Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2026
Art Stoyles e as “Valsas Portuguesas”.
«O Festival de Música Tradicional da Terra Nova e Labrador não estaria completo sem Art Stoyles. Contudo, para ouvir Art no seu melhor, só mesmo numa festa de cozinha ou numa pequena reunião de amigos. Junto dos seus amigos músicos, Art é capaz de harmonizar, ornamentar e improvisar como ninguém. Os botões da sua concertina magicamente pintam o som com cor.
Art Stoyles nasceu em St. John´s a 7 de Maio de 1942. Cresceu na rua Gower, a 7ª criança de uma família de 8 rapazes e 4 raparigas e ainda vive hoje na casa onde nasceu com dois dos seus irmãos. O seu primeiro instrumento foi uma harmónica, oferecida quando tinha uns três anos pelo irmão Gord. Mas o seu verdadeiro amor sempre foi o acordião, o qual enquanto criança várias vezes pedia emprestado ao seu irmão Melvin. No seu 8º aniversário, a sua mãe deu-lhe o primeiro acordião, um Hohner; não foi preciso muito tempo para que começasse a mostrar o seu prodigioso talento regularmente no coreto do Parque de Bannerman, entretendo as crianças e transeuntes. As primeiras influências de Art incluem música tradicional da Terra Nova e música popular norte-americana, mas principalmente a música que ouviu e aprendeu dos marinheiros da Frota Branca Portuguesa.
Qualquer pessoa de St. John´s acima dos 40 anos é bem familiar à Frota Branca. Até aos inícios dos anos 70, a frota de pesca Portuguesa largava de Portugal anualmente para a estação, ou “campanha”, de pesca nos Grandes Bancos. A frota era conhecida por Frota Branca porque todos os navios eram pintados de branco. Muitos dos pescadores na frota eram excelentes músicos que vinham com os seus instrumentos a terra ou tocavam-nos nos navios atracados ao cais.
Os Portugueses normalmente preferiam o acordião de teclas, um instrumento com maiores possibilidades e versatilidade que o acordião de botões. Ao tentar imitar aqueles acordiões de teclas, art desenvolveu o seu estilo único de tocar e aprendeu muitas das melodias, tais como as “Valsas Portuguesas”, pelas quais é hoje em dia famoso.
Em 1992 Art decidiu que era altura de formar a sua própria banda e assim surgiu a “Bannerman Park Band”. Mais recentemente surgiu a “Art Stoyles Band”.
Art decidira em tenra idade que o acordião seria a sua vida e nunca se desviou disso. A sua paixão é a música, numa pessoa amigável que gosta de se divertir com bons amigos e boa comida. O seu excelente ouvido capturou os sons com os quais ia crescendo em St. John´s e a sua música engloba a magia desta bela cidade cosmopolita.»
adaptado de um artigo de Bob Rutherford.
Foto – Art Stoyles nos anos 70.
Felizmente, Art Stoyles pelo seu gosto e saber é hoje uma das maiores figuras musicais na Terra Nova. O grande papel que as músicas tocadas por alguns dos pescadores do bacalhau Portugueses teve na sua arte, mais uma vez só nos pode deixar orgulhosos desse passado, pois mais este “detalhe” da Epopeia do Bacalhau fica imortalizado e se tornou parte cultural de St. John´s.
“A Reflexão de um Pescador-de-dóri: Vida de um Pescador”
«Fiquei intrigado com o livro de Paul Molyneaux “A Reflexão de um Pescador-de-dóri: Vida de um Pescador”, pois pegou no seu amor de infância pela pesca e transformou-o em profissão como pescador comercial. Nunca esperei aprender tanto através dele sobre a indústria da pesca, o bom e o mau da vida do mar.

Os dois capítulos iniciais do livro descrevem a infância do autor com o seu avô na Pennsylvania até à idade adulta e o desejo de encontrar trabalho fosse onde fosse na indústria da pesca. De seguida apresenta uma análise cuidada do Relatório da Comissão de Stratton de 1969, documento que passou a ser a base de toda a pesca comercial moderna e cuja maior falha era a presunção de que os recursos marinhos eram infinitos. Os resultados disso foram mais devastadores que todo o periodo secular que antecedeu o Relatório, tal como foi descrito numa edição recente da National Geographic: “90% das espécies pelágicas no mundo como o atum, espadarte e tubarões desapareceram: ¾ dos recursos de pesca mundiais estão em colapso ou acabados e derrames de petróleo da dimensão do Exxon Valdez não reportados ocorrem a cada 8 meses. Existem já cerca de 150 zonas mortas de pesca por todo o mundo.
Molyneaux conhece tudo isto e mais. Passou os anos 80 desde o Alaska à Califórnia e Nova Inglaterra atrás de atum, arenque, bacalhau, peixe-espada, etc. Acabaria envolvido num programa do governo de retenção da pesca, passando então à escrita. É evidente ao ler o seu livro, tal como o artigo da National Geographic “Amar as Nossas Costas até à Morte”, que os pescadores que são ouvidos nas reuniões reguladoras são os armadores de grande poder industrial. Os “pescadores de família”, os que vêm de gerações ligadas ao mar, ficam de fora nos debates.
Analisando e descrevendo as dificuldades de famílias de pescadores com leis, regulações e artes, Molyneaux resiste no entanto a pintar o pescador como um santo. Hoje o pescador percebe que pescaram o mais que podiam sem se aperceberem da realidade. No entanto, são os navios-fábrica, os enormes arrastões industriais quem mais se deve culpar pelo estado dos nossos oceanos. É também todo o desperdício de pesca que a acompanhou ao longo das décadas – todo o peixe apanhado que ninguém quer ou não dá lucro em perseguição do peixe de valor, deitado morto ao mar – que hoje nos ensombra. Na opinião do autor, ninguém parece muito preocupado. “E quanto à riqueza do saber dos pequenos barcos e pescadores que está a desaparecer à custa de frotas industriais?”, perguntava Molyneaux a um representante da Conservação das Pescas. A resposta foi, “Isso é substituível com tecnologia moderna!”. Eis a prova de como não se aprendeu com os erros do passado.
Hoje em dia, economistas calculam soluções virando-se para a aquacultura, quando esta vertente se mostra insuficiente e claramente problemática, devido ao excesso de peixes em ambiente fechado e novas doenças sanitárias. A solução passa pela auto-suficiência das comunidades e zonas de pesca, em auto-gestão controlada».
Traduzido da crítica.
“Heróis do Mar – Viagem à Pesca do Bacalhau”.

