Sábado, 18 de Abril de 2020
Construtores Navais – Aprender com quem faz.

«A construção naval em madeira é, na Celebração da Cultura Costeira (EEAgrants) um tema partilhado por todos os territórios. Sendo um interesse trazido ao projecto pela Associação de Barcos do Norte – cuja problemática é a legislação sobre barcos tradicionais – a inventariação destes conhecimentos tem-se feito nas restantes áreas, porém mais intensamente na deste parceiro e na Cooperativa Porto de Abrigo (Açores).

 

Maria do Céu Baptista e Luís Martins
Coordenação do CCC 
 
O texto que se segue dá luz a uma fracção desta recolha – junto de construtores da ilha de São Miguel e de um mestre dos estaleiros Mónica de Vila do Conde – realçando em simultâneo um simbolismo do nosso programa de formação e estudo: são os protagonistas do património local que têm a voz na divulgação das suas tecnologias. Procuramos desocultar o testemunho silencioso, tal como achamos importante descobrir o ecossistema e a árvore por detrás do barco.
 
DA ÁRVORE E DE TODAS AS PEÇAS SE FAZEM O BARCO E O ARTESÃO
 
Uma árvore como a acácia corta-se ao cair da folha (Outono e Inverno). Na força da rebentação está muito viçosa e a madeira empena. Na secagem deve manter cerca de 15% da humidade, para ter alguma viscosidade. Faces demasiado húmidas quando juntas crespam e apodrecem em poucos meses. É nos solos pobres que aparecem as árvores de madeira mais dura. As que dão a madeira torta para as peças curvas crescem nas escarpas e nos espaços das grotas, enquanto na mata limpa se cortam as de fio direito para as restantes peças.
É costume fazer a analogia entre o barco e o corpo humano (coluna vertebral e vértebras). Talvez por isso se diga que a sua resistência começa na quilha e no cavername. Contudo, Paulino França e António Melo dizem que o importante é o conjunto, da cavilha ao forro, porque o objectivo do calafate é evitar que a água entre no barco – contribuindo para isso as peças todas (enquanto, por exemplo, a do tanoeiro, bem distinta, é impedir a saída do líquido.
Vê-se que a sabedoria popular não se constitui de ideias uniformes. Mas há mestres que são referências locais. Por exemplo, os actuais construtores de Rabo de Peixe (Açores) aprenderam todos com Manuel Cesta. Pai de José Francisco, foi também patrão de Gabriel Costa e José Pimenta, e de um pescador, Leonardo, que constrói e conserta embarcações. O primeiro herdou a oficina. José Pimenta fez em 1991, aos 17 anos, o primeiro barco quando trabalhava nela, e abriu o seu estaleiro em 2004. Gabriel Costa estabeleceu-se nos finais de 1980s, tendo frequentado o de mestre Cesta desde os 16 anos, onde se iniciou em tarefas que eles não queriam fazer, como pegar uma ferramenta, limpar os barcos por dentro, ir buscar uma enxó.
António Costa, carpinteiro dos estaleiros Mónica em Vila do Conde, começou a trabalhar com dez anos e aprendeu metendo-se aos poucos: ajudou numa e noutra acção, e diz que depende de cada um encaixar o que vê e lhe dizem. Fez o primeiro exame aos 18 anos para passar à 4ª categoria, num exame feito por mestres do Sindicato, onde apresentou as ferramentas que comprara para o ofício – formões, serrote, martelo, compasso, sutas e uma enxó – e respondeu à questão sobre como, de um rolo, tirar um tento e fazer a linha para alinhar uma peça para um barco. Visto já riscar cavernas com o filho do patrão, disse que andava a galibar – passar de umas grades para o desenho das cavernas, para depois fazer-se estas – e foi-lhe fácil dar a solução. Ao longo da carreira fez ainda exames até à 1a categoria.
Paulino França começou a trabalhar na construção naval em 1981 em estaleiros de Ponta Delgada. Primeiro na SOFOPEL, mais tarde na NAVEL. Para se entreter fez nessa época um barco no quarto onde morava em Vila Franca do Campo. À luz de um petromax. Foi mediante a declaração de uma destas firmas, dando-o como habilitado, que a Capitania lhe passou a carteira profissional de carpinteiro calafate. Em 2004 ergueu o barracão onde está o estaleiro para nele construir um barco de onze metros e trinta, trabalhando os calafates desse porto até então a céu aberto.
Em São Miguel a palavra estaleiro designa também o conjunto de toros que escoram o barco sob a quilha, chamando-se bancada a cada toro. De lado, à medida que a construção evolui, colocam-se uns puntaletes para as balizas não mexerem. Ao longo do costado e em filas paralelas fixam-se varetas de metal, a fim de desempolar o barco, isto é, para o forro ficar direito. Antes usavam-se fasquias, de pinho resinoso, que aguentavam o sol e não entortavam.
 
