar desse primeiro grupo ainda por cá mourejam, tendo ido, no entanto, várias ocasiões à terra natal.
Como marítimos, os poveiros gozam na cidade de grande consideração, conforme me disseram várias pessoas. São os únicos pescadores que se atrevem a saír a barra e a colher, no mar alto, o pargo e outros peixes. Depois dos poveiros estão os gregos, os quais porém, nunca se aventuram a ultrapassar a baía.
A sua vida decorre ordinariamente nas traineiras. Quando as demoras em terra têm maior duração, vão até casa, autêntica república democrática, onde não existem distinções e onde, durante um mês, cada um se encarrega, sucessivamente, duma tarefa: este, das compras, aquele, da cozinha, outro, do peixe, etc.. O mestre comanda a faina de bordo e toma a seu cargo as contas. É igual para todos a simplicidade dos quartos, apenas com as camas, as arcas, uma mesa, e mil objectos pendurados nas paredes, de vigas a descoberto. Uns aos outros de ajudam nos seus trabalhos e dificuldades. Segundo contaram, o “Porquinho”, conhecido fígaro do bairro da Lapa da Póvoa de Varzim, pensou um dia em establecer-se em Lourenço Marques, a fim de pôr o seu ofício à disposição dos pescadores residentes na capital. Desistiu, contudo, ao saber que eles estavam habituados a cortar o cabelo e a fazer a barba recíprocamente, conforme, aliás, eu observei!
Perguntei-lhes se não gostariam de ter em Lourenço Marques um bairro só para pescadores da Póvoa, uma vez que eram tantos. Tal oferta já lhes havia sido feita – responderam – com a condição de trazerem as famílias para a África. Mas eles parece preferirem viver sózinhos, em camaradagem. “A vida passa-se quase toda a bordo; não vale a pena”. Além disso “a mulher está velha...” – disseram-me, explicando-se. Os novos, porém, acalentam esse sonho, como depreendi de algumas das suas frases. Seria na verdade interessante e compensadora uma realização desse género.
Para já os meus conterrâneos contam com o carinho do público, que os admira e respeita, e com a gentileza das autoridades da Capitania, muito suas amigas e atenciosas. E a assistência médica, gratuíta, agrada completamente.
Quanto ao amor pela terra-mãe, conserva-se bem vivo nos seus espíritos, o mesmo sucedendo no que respeita às tradições folclóricas da Póvoa. O traje usado na praia de Varzim mantem-se no porto de Lourenço Marques; a mesma camisa axadrezada, o boné de pala e a boina, as calças enfiadas nas botas de borracha ou descidas até aos socos. Nas paredes dos quartos, ao lado de fotografias de entes queridos, vi igualmente gravuras das imagens veneradas na igreja da Lapa. Por coincidência, no dia seguinte ao da minha visita, 25 de Setembro, festejava-se na Póvoa o Senhor dos Aflitos. Pois a data não foi esquecida entre os pescadores varzinenses de Lourenço Marques, realizando na traineira “Esperança” um almoço de arromba, precedido de cerimónias religiosas num dos templos da capital.
 
do Boletim Geral das Colónias nº 301 – Vol. XXVI, 1950, pags. 177,178
publicado no Diário do Norte, Porto, por Flávio Gonçalves.
 
As fotos que coloquei a ilustrar foram o primeiro passo para ter chegado a este artigo de Flávio Gonçalves. Curiosamente, estes barcos são da Ilha de Moçambique, muito longe de Maputo, onde este texto se centra. Imediatamente estes barcos revelam o passado poveiro em Moçambique, na forma como alguns deles estão pintados. O nome pintado ao centro de uma larga lista, bordeada por duas linhas finas de outra côr a todo o comprimento do barco, e o restante do barco ainda noutra côr, é tipicamente poveiro, desde pelo menos inícios do séc. XX.
A não ser que poveiros também se tenham fixado na Ilha de Moçambique, que fica a 600 km de Maputo, (o texto de facto inicia-se com “A maioria desses lobos do mar reside e trabalha em Lourenço Marques.”) este modo de decoração poveira denota a profunda influência (e seu modo de pescar) que os poveiros da antiga Lourenço Marques terão deixado na população piscatória nativa.
Sendo as costas de Moçambique influenciadas por comerciantes árabes longo tempo antes da presença portuguesa no séc. XVI, essa vertente está também muito presente na maioria dos barcos moçambicanos de hoje e nas suas velas, puramente latinas, mas repare-se no detalhe da vela da primeira foto... ligeiramente cortada junto da proa. Algo também típico dos barcos poveiros e suas velas de pendão de amurar à proa.
Mais uma vez se comprova que através dos barcos, sua tipologia e características também se chega às andanças dos homens, neste caso nas ex-colónias portuguesas e Brasil, Goa, Angola, etc, têm ainda muito desse passado a navegar.


publicado por cachinare às 21:31
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