Jorge Simões, o autor desta obra, nasceu em 1901 e foi repórter do jornal Diário da Manhã em meados dos anos 30. Tendo chegado a diferentes cargos de chefia da redacção durante os anos 50, viria a colaborar com a RTP em programas como “Portugal e o Mar”. Viria a falecer em Angola em 1963.
Relativamente à obra, relata a viagem do autor a bordo de um navio bacalhoeiro português em autêntico trabalho de reportagem, no ano de 1941. No ano seguinte seria publicado em livro em Lisboa com o título “Os Grandes Trabalhadores do Mar – Reportagens nos mares da Terra Nova e Groenlândia”.
Em 2007, a editora Caleidoscópio lançou de novo o livro após 65 anos de interregno, agora sob o título “Heróis do Mar – Viagem à Pesca do Bacalhau”. Aqui fica a sinopse:
«Testemunho real, em discurso directo de Jorge Simões, que conta a primeira viagem à pesca do bacalhau, nos mares da Gronelândia, vivida por um repórter português.
Com uma linguagem elegante, o jornalista do Diário da Manhã descreve as tragédias, as amarguras e o labor dos trabalhadores do mar, no ano de 1941, em plena II Guerra Mundial.»
A introdução da nova edição esteve a cargo de Álvaro Garrido, actual director do Museu Marítimo de Ílhavo e autor de várias obras ligadas a este tema, tão presente e enraizado no passado recente de inúmeras comunidades piscatórias por todo o país.
“Junto dos Prisioneiros do Mar”.


«Não há certamente mais nenhuma região no mundo inteiro que conheça histórias tão lúgubres e tão macabras como a região dos Bancos da Terra Nova.» (p.26)
«A história dos moços, verdadeiros mártires e verdadeiros sofredores de bordo, crianças entre os 13 e os 16 anos, que forçam a cumprir tarefas de uma duração e dureza que a moral condena.» (p.32)
«A história deste pobre moço que o navio-hospital encontrara coberto de chagas, resultantes dos maus tratos, e que viria a falecer pouco tempo depois.»
«As frotas da Terra Nova conhecem ainda as histórias mais lúgubres, as narrativas de dramas da malvadez, da brutalidade, da selvageria e da desumanidade de certos capitães.» (p.35)
«A Grande Pesca ao bacalhau na Terra Nova inicia-se em França nos finais do séc. XV e atinge o seu apogeu no início do séc. XX com perto de 500 navios, escunas e veleiros, que embarcam mais de 10.000 homens.
A vida levada a cabo nos veleiros é de uma extrema dureza e é em 1894 que é fundada a Sociedade das Obras-de-Mar (Societé des Oeuvres de Mer) “para guarnecer os leitos de pesca com socorro material, moral e religioso, aos marinheiros isolados e retidos durante longos meses longe dos seus, entre mares tormentosos.”
O Padre Yvon, fará inúmeras campanhas de pesca durante os anos 30 sobre os Bancos da Terra Nova. Passando de navio em navio, prestará visita a milhares de pescadores e será testemunha ocular do “Inferno sobre o mar”.
Ele narra-nos nesta obra o que viu, entendeu, viveu. O que recita é autêntico e de um imenso realismo. Nenhum outro melhor descreveu a existência “aterrorizada” destes homens aos quais chamou “os forçados do oceano” ou, “os Prisioneiros do Mar”.»
da sinopse da obra “Avec les Bagnards de la Mer” (“Junto dos Prisioneiros do Mar”) – Ancre de Marines Editions
Esta obra foi-me há dias indicada pelo amigo Manfred Stein, autor da página sobre o antigo navio-pesquisa alemão
FRV “Anton Dohrn”, sobre o qual escrevi há alguns meses atrás, navio esse que documentou em fotografia navios bacalhoeiros portugueses nos anos 50. Essas fotos podem ser vistas na página oficial referida.
Não conhecia esta obra do Padre Yvon, membro da Ordem dos Capuchinhos. Pela sinopse e um pequeno excerto traduzido da versão alemã por M. Stein, a vida de muitos destes pescadores foi de enorme sofrimento silencioso, longe de tudo e de todos durante meses nos Bancos.
Ainda hoje, muitos dos ex-pescadores portugueses relatam também situações “complicadas” a bordo de navios bacalhoeiros, mas fico com a sensação de que estes relatos sobre os franceses poderão surpreender os menos conhecedores, uma vez que muitos olham para a frota bacalhoeira portuguesa como a mais díficil quando a comparavam às outras. Não conheço muitos relatos de pescadores portugueses durante os anos 30, sobre a vida a bordo ou agruras de tez “hierárquica”. Seriam alguns capitães desses lugres tão desumanos como os franceses relatados? Talvez sim, talvez não. Há muito ainda a aprender.
Em breve espero poder apresentar um excerto traduzido desta obra do Padre Yvon.
“Ala-Arriba!”.
Já muito se escreveu e falou sobre este filme de Leitão de Barros realizado em 1942. Sem querer ser repetitivo, nunca é demais voltar a escrever algo sobre ele, pois merece-o por variadas razões, a 1ª das quais por retratar a minha terra e sua gente.
Baseado na obra de Santos Graça publicada em 1932, “O Poveiro”, este filme seria o primeiro dos poucos filmes portugueses na categoria de “docuficção”, um documentário dentro da ficção, com raíz etnográfica. Seria também o 2º em todo o mundo nesta área, sendo o 1º a obra de Robert Flaherty “Moana”, de 1926.
Sobre o significado da expressão, tida como exclusivamente poveira, tal prende-se com o puxar dos barcos vindos da faina para cima no areal, trabalho de força levado a cabo por homens, mulheres, crianças e velhos. Tentando chegar à raíz desta expressão, curiosamente, entre 2003 e 2006, trabalhei em Londres, na Inglaterra, e a certa altura um dos meus supervisores no trabalho era natural da Palestina. Sempre que era preciso acelerar um pouco o trabalho, em tom de brincadeira nos dizia em voz alta “Ala-Ala!”. Quando o ouvi pela primeira vez, de imediato pensei para mim: “será coincidência ou tem isto a ver com o Ala-Arriba poveiro?...” e dali para a frente, sempre que ele o repetia, lhe achava graça e me punha a pensar. Ao que alguns etnógrafos do passado escreveram, ao longo da costa Ibérica fixaram-se diversas colónias de povos mediterrânicos (e não só), entre eles os conhecidos Fenícios. A Fenícia era precisamente onde hoje em dia se situa a Palestina e Líbano, povos esses de grande dedicação à vida marítima. Por outro lado a presença moura durante séculos na Iberia poderá estar na origem de parte da expressão, mas tal ficará para outros artigos.