INOVAÇÃO, DIVERSIDADE E UNIDADE DA LINGUAGEM
 
Brincando com a filha na banheira onde tomava banho, José Pimenta diz que notou que o barquinho que lhe oferecera no aniversário se reflectia na água. Lembrou-se de encostar uma maquete a um espelho e observou que os pequenos defeitos no semi-casco ficavam mais nítidos. Todos os construtores com quem falámos aplicam esta técnica para verificar as linhas do costado, a curvatura da proa, as linhas de água. António Melo, que a define como um truque para ver os dois lados, já tinha observado o pai a usá-la como carpinteiro de uma empresa de atuneiros.
Todo o conhecimento vem por herança, e é inovado porque se procura. O velho Cesta fazia os barcos a gosto. Quer dizer que não os construía segundo um plano. Falava com os donos e, a partir dos moldes dos já construídos, introduzia as alterações combinadas. Os seus aprendizes assimilaram esta prática de trabalhar madeira, cortar, limpar, planar. O interesse de Gabriel Costa levou-o a observar mestre Aldeia (José Evangelista Aldeia, de Sesimbra), que em Ponta Delgada trabalhava de uma maneira muito diferente. José Evangelista, riscando em estrados, fazia linhas que ele não entendia. Aprendeu assim como é que se risca, como é que se faz. Diz que cada um deles lhe passou metade do que pretendia aprender. O resto descobriu em experiências que foi efectuando. Por sua vez Paulino França e António Melo dizem que a construção começa com o barco em geometria: o seu desenho no estrado, apoiado num cavalete, onde parece que não é o barco, mas é. Daqui passa-se para uma maquete, que consideram o verdadeiro barco, pois qualquer defeito que tenha passa ao ponto superior.
Construída a embarcação, mesmo Gabriel Costa, que não gosta muito do mar, embarca nela para verificar o seu comportamento: como navega e pára, o desempolamento das amuras, se ele se mete muito. Porque as entradas de água é que definem a qualidade da construção: deve levantar-se e ao mesmo tempo entrar na água e lançá-la para os lados. Se assentar ao meio, vai entrar na água da parte de trás e de proa levantada. Assim, em movimento bate como se andasse sobre uma superfície dura. Para evitar essas situações é preciso, diz, saber a prática e a teoria, isto é, o trabalho da madeira e o risco. Em consequência, não reconhece como construtores os profissionais da pesca que se dedicam à construção. Por exemplo, o Leonardo em Rabo de Peixe, antigo artesão no estaleiro de mestre Cesta, que faz e conserta embarcações para os mais chegados, alugando as ferramentas que precisa aos estaleiros em actividade.
Em qualquer caso um barco nasce com quilha, couce, cadaste – que a gente chama pá da luva – painel, roda de proa, contra-roda de proa, onde se vira o tabuado. Relativamente ao continente, diz António Melo que em São Miguel designam a primeira tábua por cinta, e no continente falca. O que nas ilhas chamam tábua do alefriz, no continente chamam resbordo. Às restantes tábuas – da cinta à tábua do alefriz – dá-se o nome de costado. Os outros termos são idênticos. Nas embarcações de boca aberta os dormentes são um reforço da embarcação, onde assentam as bancadas. Nos outros barcos os dormentes mantêm-se como reforço, e o convés assenta em vaus.
Através de entrevistas procuramos dar conta desta unidade e diversidade dos conhecimentos e práticas dos construtores navais. Julgamos que fica evidente a grande riqueza destas pessoas, que se predispõem a falar da sua profissão e de como se formaram no exercício dos trabalhos. Não sabemos se conseguimos dizer muita coisa em pouco espaço. Mas percebe-se por este pequeno exercício a imensa riqueza do saber do artesão naval.»
 
in site oficial Mútua dos Pescadores.
Foto 1 – José Branco Carvalho
Foto 2 – graminho piratealx
Foto 3 – construção de um barco Rabelo - Sinalvideo – A Cidade Surpreendente


publicado por cachinare às 10:44
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