Voltando ao filme, este tornou-se icónico para as gentes poveiras desde que foi realizado, mas também a nível nacional e internacional, encontrando-se relatos dele mesmo na Ìndia ou na Tailândia. Singularidades do filme foram várias, como o facto da maioria dos intervenientes serem reais pescadores e suas famílias, ou do casal principal do filme, o João Moço (Domingos Gonçalves) e a Julha (Elsa Bela-Flôr) serem um casal verdadeiro. Somente 2 actrizes profissionais integraram o filme.


Noutro aspecto relacionado com a Póvoa e suas influências escandinavas, nomeadamente nas suas siglas tão afamadas, regras sociais ou origem dos barcos, desde há anos que gostaria de saber o porquê de um “detalhe” neste filme: a mulher principal no filme (Elsa Bela-Flôr), tem no filme o nome de “Julha Bô”. Só neste filme conheço referência a este apelido “Bô” em gente da Póvoa. Coincidência ou provavelmente não, “Bo” é o diminutivo do antigo termo “bua”, significando “vive / sobrevive” na velha língua Nórdica e com origem na Dinamarca e Suécia. Ainda hoje é comum e usado na Escandinávia. A sua raíz estará eventualmente nas crianças que nasciam com dificuldades, mas com o passar dos dias acabavam por “viver” e daí receberem o nome / apelido “Bo”.
Sendo a imagem de uma comunidade piscatória a mais forte e representativa da Póvoa de Varzim, pelo menos no passado, graças a Leitão de Barros, ficou imortalizado em filme o carisma desta terra e suas gentes. Aqueles tempos e aquela praia dos pescadores desapareceram (talvez) para sempre, mas tive a sorte de ainda brincar naquela areia quando era miúdo.
Quanto àquelas gentes... julgo que resistiram ao tempo e ainda mantêm o mesmo carisma piscatório, mas pouco resiste delas na Póvoa. Encontram-se hoje ligeiramente mais a Sul... na sua maior colónia, as Caxinas e Poça da Barca.
Na 2ª imagem acima está o cartaz de estreia do filme no Teatro São Luiz, a 15 de Setembro de 1942.Felizmente, o filme é de fácil aquisição hoje em dia em DVD e legendado em diferentes línguas.
Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2026
“Mulheres do Mar… Mãos de Sal”.
«Num dia com tanto significado para a classe piscatória da nossa cidade, como é o de 2 de Dezembro de 2007, pois faz 60 anos que nessa trágica madrugada pereceram no mar sob violento vendaval 152 pescadores; será efectuado o lançamento do livro “MULHERES DO MAR…MÃOS DE SAL” da autoria de Delfim Caetano Nora, um Matosinhense que envergou com grande sucesso a camisola do Leça F.C., nas instalações da Associação dos Pescadores Aposentados de Matosinhos (Casa dos Pescadores) pelas 15.00 horas.
Serão homenageados os Homens e as Mulheres do Mar, principalmente estas, na nossa sociedade sempre esquecidas ou relegadas para plano secundário, contudo entre a classe piscatória com grande influência e um papel fundamental.
A mulher do pescador, ou mulher do mar, era uma verdadeira mãe-coragem, pois criava uma ranchada de filhos, era expedita e despachada nos negócios, no governo de casa e da família.
Foi sempre uso e costume do pescador que “a mulher quer-se em terra e o homem no mar”. Daí que mal o barco aproava na praia a mulher tratava de todo o trabalho para além da pesca, descarregava o peixe, encaixotava e transportava-o à lota, vendia-o e por fim dividia os ganhos em partes ou quinhões, dando algum ao seu “home” para extraordinários, para uma “pinga” ou para o “fumo”.
Também fazia parte da sua vida lavar e consertar as redes, trazer as cestas e as roupas da “polé”.
Quando o pescador desejava vestir-se ou calçar-se, ia com a mulher a uma loja comprar pano para um fato, e a mulher acompanhava-o ou até ia só. De qualquer das maneiras era ela quem escolhia e ele aceitava pois se era do agrado dela também era do dele.
Quando era necessário ir a qualquer repartição pública, era a mulher quem expunha as pretensões e razões do marido. Era também a mulher que levava o marido ao médico quando estava doente, e desfiava o rosário de achaques do seu homem.
A mulher do pescador, rude e forte, era muito irrequieta e sempre desbragada na linguagem, e com toda a facilidade provocava conflitos e até chegava a vias de facto.
Contudo, verificamos que ao longo do tempo sempre tiveram um papel fundamental na vida do casal apesar de uma vida muito dura, pelo que aqui queremos deixar bem marcado que é mais do que justa a homenagem que o NAPESMAT lhes vai prestar com o lançamento do livro “…MULHERES DO MAR… MÃOS DE SAL”.»
Eng.º Rocha dos Santos
fotos – jornal MARÉ – NAPESMAT.
“Culturas Marítimas em Portugal”.
«Apresenta-se neste livro um conjunto de textos assinados por antropólogos e historiadores empenhados na investigação em torno das culturas marítimas e dos diversos temas e problemáticas que elas suscitam. Dividindo-se entre os textos de características mais teóricas e problematizantes e os de cunho mais marcadamente etnográfico e historiográfico, o presente volume testemunha não só os percursos e interesses de pesquisa dos seus autores como, também, a urgência de produzir conhecimentos que possam vir a constituir instrumentos de trabalho útil para todos os investigadores da área das Ciências Sociais e Humanas interessados na especificidade marítima do território, nos seus usos, e nas populações e modos de vida que lhe estão associados.»
«Francisco Oneto Nunes (Lisboa, 1960), licenciou-se em Antropologia Social no ISCTE e exerce, desde 1997, cargo docente no departamento de Antropologia deste mesmo instituto, onde criou recentemente uma cadeira de Antropologia Marítima. Iniciou o seu percurso de pesquisa no âmbito de um protocolo entre o Centro de Estudos de Antropologia Social do ISCTE, de que é investigador, e a Junta de Freguesia de Vieira de Leiria, localidade onde realizou a maior parte do seu trabalho etnográfico. Posteriormente, integrou a equipa que, a partir do Museu Nacional de Etnologia, produziu a pesquisa conducente à exposição sobre o fado no âmbito da iniciativa “Lisboa 94, capital europeia da cultura” e, beneficiando de uma bolsa da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, centrou a sua investigação na arte xávega – a principal modalidade haliêutica do litoral central português – sobre a qual veio a apresentar em 2006 a sua tese de doutoramento, argumentando em torno da inserção social do aleatório e sua relação com as práticas escópicas suscitadas pelas ocupações marítimas.»
“A Arte Xávega na Praia da Vieira”.

«Este livro de Francisco Oneto Nunes é como que um voo de baixa altitude sobre a Praia da Vieira, que nos possibilita ver, simultaneamente, detalhes e momentos pretéritos (as fotografias que os fixaram) e o seu enquadramento num todo maior (os textos que agora as situam). Isto, através duma janela temporal que à cronologia e à sucessão dos factos sobrepõe a percepção do devir da arte xávega.
Em 1993, Francisco Oneto Nunes publicava uma extensa monografia de Vieira de Leiria (Vieira de Leiria, a História, o Trabalho, a Cultura). A praia não era o seu objecto central, no entanto a arte xávega e as suas gentes assumiam posições que, no texto, denunciavam o interesse do autor agora evidenciado neste volume de grande beleza estética e síntese rigorosa.
O autor sugere quatro momentos para uma leitura histórica da Praia da Vieira e da arte: “Antecedentes”, a colonização dos areais da praia que não terá começado muito antes dos finais do século XVIII (pp. 19-35); “O Tempo dos Senhorios”, a lógica capitalista que concentrava a propriedade das companhas nas mãos de alguns senhorios e reproduzia a pobreza (pp. 36-53); “O Tempo das Sociedades”, o corporativismo do Estado Novo e a distribuição do risco económico por um colectivo de sócios (pp. 54-153); “O Tempo da Resistência”, a progressiva desintegração das grandes companhas e a persistência de alguns homens no uso da arte (pp. 154-163).
As fotografias de Vergílio Guerra Pedrosa, advogado, pedagogo e fotógrafo amador vieirense nascido em 1895, ilustram o tempo dos senhorios que o autor situa, sensivelmente, no período que se estende de 1880 a 1940. Nesta época, à semelhança de outras povoações piscatórias, a Praia da Vieira vê o seu contingente crescer rapidamente graças aos movimentos migratórios dos mais pobres que fugiam de lugares onde não tinham nem habitação nem trabalho para outros onde a posse da terra era desconhecida ou incerta e a exploração dos recursos era livre, i.e. os areais e o mar, respectivamente. Contudo, é também neste período que se dá “(…) o apogeu do capitalismo na indústria da pesca e a concomitante proletarização da população vieirense. (...) [Desenhando-se], assim, os contornos dos insidiosos mecanismos produtores de pobreza que estão na origem da criação de um verdadeiro exército de reserva capaz de encher os bolsos a alguns particulares temporariamente bem sucedidos (…) e pagar impostos ao Estado (…)” (p. 38).

Dora Landau, professora de língua e literatura alemãs nascida em Viena em 1898 e refugiada em Portugal a partir de 1934, fixou os momentos que nos permitem visualizar o tempo das sociedades. São fotografias de inegável beleza estética e valor etnográfico que contribuem para o conhecimento de “(…) uma nova fase ao nível da organização do trabalho [arte xávega], no que se afigura como um notável testemunho sociológico da plasticidade adaptativa das companhas de pesca e das relações laborais que as constituem (…)” (p. 58), bem como doutras actividades de que se ocupavam as gentes da praia. São fotografias que nos mostram também as duas últimas grandes companhas da praia, a alvorada do turismo e a ocupação gradual das dunas com construções mais resistentes às condições naturais adversas que há muito se procuravam controlar (cf. pp. 20-35). As fotografias de Dora Landau constituem o núcleo do conjunto reunido por Francisco O. Nunes. Parafraseando o autor do texto, são testemunho “(…) [dum] modo de vida moldado pelo mar, pelas dunas e pelos pinhais (…)” (p. 12).
O tempo da resistência é ilustrado com fotografias do próprio Francisco O. Nunes, de Ana Cláudia Filipe e do Arquivo da Câmara Municipal da Marinha Grande. Falam-nos de um tempo contemporâneo (a partir de 1980), para o qual concorrem, simultaneamente, directivas estatais que dificultam enormemente a pesca artesanal, a escassez de peixe e onde “(…) pequenos barquitos das companhas da Praia da Vieira, com uma tripulação de apenas três homens, teimam ainda em enfrentar as ondas e, assim, safra após safra, vão resistindo à morte anunciada da arte xávega, mantendo viva nesta terra uma tradição haliêutica com cerca de dois séculos” (p. 159). Afinal, e ainda nas palavras de Francisco O. Nunes, “(…) a atracção e o fascínio pelo mar e pela pesca ultrapassam largamente a esfera das necessidades básicas da sobrevivência, ainda que nelas mergulhem dura e dolorosamente as suas raízes” (p. 16).
O uso da fotografia em ciências sociais traz consigo questões que, não sendo objecto procurado por Francisco Oneto para este seu livro, merecem aqui alguma reflexão. Assim, se podemos reconhecer validade histórica, etnográfica, documental e até estética às fotos seleccionadas para esta obra, não podemos deixar de questionar os atributos para essa mesma validação e/ou, por outro lado e porventura, encontrar outros textos que contribuam para este mesmo objectivo.

A já referida monografia de Francisco Oneto sobre Vieira de Leiria (cap. VI, em particular) será o texto escrito no qual podemos encontrar outras “legendas” para os i nstantâneos do livro em recensão. Legendas essas que contribuem significativamente para uma reconsideração do uso da fotografia enquanto documento cultural. É bom recordar que esta última obra de Francisco Oneto, em jeito de álbum fotográfico, é rara na antropologia portuguesa. Ao olhar do fotógrafo — que cristaliza, objectifica e isola um momento; ao olhar do leitor — que centrado no momento “esquece” a vastidão daquilo ficou fora do enquadramento, justapõe-se um outro texto que, simultaneamente, amplia e abre o que o fotógrafo quis retratar. (…)
Contudo, na leitura de um livro como este carregado de fotografias sobre um tempo passado, a fruição estética e até o espanto parecem sobrepor-se a qualquer outra tentativa de abordagem. Não somente por causa da eventual qualidade técnica e estética das fotografias, mas também como resultado da inevitável comparação entre o como imaginamos ou conhecemos a ocupação daquele espaço hoje e o como ele (a)parece ocupado tão diferentemente nas fotografias. Se o preto e branco das mesmas contribui para esta comparação (outro elemento que podemos acrescentar à classificação de S. Pink, a técnica aplicada na fotografia), muito do que nelas figura — a indumentária dos sujeitos retratados, as casas, as ruas, etc. — remete-nos imediatamente para um outro tempo. Tempo esse que parece ser, afinal, o objecto deste livro de Francisco Oneto. As fotografias de Dora Landau, Vergílio G. Pedroso e outros parecem ser mais o motivo desta obra do que o seu objecto. Afinal, o subtítulo da obra é “História e Imagens…”.»
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Miranda do Douro – 2004
O Carocho e os Amigos.
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"O Carocho e os Amigos" é um pequeno filme colocado na internet, da autoria de Lino Cabral, filmado no Encontro de Embarcações Tradicionais em Lanhelas, V.N. de Cerveira, durante o Verão deste ano.
O filme está muito bem realizado e é possível notar as excelentes condições aquáticas para a prática de vela tradicional nessa zona. É fantástico ver um colorido catraio do Tejo a navegar no rio Minho, bem como a altiva vela da catraia "Santa Maria dos Anjos", de Esposende ou a minha conterrânea "Briosa" de Vila do Conde.
O carocho é o barco anfitrião da região, e daí o título do trabalho. O valor e simplicidade de navegar à vela, durante os tempos livres, num barco tradicional português começa a despontar no Norte do país e trabalhos como este ajudam imenso a divulgá-los.
Precisamos de muitos destes.
Pescadores da Nazaré mostrados ao mundo.
Há algum tempo, num comentário de Ricardo Silva, que agradeço, fiquei a saber da existência de um pequeno filme sobre a actual faina dos pescadores da Nazaré, realizado por Cristiana Miranda, especialmente para a cantora Dido, que muitos conhecerão. A música chama-se “The Day Before the Day” (O Dia Antes do Dia) e reporta ao seu último álbum de 2008. Provavelmente este vídeo fartou-se de passar nos media em Portugal e eu fui o último a descobrir, mas mais vale tarde que nunca e cá está ele.
Curiosamente surge nele em rápida passagem um barco de pesca, o “Armindo Manuel”, registado em Vila do Conde, cujos donos vivem 4 casas abaixo da minha, na Poça da Barca.
Com o reconhecimento mundial desta cantora, a comunidade dos valentes pescadores da Nazaré volta a mostrar-se ao mundo, quando já o fora revelada por várias vezes nas várias décadas passadas por fotógrafos, realizadores, artistas plásticos, sociólogos, etc. Infelizmente, são valores nacionais e do passado, em vários aspectos, para os quais se olha hoje com menos olhos de ver.
Para ver o vídeo, basta “clicar” na imagem.
Quarta-feira, 5 de Março de 2025
“Marinha Portuguesa – Nove Séculos de História”.
«A cerimónia de lançamento do livro “Marinha Portuguesa – Nove Séculos de História”, da autoria do Comandante José António Rodrigues Pereira, realizou-se no dia 27 de Outubro, pelas 19h00, no Pavilhão das Galeotas, no Museu de Marinha. Nesta cerimónia estiveram presentes o Presidente da Comissão de Defesa Nacional, Dr. José Luís Arnaut, o Secretário de Estado da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar, Dr. Marcos Perestrello e o Chefe do Estado-Maior da Armada, Almirante Fernando Melo Gomes.
Esta obra é o culminar de um processo de investigação iniciado pelo Comandante Rodrigues Pereira sobre a História da Marinha ao longo de nove séculos. Neste livro reúnem-se, pela primeira vez, os acontecimentos mais importantes da nossa história marítima e o que representam para Portugal.
Como refere o autor: “Hoje, como antes, o Mar permanece como elemento fundamental para o futuro do País. Assim foi no Século XX com a criação da ZEE, assim será no Século XXI com a concretização do projecto de alargamento da plataforma continental, sempre com a Marinha na nobre missão de garantir aos portugueses o uso do seu mar.
A História da Marinha é uma História de Portugal vista do mar porque não é possível dissociar o Mar dos acontecimentos fundamentais da História do país.”
O Comandante Rodrigues Pereira entrou para a Escola Naval a 01 de Setembro de 1966 e especializou-se em electrotecnia em 1971-72, durante o seu percurso na Marinha prestou serviço em diversas unidades navais e em terra. Passou à reserva por limite de idade em 2005 e desde 07 de Fevereiro de 2006 é Director do Museu de Marinha.»
via Marinha.pt
Terça-feira, 30 de Janeiro de 2024
"Nos Mares da Terra Nova - A Saga dos Bacalhoeiros".

«Decorria o ano de 1948 e Anselmo Vieira, que neste livro adopta o nome Telmo, via nesta viagem a oportunidade única para sentir na pele as emoções descritas nas leituras de juventude e adquirir experiência em águas longínquas. Passados 62 anos, os seis meses partilhados com 34 tripulantes, entre os quais o lobo do mar Capitão Vitorino e 27 pescadores de hábitos rudes, mas de coração ingénuo, transformaram-se num romance repleto de momentos inesquecíveis, reconstruídos com recurso a uma narrativa poética e descritiva, mas que vai além dos pormenores. Os amantes da literatura de viagens vão ficar presos a esta narrativa, como se também eles tivessem de enfrentar o frio e o nevoeiro ou a “força da natureza marinha”.»
por Fátima Lopes Cardoso
Sinopse
«Este livro reconstitui sob a forma de romance a última viagem bem-sucedida do bacalhoeiro “Júlia IV”, que o autor acompanhou pessoalmente, em 1948. A frota portuguesa era a única que ainda comparecia nos mares do Árctico com veleiros quase medievais, entre as frotas mecanizadas de espanhóis, franceses e russos. Narrada como um diário de bordo, a obra caracteriza magnificamente esta actividade. Nos Mares da Terra Nova é também um documento de inestimável valor histórico.»
«Anselmo Vieira nasceu em 1923 na cidade de Lourenço o Marques, em Moçambique, oriundo de uma família com raízes em três continentes Europa, Índia e África.
Atraído pela aventura do mar e das viagens formou-se como Oficial de Navegação pela Escola Náutica de Lisboa, tendo percorrido cerca de quarenta anos da sua existência na marinha mercante e vinte anos pelos caminhos da naturologia e biofísica medica, geobiologia, psicologia existencial e estudo paranormal das manifestações que, por vezes tanto afectam a saúde e o espírito do Homem.
No ano de 1949 publicou nas páginas do jornal "0 Primeiro de Janeiro", da cidade do Porto, a primeira e única serie de narrativas vividas por um tripulante sobre a vida de um lúgubre bacalhoeiro, o “Júlia IV”, numa viagem de meio ano nos mares da Terra Nova. Colaborador viajante do outrora conhecido "Diário de Noticias" de Moçambique, escreveu durante anos sobre impressões de viagens, gentes e filosofia existencial. O Humanismo esteve sempre presente na sua maneira de estar na Vida.
Frequentou o núcleo de arte da sua cidade natal como aluno do escultor Silva Pinto e um curso livre na Sociedade das Belas Artes de Lisboa. Dedicou-se ao desenho à ponta de pena e à pintura expressionista a óleo como um olhar sobre a vida e as pessoas, atribuindo grande importância à expressão corporal como reveladora das emoções e dos estados de alma em suas representações plásticas. Exposição colectiva de pintura em Joanesburgo antes do evento Abrilino de 1974, na Metrópole. Depois da independência da Republica Popular de Moçambique tomou parte numa exposição colectiva representativa dos artistas de todos os países africanos, organizada oficialmente na Nigéria. Regressou a Portugal em 1977, onde expõe pela primeira vez na galeria do Auditório do Instituto Nacional da Habitação de Lisboa, em 22 de Junho de 2005.»
in brochura da exposição "um olhar sobre a vida" de Anselmo Vieira - 5 a 16 de Dezembro de 2005 no Edificio Central do Município no Centro de Documentação/1º Piso Campo Grande, 25
Quarta-feira, 5 de Agosto de 2020
O Naufrágio do Salsinha - 15-11-1907.
«A morte é, infelizmente, às vezes, a senhora dos navegantes. Dos homens, diz-se que "há os vivos, os mortos, e os que andam no Mar". Se este dito popular for verdadeiro (e é...), difícil deve ser andar lá no Mar, alguma vez, muito tempo, em longas viagens (de que se espera voltar um dia), mas certamente muito mais difícil - mais heróico, mais duro, mais sobre-humano (quotidianamente heróico, duro e sobre-humano...) - deve ser andar lá sempre, dia após dia, todos os dias, durante a vida inteira. Cada dia, no intervalo das noites dormidas na praia, onde sempre ecoa, noite após noite, todas as noites, "a voz imensa, o lamento eterno...". Viver, assim, é viver quotidianamente, dia após dia, entre o Mar e a vida.
Os pescadores do litoral português são os verdadeiros "heróis do mar" num país que, infelizmente, sempre mais e mais os foi esquecendo e desprezando, e sempre mais e mais os foi abandonando (na maior provação e pobreza), ao mesmo tempo que, nesse mesmo país, sempre mais e mais foram sendo oficiadas as bizantinas e académicas liturgias de "comemoração dos Descobrimentos" e de glorificação das míticas "grandezas imperiais do Passado" (grandezas que, na verdade, nunca existiram). Um país pobre (em que os pescadores sempre foram os mais pobres dos pobres) cujas elites sempre dissiparam improdutivamente a riqueza em celebrações sumptuários e em retóricas bizantinas, e que, por isso mesmo, continuou tão pobre como sempre.
Um país em que, infelizmente, tudo o que autenticamente tem a ver com o Mar e com a Herança Marítima - e aí incluem-se sobretudo os barcos e os homens (a arquitectura naval tradicional e a experiência humana acumulada) - sempre foi sendo cada vez mais e mais abandonado, e assim votado à decadência, à extinção, à miséria e à emigração. E, no entanto, seria tão importante (e tão interessante) estudá-lo... desde Viana à Nazaré, desde Vila do Conde a Peniche, desde o Furadouro a Lavos, desde o Porto a Aveiro, desde Buarcos à Vieira, etc...
Devemos neste momento saudar a publicação de um novo livro - e, agora, um livro especialmente dedicado às matérias da História Marítima local - saído da pena do excelente investigador, competente, probo e honesto, que é Hermínio de Freitas Nunes. Esta é uma obra que, tal como as anteriores do mesmo Autor, fala por si mesma. Aqui fica agora bem patente uma rigorosa utilização da terminologia técnica adequada, um seguro domínio das fontes históricas, quer arquivísticas, quer narrativas, quer jornalísticas (fontes trabalhosamente compulsadas, seriadas e analisadas), bem como uma brilhante capacidade de síntese histórica (síntese breve, concisa, cronológica, compreensiva e problematizada). Neste mundo, as boas obras, na sua (aparente) simplicidade, falam sempre por si mesmas (e o inverso também é verdade). Muito além, e acima, de todos os pedantismos pseudo-intelectuais e de todos os folclores que aspirem ao academismo (e para isso usem palavras caras e conceitos abstractos).
Tomaram muitos centros de investigação académicos e universitários - e sobretudo no estado em que em Portugal infelizmente se encontram hoje em dia tantos Centros e Universidades... - contar entre os seus membros do corpo de docentes ou de investigadores alguém como o Autor deste livro... o mesmo Autor, de resto, que já antes havia produzido tantos e tão bons estudos de História Local, História Económica Social, História das Ideias e Mentalidades acerca das regiões de Leiria e da Marinha Grande (acerca do seu património industrial e cultural, dos seus movimentos operários, das suas igrejas, etc.).
Especialistas e eruditos locais como Hermínio de Freitas Nunes, mais do que como discentes, são sobretudo necessários, como docentes ou investigadores, em quaisquer escolas que de facto queiram sair de si próprias e ser capazes de estudar algo mais do que o seu próprio umbigo (e é também isso que distingue as escolas).
Que pode haver, de resto, mais interessante do que a história de homens verdadeiros - homens corajosos - que é a história dos pescadores...?
Esta é uma investigação original, de arquivo, dedicada ao levantamento e publicação da documentação referente ao maior de todos os naufrágios da Praia da Vieira: o trágico episódio de 1907 que deixou no desamparo dezenas de famílias dos mais pobres pescadores locais. Agora, o Autor deste livro reuniu, e incluiu no seu anexo documental, a documentação apropriada, nomeadamente a correspondência e as contas, quer das receitas obtidas pela comissão presidida pelo diligente padre José Ferreira de Lacerda, quer das despesas efectuadas pelo mesmo pároco da Vieira que se notabilizou no esforço para ajudar as famílias dos náufragos. E esta parece ser, também, infelizmente, uma história muito portuguesa, quando se conclui que uma parte do subsídio enviado pelo governo de então parece nunca ter chegado a ser efectivamente entregue à comissão de socorro às famílias. E, quanto ao valor angariado pelo sarau de gala de solidariedade que também foi promovido, constata-se que quase metade de tal valor serviu para pagar as respectivas despesas de tal gala, incluindo comidas e garrafas de vinho fino.
Hermínio de Freitas Nunes quis agora dedicar as páginas deste seu livro àqueles que verdadeiramente as mereciam: os pobres mas valentes pescadores da Vieira, que a fome obrigou a ir ao mar em pleno Novembro, no dia 15 desse mês de Inverno...
Este livro é uma lição de História: por isso é tão inspirador, e tão emocionante. Fazemos votos de que a sua leitura, para os futuros leitores, seja tão motivadora quanto o foi agora para o signatário deste prefácio (o qual, de resto, desde há muito quer andar cada vez mais distante da História oficial e dos respectivos historiadores, e próximo dos pescadores).
É para isto que, na verdade, deve servir a História autêntica. Por isso, é não só um prazer, mas também uma honra, prefaciar uma obra como esta.
Hermínio de Freitas Nunes é um verdadeiro historiador que, agora, para além do estudo da tragédia de 1907, nos dá também o levantamento e a publicação dos documentos anteriores do Arquivo Distrital de Leiria e da Capitania da Nazaré referentes às companhas, aos barcos e aos pescadores da Vieira, com a reconstituição de tais companhas e dos homens que as integravam. A partir de agora, já lhes sabemos os nomes e a cor dos olhos. Ficámos, para sempre, a conhecer os barcos e os homens da Vieira ao longo do século XIX, desde as suas mais antigas referências.

Há alguns meses, durante as VI Jornadas Culturais da Gandara, na Praia de Mira, em Março de 2008 (onde a comunicação apresentada por Hermínio de Freitas Nunes já constituiu uma versão preliminar deste estudo, e foi uma das comunicações mais valiosas e apreciadas), o signatário deste prefácio, na sua própria comunicação, havia reiterado a sua expressão de que o Barco do Mar do litoral centro de Portugal é "o mais belo barco do Mundo"... (e, na mesma ocasião, o nosso Amigo Professor Fernando Alonso Romero, o druida da memória da Galiza, pela sua parte, chamou-lhe "a embarcação mais interessante da Europa"). Não são excessivas essas apreciações quando aplicados ao também chamado Saveiro, Varino, Barco da Arte, ou "Meia-Lua", do Furadouro à Torreira, da Vagueira a Mira, de Lavos à Vieira. Agora, o competente investigador e erudito local que é o nosso Amigo Hermínio de Freitas Nunes adopta essa nossa designação de "o mais belo barco do Mundo", nesta obra em que deixa para o Futuro uma investigação histórica criteriosa e um estudo fundamental, no que diz respeito à Praia da Vieira e aos litorais de Leiria, desse belo barco e dos homens corajosos que outrora o tripularam.
Esses homens do século XIX e dos inícios do século XX morreram (como todos os homens vão morrer um dia), e as suas casas e os seus barcos apodreceram ou arderam (como tudo vai apodrecer ou arder um dia). Mas lá continua, ao som da voz imensa, o barco descendente dos seus barcos... tripulado pelos descendentes desses mesmos homens...
Um historiador, agora - passados hoje cento e um anos... -, ajudou a que tudo isso sobreviva para o Futuro. É para isto que serve a História.»
Alfredo Pinheiro Marques
Director do Centro de Estudos do Mar - CEMAR
15 de Novembro de 2008
«Na sexta-feira do dia 15 de Novembro de 1907, a embarcação conhecida como “Salsinha”, da companha de Manuel da Silva Sapateiro, virou-se ao ser varrido por uma onda quando tentava sair do mar, provocando a morte de 13 pescadores e ferindo cerca de uma dezena.
A descrição do acidente marítimo é relatada por Francisco Oneto Nunes, na obra “Vieira de Leiria – A História, O Trabalho, A Cultura”, que lembra as palavras do escritor vieirense António Vitorino sobre o assunto. É referida a tensão “quando os homens dentro do barco se apercebem de que estão à beira do desastre, sempre seguidos na sua angústia por aqueles outros que estão em terra sem lhes poderem acudir”.
Enquanto uns caíram ao mar com o impulso da onda e nadaram, outros ficaram presos no barco abalroado e morreram, fazendo com que este trágico acidente fosse perpetuado, pelos piores motivos, na memória da população de Vieira de Leiria.
Os funerais foram impressionantes manifestações de dor, as fábricas pararam, o comércio fechou e Vieira de Leiria tornou-se pequena para acolher todos quantos quiseram marcar presença nas cerimónias.
As 13 vítimas mortais do naufrágio foram:
António Mouco Letra Novo - 26 anos
António Rego - 33 anos
Epifânio Tomás - 60 anos
Joaquim Xarana - 37 anos
José Bonifácio - 20 anos
José da Silva Alfaiate - 46 anos
José Mouco - 36 anos
José Pinheiro - 55 anos
José Tocha – 25 anos
Luís Bonifácio - 60 anos
Manuel Botas Pedrosa - 25 anos
Manuel Rego - 19 anos
Reinaldo Lobo - 26 anos .»
Como comentário, pego no pequeno parágrafo do prefácio: “Fazemos votos de que a sua leitura, para os futuros leitores, seja tão motivadora quanto o foi agora para o signatário deste prefácio (o qual, de resto, desde há muito quer andar cada vez mais distante da História oficial e dos respectivos historiadores, e próximo dos pescadores).”
Ao que parece, o Sr. Alfredo Pinheiro Marques viu há muito o que os “simples” pescadores e a sua cultura podem também ensinar à “modernidade intelectual”. Mas eu sou suspeito para elevar o valor do universo dos pescadores... pois sou filho..., neto..., bisneto... .
Segunda-feira, 20 de Maio de 2019
Apresentações.
Sábado, 20 de Abril de 2019
“Senhor Deus dos Desgraçados”.
«Marco Lourenço filmou a “grande história trágico-marítima” Todas as terras de pescadores têm as suas tristes histórias de naufrágios, de vidas a lamentar, levadas pelo mar cruel e ingrato que lhes põe o pão na mesa, francisco adrmas nenhuma provocou tantas lágrimas como a da madrugada de 2 de Dezembro de 1947.
Nessa noite, quatro traineiras e cento e cinquenta e dois homens desapareceram ao largo de Matosinhos, havendo apenas seis sobreviventes, que, quase por milagre, escaparam à fúria das ondas dessa madrugada de temporal.
Os gritos ouviam-se na praia, mas as pessoas sentiam-se impotentes para ajudar aqueles que gritavam por socorro. Para além disso, um dos aspectos mais trágicos do naufrágio prende-se com o facto de muitos pescadores terem dado à costa ainda com vida, mas há testemunhos que afirmam que a polícia Marítima, com medo do contrabando, disparou tiros para o ar, afastando, assim, quem na praia tentava socorrer os pescadores.
As vítimas eram oriundas não só de Matosinhos, como também de Espinho, Ovar, Póvoa de Varzim, Mira, Setúbal, o que fez com estas terras piscatórias ficassem unidas para sempre, marcadas pelo mesmo sentimento de dor e de perda.
Este foi o mote para Marcos Lourenço realizar um documentário intitulado “Senhor Deus dos Desgraçados”. Na verdade, este licenciado em Cinema, pela Escola Superior Artística do Porto, cresceu ouvindo esta história, quando a data do naufrágio se aproximava.
O avô de Marcos Lourenço, família de pescadores, esteve ligado a este drama e, talvez, as razões afectivas tenham levado à realização do documentário, que é também uma forma de não deixar cair no esquecimento a tragédia que destruiu as traineiras D. Manuel, Rosa Faustino, as únicas onde houve sobreviventes, Maria Miguel e S. Salvador.
No início, o trabalho, feito no âmbito da Faculdade, apenas iria abordar uma perspectiva mais restrita, mas à medida que a investigação aumentava e o estudo ia ganhando forma, o realizador percebeu que não seria ”só um trabalho para a Faculdade”, mas passou a ser “um trabalho para servir a cidade”, até porque “Matosinhos não deve esquecer os seus verdadeiros heróis”.
Por ter ficado impressionado com esta tragédia , que deixou centenas de casas sem pão e provocou dezenas de órfãos, o autor gostaria de divulgar o documentário para, deste modo, dar a conhecer Matosinhos, terra que vivia exclusivamente do mar. “Quem nasce pescador, morre pescador”, por isso, por mais arriscada que seja esta profissão, não é possível para um pescador abandoná-la.
Para poder recolher mais informação, Marcos Lourenço procurou “as pessoas certas”, tendo ficado a saber que, nessa noite, quatro traineiras, apesar dos avisos, se fizeram ao mar e regressavam carregadas de sardinhas, quando o temporal arruinou o sonho de mais de uma centena de homens. Parece até que o número de vítimas não será certo, pois a bordo poderiam estar também várias crianças.
Durante a pesquisa que efectuou, o realizador foi confrontado com versões por vezes contraditórias, o que torna o trabalho, por vezes, mais difícil. Dos seis sobreviventes do naufrágio, José Pereira Dias “Canário”, José Ruela, António Dias “Cantora”, Manuel Maria “Acabou”, José Pinho Rebeca, José Pinheiro, dois ainda estão vivos.
José Pinheiro, que só tinha 19 anos na altura do acidente, é uma das testemunhas vivas, que se salvou depois de ter estado três horas dentro de água, agarrado ao colete, e que contou ao realizador vários pormenores importantes para a compreensão dos acontecimentos que antecederam o naufrágio: a viagem até à Figueira da Foz, a chegada a Aveiro, o aumento do vento, a entrada na barra de Matosinhos, o afundar dos barcos, a aflição dos homens e da população.
Maria Emília, 89 anos, viúva de um pescador, contou a Marcos Lourenço que o seu marido estava doente na altura, mas que mesmo assim teve de ir trabalhar, o que atesta bem das condições de vida dos pescadores. Manuel Cheta, pescador à época no barco Nossa Senhora das Neves, também prestou o seu depoimento ao realizador, contribuindo para que a visão dos factos seja mais completa e viva.
Este naufrágio teve um impacto mundial, tendo chegado a vir subsídios dos EUA, para além dos atribuídos pela Sociedade Mútua de Seguros do Grémio dos Armadores da Pesca da Sardinha, no valor de 221$85.
Para poder efectuar este documentário, Marcos Lourenço procurou dados durante um ano, mas como contou ao MH “ainda na semana passada descobri um sobrevivente, numa associação de pescadores. Desconhecia esse facto”.
Quanto aos apoios, o autor diz que a autarquia facultou imagens de arquivo e que no próximo dia 2 de Dezembro, o documentário será projectado na Casa dos Pescadores, tendo sido muito bem recebido por Delfim Nora, no entanto, o desejo de Marcos Lourenço é que o filme seja exibido no Salão Nobre da Câmara.
Marcos Lourenço considera que “os novos matosinhenses recusam o estatuto de terra de pescadores” e o seu desejo é lutar contra isso. “Se existem heróis estão em Matosinhos”, e este trabalho pode ser um contributo fundamental para dar a conhecer esses homens.
“Era uma vida muito dura, a vida do mar”, recorda este neto de pescadores que não quer que a memória do seu avó e dos outros homens do mar se apague dos matosinhenses.
Passados sessenta anos, Marcos Lourenço sente que “tinha obrigação de fazer isto por eles e não por mim. A história é deles. O documentário está muito humano” Na verdade, o autor não quer que as vítimas sejam esquecidas e quer que a vida dos pescadores seja sempre admirada e respeitada. O filme será uma maneira de “prolongar a memória da geração que viveu a tragédia”, acredita o cineasta.»
Foi através do jornal mensal MARÉ que descobri a existência deste filme e tenho tentado obtê-lo faz já algum tempo. No entanto a partir do estrangeiro onde me encontro não tem sido fácil obter o filme.
Tal como o Marcos Lourenço, fazemos parte da 1ª geração que deixou a vida do mar profissionalmente, na sua maioria, mas a obrigação de registar e dar mérito às nossas gerações passadas é fulcral. Só há que agradecer ao realizador por ter levado parte da sua obrigação a bom porto. Cabe-nos a muitos de nós continuar a desenvolver esta mesma obrigação.
Terça-feira, 22 de Maio de 2018
"Por Entre as Brumas de Newfoundland".

«Numa demanda por dar um rumo à sua vida e marcado pela memória do avô António que pescara bacalhau à linha num dóri, nos Grandes Bancos da Terra Nova e da Gronelândia, Vasco decide viajar até à cidade de St. John's, Newfoundland. Nas águas canadianas, o avô vivera a traumática experiência de se perder no nevoeiro. Uma carta de um pescador, nunca lida até ser encontrada, mais de quarenta anos depois de ter sido escrita, levanta questões a que Vasco quer dar resposta, na tentativa de colmatar um elo quebrado da história. Um romance que pretende ser uma homenagem a todos aqueles que viveram as duríssimas campanhas da pesca do bacalhau, bem como um tributo à arte da pesca solitária nos dóris e à Frota Branca portuguesa.»
Este é mais um reflexo da emotiva epopeia da pesca do bacalhau levada a cabo pelos pescadores de Portugal, retratada no formato de romance e que nunca é demais ser explorada no papel que teve tanto para portugueses como para estrangeiros, nomeadamente as gentes de São João da Terranova.
Esta belíssima obra de Fernando Teixeira mostra-nos uma das fotos mais emblemáticas de Alan Villiers na capa, o lugre "Aviz" cerca de 1950, em "descanso" no nevoeiro do Atlântico Norte.
É um livro que pode ser adquirido em formato digital ou impresso, através do respectivo website: https://fernandojteixeira.wixsite.com/website-2